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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Poema: "Ultima", de Erivelto Reis

 

Ultima

Erivelto Reis

 

A humanidade é a única espécie

Capaz de filmar a própria ruína

Com celulares de última geração.

Daí, vai lá e filma.

Ultima.

Poema: "Cupins e crocodilos", de Erivelto Reis

Cupins e crocodilos

Erivelto Reis

 

Sabendo do estrago que o cupim faz num lambri

Biombo oculta o estertor do amanhã de tua prole

Mais que isto, devoram-no, sorvem-no e engolem

O néctar da capacidade que arruínam por si e só por si.

 

Das altas ordens que não são do céu e descem ao rés do chão

Só cumprem mesmo as que podem ser ficcionalizadas

Inventam índices, batalhas não travadas.

E debocham delas com desfaçatez e convicção.

 

Crocodilos choram enquanto agoniza a sua presa

Sabe-se disso há muito tempo, não há sequer surpresa

Espanto é vê-los plácidos ante o horror que nos faz ficar aflitos

 

Dizer-se-ia, incautos que os não conheça,

Que dentre estes há ainda quem mereça

A honrosa meta de instruir aos vossos filhos.

sábado, 25 de julho de 2026

Crônica: "Sobre Paraíso, 1982 e sobre Benedito... ou não", de Erivelto Reis

Sobre Paraíso, 1982 e sobre Benedito... ou não

Erivelto Reis

A chegada de Paraíso (1982) ao Globoplay não é apenas um resgate da teledramaturgia nacional; é um convite para encarar o espelho de um Brasil que insiste em não mudar. Longe de ser apenas mais um folhetim interiorano, a novela carrega, talvez, um dos textos mais abertamente políticos de Benedito Ruy Barbosa. Em pleno período de reabertura e na efervescência da luta pela redemocratização, Benedito usou a rádio fictícia da trama para falar, sem rodeios, sobre política partidária, democracia, representatividade, o direito ao voto, reforma agrária e a dignidade e aposentadoria dos trabalhadores do campo.

Enquanto o romance cativante entre o "filho do diabo" e a "santinha" Maria Rita servia de pano de fundo, a novela abria alas para o florescimento urbano e a popularização da canção sertaneja no espaço da grande mídia da telenovela. Foi o palco onde ecoaram nomes como Renato Teixeira, Rolando Boldrin, Almir Sater, a dupla Milionário & José Rico e Sérgio Reis — este último com destaque no papel do peão Diogo. Por trás da musicalidade rural, corria a crítica ácida e tácita ao conservadorismo e à hipocrisia da Igreja Católica, uma instituição que andava de mãos dadas com o poder oligárquico dos coronéis. Eram figuras que recorriam a supostos pactos demoníacos, mantendo o diabo aprisionado em uma garrafa — mito ao qual o autor retornaria com maestria anos mais tarde em Renascer. Enquanto jogavam sinuca a dinheiro, o padre da cidade e esses mesmos coronéis (menos raivosos no horário das 18h), em reuniões e visitas de circunstâncias, dividiam espaço com os hábitos das beatas e o jogo do poder, em um ambiente em que, gradativamente, os civis em cargos de gestão como a prefeitura iam aprendendo a manejar a máquina da propaganda, o poder do rádio, a utilização da religião para manter estruturas socialmente comprometidas com a imutabilidade e da boa-fé de trabalhadores e trabalhadoras diante de qualquer aceno de modernização para aquela pacata cidade. Ney Matogrosso alertava na abertura da novela: "promessas demais"...

Benedito Ruy Barbosa não poupou esforços para fazer de sua obra uma forma didática de ensinar novos rumos e percepções políticas e sociais para o grande público da telenovela — especialmente os mais pobres ou ligados ao interior rural do país —, escrevendo cenas em que a rádio da cidade apresentava, entre as canções sertanejas, peças de utilidade pública em reclames, como a campanha do soro caseiro, dicas de higiene e vacinação. E passou boa parte dos mais de 180 capítulos ensinando claramente o conceito de situação e oposição em termos políticos e as possíveis intersecções entre esses dois polos no jogo do poder, desde a construção de uma pequena ponte até o pagamento do salário atrasado das professoras da cidade.

Anos mais tarde, no remake de 2009 adaptado por Edmara Barbosa, a mesma rádio fictícia voltou ao ar como engrenagem central da narrativa, mas dessa vez espelhando as transformações da própria indústria da música no país. Se em 1982 o rádio abriu portas para o chamado “sertanejo de raiz” e para a poética do campo, na versão dos anos 2000 a emissora serviu de vitrine estratégica para a consolidação e a massificação do chamado "sertanejo universitário", marcando a migração do gênero das violas caipiras para a música chiclete, os rodeios e as arenas do agronegócio.

