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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Crônica: "Continuo amanhã... Continuo amanhã?!", de Erivelto Reis

 Continuo amanhã... Continuo amanhã?!

Erivelto Reis

 

O ambiente de uma sala de aula na escola pública brasileira é, por excelência, um território de contrastes e de disputas invisíveis. De um lado, quadros negros descascados, salários defasados e a exaustão crônica de profissionais que, contra todas as estatísticas, ainda insistem na transformação pelo conhecimento. Do outro, uma juventude que, por vezes, confunde a rebeldia legítima contra o sistema com o puro e simples desrespeito individual.

É sob essa ótica que se destaca uma das figuras mais emblemáticas do cotidiano escolar: o aluno que escolhe a apatia ou o deboche como refúgio.

Não se trata aqui do estudante que dorme por trabalhar na madrugada para sustentar a casa, cuja exaustão é um sintoma da desigualdade social. A crítica cabe àquele que, por puro desinteresse, faz da carteira um leito de hotel, ignorando o esforço de quem está de pé na frente da sala. Dormir sob o teto da escola pública, quando se tem a chance de aprender, é o primeiro passo para a autossabotagem consciente.

Ainda pior é o espetáculo do cinismo. Quando o professor tenta desfazer o nó de uma equação complexa ou explicar as nuances da história do país, surgem as risadinhas abafadas no fundo da sala, as piadas fora de hora e o olhar de desdém. O deboche virou a moeda de troca para o pertencimento social dos fracos. Para não parecer "careta" ou "cdf" diante do grupo, o estudante prefere ironizar a única ferramenta capaz de tirá-lo da margem: a educação.

"Rir de um professor que tenta ensinar é, no fundo, rir da própria falta de perspectiva."

Existe uma profunda miopia na atitude do aluno que hostiliza o docente. Ele acredita, em sua ilusão de rebeldia, que está desafiando a autoridade, o "sistema" ou o Estado. Mas a realidade é cruelmente oposta: O aluno sabota o próprio futuro. Ao esvaziar a aula com piadas e ironias, o estudante não está punindo o professor ou o governo; está punindo a si mesmo e aos colegas que queriam aprender. Está perpetuando o ciclo de exclusão que alguns professores e função primordial da escola pública justamente tentam quebrar.

O deboche em sala de aula é o triunfo da ignorância que se orgulha de si mesma. É a validação do preconceito de quem está no topo da pirâmide social e aponta para a escola pública dizendo que ela "não funciona". Quando o aluno desvaloriza o professor, ele assina embaixo do discurso daqueles que querem ver a educação pública sucateada.

A escola pública não é um parque de diversões, tampouco um espaço de entretenimento onde o professor atua como animador de palco para prender a atenção de plateias mimadas. Ela é um direito conquistado a duras penas, mantido pelos impostos do próprio povo.

O riso cínico que ecoa no fundo da sala não é sinal de inteligência, malícia ou superioridade; é o eco de uma trágica falta de visão. Enquanto o aluno brinca de ser rebelde sabotando a própria aula, o mundo lá fora não espera. A vida cobra o preço do conteúdo ignorado, e o mercado de trabalho não costuma achar graça nenhuma do deboche. É hora de acordar da letargia — e guardar o riso para quando a vitória for real.

Há tragédias silenciosas que não chegam às manchetes dos jornais, mas que sangram, dia após dia, no chão batido das salas de aula. Nenhuma delas, contudo, é tão visceral, tão terrivelmente cruel, quanto o espetáculo da autossabotagem planejada.

Assistir a um filho da classe trabalhadora — herdeiro do suor, dos calos e da exaustão de pais que vendem a própria força de trabalho para garantir o pão — decidir, por livre e espontânea vontade, que o conhecimento não lhe serve, é ver o futuro ser assassinado na nossa frente.

É uma dor que aperta o peito de quem observa, porque cada bocejo forçado, cada riso de deboche e cada "não quero saber" ressoa como um tapa na face de uma mãe que acordou às quatro da manhã, ou de um pai que carrega o peso do mundo nas costas para que o filho tenha o direito de segurar uma caneta, e não uma enxada ou uma britadeira.

Mas a crueldade atinge o seu ápice dramático quando essa renúncia ao saber se veste de falsa injustiça. O estudante que escolhe o abismo não assume o peso da própria queda. Em vez disso, constrói uma narrativa perversa, uma cortina de fumaça covarde, e aponta o dedo para a única pessoa que estendeu a mão: o professor.

Com uma retórica vazia, o jovem tenta convencer o mundo — e a si mesmo — de que sua ignorância é culpa alheia:

· "O professor é chato."

