Declaração de Miranda para o Professor Público Precarizado
Erivelto Reis
Declaração de Miranda para o Professor Público Precarizado
Erivelto Reis
Hipocrisol
Erivelto Reis
É pior do que terçol
É pior que não ter sol...
Uma injustiça programada
Uma sacaneada em doses,
Uma puxada de tapete
Administrada em drágeas.
Com o patrocínio de hipocrisol
O sujeito que não se sujeita
Vai ficando mais comprimido.
Hipocrisol
Disfarça incompetência
Serve como laxante
Para as cagadas constantes.
Hipocrisol:
Não é cura, faz ferida
Ele é a doença.
Hipocrisol
É bem mais comum do que se pensa...
Hispocrisol
É pior do que terçol
Enxaguante de besteirol
Blá, blá, blá violento
Funciona como um unguento
Que deixa em carne viva...
Inibidor de apetite
Gatilho para gastrite...
Um monte de gente
Com discurso combinadinho
Tomando hipocrisol no copinho
Como whey de proteína...
E ainda há quem acredite.
Hipocrisol não é colírio
Tem venda sem prescrição
Amostra grátis o tempo todo
Servindo de explicação.
Hipocrisol
É pior do que terçol.
Hipocrisol
Adstringente da razão
Abafador de clima
Para impedir que os de baixo
Critiquem os que estão em cima.
Hipocrisol
É placebo!
Mas tem gente que acredita.
Anamnese
O chão da escola
Erivelto Reis
Há uma poça de lama no chão da escola
No bairro da escola, na rua da escola
Há uma poça de lágrima
Que escorre no chão da escola
Há uma poça de suor e sangue
No chão da escola
Um livro uma professora um servente
Desprezados no chão da escola
Só os discursos sobre o chão da escola
Parecem edificantes
Ficções para principiantes
Um chão por onde já poucos caminham
Do qual muitos se desviam...
Uma trincheira – última linha antes da barbárie
A chave do cofre está nas mãos
Dos que ainda resistem no chão da escola
Depois, arrombada e saqueada,
Privatizada a educação
– o per capta do governo
Pago aos abutres e lemans que estiverem em cena
Vai se maior que o pib das grandes potências
E a escola vai ter franquias e filiais como bobs e habibs
E vai vender minguados créditos aos filhos dos
trabalhadores
como quem carrega um pré-pago, um oi ou um tim talvez,
claro...
Pra o aluno pobre matriculado aprender quanto puder
No tempo que lhe for destinado.
Ou haverá plataformas e aplicativos com algoritmos viciados
Como uma bet pra perder o futuro de vez.
Uma fábrica de operários mudos e obedientes
E mal remunerados.
Há muito lodo no chão da escola
Um escândalo que, se revelado,
Faria ver a todos o quanto de posse há sobre o chão da
escola
De concreto só os decretos e os pontos estratégicos
Dos prédios que interessam aos investidores
E o que eles significam em lucro, propaganda e controle.
Um chão de deixar doente, um chão úmido,
Do qual já não parecem germinar as boas sementes.
Há um chão da escola, viciado em desmantelar gente.
Há um chão da escola diferente...
Há um caixão da escola!
Há ainda alguns poucos indignados...
Resistindo, lutando... re-velando.
E um montão de gente indiferente.
Onde é que fica o chão da escola?
Ötzi, o Homem degelo
Erivelto Reis
Os cientistas
descobriram que Ötzi viveu há mais de cinco mil anos. O corpo, extremamente
preservado, foi encontrado em 1991. Estava congelado nos Alpes, virou uma
celebridade da pré-história, mas não foi essa a causa-mortis. A autópsia
moderna — sempre muito eficiente em analisar o defunto depois de milênios —
descobriu uma ponta de flecha cravada em seu ombro esquerdo. A flechada
perfurou uma artéria e Ötzi sangrou até morrer no gelo. Até hoje, contudo, a
história preserva um grande mistério: ninguém sabe quem, afinal, disparou
aquela flecha fatal contra o coitado.
No caso do
magistério, porém, o mistério cai por terra. Não há segredo sobre a identidade
dos arqueiros.
A começar pelo
próprio nome do nosso personagem. Tomemos como exemplo o fictício personagem Sebastião
— ou, como o chamam nas atas e nos corredores com um misto de respeito e
comiseração, o Professor. O nome não é mera coincidência mitológica: tal
qual o mártir católico, o professor passa a vida servindo de alvo. Sebastião
não começou congelado, nem flechado. Há vinte e cinco anos, quando entrou pela
primeira vez em uma sala de aula carregando apenas um pacote de giz, uma
garrafa térmica e uma fé inabalável na educação, ele era puro fogo. Vontade de
mudar o mundo, chamas de entusiasmo pedagógico.
