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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Artigo: "Breve e Incompleta Cartografia de Afetos pelos Talentos da Zona Oeste do Rio de Janeiro", de Erivelto Reis

Breve e Incompleta Cartografia de Afetos pelos Talentos da Zona Oeste do Rio de Janeiro

Erivelto Reis

                                        Para Eleonora Ziller e os/as estudantes bolsistas e participantes do Projeto de Extensão Literatura, Memória e Território da Faculdade de Letras da UFRJ


Amanhã (05/11/2026) estarei na Faculdade de Letras da UFRJ, a convite do Projeto de Extensão Literatura, Memória e Território (Lembrar/UFRJ), para participar do I Encontro Literário da Zona Oeste Carioca. Trata-se de um trabalho de extrema importância, coordenado pela querida mestra Eleonora Ziller e conduzido com muita competência e entusiasmo pelos supercomprometidos alunos e alunas da graduação: Miguel Marques, Anna Gutierres, Amanda Barros, Cintic Correa, Thainá Martins, Raquel Santana, Natália da Cruz, Talita Correa, Mell Antunes, Giovanna Azevedo, Lucca Covinha e Eliara Tavares.

Nos dois dias do Encontro, haverá mesas temáticas resgatando nomes incontornáveis da Poesia, da Literatura, da Cultura e da Arte da Zona Oeste. Cito especialmente o memorialista e escritor de Guaratiba, o maravilhoso Francisco Alves Siqueira (autor, entre tantas obras, de O Carretel e o Peniquinho, livro que despertou o interesse e ajudou a alfabetizar meu filho do meio) e o inesquecível Primitivo Paes, de quem falarei brevemente.

Importantes figuras da cena cultural campo-grandense marcarão presença — como o próprio Instituto Campograndense de Cultura, representado por Odaléa Ranauro e Bruno Ferrari —, além de André Luís Mansur, Silmo Prata (Coletivo Cultural do Rio da Prata), Cimara Mattos (Ecomuseu de Santa Cruz) e Dilma Barrozo (da ALAZO), entre novos e diversos expoentes da cena artística e intelectual da região.

Em toda a Zona Oeste existem e trabalham — muitas vezes sem apoio institucional e valendo-se de recursos próprios — centenas de artistas, técnicos, produtores culturais, artistas plásticos, atores, atrizes, músicos, cantores, cantoras, ilustradores, designers, escritores, escritoras, poetas, comunicadores e jornalistas. Há ainda criadores de conteúdo digital e memorialistas: gente que fala do dia a dia da região, gente que resgata fotos, imagens e informações valiosas sobre os bairros locais. Todo esse contingente criativo e dinâmico, empreendedor e abnegado, se organiza em coletivos ou faz, individualmente, um dedicado "trabalho de formiguinha" ou de "beija-flor apagando incêndio" em prol da Arte e da Cultura.

Estive presente, dialoguei, coordenei grupos e ajudei a abrir espaço para homenagens e reconhecimento na faculdade em que trabalhei e fui coordenador de Núcleo, por meio de ações marcantes — especialmente ao lado do meu querido amigo Primitivo Paes e de pessoas que se tornaram minhas amigas diletas, pelas quais tenho profundo respeito e admiração.

Também é necessário reconhecer que pode ocorrer a esse tipo de efervescência artística, cultural e intelectual um certo movimento autofágico interno, sobretudo pela sobreposição de atividades e interesses. No entanto, acompanhando hoje mais à distância, vejo que esse desafio tem sido amenizado pela nova geração de coordenadores, pela mentalidade das pessoas, pelo acesso à informação e à formação, e pelo aprendizado construído com as dificuldades do passado. Ainda assim, o poder público permanece inerte diante de todas essas pessoas talentosíssimas que fazem a arte e a cultura florescerem na Zona Oeste (salvo raras exceções que confirmam a regra). A escritora e minha amiga Nancília foi uma grande batalhadora pela institucionalização dessas vocações como política pública municipal.

Vale registrar nomes importantes com os quais tive contato e que fazem parte dessa trajetória: Marly Monte (e o grupo fundador do Circuito Literário, bem como seus membros ao longo dos anos), Dalberto Gomes (o fenômeno Bar 51 no Teatro Arthur Azevedo), Américo Mano, Rita Gemino (Prêmio FEUC de Literatura, em nível nacional), Hugo Gruenwald e Daysi Melo (Ciranda Cultural), Lenita Holtz, Alexandre Damascena, Nilton Silva, J. J. Germano, Gladstone Silva, Dartagnan Holanda e Carlota Duarte (primeiros anos do Bom Dia Poesia), Demétrius Gomes, Tuninho de Lita, José Américo, Rinaldo Leite, Marcos Damasceno, Fernando Teixeira, Silvia Fernandes, Renato Reis, Sílvio Alves, Dilson Ribeiro, Valeska Cabral, Caetana Dias, Elza Maria Fraga, Carlos Barbiere e Sérgio Alves. 

Lembro ainda dos/as queridos/as ex-alunos/as que se tornaram meus amigos e colegas de profissão: Maurício Osborne, Flávio Oliveira, Paulinha Machado, Suelen Domingos Lux, Nilson da Silva, Elba Gaya, Matheus Machado, Lybia Oliveira, Aline Santana, Adriana Silva, Rodrigo Torres, Solange Gomes, Raíssa Rizetto, André Germano, Gustavo Ferreira, Renata Tavares, Renata Viana, Selma Dias, Ramayana Del Secchi, Marcia Soares Scimmi, Isla Emigdio, Ingra Assis, Patrick Furtado, Janaína Ribeiro, Elisa Godoi, Sherida Aragão, Rosangela Sheyla Pedrosa Magalhães, Érica Motta, Rodrigo Marques, Monique Lopes, Lucas Amorim, Genilda Fragoso, Adriano Marcelo, Glauber Albuquerque, Thailine Ornellas, Adão Susano, Isabela Sobreira, Nathalye Duarte, Aline Monforte, Daiana Gomes, Isadora Lins, Joana Brito, Ana Carla Noronha, Jorge Adrihan, Thamyres Gonçalves, Matheus Oliveira, Rafael Pestana, Roberto Nunes, Janderson Salles, Maria Vasconcelos, Graciele Vicente, Roberto Lincoln, Andréia Brito e todos/as os/as alunos/as que tive, que orientei ao longo dos anos. 

É inegável o trabalho que todas as escolas, diretores e diretoras escolares, coordenadores e coordenadoras, agentes culturais, professores e professoras exercem na formação cultural e artística da população da Zona Oeste. Bem como os grupos de teatro, de dança, as escolas e os professores e professoras de música, e a Associação Comercial e Industrial de Campo Grande, Santa Cruz e Bangu. Destaca-se o importante trabalho que as CRES, as Metros e as Bibliotecas Públicas realizam em prol da capilarização cultural e da aproximação com os artistas locais, especialmente a de Campo Grande, Manuel Ignácio de Alvarenga — coordenada com muito carinho e profissionalismo pela minha querida amiga Pituka Nirobe —, a Biblioteca Comunitária José Vieira Filho (na Ilha de Guaratiba, coordenada pelos queridos amigos Iêda Thomé e Cid Thomé) e o trabalho imprescindível da Associação Vida Feliz.