A produção original fincou raízes em cenários marcantes: a Fazenda Florença, em Vassouras, e a Fazenda Indiana, situada na divisa entre o bairro de Campo Grande (Zona Oeste do Rio) e Nova Iguaçu, esquadrinhadas pela BR-465 (a antiga Rio–São Paulo) e pela Avenida Brasil. Vassouras, no interior do estado, emprestou seu casario antigo e sua exuberante praça principal como locações externas. A cidade conseguiu, ao menos em seu centro histórico, preservar e restaurar seu patrimônio ao longo das décadas. Já o destino da Fazenda Indiana foi o avesso da preservação: virou fábrica da Ambev, e o seu entorno foi tragado pela precarização, pelo colapso da mobilidade urbana, pela favelização, subempregos e exploração da mão de obra. A fazenda e sua criação de bois encerraram suas atividades, mas o território — entre Campo Grande e Nova Iguaçu — continua operando, ainda hoje, como um imenso curral eleitoral. O voto de cabresto e a força dos novos "coronéis" mostram que toda a luta pela democracia ainda não conseguiu coibir tais práticas. Mudam-se os tempos, mas não se mudam as vontades do poder, especialmente na assistência às periferias, subúrbios e na Baixada Fluminense.

Benedito Ruy Barbosa leu como poucos o Brasil rural e o país dos coronéis em obras emblemáticas como Cabocla, O Rei do Gado, Renascer, Sinhá Moça e Pantanal. Ele leu o país como quem lê uma manchete histórica, situando e até discutindo temas como a escravidão e o racismo, estruturalmente entranhado. O jovem Tobi, aspirante a peão, vai preso numa “exorbitância” do delegado apenas por ser negro. Benedito era sensível e emocionalmente eficiente em suas narrativas populares construídas para as telenovelas ainda que, por vezes, perpetuasse determinados estigmas e incorreções historiográficas, sobretudo sobre o tema dos escravizados — afinal, o que não se corrige na ficção (embora não seja esta a sua obrigação) custa, demora e dá muito mais trabalho para ser corrigido apenas pelo viés da história e da educação. E, quando se corrige alguma coisa sem arte, às vezes fica torto, fica faltando algo, sem esquadro e sem base.

Rever a novela, para mim, é um exercício de memória viva. Acompanhar as cenas onde vazam ou se identificam o entorno do Km 32 da Rio–São Paulo, o Viaduto dos Cabritos, o primeiro conjunto habitacional da região, a Avenida Brasil quase deserta em direção a Santa Cruz, ou a alça de acesso para Campo Grande rasgada no morro, funciona como uma verdadeira máquina do tempo. Trata-se de uma ligação afetiva visceral, costurada pela ficção e pelos resíduos geográficos e históricos de uma região tão desfavorecida — a mesma região de onde, hoje, grupos de investidores extraem os bilhões com os quais avançam contra a economia brasileira e ainda rosnam contra qualquer política pública. Foi uma das primeiras novelas que assisti com minha mãe, meu pai e meus irmãos quando por aqui chegamos. E era bem pertinho da gente.

Hoje, a qualquer hora do dia, de domingo a domingo, é impossível cruzar a região da antiga Fazenda Indiana — atual Ambev — sem perder, no mínimo, meia hora em um engarrafamento sufocante e interminável. Ali, a luta pela sobrevivência se escancara no asfalto: trabalhadores e trabalhadoras e suas famílias arriscam a própria vida entre carros e motos, vendendo de tudo — do pacote de amendoim ao limpador de para-brisa. A antiga olaria deu lugar a um ecossistema informal e pulsante de barracas de refeições rápidas, do cafezinho à cerveja gelada, além do aluguel de vagas improvisadas de estacionamento para os operários da fábrica. No espaço exíguo entre o acostamento e a frente do terreno da olaria, ergue-se e se adensa, dia a dia, a comunidade Dilma Rousseff. Naquele mesmo solo onde outrora circulou o trem, a BR-465 ostenta hoje uma dupla privatização: no monopólio entregue a um grupo de empresas de ônibus e na cessão generosa, como brinde, à concessionária que administra o Arco Metropolitano.

