Silos
Erivelto Reis
Silos
Erivelto Reis
Cantilena
Erivelto Reis
Escuto o teu murmúrio
Como se fosse prece.
Em meio às tuas febres,
Não é o meu semblante
Que nos teus delírios aparece.
Caminhas pela casa,
Fantasma onipresente
Que não portando alma
Nem és santo, nem és gente.
Amou-me e desamou
Sofreu e fez sofrer quem não merece.
Amor, raro licor,
Escuto o teu murmúrio
Como se fosse prece.
Double Fantasy
Erivelto Reis
Às vezes,
Você pensa que está trabalhando
Mas está saindo
Do Dakota Building
Talvez pela última vez...
Às vezes, em certos lugares,
Você pensa que está agradando
Mas, sem saber, está apenas
Autografando um long-play
Pra um assassino.
Às vezes você pensa.
E enquanto pensa, nem sempre nota
(O monte de Judas em Dakota)
O quanto Chapman trama
Puxar seu tapete, puxar o gatilho,
Fechar sua porta...
Deixar órfão o seu mundo,
Deixar órfão o seu filho.
O futuro é pra dentro
Erivelto Reis
Quando
O Homem deixar de ser a humanidade
O feminino passar a ser o ser o universal
A arte for o ar que oxigena a existência
Começaremos a transformação
Quando
A educação comportar a memória da sabedoria ancestral
A ética estiver em todas as consciências
E a música nos irmanar
Em paz e afetos genuínos
Quando
Amor e amizade não forem mais substituíveis
Nem descartáveis
Haverá alguma chance
O futuro é pra dentro
Pra um lugar que ainda não existe
Em todo mundo
Oco, ergue-se e desmorona
Num jogo de luz e sombra.
Catedral ou cratera
Conforme avança o tempo.
Neutro
Seria um bom domingo
Erivelto Reis
A saída mais perto é para o fim.
E é também a mais longe
Disfarçada de única.
Não tem foice, nem alfange,
Nem caveira, nem máscara,
Nem túnica
Suficientes...
Quando se passa dos limites
Suportáveis.
O pensamento passa mil vezes
Filmes inclassificáveis.
Os hormônios, os neurônios
São intransigentes.
Tal como um membro amputado
Que não para de doer,
Como pode um coração amputado,
Dilacerado
Não parar um instante de se debater?!
Cérebro não é pátria alguma
Onde a razão possa se hospedar!
Quando não se constrói coisa nenhuma...
E corrói saber que o que se faz
Não machuca tanto
Como o modo que se diz
Receita clássica de fazer
Gente sem amigos, amargurada,
Última e infeliz:
Apenas mudar os móveis de lugar
E crer inaugurar um novo país...
Amanhã seria um bom domingo.
Tábua sem salvação
Erivelto Reis
Tristeza mareja o olhar
Saudade turva:
Tábua sem salvação!
Enquanto se tenta respirar...
Desespero é espalhar as lágrimas
No rosto, apertar os olhos,
Debatendo-se desordenadamente,
Gritando silenciosamente...
Soluçando cada sílaba
Do nome à deriva...
Medo: ente desobediente!
Naufragado etéreo.
Um mar na cara
Afogando o tempo...
–Tábua sem salvação –
Parados na eternidade do sofrimento.
Desesperado coração,
Desesperada mente.