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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Poema: "Medieval", de Erivelto Reis

Medieval
Erivelto Reis
Se o mundo conhecido em algum tempo
Entrasse todo em guerra
E reinos e mais reinos
Tivessem, não guerreiros,
Mas mensageiras e mensageiros
Empenhados em manter a paz,
Perdendo a vida, a sanidade,
Sucumbindo dia a dia
Com remotas esperanças
De conseguir vitória...
As notícias de outras terras
Que chegassem contariam
Do horror de outros lugares
De batalhas que terminaram
Em dor e em derrota...
É assim o que acontece
E isso é o que desola...
Onde há reino tire reino
E pense escola
Onde há guerra é guerra mesmo...
Não é ficção, nem hipérbole,
Nem metáfora...
Não é estória...

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Crônica: "Compliance, meu amigo, compliance", de Erivelto Reis

Compliance, meu amigo, compliance

Erivelto Reis


É fundamental que as secretarias de estado de educação em todo o país tenham, para além das ouvidorias, um programa de metas de formação de gestores, compliance e governança pautados nas melhores práticas do que se pretende executar na gestão das instituições federais, inclusive de ensino superior. Igual cuidado deve receber a política salarial, garantindo equiparação imediata para profissionais com nível de formação continuada, programas de intercâmbio, formação presencial e valorização docente. Além disso, é indispensável a ampliação do diálogo entre os profissionais da educação básica e os de outras instituições — ligados inclusive aos setores de ciência, tecnologia e inovação, bem como aos poderes Legislativo e Judiciário —, com reconhecimento e valorização palpáveis, e visíveis não apenas no vazio dos discursos e na omissão perante o apagão e o adoecimento dos professores. É preciso dizer abertamente que docentes também adoecem seus colegas e que isso faz parte da estratégia do próprio sistema.
Não se pode mais querer construir um diálogo baseado na "síndrome do salvador", em que a educação básica — especialmente o ensino médio — permaneça sujeita aos maiores desmandos e políticas macro, e na qual o estagiário vivencie a experiência da escola sem questionar por que o professor da educação básica é menos valorizado e respeitado pelas políticas educacionais do que os professores e demais profissionais das universidades. Tampouco se pode ignorar que a educação pública nos municípios e estados, bem como todos os atores desse macrouniverso — sobretudo os estudantes —, dá-se basicamente por representação via números per capita, mesclando rede de apoio, uberização docente, transformação do ensino em mercadoria, do professor em monitor e do estudante em cliente. Ignorando absenteísmo, mercantilização e subserviência da educação para a formação de mão de obra barata e precarizada e o atravessamento de discursos de exclusão, de violência e de descredibilização do saber, da arte e da cultura múltipla, inclusiva e diversa. Desses dados, ocasionalmente, são pinçadas práticas que ora se assemelham ou se fundem a dinâmicas de compensação e assistencialismo social, cultural e de mediação em letramentos variados, ora se projetam como exemplos de possível inovação e dinâmicas pretensamente associadas à tecnologia.
Ambas as práticas são atravessadas por ranqueamentos gerados por índices e olimpíadas, além de estratégias de compactação e extrapolação para que a parte possa aparentar o sucesso do todo, ano letivo após ano letivo. Urge estabelecer compliance, governança para além da ouvidoria e equiparação de salários e de condições de trabalho. É preciso agir antes que as métricas fordianas, análises SWOT, o assédio e a desvalorização concluam o trabalho de desmobilização e desmotivação, entregando à iniciativa privada a chave da soberania de nosso país e a real possibilidade de transformação — sobretudo das camadas mais pobres e vulneráveis da população — por meio de uma educação democrática, gratuita, de qualidade e referenciada socialmente.
Por tudo isso, secretários e secretárias de educação básica em todo o país precisam ser responsabilizados por suas ações e omissões nos sistemas que administram. Não se pode mais tolerar omissão, populismo, censura, corporativismo, demagogia e loteamento político na educação básica, especialmente diante do grave contexto de adoecimento e apagão docente. Pedi que estudássemos, pedi que pensássemos, pedi que conversássemos, pedi ajuda... Até aqui, contudo, apenas os violinos do Titanic continuam executando a valsa.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Poema: "Anatomia de um Pixuleco", de Erivelto Reis

Anatomia de um Pixuleco
Erivelto Reis

Usa o poder para se autopromover
Paga com o poder os débitos e favores
Que acumula, secretamente,
Servindo aos interesses de terceiros
Que o conduziram ao posto que ocupa.
Usa o poder pra inibir, perseguir ou desarticular
Os que lhes sejam contrários,
Subverte as regras e leis
Em benefício de sua incapacidade,
De sua inabilidade, sua autocracia,
Ou dos interesses que tenta ocultar ou camuflar
Com sua prática danosa política,
Ética e laboralmente questionável.
Sua retórica é rasa,
Constitui-se de axiomas extraídos do senso comum,
De silogismos que envergonham
Quem trabalha ou pesquisa realmente
Uma determinada área do conhecimento.
O Pixuleco é pródigo em bravatas e negociatas...
Omite informações
Ou espalha ilações maledicentes
Sobre os que discordam
De sua postura e de seus métodos.
Sua moralidade está a serviço de suas cascas de ferida...
Não deem poder aos Pixulecos.
E não é só no STF que eles aparecem.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Declaração de Miranda para o Professor Público Precarizado