Falar de segurança no trecho entre a Estrada Rio do A e a Via Dutra é, esta sim, uma autêntica obra de ficção. Que Deus defenda cada trabalhador e trabalhadora que depende desse inferno diário para conseguir chegar ao serviço, para alcançar a CEDAE (outra que também foi privatizada), o Colégio Técnico da UFRRJ (CTUR), o campus de Seropédica da Universidade Rural, ou cada uma das dezenas de escolas estaduais e municipais de Nova Iguaçu, Seropédica e Itaguaí. Escolas que, embora ainda não formalmente privatizadas, convivem aqui e ali com seus velhos "coroneizinhos" e "sinhazinhas" locais dando as cartas e ditando as regras.

O tempo passou, e o diabo, que na ficção vivia trancado na garrafa, parece ter conseguido fugir e ganhar o coração e as mentes das pessoas que se alternam no poder através das faces mais perversas do capitalismo: a exclusão, a perda do direito à cidade, o racismo ambiental e geográfico e o desrespeito ao meio ambiente. Como exemplos, a poluição do Guandu, a desapropriação de um bairro inteiro para as Águas do Rio — entre o Km 37 e o Km 39 —, e a abertura de uma verdadeira fenda numa das faces da Serra do Vulcão, colocando milhares de famílias em risco permanente às margens da Estrada de Madureira.

Somam-se a isso as constantes rupturas de tubulações ou a falta d'água crônica, intercalada com cobranças abusivas de água e esgoto; e as taxas de iluminação pública cobradas para a tubulação da CEDAE, enquanto as localidades cujo desenvolvimento ela sepultou com a elevação da tubulação ao nível da estrada principal — impedindo ou dificultando o desenvolvimento de seu comércio ou ocultando o horror de sua falta de recursos básicos com saneamento e calçamento —, os tais dos "quilômetros" 33, 34, 35, 37 e 39, nas ruas de seu interior, ainda sofrem com a escuridão, os buracos, o lixo e o esgoto a céu aberto.

É a exploração desenfreada e a desapropriação daquilo que, em outros tempos, constituía o patrimônio e os bens populares. Além disso, na última década, assiste-se nessa região à construção desenfreada de conjuntos habitacionais sem nenhum plano real de expansão e mobilidade urbana ou de melhoria das condições de vida dessas populações.

Claro, a Fazenda Indiana (dizia-se ser de propriedade dos atores Tarcísio Meira e Glória Menezes) era uma propriedade privada. No entanto, tudo o que a sua venda e os seus desdobramentos políticos, econômicos e sociais trouxeram para a região — de 1982 até os dias de hoje — nos deixa na boca o gosto amargo de constatar que as críticas de Benedito Ruy Barbosa não foram assimiladas pela sociedade. O diabo está solto, e a ficção de quatro décadas atrás continua sendo o nosso retrato mais dolorosamente real.

Zé Eleutério, Maria Rita, Terêncio, Padre Bento, a Rádio Voz do Vale, o casario e a praça “emprestados” pela querida cidade de Vassouras como cenário e tantos personagens marcantes formavam a alma daquela trama. Um elenco estelar em que veteranos como Jofre Soares, Cláudio Corrêa e Castro, Eloísa Mafalda, Ary Fontoura, Tereza Raquel, Sérgio Britto, Henriqueta Brieba, Roberto Bonfim, Neuza Amaral e Rui Resende construíram uma química excelente com os jovens Cristina Mullins, Kadu Moliterno, Íris Nascimento, Cosme dos Santos, Bia Seidl, Caíque Ferreira, Simone Carvalho, Zaira Zambelli, Mário Cardoso, Roberto Pirillo e Elisângela, entre tantos outros atores e atrizes que a partir dali consolidariam ou redirecionariam suas carreiras.

Em 1988, na novela Vale Tudo, o vilão Marco Aurélio ameaçava um dos seus lacaios, um policial corrupto, com uma transferência para Seropédica: “bem pra lá de São Sebastião do Calçado”, segundo o personagem. Já no início dos anos 2000, uma outra fazenda, em Seropédica, também às margens da rodovia BR-465 — nomeada oficialmente em 2014 como Rodovia Luiz Henrique Resende Novaes, quase chegando à Dutra e logo depois da área por onde passaria o Arco Metropolitano, seria cenário para uma outra novela das 18h: Força de um Desejo, escrita por Gilberto Braga, outro ícone da teledramaturgia. Na trama, a casa de fazenda pertencia ao antagonista Higino Ventura, vivido pelo talentosíssimo ator Paulo Betti. A construção pode ser vista por todos que passam pela estrada e já abrigou, por pouco tempo, um centro cultural.