Mas o
cotidiano da educação tem uma física própria: ele não queima, ele descongela ao
contrário. O ambiente vai esfriando o sujeito até transformá-lo em uma estátua
preservada no tempo. Sem vida. Mas a aparência é de alguém que talvez esteja
ali. Sebastião virou Homem degelo,
do verbo degelar: um ser que passou a vida inteira derretendo aos
poucos, pingando a própria energia no piso de granilite da escola, até que só
sobrou a carcaça petrificada um fóssil a ser banido da sala dos professores,
banido dos arredores da escola.
A questão do
Sebastião — e de tantos outros Ötzis de jaleco — é que a morte do professor
nunca vem de uma vez só. É um esporte de tiro ao alvo praticado em marcha
lenta.
A primeira
flechada vem no primeiro quinquênio: o salário que desidrata. A segunda vem na
reunião de pais: a autoridade pedagógica que se esfarela. As seguintes vêm em
rajada: cortes de verba, violência, desvalorização e o eterno mandato de
"fazer milagres com o nada". Na pré-história, Ötzi tomou apenas uma
flechada certeira no ombro e morreu rápido. Sortudo o Ötzi. O professor
Sebastião passa décadas sangrando profissionalmente.
Torna-se, por
fim, o bom professor morto em vida. Um zumbi inofensivo, incapaz de comover até
o aluno mais indisciplinado, perambulando pelos corredores sem ter sequer um
céu pedagógico para onde ir.
O destino dos
maus professores, contudo, às vezes é muito mais próspero. Esses — os
professores-capatazes — não se deixam congelar. Em um ato de autodefesa,
implodem a própria carreira docente para renascer nos estofados de alguma
secretaria de educação ou no refúgio de uma sala burocrática. Por trás de uma
mesa, armados apenas com uma cadeira giratória e um carimbo, ganham subitamente
o poder da iluminação: desorientados incumbidos de orientar e descoordenados
com a missão de coordenar. Gente com um currículo que parece um bilhete e a
experiência de uma casca de noz, detonando a cooperação e anulando as possibilidades
de debate em torno da educação com estudiosos, pesquisadores com formação
continuada. O concurso é a porta de entrada e o sujeito pensando que é o Olimpo.
“Como seria bom se a escola fosse um programa
de auditório. Passa ou repassa” ... Vai saber.
Afinal, a
engrenagem não exige exatamente uma competência técnica oriunda de formação de
carreira; raramente um bom professor se transforma em um bom diretor, até
porque a política de educação pautada em hipocrisia, achismos, amadorismo,
demagogia e quetais parece exigir pactos contraditórios aos princípios reais do
magistério.
É aqui que a
ironia atinge o seu ápice. Num passe de mágica institucional: aqueles mesmos
que dispararam as flechas contra um São Sebastião, uma vez empossados, vivem a
hipocrisia de uma falsa conversão. Antes, jogando pelas próprias regras,
flanando num sistema sem controle real, escrevendo narrativas através de
planilhas irreproduzíveis. Agora, praticam a microgestão seletiva com altivez
dos anjos. Como quem de repente descobre a fé na gestão, o antigo arqueiro
veste a túnica de autoridade e opera o milagre da amnésia conveniente.
Convencido de que nunca mais precisará da trincheira, o algoz de ontem passa a
ditar a oração de hoje. Alçado ao pedestal da coordenação, sente-se no direito
sagrado de inquirir, questionar e determinar o fazer alheio, regrando com mão
de ferro a própria convivência que ele ajudou a envenenar. Conta, para isso,
com a subserviência resignada de quem continua servindo de alvo, esquecendo-se
de que a maquiagem da conversão não apaga o sangue que ficou no arco.
Mais
recentemente, essa mesma burocracia inventou a sua mais refinada arte magia: a
gestão de alunos por osmose. A receita é simples: arrocha-se o professor
moribundo no patamar da cobrança extrema: “PAD, PAD, PAD...”, como um mantra
que ecoa aqui e ali, à boca pequena... como uma ameaça, como uma mordaça... enquanto
muitos dos alunos continuam fazendo exatamente o que sempre fizeram — nada. Enquanto
os muitos governos e secretarias de educação seguem fazendo o que sempre
fizeram: nada! E ainda tem o familiar que vai à escola pra fazer a matrícula
como quem faz uma promessa que só pretende cumprir se a graça for alcançada.