Erivelto Reis

Manda quem pode mesmo de um jeito que não pode.
Você tem o dever de permanecer calado!
Tudo que o diretor não quiser cobrar das autoridades
Será responsabilidade do professor.
Tudo o que for precário
Deverá servir de estímulo para o professor.
Metodologias ativas e protagonismo
Vão permitir todo tipo de humilhação docente.
Você tem o dever de permanecer logado,
Você tem o dever de permanecer calado.
Você não é insubstituível,
A não ser que tenha uma cadeira e um carimbo...
Tudo o que você disser
Poderá e será usado contra você.
E o que você não disser também...
A sua reação é uma declaração de culpa.
A justiça é uma coordenadoria
Em manutenção.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Poema: "Hipocrisol", de Erivelto Reis

Hipocrisol

Erivelto Reis

 

É pior do que terçol

É pior que não ter sol...

Uma injustiça programada

Uma sacaneada em doses,

Uma puxada de tapete

Administrada em drágeas.

 

Com o patrocínio de hipocrisol

O sujeito que não se sujeita

Vai ficando mais comprimido.

 

Hipocrisol

Disfarça incompetência

Serve como laxante

Para as cagadas constantes.

 

Hipocrisol:

Não é cura, faz ferida

Ele é a doença.

Hipocrisol

É bem mais comum do que se pensa...

 

Hispocrisol

É pior do que terçol

Enxaguante de besteirol

Blá, blá, blá violento

Funciona como um unguento

Que deixa em carne viva...

 

Inibidor de apetite

Gatilho para gastrite...

Um monte de gente

Com discurso combinadinho

Tomando hipocrisol no copinho

Como whey de proteína...

E ainda há quem acredite.

 

Hipocrisol não é colírio

Tem venda sem prescrição

Amostra grátis o tempo todo

Servindo de explicação.

 

Hipocrisol

É pior do que terçol.

Hipocrisol

Adstringente da razão

Abafador de clima

Para impedir que os de baixo

Critiquem os que estão em cima.

Hipocrisol

É placebo!

Mas tem gente que acredita.

 

 

 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Poema: "Anamnese", de Erivelto Reis

 Anamnese

Erivelto Reis

Não é tumor, é só cansaço.
Um asco contra o despropósito.
Não é tumor, é só cansaço.
A coragem de não ser o próximo.
Os cães ladrando,
Os cavalos pastam desprezo
Nenhuma consideração ou apreço.
A omissão, a falta de ajuda...
A covardia se fazendo
De astuta...
É gente que não quer ler,
É gente que não quer pensar...
Não é tumor, é só cansaço.
Não é tumor, nem mau humor...
Talvez Burnout,
Mas mais cansaço.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Poema: "O chão da escola", de Erivelto Reis

O chão da escola

Erivelto Reis

 

Há uma poça de lama no chão da escola

No bairro da escola, na rua da escola

Há uma poça de lágrima

Que escorre no chão da escola

Há uma poça de suor e sangue

No chão da escola

Um livro uma professora um servente

Desprezados no chão da escola

Só os discursos sobre o chão da escola

Parecem edificantes

Ficções para principiantes

Um chão por onde já poucos caminham

Do qual muitos se desviam...

Uma trincheira – última linha antes da barbárie

A chave do cofre está nas mãos

Dos que ainda resistem no chão da escola

Depois, arrombada e saqueada,

Privatizada a educação

– o per capta do governo

Pago aos abutres e lemans que estiverem em cena

Vai se maior que o pib das grandes potências

E a escola vai ter franquias e filiais como bobs e habibs

E vai vender minguados créditos aos filhos dos trabalhadores

como quem carrega um pré-pago, um oi ou um tim talvez, claro...

Pra o aluno pobre matriculado aprender quanto puder

No tempo que lhe for destinado.

Ou haverá plataformas e aplicativos com algoritmos viciados

Como uma bet pra perder o futuro de vez.

Uma fábrica de operários mudos e obedientes

E mal remunerados.

Há muito lodo no chão da escola

Um escândalo que, se revelado,

Faria ver a todos o quanto de posse há sobre o chão da escola

De concreto só os decretos e os pontos estratégicos

Dos prédios que interessam aos investidores

E o que eles significam em lucro, propaganda e controle.

Um chão de deixar doente, um chão úmido,

Do qual já não parecem germinar as boas sementes.

Há um chão da escola, viciado em desmantelar gente.

Há um chão da escola diferente...

Há um caixão da escola!

Há ainda alguns poucos indignados...

Resistindo, lutando... re-velando.

E um montão de gente indiferente.

 

Onde é que fica o chão da escola?