Trata-se de um lugar que deu ao Brasil o Teatro Rural do Estudante, com minha amada amiga Dineyar Valente Plaza e o querido Rogério Fróes, além de Weber Werneck. Uma terra que, indo muito além da vocação agrícola dos hortifrutigranjeiros e do antigo ciclo das laranjas e do matadouro imperial, produziu obras cinematográficas fundamentais como As Aventuras Amorosas de um Padeiro, do querido Waldir Onofre.

Um território que contou com a contribuição de Mestre Saul, Vilma Camarate, Adelino Moreira, Bachulma Valtazema, Ives Macena, Regina Pierini, Elton Veloso, Jair Tavares, Roberto de Regina, Aluízio Resende, João Roberto Sobral, José Maria, Francisco Nagen, Alcir Pimenta, Moacyr Bastos, Fátima Oliveira, Gê Colibri e Odir Ramos.

Que abriga o Ecomuseu em Santa Cruz, a primeira Lona Cultural (em Campo Grande), o Teatro Arthur Azevedo e um centro esportivo de nível internacional como o Miécimo da Silva, além da Acadêmicos de Santa Cruz, do Bangu Atlético Clube, do Sereno de Campo Grande e de tantas figuras incríveis que por ali passaram. Um cenário que projetou talentos de destaque internacional, como Néris Cavalcante, Willian Vita, Júlio Corrêa, a família Assad, Clécio Régis, Jerry Cariry, Will Tom (ator, cantor, produtor, escritor e professor que conhece como poucos o cenário local e coordena, com Mário Ceita, a pujante Confraria dos Artistas Absurdos) e Lincoln Pereira.

E o que falar dos professores e professoras que unem a formação acadêmica aos seus talentos artísticos? Roberto Rodrigues, campo-grandense, é o atual Reitor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), uma das mais importantes instituições do país. Marcos Pasche, também campo-grandense, atua como Pró-Reitor de Extensão da UFRRJ em um trabalho incrível de abertura universitária, com foco na educação básica e no acesso ao ensino superior. O professor Amílcar Araújo Pereira, da Faculdade de Educação da UFRJ, estudou no Colégio Municipal Almirante Saldanha. O querido professor Alcmeno Bastos, de Literatura Brasileira da UFRJ, lecionou no início da carreira na E. M. Charles Dickens. Jorge Vicente Valentim, da UFSCar, lecionou na região. Alguns dos atuais técnicos esportivos, comentaristas e atletas do país estudaram na Universidade Castelo Branco.

Nossa formação cultural e intelectual deve muito a nomes como Cícero César, Flávio Pimentel, Umberto Eller, Lya Martins, Frederico Lima, Maria José, Artur Sérgio Lopes, Tatiana Reis, Mauro Ferreira, Carlos César, Miriam Dolzani, Nathalia Rodrigues, Jane Souza, Marcos Dias, Cléber Amaral, Gabriela Barbosa, Rosana Benatti, Luiza Alves (professora da UFRRJ), Maria Teresa, Miguel Louro, Suely Moura, Lídia Conceição, Sandra Guimarães, Solange Guimarães, Miriam Malafaia, Marco Antonio Chaves, Gilda Batista, Simone Batista (da UFRRJ), além da saudosa amiga e professora universitária da UFRRJ Mirian da Silva Pires (de Santa Cruz) e dos saudosos Alzir Fourny Marinhos, Aparecida Tiradentes, Mauro Lopes, Caroline Reis, Isaac Gayer e Luís Henrique.

O trabalho dos professore e professora tem sido expressivo e relevante e oxigena o trabalho de formação de público e de letramento intelectual de alunos e alunas em todos os segmentos. Somam-se a esse ecossistema pluricultural nomes como os de Rojane Dib, Irene Vianna, Janice Souza,  Bentaci Benac, Naira Veríssimo (poeta e advogada), Anderson Vieira, Elany Brabo, Márcia Vasconcelos, Beatriz Martins, Nívia Pombo (da UERJ), Jayme Ribeiro (IFRJ), Luís Mendes, Danielle Menezes (da UFRJ), Manuel Alvarez, Valdemar Ferreira, Oswaldo Bendelack, Deivson Carvalho, Jaqueline Escobar, Carlos Alberto Monteiro, Wolney Malafaia, Zoraia Araújo, Lucy Julião e Renata Gomes, Wagner Alexandre (da UFRRJ), Bruna Rodrigues, Fábio Coutinho, Regina Celli, Rosemary Affonso (da UFRRJ),  Ana Crélia (da UFRJ), Francisco Barbosa (radialista), João Jardim (cineasta/documentarista), Luiz FernandoVianna, Nilce Masson.  Gente que atua, nasceu, ou trouxe para a Zona Oeste, em algum momento, a qualidade de seu trabalho e de sua formação.

No ano de 2025, contamos ainda com a presença do imortal da ABL e Professor Emérito da UFRJ Godofredo de Oliveira Neto, e da Professora Titular da Faculdade de Educação da UFRJ e poeta Anabelle Loivos no mais antigo festival estudantil de poemas do Brasil. Lembramos com reverência da saudosa professora Hilma Ranauro, da Universidade Federal Fluminense, que atuou na educação da Zona Oeste por muitos anos. Na UFMG, destaca-se o querido amigo, poeta e escritor Leandro Garcia Rodrigues, professor de Literatura Brasileira, oriundo de Santa Cruz.

Da Zona Oeste saíram grandes sucessos da MPB — Negue (de Adelino Moreira), diversas canções de Nelson Gonçalves, O Moleque Tá Aí pela Cidade (de Luiz Guima) e Luzes da Avenida, sucesso da Jovem Guarda (composta por Osni Vidreiro), o querido amigo Bob Run, de Santa Cruz para  o mundo —, além de clássicos populares de Alípio Martins, Fernando Lélis e Genival Santos (a quem conheci pessoalmente, pois meu pai foi jardineiro de sua casa e ele chegou a nos visitar quando nos mudamos para o sítio). O famoso Palhaço Carequinha fez uma de suas últimas apresentações públicas no Shopping Passeio, em uma das muitas e importantes exposições fotográficas produzidas por Malu Ravagnani e Hélcio Peynado.

Os principais nomes do teatro e da música popular brasileira já se apresentaram no bairro (na Lona Cultural, no Teatro Arthur Azevedo e no pequeno auditório do Rotary na Rua Pontes Leme), de Fernanda Montenegro a Roberto Carlos. Na região, músicos e compositores impulsionam a formação musical, trabalham na noite, gravam jingles e de faixas de demonstração a álbuns inteiros para cantores e cantoras. Temos ainda comunicadores, na melhor tradição do pioneiro Almir Rangel, como o querido professor João Ricardo; e radialistas e locutores que mantêm vivas as raízes da nossa linguagem, modernizando-a com humor, talento, empatia e criatividade.

