Ötzi, o Homem degelo
Erivelto Reis
Os cientistas
descobriram que Ötzi viveu há mais de cinco mil anos. O corpo, extremamente
preservado, foi encontrado em 1991. Estava congelado nos Alpes, virou uma
celebridade da pré-história, mas não foi essa a causa-mortis. A autópsia
moderna — sempre muito eficiente em analisar o defunto depois de milênios —
descobriu uma ponta de flecha cravada em seu ombro esquerdo. A flechada
perfurou uma artéria e Ötzi sangrou até morrer no gelo. Até hoje, contudo, a
história preserva um grande mistério: ninguém sabe quem, afinal, disparou
aquela flecha fatal contra o coitado.
No caso do
magistério, porém, o mistério cai por terra. Não há segredo sobre a identidade
dos arqueiros.
A começar pelo
próprio nome do nosso personagem. Tomemos como exemplo o fictício personagem Sebastião
— ou, como o chamam nas atas e nos corredores com um misto de respeito e
comiseração, o Professor. O nome não é mera coincidência mitológica: tal
qual o mártir católico, o professor passa a vida servindo de alvo. Sebastião
não começou congelado, nem flechado. Há vinte e cinco anos, quando entrou pela
primeira vez em uma sala de aula carregando apenas um pacote de giz, uma
garrafa térmica e uma fé inabalável na educação, ele era puro fogo. Vontade de
mudar o mundo, chamas de entusiasmo pedagógico.
Mas o
cotidiano da educação tem uma física própria: ele não queima, ele descongela ao
contrário. O ambiente vai esfriando o sujeito até transformá-lo em uma estátua
preservada no tempo. Sem vida. Mas a aparência é de alguém que talvez esteja
ali. Sebastião virou Homem degelo,
do verbo degelar: um ser que passou a vida inteira derretendo aos
poucos, pingando a própria energia no piso de granilite da escola, até que só
sobrou a carcaça petrificada um fóssil a ser banido da sala dos professores,
banido dos arredores da escola.
A questão do
Sebastião — e de tantos outros Ötzis de jaleco — é que a morte do professor
nunca vem de uma vez só. É um esporte de tiro ao alvo praticado em marcha
lenta.
A primeira
flechada vem no primeiro quinquênio: o salário que desidrata. A segunda vem na
reunião de pais: a autoridade pedagógica que se esfarela. As seguintes vêm em
rajada: cortes de verba, violência, desvalorização e o eterno mandato de
"fazer milagres com o nada". Na pré-história, Ötzi tomou apenas uma
flechada certeira no ombro e morreu rápido. Sortudo o Ötzi. O professor
Sebastião passa décadas sangrando profissionalmente.
Torna-se, por
fim, o bom professor morto em vida. Um zumbi inofensivo, incapaz de comover até
o aluno mais indisciplinado, perambulando pelos corredores sem ter sequer um
céu pedagógico para onde ir.
O destino dos
maus professores, contudo, às vezes é muito mais próspero. Esses — os
professores-capatazes — não se deixam congelar. Em um ato de autodefesa,
implodem a própria carreira docente para renascer nos estofados de alguma
secretaria de educação ou no refúgio de uma sala burocrática. Por trás de uma
mesa, armados apenas com uma cadeira giratória e um carimbo, ganham subitamente
o poder da iluminação: desorientados incumbidos de orientar e descoordenados
com a missão de coordenar. Gente com um currículo que parece um bilhete e a
experiência de uma casca de noz, detonando a cooperação e anulando as possibilidades
de debate em torno da educação com estudiosos, pesquisadores com formação
continuada. O concurso é a porta de entrada e o sujeito pensando que é o Olimpo.
“Como seria bom se a escola fosse um programa
de auditório. Passa ou repassa” ... Vai saber.
Afinal, a
engrenagem não exige exatamente uma competência técnica oriunda de formação de
carreira; raramente um bom professor se transforma em um bom diretor, até
porque a política de educação pautada em hipocrisia, achismos, amadorismo,
demagogia e quetais parece exigir pactos contraditórios aos princípios reais do
magistério.
