Ultima
Erivelto Reis
A humanidade é a única espécie
Capaz de filmar a própria ruína
Com celulares de última geração.
Daí, vai lá e filma.
Ultima.
Ultima
Erivelto Reis
A humanidade é a única espécie
Capaz de filmar a própria ruína
Com celulares de última geração.
Daí, vai lá e filma.
Ultima.
Cupins e crocodilos
Erivelto Reis
Sabendo do estrago que o cupim faz num lambri
Biombo oculta o estertor do amanhã de tua prole
Mais que isto, devoram-no, sorvem-no e engolem
O néctar da capacidade que arruínam por si e só por si.
Das altas ordens que não são do céu e descem ao rés do chão
Só cumprem mesmo as que podem ser ficcionalizadas
Inventam índices, batalhas não travadas.
E debocham delas com desfaçatez e convicção.
Crocodilos choram enquanto agoniza a sua presa
Sabe-se disso há muito tempo, não há sequer surpresa
Espanto é vê-los plácidos ante o horror que nos faz ficar
aflitos
Dizer-se-ia, incautos que os não conheça,
Que dentre estes há ainda quem mereça
A honrosa meta de instruir aos vossos filhos.
Sobre Paraíso, 1982 e sobre
Benedito... ou não
Erivelto Reis
A chegada de Paraíso (1982) ao
Globoplay não é apenas um resgate da teledramaturgia nacional; é um convite
para encarar o espelho de um Brasil que insiste em não mudar. Longe de ser
apenas mais um folhetim interiorano, a novela carrega, talvez, um dos textos
mais abertamente políticos de Benedito Ruy Barbosa. Em pleno período de
reabertura e na efervescência da luta pela redemocratização, Benedito usou a
rádio fictícia da trama para falar, sem rodeios, sobre política partidária,
democracia, representatividade, o direito ao voto, reforma agrária e a
dignidade e aposentadoria dos trabalhadores do campo.
Enquanto o romance cativante
entre o "filho do diabo" e a "santinha" Maria Rita servia
de pano de fundo, a novela abria alas para o florescimento urbano e a
popularização da canção sertaneja no espaço da grande mídia da telenovela. Foi
o palco onde ecoaram nomes como Renato Teixeira, Rolando Boldrin, Almir Sater,
a dupla Milionário & José Rico e Sérgio Reis — este último com destaque no
papel do peão Diogo. Por trás da musicalidade rural, corria a crítica ácida e
tácita ao conservadorismo e à hipocrisia da Igreja Católica, uma instituição
que andava de mãos dadas com o poder oligárquico dos coronéis. Eram figuras que
recorriam a supostos pactos demoníacos, mantendo o diabo aprisionado em uma
garrafa — mito ao qual o autor retornaria com maestria anos mais tarde em
Renascer. Enquanto jogavam sinuca a dinheiro, o padre da cidade e esses mesmos
coronéis (menos raivosos no horário das 18h), em reuniões e visitas de
circunstâncias, dividiam espaço com os hábitos das beatas e o jogo do poder, em
um ambiente em que, gradativamente, os civis em cargos de gestão como a
prefeitura iam aprendendo a manejar a máquina da propaganda, o poder do rádio,
a utilização da religião para manter estruturas socialmente comprometidas com a
imutabilidade e da boa-fé de trabalhadores e trabalhadoras diante de qualquer
aceno de modernização para aquela pacata cidade. Ney Matogrosso alertava na
abertura da novela: "promessas demais"...
Benedito Ruy Barbosa não poupou
esforços para fazer de sua obra uma forma didática de ensinar novos rumos e
percepções políticas e sociais para o grande público da telenovela —
especialmente os mais pobres ou ligados ao interior rural do país —, escrevendo
cenas em que a rádio da cidade apresentava, entre as canções sertanejas, peças
de utilidade pública em reclames, como a campanha do soro caseiro, dicas de
higiene e vacinação. E passou boa parte dos mais de 180 capítulos ensinando
claramente o conceito de situação e oposição em termos políticos e as possíveis
intersecções entre esses dois polos no jogo do poder, desde a construção de uma
pequena ponte até o pagamento do salário atrasado das professoras da cidade.