Intelectuais, políticos, agentes de segurança pública de destaque, empreendedores e trabalhadores do comércio, da indústria, dos serviços, do direito, da medicina, da engenharia, do jornalismo, da psicologia e da inovação construíram, com sua visão de integrar tradição e modernidade, o que a Zona Oeste é hoje — alguns mais lembrados, outros injustamente esquecidos. Daí a relevância de um projeto de extensão como este: levar a Zona Oeste para a UFRJ, reconhecer seus talentos e mapear a cartografia de sua gente, de sua história, de seus artistas e de seus afetos.

O I Encontro promovido pela UFRJ abre um espaço fundamental para novos talentos, vozes emergentes e perspectivas múltiplas sobre a região. Trata-se de um passo plural para a compreensão desse ecossistema cultural, artístico e intelectual e um convite para que grupos e coletivos avancem rumo ao fortalecimento institucional, ao acesso ao Terceiro Setor e à participação em editais públicos de fomento.

A pesquisa, a análise documental e os testemunhos finalmente sinalizam o que quem vive ou viveu a Zona Oeste já sabe na prática: a Zona Oeste é o centro, não a margem. A ausência de políticas públicas descentralizadas e a concentração de fomento no Centro e na Zona Sul é que criam essa falsa impressão de periferia que, associada aos desmandos políticos e socioeconômicos, produz um retrato que não condiz com o talento e a capacidade de seus trabalhadores e trabalhadoras, de seus artistas e intelectuais. A engenheira civil Elza Pinho Osborne reconheceu essa centralidade e fez importantes obras para que Campo Grande e os bairros da Zona Oeste tivessem melhores condições para sua população, seus estudantes e seus artistas. Igual trabalho e empenho tiveram Moacyr Bastos, Miécimo da Silva, Alcir Pimenta, Raul Cappelo Barrozo, Francisco Freire Allemão de Cysneiros, Benjamim Antônio da Rocha Faria, Alim Pedro, Francisco Gonçalves de Vasconcelos, Júlio Cesário de Melo, Marechal Villagran Cabrita e Victor Konder, cada qual em sua época, com sua trajetória ligada à Zona Oeste e com sua importância em diferentes segmentos da atividade humana.

A Zona Oeste ocupa posição central no esporte, no comércio, na indústria, nos serviços e na educação. Basta lembrar das instituições e marcos locais: Instituto Sarah Kubitschek, Colégio Miécimo da Silva, E. M. Jair Tavares, Colégio Raja Gabaglia, Colégio Nossa Senhora do Rosário (sede do festival estudantil de poesia mais antigo do país), Colégio Monteiro Lobato, Colégio Padre Belisário, Colégio Venezuela, Colégio Campo Grande, os CIEPs por toda a região (como o CIEP Albert Sabin), E. M. Rosária Trota, E. M. Raimundo Correia, E. M. George Washington (onde iniciei minha vida escolar) e E.M. Almirante Saldanha, entre tantos outros colégios; a Unidade do Colégio Pedro II em Realengo; além das faculdades e universidades FAMA, FEUC, Moacyr Bastos, UERJ, Castelo Branco e Faculdade São José.

Essa história vem de longe: de Ítalo Del Cima, Miécimo da Silva e Moacyr Bastos; dos fundadores da FEUC; de Adelino Moreira e do ICC; do Teatro Rural do Estudante; da implantação das Lonas Culturais e do desenvolvimento da indústria e do comércio. A moeda nacional já foi impressa na Zona Oeste; uma das maiores fábricas de pneus do mundo e uma das maiores indústrias de bebidas (Ambev) estão sediadas aqui; uma das maiores e mais luxuosas salas de cinema do país ficava no bairro (o Cine Palácio Campo Grande); a novela O Bem-Amado e a célebre adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo foram gravadas na região; e o Sítio Roberto Burle Marx, referência mundial em paisagismo, também se encontra aqui. Além disso, Campo Grande foi o marco inicial do projeto da Via Dutra (antiga Estrada Rio–São Paulo), abrindo caminho para o desbravamento da Baixada Fluminense e, posteriormente, servindo como um dos principais acessos à UFRRJ.

Parabenizo à mestra Professora Dra. Eleonora Ziller, ao Miguel Marques, à querida Cintic (com quem tive maior contato durante o processo) e todos e todas que integram o Lembrar/UFRJ por esta iniciativa. Agradeço a oportunidade e deixo meu abraço fraterno aos participantes das mesas temáticas, saraus e comunicações. Saúdo também a memória de quem nos precedeu nessa caminhada, desejando que todos e todas — mesmo os não citados nominalmente — se sintam reconhecidos e abraçados.

É importante cuidar do Povo, cuidar da Democracia, da Liberdade, e valorizar os/as professores/as, a Pesquisa, a Ciência, a Extensão Universitária, os/as Artistas e os/as Intelectuais. Manter as Universidade abertas, receptivas, democráticas e socialmente referendadas é um pilar importantíssimo para as melhorias de que a sociedade precisa e pelas quais aguarda: justiça, ética e equidade. Talento não nos falta; vontade de trabalhar e competência para ensinar e aprender nós temos. É preciso, no entanto, mitigar o que nos divide, separa, desmobiliza e tenta nos inferiorizar ou nos rotular de forma preconceituosa e superficial. Que possa haver novos encontros e que as Universidades, Institutos e Colégios federais — bem como todas as nossas instituições de ensino em todos os segmentos —, valorizem e acolham seus/suas estudantes, professores/as e servidores/as. Que a UFRJ, casa da qual sou egresso no Programa de Letras Vernáculas e na qual fui professor na Faculdade de Educação, continue sendo um farol para o nosso país.





domingo, 1 de novembro de 2026

Poema: "Póstumo", de Erivelto Reis

Póstumo

Erivelto Reis
Não há ninguém que a morte
Tenha me levado
Que não continue vivendo em mim.
Através de mim
No que conscientemente enxergo
E num jeito de andar ou de franzir a testa
Que ainda hoje eu carrego.
Não é sobre DNA é sobre um amor
Que insiste em se renovar
Com a presença da saudade, da ausência,
Da subjetividade... da imaterialidade.
Não é sobre irrealidade
Porque a lembrança,
a saudade e a imaginação
Tornam absolutamente real
Os que só vivem em nosso coração.
Não é sobre imortalidade
É sobre a condição mais natural
E que torna a humanidade frágil
E ao mesmo tempo sobrenatural
Em sua ilusão de poder
Em sua crença na versão plural
E diáfana de uma vida espiritual.
É uma forma comum e utópica de preservar
O amor por aquelas pessoas que se foram...
Às quais só a saudade e memória
Nos permitem abraçar
Com a emoção de nosso existir mais íntimo,
De nossos apelos e pensamentos mais secretos.
Com a reverência muda dos que creem
Nos mistérios da vida e nos afetos.
Não há ninguém que a morte
Tenha me levado
Que não continue vivendo em mim.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Poema: "As cinco intransigências do mandante", de Erivelto Reis

As cinco intransigências do mandante

Erivelto Reis

1. Ter um mapa da via-crúcis e um roteiro de traições disfarçadas no bolso do paletó ou no fundo da necessaire;
2. Bloquear o caminho do outro para que o outro não possa voltar, desviar ou evoluir;
3. Supor que tem poder de decisão sobre o orvalho, a gota de chuva ou sobre a lágrima da exsudação;
4. Amar o ódio dos desafetos dos seus perseguidos;
5. Ler mal, ler pouco e ler tarde... e imaginar que está a salvo dos holofotes da verdade.
Porque o primeiro dia após o homicídio da honra
é sempre o primeiro dia de fúria.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Crônica: "Garoto pobre", de Erivelto Reis

Garoto pobre...