É aqui que a
ironia atinge o seu ápice. Num passe de mágica institucional: aqueles mesmos
que dispararam as flechas contra um São Sebastião, uma vez empossados, vivem a
hipocrisia de uma falsa conversão. Antes, jogando pelas próprias regras,
flanando num sistema sem controle real, escrevendo narrativas através de
planilhas irreproduzíveis. Agora, praticam a microgestão seletiva com altivez
dos anjos. Como quem de repente descobre a fé na gestão, o antigo arqueiro
veste a túnica de autoridade e opera o milagre da amnésia conveniente.
Convencido de que nunca mais precisará da trincheira, o algoz de ontem passa a
ditar a oração de hoje. Alçado ao pedestal da coordenação, sente-se no direito
sagrado de inquirir, questionar e determinar o fazer alheio, regrando com mão
de ferro a própria convivência que ele ajudou a envenenar. Conta, para isso,
com a subserviência resignada de quem continua servindo de alvo, esquecendo-se
de que a maquiagem da conversão não apaga o sangue que ficou no arco.
Mais
recentemente, essa mesma burocracia inventou a sua mais refinada arte magia: a
gestão de alunos por osmose. A receita é simples: arrocha-se o professor
moribundo no patamar da cobrança extrema: “PAD, PAD, PAD...”, como um mantra
que ecoa aqui e ali, à boca pequena... como uma ameaça, como uma mordaça... enquanto
muitos dos alunos continuam fazendo exatamente o que sempre fizeram — nada. Enquanto
os muitos governos e secretarias de educação seguem fazendo o que sempre
fizeram: nada! E ainda tem o familiar que vai à escola pra fazer a matrícula
como quem faz uma promessa que só pretende cumprir se a graça for alcançada.
Raros não. Mas é um tal de praguejar contra os santos. Santos mesmo são só os
alecrins. “Mas essa escola!”, “Mas esse professor!”, “Mas essas más companhias!”
Enquanto isso,
na “sala de justiça”: Intersetorialidade? Pra quê? Questionar os reais
responsáveis pelo problema? De jeito nenhum. O burocrata prefere alvejar o
colega com a imposição, o retrabalho, a glamorização da precarização e da exploração
do trabalho e da apropriação indevida do produto e das ações e produtos intelectuais
desenvolvidos pelo bom professor. Por fim: a sentença: “é difícil”, “se acha”, “se
fosse bom tava na universidade”, “são ordens da coordenadoria”. Vejam: Uma
empresa fornecedora ter o pagamento atrasado? Deus o livre. Mas que mal há em
precarizar e explorar os recursos do docente? Ele já está ali pra isso mesmo...
Para resolver
o abismo pedagógico, aplica-se a solução cartorial perfeita: fazem os
estudantes assinarem "termos de compromisso" que todos sabem que
jamais serão cumpridos. Enquanto o professor não tem de seu nem o direito à
tranquilidade e a se sentir acolhido e seguro ambiente em que trabalha. Tem de
trabalhar pra trabalhar, registrar que trabalhou, enfrentar quem não quer que
ele trabalhe, não reclamar do que falta para que seu trabalho aconteça e por
fim, ser confrontado porque trabalhou da forma que trabalhou sendo que isso
demonstra que outros não trabalham, não trabalharam, não sabem trabalhar ou
nunca trabalharão. Ou que se há muitas formas
de se trabalhar, isso dará mais trabalho pra quem coordena ou dirige. Mas que
nada! Quanto os que não acolhem se doem quando são tratados apenas polidamente.
Se forem questionados, então...
Mas isso não
importa. O ensino pode ser uma ficção e o professor pode estar sangrando até a
morte, desde que, dentro da pasta do processo, os formulários estejam
impecavelmente preenchidos. O professor é, nesse cenário, definitivamente, o
homem degelo.