· "A matéria não serve para nada."

· "A didática dele não bate com a minha energia."

· "Ele pegou no meu pé."

Transforma-se o mestre em carrasco e o omisso em vítima. É uma inversão de valores de um cinismo devastador. Culpa-se a personalidade do docente para mascarar a própria preguiça; condena-se a rigidez da disciplina para justificar a falta de caráter e de brio. O professor, que muitas vezes gasta a voz e a saúde mental tentando resgatar aquela mente da vala da mediocridade, é sacrificado no altar do orgulho juvenil.

É de uma ironia trágica, quase teatral. Enquanto o filho do burguês, nas escolas particulares de elite, é treinado sob rédeas curtas para liderar, para dominar a ciência, a linguagem e a tecnologia, o filho do trabalhador, na escola pública, escolhe o deboche. Ele acha "bonito" ser o rebelde sem causa que sabota a aula. Ele se orgulha de dar as costas para o quadro-negro.

O que ele não consegue enxergar, em sua miopia soberba, é que o sistema comemora o seu silêncio. Cada vez que um aluno rejeita o conhecimento e culpa o professor, os arquitetos da desigualdade sorriem. O jovem está cumprindo exatamente o roteiro que os opressores escreveram para ele: o roteiro da subalternidade eterna.

Quando o filho do trabalhador se recusa a aprender, ele não está punindo o Estado, ele não está se vingando do professor "chato". Ele está assinando a sua própria sentença de subemprego. Está decretando que o sacrifício de seus pais foi em vão.

Não se pode romantizar a atitude do estudante que se recusa a saber. Há apenas o triste espetáculo de uma mente que escolheu se algemar. Culpar o professor pela própria ignorância é o último refúgio de quem não tem a coragem de olhar no espelho e admitir que é o único responsável pelo próprio fracasso.

A vida real, implacável e desprovida de qualquer compaixão, não aceitará essas desculpas. Quando as portas se fecharem e o peso da sobrevivência esmagar os ombros desse jovem, de nada adiantará qualquer pretensa justificativa. A ignorância terá cobrado o seu preço mais alto, e o eco daquelas risadas de deboche na sala de aula se transformará, inevitavelmente, no lamento tardio de quem teve a chance de se libertar e preferiu a servidão voluntária.

E aqui reside o refinamento mais cruel dessa engrenagem: não importa a excelência do mestre. Pode ser o professor mais preparado, aquele que respira a docência, que chega à sala com o olhar brilhando, munido de uma gentileza inabalável e disposto ao diálogo mais franco. Pode ser o profissional que passa noites em claro selecionando conteúdos, preparando materiais dinâmicos e que, não raramente, tira do próprio bolso o dinheiro que falta ao Estado para oferecer aos alunos uma experiência diferenciada, um lampejo de dignidade pedagógica. Pode ser a figura mais compreensiva, parceira e acolhedora do mundo.

Nada disso basta. Porque quando o estudante decide fincar os pés na rejeição, todo esse banquete de dedicação é desperdiçado

Quando o aluno sela o pacto com a própria ignorância, ele transforma a sala de aula em uma arena de combate psicológico. O limite entre o desprezo silencioso e a ironia do deboche é cruzado diariamente. Não se trata apenas de não querer aprender; trata-se de destruir a autoridade de quem ensina.

O estudante estabelece uma queda de braço perversa: recusa-se a realizar as atividades mais corriqueiras, nega-se a abrir o caderno e chega ao extremo de recusar um cumprimento formal no início da aula. A educação deixa de ser um processo intelectual e passa a ser um teste de poder.

Para mascarar o seu vazio, esse jovem aciona uma máquina de difamação:

·         A culpabilização: Avalia o professor negativamente de forma deliberada, distorcendo critérios para punir quem o cobra.

·         A mentira sistemática: Inventa narrativas, distorce fatos e mente abertamente sobre a conduta do docente para a coordenação ou para os pais, tentando transformar sua própria indisciplina em um "problema relacional".

·         O tribunal da incompetência: Tenta convencer os pares de que o erro está na postura do professor, invertendo os papéis de agressor e vítima.

Essa dinâmica contínua produz um rastro de destruição humana. Esse comportamento adoece. Ele mina a autoconfiança de profissionais experientes, injeta a paralisante substância da insegurança na mente de quem estudou anos para estar ali e descredibiliza o saber diante de toda a turma.

Sob essa pressão, a docência é violentada, empurrada para se tornar um rebaixado concurso de popularidade. O professor é coagido a ser um "animador de torcida" ou, pior, a aceitar um conchavo humilhante: um pacto de mediocridade onde o aluno finge que aprende e o professor finge que não vê ou torna-se conivente com o caos para preservar o que lhe resta de sanidade mental. A escola pública, que deveria ser o berço da emancipação, é transformada em um cativeiro psicológico para quem ousa tentar ensinar.