Erivelto Reis

Garoto pobre. Acorda um dia e descobre a sua realidade. Vai deixar de ser garoto. Vai deixar de ser menino. Dali pra frente vai ser muleque. Pobre não vai poder deixar de ser. Vai sofrer. Vai ser explorado. Vai receber um um adesivo, vai ter o corpo tatuado. Alvo. Vai lutar pra aprender. Vão ensinar pra ele que nem ele nem a escola não têm razão pra existir, que não têm razão de ser. Garoto pobre. Acorda um dia. A barriga vazia, a casa vazia. A mãe é sua estrela guia, saiu de casa pra trabalhar quando nem bem amanhecia o dia. Tem hora pra sair, mas não tem hora pra voltar. Garoto pobre. Acorda um dia e descobre que pra sobreviver vai ter de se virar. Enquanto os outros meninos têm aonde se apoiar. Num montão de privilégios e na tal meritocracia. Garoto pobre. Acorda um dia. Tem uma irmã da igreja, tem uma senhora rezadeira, tem um filha de Oyá, vizinha ali do beco, vizinha ali da vila que ajuda a mãe a olhar, que dá um pão com manteiga e que diz pra ele ir estudar. Na escola ele não chega. E se chega, nem sempre é pra gostar. Garoto pobre. Acorda um dia. Semente em terra estranha. Difícil de germinar. A mãe trabalha e vigia. O pai se evadiu, escapou, ninguém sabe onde foi parar. Deixou o filho no mundo, sozinho, para a mãe criar. Garoto pobre. Acorda um dia. Aprende a se rebelar. Seja pela habilidade, pela força de trabalho, pela coragem de aprender a estudar. Garoto pobre. Acorda um dia. E descobre onde está. Descobre o preconceito. Descobre que é um menino negro e começa a se preocupar. Tem um código não escrito que não precisam lhe ensinar. Manter a cabeça baixa, não correr, não questionar. Garoto pobre. Acorda um dia. Mas não para de sonhar. Cuida dos irmãos menores, faz carreto, vende bala. Das coisas que a mãe fala, aprende Jesus e Iemanjá. Aprende pai nosso, ave maria e saudação para os guias e oferenda pros orixás. Garoto pobre. Acorda um dia. Uniforme. Beca Capelo. Cabelo na régua. Uniforme militar. Trabalha de dia. Estuda à noite. Diploma vem com luta e sua avozinha é quem vai entregar. Garoto pobre. Vence na vida. Tem seu trabalho, constitui sua família. Mantém os seus ao seu lado. Não esquece o que passou, mas não lembra com saudade. Agradece à sua mãe, e à Educação que o formou. Garoto pobre. Acorda um dia. E descobre a realidade. Qualquer atalho que pegasse alterava sua vida. Garoto pobre. Acorda um dia. Garoto pobre, acorda! E descobre que o destino-labirinto pode ter uma saída. Garoto pobre...

domingo, 25 de outubro de 2026

Textos escritos no dia da reeleição do Presidente Lula (Tem 15 posts e textos aqui)

1)

Hoje é sem sombra de dúvidas um dos dias mais importantes para a história da nossa democracia. Vote pela liberdade, pelos trabalhadores e trabalhadoras, por uma realidade verificada por líderes mundiais e personalidades do mundo todo, pela educação e pela saúde gratuitas e de qualidade e acessíveis a todas as pessoas. Vote pelos serviços públicos e pelos servidores à disposição dos cidadãos e cidadãs, pelos aposentados e por tudo o que ajudaram a construir. Não vote em uma pessoa violenta, com ligações com bandidos de colarinho branco, tráfico de influência, poderes paralelos ligados à brutalidade da intimidação e da violência, lavagem de dinheiro, estupidez, desfaçatez, cinismo e ignorância. Não vote em quem se aproveita da fé das pessoas e usa a mentira para manipular. Vote pelo direito de continuar votando e escolhendo. Vote em quem tem propostas e já as colocou e continua pondo em prática com trabalho, sensibilidade e inteligência. Não vote em alguém cujo preconceito, a discriminação e o desrespeito às leis, às pessoas e às instituições já foi visto e declarado. Não vote em quem deseja entregar o país e subordinar a nossa soberania. Hoje é um dos dias mais importantes da história da nossa democracia.

2)

É preciso ler. É preciso contexto. É preciso entender que grupos de interesse e confiança (família, igreja), podem ser orientados por mídia e mercado, que têm condições de manipular informações e dados que chegam até as pessoas e grupos nos quais confiamos e ao grande público pra nos fazer acatar mentiras descontextualizadas ou visões niilistas do mundo, acolher frustrações, raivas inconfessáveis e desproporcionais e assim manter privilégios das chamadas elites econonômicas e levar ao poder os sabujos que lhes interessem. Leiam.

3)