Anos mais tarde, no remake de
2009 adaptado por Edmara Barbosa, a mesma rádio fictícia voltou ao ar como
engrenagem central da narrativa, mas dessa vez espelhando as transformações da
própria indústria da música no país. Se em 1982 o rádio abriu portas para o
chamado “sertanejo de raiz” e para a poética do campo, na versão dos anos 2000
a emissora serviu de vitrine estratégica para a consolidação e a massificação
do chamado "sertanejo universitário", marcando a migração do gênero
das violas caipiras para a música chiclete, os rodeios e as arenas do
agronegócio.
A produção original fincou raízes
em cenários marcantes: a Fazenda Florença, em Vassouras, e a Fazenda Indiana,
situada na divisa entre o bairro de Campo Grande (Zona Oeste do Rio) e Nova
Iguaçu, esquadrinhadas pela BR-465 (a antiga Rio–São Paulo) e pela Avenida
Brasil. Vassouras, no interior do estado, emprestou seu casario antigo e sua
exuberante praça principal como locações externas. A cidade conseguiu, ao menos
em seu centro histórico, preservar e restaurar seu patrimônio ao longo das
décadas. Já o destino da Fazenda Indiana foi o avesso da preservação: virou
fábrica da Ambev, e o seu entorno foi tragado pela precarização, pelo colapso
da mobilidade urbana, pela favelização, subempregos e exploração da mão de
obra. A fazenda e sua criação de bois encerraram suas atividades, mas o
território — entre Campo Grande e Nova Iguaçu — continua operando, ainda hoje,
como um imenso curral eleitoral. O voto de cabresto e a força dos novos
"coronéis" mostram que toda a luta pela democracia ainda não conseguiu
coibir tais práticas. Mudam-se os tempos, mas não se mudam as vontades do
poder, especialmente na assistência às periferias, subúrbios e na Baixada
Fluminense.
Benedito Ruy Barbosa leu como
poucos o Brasil rural e o país dos coronéis em obras emblemáticas como Cabocla,
O Rei do Gado, Renascer, Sinhá Moça e Pantanal. Ele leu o país como quem lê uma
manchete histórica, situando e até discutindo temas como a escravidão e o
racismo, estruturalmente entranhado. O jovem Tobi, aspirante a peão, vai preso
numa “exorbitância” do delegado apenas por ser negro. Benedito era sensível e emocionalmente
eficiente em suas narrativas populares construídas para as telenovelas ainda
que, por vezes, perpetuasse determinados estigmas e incorreções
historiográficas, sobretudo sobre o tema dos escravizados — afinal, o que não
se corrige na ficção (embora não seja esta a sua obrigação) custa, demora e dá
muito mais trabalho para ser corrigido apenas pelo viés da história e da
educação. E, quando se corrige alguma coisa sem arte, às vezes fica torto, fica
faltando algo, sem esquadro e sem base.
Rever a novela, para mim, é um
exercício de memória viva. Acompanhar as cenas onde vazam ou se identificam o
entorno do Km 32 da Rio–São Paulo, o Viaduto dos Cabritos, o primeiro conjunto
habitacional da região, a Avenida Brasil quase deserta em direção a Santa Cruz,
ou a alça de acesso para Campo Grande rasgada no morro, funciona como uma
verdadeira máquina do tempo. Trata-se de uma ligação afetiva visceral,
costurada pela ficção e pelos resíduos geográficos e históricos de uma região
tão desfavorecida — a mesma região de onde, hoje, grupos de investidores
extraem os bilhões com os quais avançam contra a economia brasileira e ainda
rosnam contra qualquer política pública. Foi uma das primeiras novelas que
assisti com minha mãe, meu pai e meus irmãos quando por aqui chegamos. E era
bem pertinho da gente.
Hoje, a qualquer hora do dia, de
domingo a domingo, é impossível cruzar a região da antiga Fazenda Indiana —
atual Ambev — sem perder, no mínimo, meia hora em um engarrafamento sufocante e
interminável. Ali, a luta pela sobrevivência se escancara no asfalto:
trabalhadores e trabalhadoras e suas famílias arriscam a própria vida entre
carros e motos, vendendo de tudo — do pacote de amendoim ao limpador de
para-brisa. A antiga olaria deu lugar a um ecossistema informal e pulsante de
barracas de refeições rápidas, do cafezinho à cerveja gelada, além do aluguel
de vagas improvisadas de estacionamento para os operários da fábrica. No espaço
exíguo entre o acostamento e a frente do terreno da olaria, ergue-se e se
adensa, dia a dia, a comunidade Dilma Rousseff. Naquele mesmo solo onde outrora
circulou o trem, a BR-465 ostenta hoje uma dupla privatização: no monopólio
entregue a um grupo de empresas de ônibus e na cessão generosa, como brinde, à
concessionária que administra o Arco Metropolitano.