O que esse estudante pratica não é uma travessura juvenil; é um processo de violência multifacetada e avassaladora:

  • Simbólica e Intelectual: Ao ridicularizar o conhecimento, o aluno apaga o valor da ciência, da história e da cultura, decretando que o saber não vale nada.
  • Emocional e Psicológica: O massacre diário de olhar para rostos cínicos, de ouvir risadinhas sussurradas e de enfrentar a rejeição deliberada destrói a saúde mental do docente, gerando crises de ansiedade, depressão e a síndrome de Burnout.
  • Física: A barreira entre a violência psicológica e a agressão física é tênue. O tensionamento constante do ambiente escolar quebra o pacto de paz e, em muitos casos, descamba para a intimidação física direta e ameaças reais à integridade do trabalhador da educação.

Para agravar essa tragédia institucional, o professor agredido frequentemente descobre que a solidão da docência é alimentada pela traição corporativa: há colegas de profissão que, longe de defenderem a dignidade do cargo, não apenas compactuam silenciosamente com essas práticas antipedagógicas, mas se associam ativamente a elas. Essa cumplicidade opera em múltiplos níveis, manifestando-se desde a dissimulação covarde — como o silêncio obsequioso nos conselhos de classe e o endosso velado às reclamações infundadas dos estudantes — até a participação explícita na desestruturação da imagem do colega, validando o deboche dos alunos para angariar uma popularidade barata ou alimentar rivalidades internas. Ao relativizarem a barbárie e justificarem o injustificável sob o pretexto de uma falsa "empatia juvenil", esses profissionais tornam-se engrenagens fundamentais no aviltamento de seus pares, legitimando a violência psicológica e carimbando, de dentro da própria categoria, o atestado de falência da autoridade docente.

Ver o filho do trabalhador usar o seu tempo para linchar psicologicamente o professor que tenta salvá-lo da engrenagem da exclusão é um soco no estômago da sociedade. É a barbárie instalada na antessala do futuro. Quando a escola pública aceita que o deboche e a mentira vençam o acolhimento e a competência, ela deixa de ser um templo de luz para se tornar o cenário de uma das maiores crueldades sociais do nosso tempo.

Em meio a esse deserto de afetos e respeito, seria injusto não reconhecer o oásis: existem, sim, aqueles alunos maravilhosos que justificam a nossa permanência no chão da escola. Estudantes que carregam no olhar o brilho da curiosidade e para quem é uma verdadeira honra lecionar. Eles se tornam quase parceiros no cotidiano da sala de aula; trazem consigo um bom humor contagiante, uma lealdade firme, ética, comprometimento, inteligência e uma sensibilidade rara. O problema é que, a cada ano que passa, encontrar essas mentes luminosas tornou-se uma raridade estatística. Uma turma inteira composta por eles? Um sonho quase utópico.

No entanto, o que dilacera o peito do educador não é apenas a escassez desses jovens, mas a estarrecedora descoberta de que, em certas situações, essa "turma dos sonhos" existe, mas escolhe a exclusão deliberada. Dói profundamente perceber que um grupo de alunos, dotado de pleno discernimento, firma um pacto velado de silêncio e distância na sua aula. Sabe-se lá por qual motivo ou justificativa torpe, eles decidem, coletivamente, que você não merece o melhor deles.

É uma punição covarde que se renova a cada toque do sinal, aplicada contra o professor por crime ou erro nenhum. Negam qualquer possibilidade de aproximação humana ou pedagógica. Esse isolamento muitas vezes se alimenta das sombras mais mesquinhas: do etarismo que desvaloriza a experiência, de preconceitos de qualquer natureza, do "ouvir dizer" alimentado por fofocas de corredor, ou, mais doloroso ainda, pelo simples fato de você se recusar a ser "mais do mesmo". Por você insistir em realizar o seu trabalho com rigor, seriedade e paixão, em vez de se render ao pacto da mediocridade, a turma o pune com o gelo do desprezo. É a inteligência e a sensibilidade instrumentalizadas para o boicote, transformando o que deveria ser um espaço de partilha em um tribunal silencioso e implacável.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Poema: "Silos", de Erivelto Reis

 Silos

Erivelto Reis

Uma saudade grata.
Uma lembrança que não passa.
Quem tem seu quinhão de amor,
Já deixou a terra semeada.
Poesia, pão e trigo!
Um poeta tão criança,
Um menino tão antigo...
A colheita e o reencontro não tardam,
A memória lota silos.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Poema: "Cantilena", de Erivelto Reis

Cantilena

Erivelto Reis


Escuto o teu murmúrio

Como se fosse prece.