A primeira pessoa que conversou comigo sobre Lula foi minha saudosa professora de matemática, a querida Suely Moura (uma professora formada em Matemática pela UFRJ e graduanda em Psicologia pela Gama Filho naquela época). Ela promovia eventos culturais na escola. Foi uma das professoras que tentou a implementação do horário noturno e atuou nele pelo breve tempo em que ele existiu. Depois, se apaixonou pelo bairro e veio morar por aqui. Foi também diretora de nossa escola. Era o ano de 1987. Ela explicava alguma coisa sobre aprovar a Constituição. Me lembro claramente que ela dizia que era discriminada por ser uma mulher negra que acreditava num político de São Paulo que tinha sido metalúrgico e que havia fundado um partido que pensava nos trabalhadores. Dizia inclusive que um artista que ela idolatrava, Chico Buarque, (que ela só amava menos do que o Caetano) era favorável a essas ideias. Acreditem: ela passou pra minha turma a tarefa de criar uma lista com os nomes do presidente e dos ministros divididos por pastas e por atribuições e de entrevistar alguém ligado à política (líder de associação de moradores, um político local). Nós conhecíamos o senhor Paulo Freitas, que era um homem respeitado em nossa vizinhança e cujo pai tinha sido um importante líder comunitário, trazendo ou ajudando a trazer uma linha de ônibus e a escola estadual para o nosso bairro. Suely Moura analisava canções como as da Legião Urbana, especialmente Angra dos Reis, Que país é este? e Vento no Litoral, sua preferida. Ela também levou pra gente ouvir juntos em aula: O Guri, do Chico Buarque; Eu não sei dançar, da Marina Lima e Ela e Eu, do Caetano Veloso, na interpretação da Bethânia. Era entusiasta do livro O Alquimista, do Paulo Coelho. Dizia que a gente devia buscar aprender e saber mais coisas e coisas diferentes daquelas que nossos pais sabiam e podiam ensinar. Eu fui aluno do Colégio Estadual José Bonifácio. Minha professora de Português, a querida Maria Teresa, também falou de Lula quando trabalhou em sala de aula as canções do Cazuza do álbum Ideologia (trabalhou essa música e o Blues da Piedade, que inclusive caiu na prova). O professor Edson, de Redação e a professora Naísa ensinavam o pensamento sobre o Brasil, trabalhando poemas e crônicas. A professora Solange de Geografia, trazia fitas k7 que me emprestava, com músicas internacionais, clássicas e contemporâneas, especialmente uma gravação do Kitaro. A professora Simonie emprestava livros (Brida, Admirável mundo novo), falava das relações de trabalho ao longo da História e de como as guerras começavam. A professora Sandra Guimarães falava que havia perto de nós uma Universidade (UFRRJ) que poderia mudar a nossa vida pra melhor quando terminássemos a escola. A professora Solange (que tinha sido merendeira e se formou em História) foi a primeira a me explicar o que era a direita e a esquerda e o que significava um pensamento voltado para a prática ditatorial num governo e nem foi na sala de aula, foi numa conversa no corredor. O professor Oswaldo, de Organização e técnicas comerciais me deu uma Constituição de presente, um mês depois da promulgação da Carta Magna. A professora Fátima me ensinava matemática de uma maneira que eu conseguia entender. Foram professores e professoras que me apoiaram como cidadão através da educação. A inflação era de 89% ao mês, estávamos ainda a caminho da primeira Constituição e à caminho da primeira eleição direta para presidente. E os professores e professoras que tive na educação pública me ajudaram e acreditaram em mim, conversaram comigo, me ouviram e me inspiraram. Pouco se falava em notas. Buscava-se ensinar. Dialogar.

4)

Que as noites de esperança jamais encontrem a manhã da angústia. A democracia é um valor tão caro a um país civilizado que nenhuma violência ou projeto de barbárie poderá detê-la. Mais de 700.000 pessoas têm suas memórias pranteadas e honradas com essa eleição. Milhões de brasileiros e brasileiras dignificam a história de lutas e resistência de nosso povo. Democracia, respeito e justiça para todos... até para os que a desonram e tramam contra ela. Que paguem pela tentativa de golpe e pelos males que executam contra o país.

5)

Você me disse da sua emoção quando encontrou com o presidente Lula ainda quando ele estava no sindicato dos metalúrgicos. Depois você me disse e eu testemunhei a sua alegria quando Fernando Henrique passou a faixa presidencial. Você ficou entusiasmado com a reeleição, mas me alertava sempre sobre a fragilidade da democracia brasileira frente aos interesses de gente inescrupulosa e as manobras internacionais, naquele momento especialmente contra as estatais brasileiras e não se conformava com a venda da Vale pelo governo FHC. Quando veio a presidenta Dilma, você ficou muito feliz, sobretudo porque ela tinha enfrentado, assim como você, os horrores de uma sessão de interrogatório e tortura. E me alertava mais enfaticamente sobre como uma mulher importante como a Presidenta Dilma poderia despertar a ira das falsas elites e do congresso misógino e machista do nosso país. Eu argumentava, dizia a você que um governo de centro esquerda poderia ser uma tendência na política brasileira. Mas você estava coberto de razão. Você dizia que o "Bonossauro" e gente como ele era um perigo pra nossa democracia. Você foi embora em janeiro de 2013 e não viu o horror em que esse país foi se tornando a partir do golpe midiático-legislativo-judiciário e a traição do vampiro temerário. Daí pra frente, os direitos dos trabalhadores, o impeachement de uma mulher honesta e correta e um julgamento sem provas e manipulado em diversas esferas e com a conivência da grande mídia e a prisão por 580 dias do ex-presidente Lula marcariam a nossa história. O saqueamento da Petrobrás, o desmonte de estatais de energia e água, a entrega de nossos aeroportos, da embraer, o ataque aos servidores e aposentados... tudo que puderam fazer de mal eles fizeram. Veio a pandemia e 714.000 brasileiros e brasileiras perderam a vida. Enquanto as instituições e a grande mídia passavam pano pra um presidente miliciano e corrupto. Um homem grosseiro, violento e estúpido que foi colocando sua prole e seus aliados nos cargos mais importantes do país e transferindo nossas riquezas para empresas estrangeiras. O ex-presidente Lula foi eleito e derrotou esse "Bonossauro" pai e hoje acabou de derrotar o filho dele. Mas há muito que se fazer nesse país. Você sempre escreveu e disse seus poemas em favor da democracia, da liberdade e do bem estar dos trabalhadores e trabalhadoras, das crianças e suas famílias. Você escreveu contra a ditadura em seu Livro de Poemas. Disse que ela era como "cacos de vidro, cortantes e pontiagudos que mesmo em sonho" ainda poderiam cortar. Você me alertou e me orientou para ficar ao lado das pessoas mais simples que não tinham o que você dizia que em mim era um dom "a comunicação franca e espontânea" com as pessoas. Recomendou expressamente no prefácio do meu livro: "se eu ficar, leve a mensagem ao povo do meu Brasil. Vou contigo, poeta". Estamos aqui hoje. No limiar entre a Democracia e a barbárie e ainda há tanto por fazer. Mas nessa noite, em que o Presidente Lula foi reeleito, contra todas as manobras e prognósticos. Em que executamos o Hino da Independência em plena Avenida Paulista, no coração do corpo capitalista desse país, havemos de celebrar. Em sua memória, meu amigo, poeta pernambucano, meu grande ídolo, que foi como um pai pra mim, amado e inesquecível Patativa da Zona Oeste.

6)

Narcisos não têm máscaras. A beleza que veem é falsa.

7)

É preciso derrubar o hediondo NEM - um abismo entre a educação dos meninos e meninas mais pobres e o que se oferece aos filhos e filhas das elites econômicas e mesmo da classe média nesse país -reempoderar os professores, qualificá-los e requalificá-los adequadamente, equiparar salários ao que se pratica nas universidades conforme o nível de formação, melhorar as condições de trabalho, limitar o número de alunos por turma ao que permita acompanhar realmente os estudantes; implementar a Dedicação exclusiva para esses profissionais com salário compatível; estabelecer programas e sistemas de ouvidoria e compliance independentes para combater assédio institucional aos docentes, criminalização da docência e abusos de gestores contra os profissionais através da perda de sua autonomia e da precarização de seu trabalho e do seu adoecimento laboral; Lotar o professor numa única unidade, incentivar programas nas universidades para apoiar e desenvolver práticas para o que e a escola poderia e deveria ser e não para mitigar e remediar o que ela é; realizar duas edições ao ano do ENEM, restringir o avanço de editoras, plataformas e empresas privadas à educação pública básica, fiscalizar empresas prestadoras de serviço e terceirizadas e acabar com a exploração dos trabalhadores e trabalhadoras dessas empresas e estabelecer protocolos de permanência, conduta e responsabilização familiar, formação técnica e tecnológica, inclusiva e diversa para além da ideia de frequência e notas para que a universalização do Pé-de-meia possa surtir o efeito pretendido. E tudo que se aplique ao Ensino Médio, deve ser aplicado, na justa medida do que caiba e seja pertinente, com cuidado, gestão coerente e valorização docente, à maneira como prefeituras país afora administram a educação fundamental.

