Tipinho
Erivelto Reis
Tipinho é clássico:
Privilégios só para os seus "chegados", carteira de favores a perder de vista, meritocracia — seu esforço sobrenatural, jamais visto e igualado em toda a face da Terra, fez com que ele merecesse julgar os esforços dos demais e estar onde pensa estar.
Tipinho é clássico:
Se o cartão de crédito falasse, choraria por sua pobreza real; acredita que financiamento compra tudo, até reputação; moralista. Seus livros de cabeceira — se e quando os lê — só têm capa, fórmulas niilistas de autoajuda e reforço às suas convicções tacanhas e medievais.
Tipinho é clássico:
A vingança permanentemente em ebulição por ter sido preterido quando se julgava o protagonista; o enlevo pelo senso comum, a sabedoria de quem nunca vai além do post ou da manchete. A confiança de quem a vida toda se acostumou à última palavra, de quem provou seu ponto corrompendo o agente de trânsito, escondendo o gato de energia elétrica, passando a caixinha de leite ou de cerveja sem pagar à vista de todos na parte inferior do carrinho de supermercado.
Tipinho é clássico:
Um sargento, um político, um empresário ou alguém que possa simular autoridade nos contatos de discagem rápida no celular ou no WhatsApp; um chip pra policiar a companheira e bancar o cara de família e outro pros seus fetiches, pras figurinhas, pros reels proibidões e pros contatos secretos de sua libido desleal e, às vezes, criminosa.
Tipinho é clássico:
Não foi o mais bacana nas festas, nem a rainha do baile, nem o amigo fiel de ninguém que não lhe pudesse oferecer alguma vantagem, desde um álibi insólito até um empréstimo a perder de vista.
Tipinho é clássico:
Radar pra corrupção alheia, menos pros seus bens em nome de laranjas, ou pras notas compradas ao contador de sempre no momento da declaração de imposto; a sonegação premiada, o dedo-duro, o assediador com um troféu de melhor em alguma merda irrelevante, um MBA de brinquedo ou orgulho de self-made man vocacionado.
Tipinho é clássico:
Cabeceira da mesa, bênção de beija-mão, todo mundo lhe deve alguma obrigação só por estar no mundo. Gorjeta vai com "não mereceu" e a esmola é um "não vou sustentar vagabundo". Professor é serviçal, prestador de serviço tem de dar graças a Deus de trabalhar pra ele e empregada é quase como se fosse da família.
Tipinho é clássico:
Maldoso, ardiloso, cínico, frio e calculista. Colérico contra os mais fracos e sedoso diante dos poderosos. Sua assinatura não vale um níquel, suas palavras nem o vento leva...
Tipinho é clássico:
Vontade de poder, vontade de ter pra tentar ser e não precisar saber e nem se arrepender. Tudo que toca pode virar uma arma. Qualquer pessoa pode virar um subterfúgio ou um alvo pra tergiversar suas contradições, suas ofensas e seus desafetos.
Tipinho é clássico:
É um tipinho apenas.
Mas é perigoso como uma doença.
