Quem mais gosta
Erivelto Reis
Quem mais gosta
Erivelto Reis
Patenteado
Erivelto Reis
Patenteada
A perfeição irresponsável
De criticar sem fazer nada,
Do teatro patético
de folhear os livros e não lê-los.
De fingir que sabe do que está falando.
Patenteada
A empatia seletiva
A defesa indefensável de um não-lugar
Garantido sistematicamente por um não-educar...
Pode patentear.
O fio da navalha com que canalha
Se espraia nos futuros que interrompes.
Mas não espere meu silêncio conivente.
Não vou ficar parado.
Não serei indiferente.
Atravesso sua cancela...
Eu furo sua panela.
Patenteado.
Forró
Erivelto ReisRetrô-grafado
Erivelto Reis
O autógrafo é um rabisco
Que só vale quando o poeta está vivo
Acorda, criatura...
Como pode a obra valer menos que a assinatura?
Arte literária libertária
Não é arte tabelionária.
Vale o carinho de ter assinado,
Mais do que o enjambement?
Mente sã, literatura vã...
É um galo sozinho querendo tecer
Uma manhã
É um interlocutor andando atrás,
Morando dentro do José
Quando o mundo dele ruiu.
Gullar me escreveu uma dedicatória.
Me entregou o livro pela janela.
Comprei um livro autografado por Hilda Hilst
Só porque gostei da letra dela.
Um livro do Walter Benjamin
Caiu em cima de mim.
Li bem um livro de Aragon
E me surpreendi porque o achei surreal.
Não gostei de Baudelaire
Porque suas flores são do mal.
E porque cansei de o confundir com Flaubert...
O autógrafo é um rabisco
Que só vale quando o poeta está vivo
Acorda, criatura...
Como pode a obra valer menos que a assinatura?
Confessar ignorância ou
Fingir sapiência...
Nenhum farsante resiste,
Nenhum arrogante resiste
a dois minutos de ciência.
Acrítico
Erivelto Reis
Santimônia
Erivelto Reis
Em agudo sofrimento
Foi ao mercado,
Curtiu um post,
Compartilhou um meme,
Escolheu uma roupa,
Almoçou bem...
Mas a cabeça tava a mil,
O coração a mais de 100,
O cérebro em motim...
A depressão também é assim.
Ansiedade e frustração
Como duas facções inimigas
Duelando no desfiladeiro das suas emoções,
Nos becos de suas inseguranças,
Nos escombros de sua autoestima...
Quem vê sua selfie, nem acredita
Nem imagina...
Quem vê cara, não vê depressão...
Não é toda regra que tem uma exceção.
E ainda tem a milícia da dopamina
Esfregando sua cara
No altar do arrasta pra cima...
Adorando o deus das curtidas!
A depressão também é assim.
Vai à praia, faz amor, reza despudoradamente
Um credo descrente...
Faz do hospedeiro uma casca...
De um segundo uma eternidade!
E impede de perceber horizontes.
Tudo é pra ontem!
Nada é pra sempre...
A depressão também é assim.
Sem insônia, exterior em santimônia.
Tem filme preferido, tem séries de conforto,
Tem áudios dos filhos e foto no aeroporto.
Tem férias em família, passeio de barco,
Foto na academia e aventura na trilha.
Ilhas de desafogo...
Desse jeito ninguém desconfia.
Um pedido de ajuda em código de silêncios intercalados...
Os casos crônicos de torpor e vícios
Não podem servir como únicos indícios.
A depressão também é assim...
Você sai de você pra brincar de fazer
O que você mais gostava
E nunca mais volta pra casa
Onde seu coração morava...
Blitz
Erivelto Reis
Usa o idioma, usa o cinema
E a sua música pra vender
A ideia de um lugar alegre
A ideia de um lugar feliz...
O norte-americano tosco gosta
É de abrir uma cova
Pra enterrar a soberania de outro país
Usa a economia, as universidades
As forças armadas, a busca da liberdade
E da democracia como fachada,
Exclusividade de sua força motriz...
O norte-americano monstro não presta
Pode começar uma guerra
Pra explorar e explodir
Pessoas e governos em outro país
Se fecha para o mundo
E posa de vitrine,
E modelo de tecnologia e modernidade
Para todas as nações
Enquanto mantém um ninho de ratos,
Uma CIA de assassinos e espiões
E de tempos em tempos
Elege e reelege inimigos além das fronteiras,
Depõe governos e
Faz a sua nova blitz...
Animal apocalíptico sem verniz
Ignora a ONU, a cooperação multilateral
De qualquer tratado internacional...
O norte-americano mau, moralista fajuto
Faz da guerra e da morte
A mola propulsora de seu lucro.
De vez em quando um Clinton,
De vez em quando um Kennedy
De vez em quando um Bush
De vez em quando um Reagan
De vez em quando um Truman
De vez em quando um Trump
De vez em quando um Carter
De vez em quando um Biden
Isso não é acaso, isso não é acidente
É um padrão de violência
É a recorrência histórica
Da escolha de padrões de governo
Explicitada pelas políticas de guerra,
De intervenção econômica
Mantidas por seus presidentes.