8)

Note como fica indignado um fascista quando descobre que você não tem medo dele. E perceba como ele fica furioso quando intui que não pode te afetar através da violência e da ameaça. E a sua expressão de revolta e destempero quando percebe que a inteligência e a coragem que ele acha que tem não chegam nem aos pés da inteligência e da coragem daqueles aos que ele tenta intimidar. As vitórias pessoais que um fascista angaria vêm da manipulação, da covardia e da traição aos valores mais inegociáveis como a ética e a verdade e do horror e da morte (mesmo que seja da reputação) de seus opositores.

9)

O pai e a mãe da minha mãe eram sitiantes e lavradores. O pai do meu pai trabalhava como feirante; a mãe do meu pai era costureira. Eu não votaria jamais em quem apoia torturadores, gente armada, violência, opressão contra os trabalhadores. Meu avô ouvia Luiz Gonzaga. Forró. Meu pai era um jardineiro. Minha mãe era uma trabalhadora do lar, uma empreendedora. O Poeta Primitivo Paes, meu maior ídolo, enfrentou corajosamente a OBAN e os torturadores. Sou casado com uma professora amada por seus alunos e grande exemplo de sensibilidade e ética. Minha trajetória é dentro da escola, da Educação, da Arte, da Literatura. Meu voto é Lula 13 pela Democracia e pela Liberdade.

10)

18/10/26

Não briguei nem me afastei de ninguém por política. Me defendi apenas de um projeto de poder que me quer submisso, amedrontado e refém dos abusos contra a democracia, os direitos humanos e a minha integridade emocional, física, psicológica e a de minha família. Nenhum dos princípios que eu apoio fará com que uma força opressora vá enviar agentes a casa de ninguém para lhes intimidar ou retirar direitos constitucionais ou trabalhistas de quem quer que seja. Nenhum dos princípios dos quais eu partilho vai fazer com que eu me ufane ou me imagine pertencer a um grupo econômico que está muito distante de minha realidade e, em muitas situações, a partir de privilégios, sonegação, tráfico de influências e coisas violentas e abjetas como preconceitos diversos e ilicitudes das mais variadas. Nenhum dos princípios com os quais me identifico tem um canalha num altar ou num púlpito se aproveitando da confiança de quem quer que seja. O Deus no qual acredito é muito grande pra ser capanga ou cabo eleitoral. Eu não briguei com ninguém por causa de política. Eu apenas me defendi da violência das mentiras que não satisfeitas em querer deturpar a História, quiseram reescrever a minha história e a de trabalhadores e trabalhadoras, cidadãos e cidadãs como eu, com uma biografia em favor da democracia e da equidade. Passe bem. O cortejo de horror, uma vez que seja posto em movimento, não pode cessar sem destruir as pessoas. Pense nisso.

11)

18/10/26

O comportamento do candidato do PL nos momentos de fala do seu adversário durante o debate de hoje, 18/10/26, não é estranho a quem exerce o magistério, especialmente no cenário pós-pandemia.
Ali estão presentes elementos verificáveis cotidianamente em muitas unidades escolares: o desrespeito, os arroubos de deboche e ironia, a desqualificação da fala alheia e os preconceitos de raça, idade e gênero (sexismo, machismo e etarismo) por parte de estudantes mal intencionados e desrespeitosos. A tentativa de intimidação física... Soma-se a isso a propagada desvalorização salarial — a despeito de uma formação de qualidade —, o famoso "sabe quem eu conheço?", o "tanto faz", o "para que fazer isso?" e até o "amarrado e repreendido", tão característico de uma prática social específica e que na escola serve pra demonizar o professor, o que ele ensina e o que ele solicita que o estudante assuma como um mínimo de interesse e comprometimento. São atitudes que visam à desconstrução da autoridade docente e à criação intencional de um conflito relacional — uma manobra proposital para mascarar o desprezo do estudante pelo sistema educacional (ou sua percepção, ainda que inconsciente, de que o sistema existe apenas para capturar métricas e números) sob o falso pretexto de combater um "professor exigente e autoritário".
As táticas utilizadas pelo candidato oponente ao presidente Lula são técnicas treinadas à exaustão para desmoralizar, desmobilizar e inferiorizar o outro. Dispensam formação, ética, intelectual - em certa medida -, e comprometimento; funcionam sob a lógica deturpada de que são apenas atos pontuais e contextuais e que, portanto, estariam imunes a consequências, na perspectiva equivocada desse tipo de pessoa, obviamente. Na escola o problema se potencializa ainda mais, uma vez que, em nome de quem não age assim, o professor tem de se empenhar ainda mais, precarizando-se e arriscando-se para que bons estudantes tenham o seu direito de aprender garantido.

O que o candidato do PL fez - como tática de desrespeito e tentativa de menosprezo e intimidação - está em cartaz todos os dias, de segunda a sexta, em uma escola pertinho de você — além de circular 24 horas por dia em milhões de páginas, canais, redes sociais e grupos de interesse. E o mais grave: ainda há quem aplauda e não veja nisso o menor problema.