Eu queria apenas falar do resgate da novela no Globoplay, saudar a trajetória e a memória de Benedito Ruy Barbosa, grande autor de telenovelas brasileiras, mas acho que acabei falando de como a política sem ética e sem responsabilidade com a população pode fazer com que toda uma região permaneça tão desassistida quanto estava há 44 anos — talvez até em uma condição pior. Essa região, definitivamente, não é um paraíso.

 

 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Poema: "Avisado", de Erivelto Reis

Avisado

Erivelto Reis

 

Há quem reze para um deus machista

Alcoolista

Preconceituoso

Drogado

E ludibriado

Quanto à própria

Sabedoria, onipresença, onipotência

E onisciência.

A quem reze para um deus consciente

Da própria crueldade

Como quem lê um romance

Onde o narrador sabe que está narrando,

Porque está narrando e o que vai ser feito

Da vida de todas as personagens.

 

Ser deus talvez seja sobre não saber ser deus

Ou não saber reconhecer um deus

Ou uma deusa...

Sobre não saber nada sobre existência alguma

Que seja superior ao tempo,

Ao sorriso de uma criança,

Ao silêncio de testemunhar um fim...


Ser deus não deveria ser

Sobre ter fiéis, crentes ou sequestradores

De enredos...

Ou sobre ter seu nome em nenhum livro

Em que a existência esteja restrita a um espaço

Circunscrito a nascer e morrer.


Ou existir sem sofrer.

Ou promessas de prendas e paraísos

Ou ameaças de sacrifícios.

 

Ser deus deveria ser algo tão banal

Que ninguém se desse conta.

 

Desconfio desse tipo de deus que é sendo

E que não é se desentendendo

E que é não sendo

Quando mais se precisa

Que seja

Penso talvez num deus que não é e não foi

Sempre não sendo,

Mas que avisa.

sábado, 4 de julho de 2026

Poema: "Cacos de vidro", de Erivelto Reis

Cacos de vidro

Erivelto Reis

Cacos de vidro
Vidro moído
Chumbinho
Desprezo e xingo.
Cacos de vidro
Desprezo
Vidro moído
Soco, palavrão
Estilete e xingo.
Cacos de vidro,
Empurrão,
Não permitir
O exercício digno do ofício
Palavrão, violência
Desprezo e xingo.
Cacos de vidro,
Cola na cadeira,
Tapa na cara,
Provocação,
Exposição,
Ameaça e xingo.
Na escola,
De segunda a sexta-feira...
De domingo à domingo
Na cabeça de quem
Passa por isso.
Tapa, ameaça,
Cacos de vidro,
Desprezo e xingo.

domingo, 28 de junho de 2026

Poema: "Arrependimento"

 

Arrependimento

Erivelto Reis

 

Eu não digo nada, nem pra mim

Com medo de arrependimento

A maturidade vai chegando

Tô sozinho faz um tempo...

Você disse num adeus:

É vivendo e aprendendo.

Eu não digo que não sinto falta

De cada carícia

de cada delícia

que vivi com você...

Tô perdido e não vejo sentido na vida

Invento desculpa

Planejo uma fuga

Procuro saída

A alma só obedece a quem ama

Eu deito na cama

Tento esquecer

A alma é malcriada

E se sofre, reclama

Eu deito na cama

Você tá morando

No meu pensamento...

Eu não digo nada,

Nem pra mim

Com medo de arrependimento...

Você disse num adeus:

É vivendo e aprendendo.

 

Poema: "Território", de Erivelto Reis

 Território

Erivelto Reis

 

Território

É terra... e sonhos!

Memória que guarda história

Território é casa,

É aprender a proteger a alma

Território

É aprendizado, força pra romper

O ciclo perverso do passado

Da exploração do assalariado

Construindo o futuro, dia a dia,

Com conhecimento e sabedoria.

Território,

É fé, trabalho, amizade

Ter a escola como ponto de partida

E levar o que nela se aprende,

Levar o que que nela se ensina

No coração da gente,

Pra melhorar nossa vida.

Território, é cultura,

É paz pra abraçar quem se ama

É luta por um lugar melhor

É diversidade, pertencimento,

É inclusão e respeito

É ir e vir em segurança

Quando nos dão esse direito.

Território,

É representatividade e oportunidade.

É arte e liberdade pra criar.

Eles chamam de baixada

O que nós chamamos lar.

Eles chamam de despesa

O que pra nós tem valor

E entregam em conta gotas

Como se nos fizessem um favor.

Território

Não se mede por distância

O que vale é a importância

Que se dá,

Ao lugar em que as pessoas

Residem, estudam e trabalham

Território

Não é sobre sobreviver

É sobre viver e prosperar.

É assim que tem que ser.