Em meio às tuas febres,

Não é o meu semblante

Que nos teus delírios aparece.

 

Caminhas pela casa,

Fantasma onipresente

Que não portando alma

Nem és santo, nem és gente.

 

Amou-me e desamou

Sofreu e fez sofrer quem não merece.

Amor, raro licor,

Escuto o teu murmúrio

Como se fosse prece.

domingo, 10 de maio de 2026

Poema: "Double Fantasy", de Erivelto Reis

Double Fantasy

Erivelto Reis

 

Às vezes,

Você pensa que está trabalhando

Mas está saindo

Do Dakota Building

Talvez pela última vez...


Às vezes, em certos lugares,

Você pensa que está agradando

Mas, sem saber, está apenas

Autografando um long-play

Pra um assassino.


Às vezes você pensa.

E enquanto pensa, nem sempre nota

(O monte de Judas em Dakota)


O quanto Chapman trama

Puxar seu tapete, puxar o gatilho,

Fechar sua porta...

Deixar órfão o seu mundo,

Deixar órfão o seu filho.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Poema: "O futuro é pra dentro", de Erivelto Reis

 

O futuro é pra dentro

Erivelto Reis

Quando

O Homem deixar de ser a humanidade

O feminino passar a ser o ser o universal

A arte for o ar que oxigena a existência

Começaremos a transformação

Quando

A educação comportar a memória da sabedoria ancestral

A ética estiver em todas as consciências

E a música nos irmanar

Em paz e afetos genuínos

Quando

Amor e amizade não forem mais substituíveis

Nem descartáveis

Haverá alguma chance

O futuro é pra dentro

Pra um lugar que ainda não existe

Em todo mundo

Oco, ergue-se e desmorona

Num jogo de luz e sombra.

Catedral ou cratera

Conforme avança o tempo.

 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Poema: "Neutro", de Erivelto Reis

 Neutro

Erivelto Reis

Neutro é uma forma de deter gente.
É colonialismo
É misoginia
Dissonância cognitiva
Mentira e arrogância
Numa embalagem discreta...
É preconceito,
Puxadinha de tapete
Fingir inteligência com IA.
Neutro é uma forma de deter gente.
Neutro
É o favorecimento da desigualdade
Neutro
É o discurso do terremoto da meritocracia
Neutro é uma forma de deter gente.
Neutro
É o disfarce do abusador
Do tóxico assediador
Do colega que te vende
Por um melhor dia na semana
Que faz da educação
Sua fazendinha, seu game.
Neutro é uma forma de deter gente.
Neutro é a violência
De smoking alugado
Na festa do não ler, não ser,
Não saber e ter raiva de quem sabe
É uma omissão low-profile.
É o desprezo pela qualidade
Da formação do outro
Uma inveja que escapa como mini arrotos.
Neutro
É um verniz que descasca
É o jeito adulador de equilibrar a máscara.
Neutro é uma forma de deter gente.
Neutro é um moralismo tacanho
É um cuidado em não ouvir o que é real
É um filtro sobre a realidade
É um storyelling de narrativa
Perigosa e vazia.
Neutro
É um comportamento de herdeiro
É atacar em surdina...
É o sorrisinho de vaselina
De quem parasita qualquer hospedeiro
É sinônimo de conivente
Neutro não é uma qualidade.
É fazer política como forma de covardia!
É sinônimo de conivente...
Neutro é uma forma de deter gente.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Poema: "Seria um bom domingo", de Erivelto Reis

Seria um bom domingo

Erivelto Reis

 

A saída mais perto é para o fim.

E é também a mais longe

Disfarçada de única.

 

Não tem foice, nem alfange,

Nem caveira, nem máscara,

Nem túnica

Suficientes...

 

Quando se passa dos limites

Suportáveis.

O pensamento passa mil vezes

Filmes inclassificáveis.

 

Os hormônios, os neurônios

São intransigentes.

Tal como um membro amputado

Que não para de doer,

Como pode um coração amputado,

Dilacerado

Não parar um instante de se debater?!

 

Cérebro não é pátria alguma

Onde a razão possa se hospedar!

Quando não se constrói coisa nenhuma...

 

E corrói saber que o que se faz

Não machuca tanto

Como o modo que se diz

Receita clássica de fazer

Gente sem amigos, amargurada,

Última e infeliz:

Apenas mudar os móveis de lugar

E crer inaugurar um novo país...

 

Amanhã seria um bom domingo.