12)
17/10/26

Qual parente seu você denunciaria num regime de perseguição a quem lutou pela democracia? Seria teu irmão mais velho, que lutou contra a extrema-direita? Que foi reconhecer sua mãe na morgue, o corpo dentro de um plástico semelhante a um saco de lixo? Denunciaria seu pai, eleitor do Chico Alencar? Um lavrador, ajudante de caminhão, um jardineiro que na juventude lutou contra fazendeiros e seus jagunços no interior de Goiás e colocou a própria vida em jogo para proteger seu outro irmão, e que trabalhou até morrer, sempre mantendo a dignidade pelo trabalho, pela igualdade entre as pessoas, independentemente da classe social? Qual parente seu você denunciaria num regime de perseguição a quem lutou contra a extrema-direita?
Se a esquerda está no poder, cobre dela, critique, fiscalize. Não passe pano, não. Não use seu voto como passe livre para soltar da cadeia extremistas que planejam assassinatos como forma de se manter no poder a despeito da democracia. Não dê passe livre para tirar da cadeia um sujeito inescrupuloso que negou vacina para as pessoas que morriam de COVID.
Qual parente seu você vai denunciar? Porque o projeto de poder da extrema-direita é truculento, violento, de perseguição e extermínio da pluralidade de pensamento. Não quereria estar na sua pele. Leia os documentos, leia os livros, assista aos filmes e documentários que falam daquela época. A esquerda democrática prega a qualidade de vida, a evolução do país, o respeito às leis e à Constituição, o direito à educação de qualidade, às garantias de soberania e de preservação da dignidade humana. Qual parente seu você vai denunciar quando o projeto de se perpetuar no governo, entregar o país, calar e perseguir adversários ao regime extremista estiver no poder?
Se essa gente chega ao governo, seu irmão professor, sua filha artista, tudo pelo que seu pai lutou a vida inteira significam menos do que o discurso de ódio dessas pessoas perversas. As mães trabalhadoras, analfabetas e exploradas pelos que não se importam com justiça e equidade social nunca vão ter uma oportunidade de melhorar. Minha mãe lutou muito por todos nós. Você vai explicar para ela que foi preciso denunciar seu irmão que lutou por democracia e contra a extrema-direita? Você vai consolar meus filhos? Vai explicar para eles como eu saí para trabalhar e nunca mais fui visto? Vai deitar a cabeça no travesseiro e dormir sabendo que a vida de quem apenas quis democracia e melhores condições de vida para o povo está ameaçada? Qual parente seu você vai fingir que não conhece? Quais contatos você vai excluir do celular ou bloquear até que os capangas e seus braços de ferro chamem no portão para ameaçar? Qual parente seu você vai denunciar?

13)
15/10/26
Vou te explicar rapidinho:
01) Antes de um ambiente ficar tóxico, ele fica hostil;
02) A diferença entre tóxico e hostil é que hostil é tóxico direcionado a um indivíduo ou grupo menor ou que não detenha autoridade e poder;
03) Quem não te respeita com a maioria a seu favor, já não respeitava antes, mas não tinha coragem de dizer;
04) Escola é um lugar que pode adoecer e sacrificar os seus trabalhadores e trabalhadoras;
05) Juntar um monte de gente com formação em nível superior não é garantia nem sequer de um "bom dia" sem rancor;
06) Quem assiste a uma injustiça sem protestar, não imagina que isso passa a se configurar como a expansão de um limite de violência institucional;
07) Discordar não é nada demais; retaliar com omissão das próprias falhas é algo covarde e violento;
08) Quem omite uma parte da história pra te pintar como ruim não precisa sequer da história cuja narrativa supõe controlar;
09) Demonstrar algo com um recorte da realidade é uma manipulação barata que não se sustenta além do próprio barulho;
10) Não vale a pena ensinar quem não tem a capacidade de aprender com gratidão.

14)
15/10/26
Não fossem os meus professores e professoras desde o ensino básico, não fosse a Universidade Pública, gratuita, democrática, socialmente referendada, não fosse a minha companheira e os meus filhos, não fosse o poeta Primitivo Paes, não fosse a possibilidade democrática de acesso ao trabalho através de um concurso público, não fossem alguns amigos e amigas tão queridos/as, a minha história teria sido bem diferente. Não posso concordar com discursos de ódio, de intimidação, de assenhoramento sobre o servidor, de desvalorização docente, de fragilização e precarização. Não posso concordar com quem quer fazer o que bem entender sem estudar e se preparar para o exercício de sua atividade profissional. Não posso concordar com a manipulação barata de um instrumento democrático para a sua própria subversão. Não posso concordar com protagonismo sem responsabilidade. Não me coaduno com ninguém que por qualquer razão passe a atalhar contra sua própria biografia ou contra valores éticos e democráticos que considero inegociáveis, não importa por quais alegações. Beijo quem é de beijo, abraço quem é de abraço. Não me sento em qualquer mesa. Nem todo assunto me interessa. Não faço parte de panelas. Furo todas. Corporativismo só paga as contas enquanto a conta não chega.

15)
Há no magistério uma espécie de magia. Às vezes é uma empatia pelo que nunca mais vai ser. O professor de História Marcos Dias chorou quando me demitiram. Meus alunos e alguns colegas se solidarizaram de uma forma inesquecícel e inesperada que marcou pra sempre a minha história e a deles. Enquanto eu esvaziava o meu armário, o professor meu colega chorava e dizia: "não é possível uma coisa dessas". Uma professora, nossa amiga, foi demitida no dia do aniversário, enquanto esperávamos com bolo e festinha pra ela na sala de professores e sabíamos que as turmas pras quais ela daria aula naquele dia estariam prestando homenagens pra ela. Chegou pra trabalhar e foi demitida no dia do aniversário. Outro colega, adoeceu e infelizmente morreu sem receber o que lhe era devido. Não fosse pela família... Um colega foi humilhado publicamente pelo gestor que a meses não pagava os nossos salários numa plenária de conciliação e ali mesmo respondeu com classe e à altura e saiu imediatamente do recinto. Não passa um dia em que não me lembre dessas pessoas. Há no magistério também uma empatia pelo que nunca mais vai ser. Os bons professores vão entender do que estou falando.