Raros não. Mas é um tal de praguejar contra os santos. Santos mesmo são só os
alecrins. “Mas essa escola!”, “Mas esse professor!”, “Mas essas más companhias!”
Enquanto isso,
na “sala de justiça”: Intersetorialidade? Pra quê? Questionar os reais
responsáveis pelo problema? De jeito nenhum. O burocrata prefere alvejar o
colega com a imposição, o retrabalho, a glamorização da precarização e da exploração
do trabalho e da apropriação indevida do produto e das ações e produtos intelectuais
desenvolvidos pelo bom professor. Por fim: a sentença: “é difícil”, “se acha”, “se
fosse bom tava na universidade”, “são ordens da coordenadoria”. Vejam: Uma
empresa fornecedora ter o pagamento atrasado? Deus o livre. Mas que mal há em
precarizar e explorar os recursos do docente? Ele já está ali pra isso mesmo...
Para resolver
o abismo pedagógico, aplica-se a solução cartorial perfeita: fazem os
estudantes assinarem "termos de compromisso" que todos sabem que
jamais serão cumpridos. Enquanto o professor não tem de seu nem o direito à
tranquilidade e a se sentir acolhido e seguro no ambiente em que trabalha. Tem de
trabalhar pra trabalhar, registrar que trabalhou, enfrentar quem não quer que
ele trabalhe, não reclamar do que falta para que seu trabalho aconteça e por
fim, ser confrontado porque trabalhou da forma que trabalhou sendo que isso
demonstra que outros não trabalham, não trabalharam, não sabem trabalhar ou
nunca trabalharão. Ou que se há muitas formas
de se trabalhar, isso dará mais trabalho pra quem coordena ou dirige. Mas que
nada! Quanto os que não acolhem se doem quando são tratados apenas polidamente.
Se forem questionados, então...
Mas isso não
importa. O ensino pode ser uma ficção e o professor pode estar sangrando até a
morte, desde que, dentro da pasta do processo, os formulários estejam
impecavelmente preenchidos. O professor é, nesse cenário, definitivamente, o
homem degelo.
Lembrando com carinho do seu José de Arimatéa, meu pai
Gosto de me lembrar de algumas coisas sobre o meu pai. Gosto
de me lembrar de que ele não se acovardava diante das injustiças; reagia, sim —
com palavras e ações. Gosto de me lembrar do dia em que ele me ensinou a
enfrentar o bullying na escola, numa época em que esse nome nem existia no
espaço social do mundo que eu conhecia.
Gosto de me lembrar de que ele adorava música. Especialmente
daquelas cujas letras eram mais uma crônica de acontecimentos e emoções do que
metafóricas. Gosto de me lembrar de que ele era um comunicador nato, um
contador de histórias com carisma para encantar a audiência. Gosto de me
lembrar e sou grato pela maneira como ele recebeu minha companheira de vida em
nossa família e de como entendeu rapidamente que, a partir daquele encontro, eu
estava construindo ao lado dela uma nova família. E de como era gentil com ela.
Gosto de me lembrar de quando ele me deu uma máquina de
escrever, entendendo o meu fascínio pela leitura e pela escrita ainda na minha
infância. De quando me deu discos que me acompanham até hoje, deixando,
inclusive, de comprar para si, em certa ocasião, um disco que aguardava
ansiosamente para investir todo o lucro de uma semana de trabalho na compra do
objeto da minha fascinação musical.
Gosto de me lembrar de que, na véspera de Natal do ano de
1981, ele só voltou para casa tarde da noite, exausto, mas trazendo modestos e
maravilhosos presentes para mim e para meus irmãos.
Gosto de me lembrar de sua fibra moral e sua resiliência
quando foi demitido e despejado em 1988 e teve que recomeçar; e de seu
sangue-frio ao sofrer um revés terrível de violência e intimidação que teria
mudado ainda mais drasticamente a história de nossa família naquele 25 de
outubro de 1991.
Gosto de me lembrar de como ele era caprichoso com sua moto
e seu carro, a ponto de fazer a manutenção com as habilidades de um mecânico ou
de um profissional de estética automotiva. Gosto de me lembrar do seu zelo com
o acervo de ferramentas. Do seu hábito curioso de preservar mesmo um
despretensioso parafuso ou uma conexão hidráulica para uma eventualidade de
reparo. Gosto de me lembrar do seu princípio inegociável de economizar fazendo
ele mesmo as tarefas que fossem aparecendo.