Falar de segurança no trecho
entre a Estrada Rio do A e a Via Dutra é, esta sim, uma autêntica obra de
ficção. Que Deus defenda cada trabalhador e trabalhadora que depende desse
inferno diário para conseguir chegar ao serviço, para alcançar a CEDAE (outra
que também foi privatizada), o Colégio Técnico da UFRRJ (CTUR), o campus de
Seropédica da Universidade Rural, ou cada uma das dezenas de escolas estaduais
e municipais de Nova Iguaçu, Seropédica e Itaguaí. Escolas que, embora ainda
não formalmente privatizadas, convivem aqui e ali com seus velhos
"coroneizinhos" e "sinhazinhas" locais dando as cartas e
ditando as regras.
O tempo passou, e o diabo, que na
ficção vivia trancado na garrafa, parece ter conseguido fugir e ganhar o
coração e as mentes das pessoas que se alternam no poder através das faces mais
perversas do capitalismo: a exclusão, a perda do direito à cidade, o racismo
ambiental e geográfico e o desrespeito ao meio ambiente. Como exemplos, a
poluição do Guandu, a desapropriação de um bairro inteiro para as Águas do Rio
— entre o Km 37 e o Km 39 —, e a abertura de uma verdadeira fenda numa das
faces da Serra do Vulcão, colocando milhares de famílias em risco permanente às
margens da Estrada de Madureira.
Somam-se a isso as constantes
rupturas de tubulações ou a falta d'água crônica, intercalada com cobranças
abusivas de água e esgoto; e as taxas de iluminação pública cobradas para a
tubulação da CEDAE, enquanto as localidades cujo desenvolvimento ela sepultou
com a elevação da tubulação ao nível da estrada principal — impedindo ou
dificultando o desenvolvimento de seu comércio ou ocultando o horror de sua
falta de recursos básicos com saneamento e calçamento —, os tais dos
"quilômetros" 33, 34, 35, 37 e 39, nas ruas de seu interior, ainda
sofrem com a escuridão, os buracos, o lixo e o esgoto a céu aberto.
É a exploração desenfreada e a
desapropriação daquilo que, em outros tempos, constituía o patrimônio e os bens
populares. Além disso, na última década, assiste-se nessa região à construção
desenfreada de conjuntos habitacionais sem nenhum plano real de expansão e
mobilidade urbana ou de melhoria das condições de vida dessas populações.
Claro, a Fazenda Indiana
(dizia-se ser de propriedade dos atores Tarcísio Meira e Glória Menezes) era
uma propriedade privada. No entanto, tudo o que a sua venda e os seus
desdobramentos políticos, econômicos e sociais trouxeram para a região — de
1982 até os dias de hoje — nos deixa na boca o gosto amargo de constatar que as
críticas de Benedito Ruy Barbosa não foram assimiladas pela sociedade. O diabo
está solto, e a ficção de quatro décadas atrás continua sendo o nosso retrato
mais dolorosamente real.
Zé Eleutério, Maria Rita,
Terêncio, Padre Bento, a Rádio Voz do Vale, o casario e a praça “emprestados”
pela querida cidade de Vassouras como cenário e tantos personagens marcantes
formavam a alma daquela trama. Um elenco estelar em que veteranos como Jofre
Soares, Cláudio Corrêa e Castro, Eloísa Mafalda, Ary Fontoura, Tereza Raquel,
Sérgio Britto, Henriqueta Brieba, Roberto Bonfim, Neuza Amaral e Rui Resende
construíram uma química excelente com os jovens Cristina Mullins, Kadu
Moliterno, Íris Nascimento, Cosme dos Santos, Bia Seidl, Caíque Ferreira,
Simone Carvalho, Zaira Zambelli, Mário Cardoso, Roberto Pirillo e Elisângela,
entre tantos outros atores e atrizes que a partir dali consolidariam ou
redirecionariam suas carreiras.
