Lembrando com carinho do seu José de Arimatéa, meu pai
Gosto de me lembrar de algumas coisas sobre o meu pai. Gosto
de me lembrar de que ele não se acovardava diante das injustiças; reagia, sim —
com palavras e ações. Gosto de me lembrar do dia em que ele me ensinou a
enfrentar o bullying na escola, numa época em que esse nome nem existia no
espaço social do mundo que eu conhecia.
Gosto de me lembrar de que ele adorava música. Especialmente
daquelas cujas letras eram mais uma crônica de acontecimentos e emoções do que
metafóricas. Gosto de me lembrar de que ele era um comunicador nato, um
contador de histórias com carisma para encantar a audiência. Gosto de me
lembrar e sou grato pela maneira como ele recebeu minha companheira de vida em
nossa família e de como entendeu rapidamente que, a partir daquele encontro, eu
estava construindo ao lado dela uma nova família. E de como era gentil com ela.
Gosto de me lembrar de quando ele me deu uma máquina de
escrever, entendendo o meu fascínio pela leitura e pela escrita ainda na minha
infância. De quando me deu discos que me acompanham até hoje, deixando,
inclusive, de comprar para si, em certa ocasião, um disco que aguardava
ansiosamente para investir todo o lucro de uma semana de trabalho na compra do
objeto da minha fascinação musical.
Gosto de me lembrar de que, na véspera de Natal do ano de
1981, ele só voltou para casa tarde da noite, exausto, mas trazendo modestos e
maravilhosos presentes para mim e para meus irmãos.
Gosto de me lembrar de sua fibra moral e sua resiliência
quando foi demitido e despejado em 1988 e teve que recomeçar; e de seu
sangue-frio ao sofrer um revés terrível de violência e intimidação que teria
mudado ainda mais drasticamente a história de nossa família naquele 25 de
outubro de 1991.
Gosto de me lembrar de como ele era caprichoso com sua moto
e seu carro, a ponto de fazer a manutenção com as habilidades de um mecânico ou
de um profissional de estética automotiva. Gosto de me lembrar do seu zelo com
o acervo de ferramentas. Do seu hábito curioso de preservar mesmo um
despretensioso parafuso ou uma conexão hidráulica para uma eventualidade de
reparo. Gosto de me lembrar do seu princípio inegociável de economizar fazendo
ele mesmo as tarefas que fossem aparecendo.
Gosto de me lembrar do seu empreendedorismo. Do seu amor ao
lugar onde trabalhou até se aposentar e das pessoas que daquele espaço faziam
parte — especialmente os alunos, as alunas e suas famílias, que ano após ano o
homenageavam. E não seria exagero dizer que, sob muitos aspectos, ainda hoje
seu nome é uma referência ou lembrança agradável.
Gosto de me lembrar do seu costume de almoçar sentado ao rés
do chão nas tardes de domingo, preferencialmente na varanda ou na sala de casa.
De sua paixão pelo futebol, que jogava com alguma habilidade e muita
disposição.
Gosto de me lembrar de quando, no seu jeito simples, ele me
ensinava lições valiosas, alertando-me para a insensibilidade e as injustiças
dos mais abastados que escolhem explorar a mão de obra dos trabalhadores, e
para que eu reconhecesse as qualidades de quem, mesmo tendo muito, era humilde
e gentil ao tratar os mais pobres e os que lhes prestavam serviços. Gosto de
ter aprendido com ele que a dignidade de um trabalhador é inegociável e que o
suor que escorre de seu rosto, fruto do seu trabalho, é tão valioso quanto o
sangue que corre em suas veias.
Gosto de me lembrar de quando, no ano de 1983, ele me disse
claramente, enquanto cortávamos a grama na casa de uma família de gente rica:
“Meu filho, estude sempre para que um dia você não apenas tenha uma condição de
vida como a dessas pessoas, mas para que você não seja ignorado e desprezado
por gente com o padrão de vida que elas têm."
Gosto de me lembrar de que ele, diante de uma dor terrível
como a da perda de sua mãe, manteve-se firme e prosperou no caminho do bem que
ela lhe indicara. Gosto de lembrar que ele era carinhoso, mas também
temperamental. Amável, mas, às vezes, instável. Gosto de me lembrar de que
amava os netos. Que foi padrinho de minha filha mais velha e que, assim como
fez comigo e meus irmãos, várias vezes jogou bola comigo e meus filhos aqui no
quintal de casa.
Gosto de me lembrar dele com as qualidades e defeitos que
tinha, e sinto muita saudade. Uma saudade agradecida por tudo o que ele fez,
pelos caminhos que indicou e que ajudou a abrir. Eu sabia que ele andava pelos
lugares me elogiando para as pessoas, falando bem de mim por conta da
literatura, da minha trajetória acadêmica e de eu ter me tornado um professor —
que era uma das profissões que ele mais admirava. E guardo com carinho a
memória dos muitos elogios que ele me fez.
Gosto de me lembrar de quando, aos sábados, ele vinha direto da entrega dos queijos que revendia, feita na sua CG 125, ou das entregas e fretes que fazia na sua Pampa (e, depois de algum tempo, na sua Montana) e parava aqui em casa para me ajudar com as tarefas de manutenção do sítio. E às, vezes, sinto ainda hoje enquanto trabalho, decorridos quase nove anos de sua partida, que ele pode chegar a qualquer momento outra vez.
Gosto de me lembrar de que o tempo em que estivemos juntos
foi, para nós dois, sempre de aprendizados. Gosto de me lembrar do dia em que
ele me contou que só me conheceu quando eu já estava com três dias de nascido,
lá na cidade de Rio Verde, Goiás, porque ele estava trabalhando num silo de
armazenamento e distribuição de sacas de arroz em uma cidade distante. Nós
estávamos jogando sinuca quando ele me contou essa história. Ele adorava vir
aqui em casa nos domingos à tarde ou nas noites de sábado. Gosto de me lembrar
que ele comprava pen-drives e pedia pra eu fazer playlists especiais ao gosto
dele e dos filmes de faroeste que ele assistia um milhão de vezes. Gosto de me
lembrar que ele foi um pai parceiro na minha vida de muitos desafios e que ele
próprio teve que se reinventar muitas vezes para lidar com tudo que fez parte
de sua trajetória.
Gosto de me lembrar do meu pai. Mesmo quando machuca a
saudade dele.