Crônica: "Narciso e Dorian Gray", de Erivelto Reis

Narciso e Dorian Gray

Erivelto Reis

    Que fique claro: vimos uma face do nosso país que nos recusávamos a acreditar que existisse. Que acreditávamos que fosse resultado de desengano e desinformação. Ocorre, no entanto, que essa face é real, é o Retrato de Dorian Gray da democracia brasileira. Sua aparência é a de qualquer brasileiro ou brasileira, nossos irmãos e irmãs; no entanto, emulam sentimentos, respeito à democracia e às instituições, mas seguem intimamente um código, uma ética, um credo que destoa daquilo que está realmente à vista das demais pessoas.
    Tentaram identificar-se sequestrando nossas cores e a camisa da seleção de futebol; estão nas universidades, estudando e lecionando; estão nas escolas, estudando e lecionando; são nossos patrões; estão no serviço público em todos os escalões. Alimentam um ódio mudo, algo adocicado em alguns momentos... um "ódio com muito sódio", na maior parte do tempo, contra um modo de pensar o país com soberania e igualdade. De apoiar as pessoas, de se cumprirem verdadeiramente os princípios de uma gestão para o apoio às pessoas, a valorização da democracia, a seguridade social e o respeito aos trabalhadores e trabalhadoras. Quem ama a servidão dos trabalhadores ama a sua utilidade, a sua força de trabalho, o lucro que produzem, mas não os ama e respeita verdadeiramente.
Essas pessoas são líderes construídos pelo TikTok, por coaches, diplomas-relâmpago, leituras rasas, frustrações de ter e não ser ou de parecerem e saberem-se não sendo. São líderes de feudo, de egoísmos e privilégios os mais variados, que não se veem beneficiados por todos os privilégios de que gozam, mas se ofendem com o respeito e as práticas humanitárias de dignidade e oportunidade de ascensão social, do fim do ciclo da miséria e da exploração de que são vítimas as pessoas mais pobres e carentes em nossa sociedade.
A face do país que estas eleições revelaram refuta qualquer álibi de desconhecimento do projeto real de poder da extrema-direita para o nosso país. Infelizmente, o espelho não se quebrou a tempo de se coibirem as práticas que fundamentaram a entrada no Congresso Nacional e nos governos de diversos estados de uma gente torpe, vil, mal-intencionada e com um projeto de entregar o nosso país e a nossa democracia a quem pagar mais, como numa privatização de nossa soberania.
    A gente cheia de privilégio cuja face vimos, e a não tão privilegeda, que se colocou a serviço da potencialização dos discursos e práticas de exclusão e de servidão de nossa população em troca do sonho de migalhas — vejam, nem das migalhas... do sonho delas. Subalternizaram-se a troco do sonho do chamado "lixo de rico" em qualquer área: do carro, do nível de conta bancária, da localização da casa num determinado condomínio, de uma ou outra escola com pedigree para os filhos. Essa gente se vendeu pelo sonho de migalhas, pelo lixo de rico, pela possibilidade de escravizar a democracia brasileira aos interesses de corporações, influencers e seus patrocinadores e recebidos, corrompendo a verdade factual, debochando da educação, dos educadores, da ciência, da arte e da cultura.
Essas pessoas cheias de privilégios não se incomodam com auxílio-paletó, vales-refeição que custam mais do que o salário básico de um trabalhador. Essas pessoas cheias de privilégio, mas muito mais perto dos pobres do que dos milionários deste país, não viram o menor problema em demonizar o SUS, o funcionalismo, a escola pública, desmantelada em favor da privatização.
    Vimos o rosto dessas pessoas entre nossos próprios familiares, em nossos professores, em nossos colegas que respeitávamos, em nossos vizinhos. E como doeu que vimos esses rostos numa juventude que tem nas mãos o poder de tornar o Brasil um país mais justo, mas que escolhe torná-lo um país mesquinho.
    Como doeu ver nossos líderes, CEOs, empresários, pensadores e intelectuais, falando de lugares lotados de privilégios, contra seus empregados, seus consumidores, seus clientes, sua própria equipe. Como doeu ver pessoas que deveriam ser notáveis senhores e senhoras, que viram os efeitos da ditadura e da falta de oportunidades e exploração do povo brasileiro ao longo dos séculos XX e XXI, se prestarem ao papel de agressores, sabotadores, inquisidores do desejo de igualdade e equidade para a sociedade brasileira, usando como escudo a autoridade e uma suposta experiência.
    Vimos a face de cada irmão ou irmã que apoiou e se calou, mesmo depois da morte de mais de 700.000 pessoas, a um projeto de governo violento e corrupto, visando à implementação de uma dinastia de governo associada ao que de mais vil e perverso pode subsistir, corrompendo, adoecendo e se beneficiando da corrupção numa sociedade como a nossa... Vimos a face e ela revela o horror de um pacto demoníaco e/ou no mínimo, a face narcísica de um rancor doentio.
    Enquanto escrevo, o candidato do PL contesta o resultado das urnas. Talvez, mesmo anteveja e trame um novo oito de janeiro. É uma vergonha golpista atrás da outra. E são milhões de brasileiros com essa mesma expressão na face. Que possam mudar - que basicamente, é permitir que a democracia continue florescendo e que outras pessoas tenham também algumas oportunidades -, enquanto for possível. Mas, por agora, os que não temos essa face, comemoremos.

Crônica: "Lembrando de meus professores", de Erivelto Reis

 A primeira pessoa que conversou comigo sobre Lula foi minha saudosa professora de matemática, a querida Suely Moura (uma professora formada em Matemática pela UFRJ e graduanda em Psicologia pela Gama Filho naquela época). Ela promovia eventos culturais na escola. Foi uma das professoras que tentou a implementação do horário noturno e atuou nele pelo breve tempo em que ele existiu. Depois, se apaixonou pelo bairro e veio morar por aqui. Foi também diretora de nossa escola. Era o ano de 1987. Ela explicava alguma coisa sobre aprovar a Constituição. Me lembro claramente que ela dizia que era discriminada por ser uma mulher negra que acreditava num político de São Paulo que tinha sido metalúrgico e que havia fundado um partido que pensava nos trabalhadores. Dizia inclusive que um artista que ela idolatrava, Chico Buarque, (que ela só amava menos do que o Caetano) era favorável a essas ideias. Acreditem: ela passou pra minha turma a tarefa de criar uma lista com os nomes do presidente e dos ministros divididos por pastas e por atribuições e de entrevistar alguém ligado à política (líder de associação de moradores, um político local). Nós conhecíamos o senhor Paulo Freitas, que era um homem respeitado em nossa vizinhança e cujo pai tinha sido um importante líder comunitário, trazendo ou ajudando a trazer uma linha de ônibus e a escola estadual para o nosso bairro. Suely Moura analisava canções como as da Legião Urbana, especialmente Angra dos Reis, Que país é este? e Vento no Litoral, sua preferida. Ela também levou pra gente ouvir juntos em aula: O Guri, do Chico Buarque; Eu não sei dançar, da Marina Lima e Ela e Eu, do Caetano Veloso, na interpretação da Bethânia. Era entusiasta do livro O Alquimista, do Paulo Coelho. Dizia que a gente devia buscar aprender e saber mais coisas e coisas diferentes daquelas que nossos pais sabiam e podiam ensinar. Eu fui aluno do Colégio Estadual José Bonifácio. Minha professora de Português, a querida Maria Teresa, também falou de Lula quando trabalhou em sala de aula as canções do Cazuza do álbum Ideologia (trabalhou essa música e o Blues da Piedade, que inclusive caiu na prova). O professor Edson, de Redação e a professora Naísa ensinavam o pensamento sobre o Brasil, trabalhando poemas e crônicas. A professora Solange de Geografia, trazia fitas k7 que me emprestava, com músicas internacionais, clássicas e contemporâneas, especialmente uma gravação do Kitaro. A professora Simonie emprestava livros (Brida, Admirável mundo novo), falava das relações de trabalho ao longo da História e de como as guerras começavam. A professora Sandra Guimarães falava que havia perto de nós uma Universidade (UFRRJ) que poderia mudar a nossa vida pra melhor quando terminássemos a escola. A professora Solange (que tinha sido merendeira e se formou em História) foi a primeira a me explicar o que era a direita e a esquerda e o que significava um pensamento voltado para a prática ditatorial num governo e nem foi na sala de aula, foi numa conversa no corredor. O professor Oswaldo, de Organização e técnicas comerciais me deu uma Constituição de presente, um mês depois da promulgação da Carta Magna. A professora Fátima me ensinava matemática de uma maneira que eu conseguia entender. Foram professores e professoras que me apoiaram como cidadão através da educação. A inflação era de 89% ao mês, estávamos ainda a caminho da primeira Constituição e à caminho da primeira eleição direta para presidente. E os professores e professoras que tive na educação pública me ajudaram e acreditaram em mim, conversaram comigo, me ouviram e me inspiraram. Pouco se falava em notas. Buscava-se ensinar. Dialogar.