Em 1988, na novela Vale Tudo, o
vilão Marco Aurélio ameaçava um dos seus lacaios, um policial corrupto, com uma
transferência para Seropédica: “bem pra lá de São Sebastião do Calçado”,
segundo o personagem. Já no início dos anos 2000, uma outra fazenda, em
Seropédica, também às margens da rodovia BR-465 — nomeada oficialmente em 2014
como Rodovia Luiz Henrique Resende Novaes, quase chegando à Dutra e logo depois
da área por onde passaria o Arco Metropolitano, seria cenário para uma outra
novela das 18h: Força de um Desejo, escrita por Gilberto Braga, outro ícone da
teledramaturgia. Na trama, a casa de fazenda pertencia ao antagonista Higino
Ventura, vivido pelo talentosíssimo ator Paulo Betti. A construção pode ser
vista por todos que passam pela estrada e já abrigou, por pouco tempo, um
centro cultural.
Eu queria apenas falar do resgate
da novela no Globoplay, saudar a trajetória e a memória de Benedito Ruy
Barbosa, grande autor de telenovelas brasileiras, mas acho que acabei falando
de como a política sem ética e sem responsabilidade com a população pode fazer
com que toda uma região permaneça tão desassistida quanto estava há 44 anos —
talvez até em uma condição pior. Essa região, definitivamente, não é um
paraíso.
Avisado
Erivelto Reis
Há quem reze para um deus machista
Alcoolista
Preconceituoso
Drogado
E ludibriado
Quanto à própria
Sabedoria, onipresença, onipotência
E onisciência.
A quem reze para um deus consciente
Da própria crueldade
Como quem lê um romance
Onde o narrador sabe que está narrando,
Porque está narrando e o que vai ser feito
Da vida de todas as personagens.
Ser deus talvez seja sobre não saber ser deus
Ou não saber reconhecer um deus
Ou uma deusa...
Sobre não saber nada sobre existência alguma
Que seja superior ao tempo,
Ao sorriso de uma criança,
Ao silêncio de testemunhar um fim...
Ser deus não deveria ser
Sobre ter fiéis, crentes ou sequestradores
De enredos...
Ou sobre ter seu nome em nenhum livro
Em que a existência esteja restrita a um espaço
Circunscrito a nascer e morrer.
Ou existir sem sofrer.
Ou promessas de prendas e paraísos
Ou ameaças de sacrifícios.
Ser deus deveria ser algo tão banal
Que ninguém se desse conta.
Desconfio desse tipo de deus que é sendo
E que não é se desentendendo
E que é não sendo
Quando mais se precisa
Que seja
Penso talvez num deus que não é e não foi
Sempre não sendo,
Mas que avisa.
Cacos de vidro
Arrependimento
Erivelto Reis
Eu não digo nada, nem pra mim
Com medo de arrependimento
A maturidade vai chegando
Tô sozinho faz um tempo...
Você disse num adeus:
É vivendo e aprendendo.
Eu não digo que não sinto falta
De cada carícia
de cada delícia
que vivi com você...
Tô perdido e não vejo sentido na vida
Invento desculpa
Planejo uma fuga
Procuro saída
A alma só obedece a quem ama
Eu deito na cama
Tento esquecer
A alma é malcriada
E se sofre, reclama
Eu deito na cama
Você tá morando
No meu pensamento...
Eu não digo nada,
Nem pra mim
Com medo de arrependimento...
Você disse num adeus:
É vivendo e aprendendo.
Território
Erivelto Reis
Território
É terra... e sonhos!
Memória que guarda história
Território é casa,
É aprender a proteger a alma
Território
É aprendizado, força pra romper
O ciclo perverso do passado
Da exploração do assalariado
Construindo o futuro, dia a dia,
Com conhecimento e sabedoria.
Território,
É fé, trabalho, amizade
Ter a escola como ponto de partida
E levar o que nela se aprende,
Levar o que que nela se ensina
No coração da gente,
Pra melhorar nossa vida.
Território, é cultura,
É paz pra abraçar quem se ama
É luta por um lugar melhor
É diversidade, pertencimento,
É inclusão e respeito
É ir e vir em segurança
Quando nos dão esse direito.
Território,
É representatividade e oportunidade.
É arte e liberdade pra criar.
Eles chamam de baixada
O que nós chamamos lar.
Eles chamam de despesa
O que pra nós tem valor
E entregam em conta gotas
Como se nos fizessem um favor.
Território
Não se mede por distância
O que vale é a importância
Que se dá,
Ao lugar em que as pessoas
Residem, estudam e trabalham
Território
Não é sobre sobreviver
É sobre viver e prosperar.
É assim que tem que ser.