“AS REDES TRISTES DE MEU PAI”
Para meu pai e para o pai de Cícero César, onde ele estiver.
Erivelto Reis
Cada distância
Ensina um sentimento
Que transcende o momento do efêmero.
Sempre lembro, com a reverência,
Daqueles que experimentaram
O destino que é de todos
E que sei: aguarda-me.
Quisera voltar no tempo,
A tempo de conhecer-te.
Quisera merecer
Tua lembrança, tua caneta,
As redes tristes com que
Embalavas a criança
Que jamais fui...
Há um silêncio ressentido entre nós,
Um chão que se abriu em cratera,
Um terremoto de emoções não vividas...
Há vida enquanto se espera a vida?
Ou um hibernar profundo
De sentir em todo mundo...
Quanta lava, quanto lodo,
Quanto limo, quanto mofo...
Nos livros não lidos,
Nos abraços negados,
Nos morcegos da memória no forro.
A letra que brotou de tuas mãos,
O afago que morreu sem ter sido dado,
Explicam meu semblante,
Minha expressão de espanto:
As cartas que vasculho,
Que ora produzem doutores,
Ora horrores, ora escombro! –
Véspera adiada de entulho.
Embala a rede, meu pai...
No teu mais longínquo sorriso,
Ao perceber que eu caminhara
Sobre meus próprios tropeços.
Gostavas de ser como eu era
Gostaria de ser quem tu foste.
Nenhum de nós negava,
Nenhum de nós sabia:
O mundo acabava às seis
E já passava do meio dia.
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