Gosto de me lembrar do seu empreendedorismo. Do seu amor ao
lugar onde trabalhou até se aposentar e das pessoas que daquele espaço faziam
parte — especialmente os alunos, as alunas e suas famílias, que ano após ano o
homenageavam. E não seria exagero dizer que, sob muitos aspectos, ainda hoje
seu nome é uma referência ou lembrança agradável.
Gosto de me lembrar do seu costume de almoçar sentado ao rés
do chão nas tardes de domingo, preferencialmente na varanda ou na sala de casa.
De sua paixão pelo futebol, que jogava com alguma habilidade e muita
disposição.
Gosto de me lembrar de quando, no seu jeito simples, ele me
ensinava lições valiosas, alertando-me para a insensibilidade e as injustiças
dos mais abastados que escolhem explorar a mão de obra dos trabalhadores, e
para que eu reconhecesse as qualidades de quem, mesmo tendo muito, era humilde
e gentil ao tratar os mais pobres e os que lhes prestavam serviços. Gosto de
ter aprendido com ele que a dignidade de um trabalhador é inegociável e que o
suor que escorre de seu rosto, fruto do seu trabalho, é tão valioso quanto o
sangue que corre em suas veias.
Gosto de me lembrar de quando, no ano de 1983, ele me disse
claramente, enquanto cortávamos a grama na casa de uma família de gente rica:
“Meu filho, estude sempre para que um dia você não apenas tenha uma condição de
vida como a dessas pessoas, mas para que você não seja ignorado e desprezado
por gente com o padrão de vida que elas têm."
Gosto de me lembrar de que ele, diante de uma dor terrível
como a da perda de sua mãe, manteve-se firme e prosperou no caminho do bem que
ela lhe indicara. Gosto de lembrar que ele era carinhoso, mas também
temperamental. Amável, mas, às vezes, instável. Gosto de me lembrar de que
amava os netos. Que foi padrinho de minha filha mais velha e que, assim como
fez comigo e meus irmãos, várias vezes jogou bola comigo e meus filhos aqui no
quintal de casa.
Gosto de me lembrar dele com as qualidades e defeitos que
tinha, e sinto muita saudade. Uma saudade agradecida por tudo o que ele fez,
pelos caminhos que indicou e que ajudou a abrir. Eu sabia que ele andava pelos
lugares me elogiando para as pessoas, falando bem de mim por conta da
literatura, da minha trajetória acadêmica e de eu ter me tornado um professor —
que era uma das profissões que ele mais admirava. E guardo com carinho a
memória dos muitos elogios que ele me fez.
Gosto de me lembrar de quando, aos sábados, ele vinha direto da entrega dos queijos que revendia, feita na sua CG 125, ou das entregas e fretes que fazia na sua Pampa (e, depois de algum tempo, na sua Montana) e parava aqui em casa para me ajudar com as tarefas de manutenção do sítio. E às, vezes, sinto ainda hoje enquanto trabalho, decorridos quase nove anos de sua partida, que ele pode chegar a qualquer momento outra vez.
Gosto de me lembrar de que o tempo em que estivemos juntos
foi, para nós dois, sempre de aprendizados. Gosto de me lembrar do dia em que
ele me contou que só me conheceu quando eu já estava com três dias de nascido,
lá na cidade de Rio Verde, Goiás, porque ele estava trabalhando num silo de
armazenamento e distribuição de sacas de arroz em uma cidade distante. Nós
estávamos jogando sinuca quando ele me contou essa história. Ele adorava vir
aqui em casa nos domingos à tarde ou nas noites de sábado. Gosto de me lembrar
que ele comprava pen-drives e pedia pra eu fazer playlists especiais ao gosto
dele e dos filmes de faroeste que ele assistia um milhão de vezes. Gosto de me
lembrar que ele foi um pai parceiro na minha vida de muitos desafios e que ele
próprio teve que se reinventar muitas vezes para lidar com tudo que fez parte
de sua trajetória.
Gosto de me lembrar do meu pai. Mesmo quando machuca a
saudade dele.
Ultima
Erivelto Reis
A humanidade é a única espécie
Capaz de filmar a própria ruína
Com celulares de última geração.
Daí, vai lá e filma.
Ultima.