Garoto pobre...
Erivelto Reis - Poemas e Crônicas
Quem sou eu
- Erivelto Reis - Poemas e Crônicas
- Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.
segunda-feira, 26 de outubro de 2026
Crônica: "Garoto pobre", de Erivelto Reis
domingo, 25 de outubro de 2026
Textos escritos no dia da reeleição do Presidente Lula (Tem 15 posts e textos aqui)
1)
Hoje é sem sombra de dúvidas um dos dias mais importantes para a história da nossa democracia. Vote pela liberdade, pelos trabalhadores e trabalhadoras, por uma realidade verificada por líderes mundiais e personalidades do mundo todo, pela educação e pela saúde gratuitas e de qualidade e acessíveis a todas as pessoas. Vote pelos serviços públicos e pelos servidores à disposição dos cidadãos e cidadãs, pelos aposentados e por tudo o que ajudaram a construir. Não vote em uma pessoa violenta, com ligações com bandidos de colarinho branco, tráfico de influência, poderes paralelos ligados à brutalidade da intimidação e da violência, lavagem de dinheiro, estupidez, desfaçatez, cinismo e ignorância. Não vote em quem se aproveita da fé das pessoas e usa a mentira para manipular. Vote pelo direito de continuar votando e escolhendo. Vote em quem tem propostas e já as colocou e continua pondo em prática com trabalho, sensibilidade e inteligência. Não vote em alguém cujo preconceito, a discriminação e o desrespeito às leis, às pessoas e às instituições já foi visto e declarado. Não vote em quem deseja entregar o país e subordinar a nossa soberania. Hoje é um dos dias mais importantes da história da nossa democracia.
2)
É preciso ler. É preciso contexto. É preciso entender que grupos de interesse e confiança (família, igreja), podem ser orientados por mídia e mercado, que têm condições de manipular informações e dados que chegam até as pessoas e grupos nos quais confiamos e ao grande público pra nos fazer acatar mentiras descontextualizadas ou visões niilistas do mundo, acolher frustrações, raivas inconfessáveis e desproporcionais e assim manter privilégios das chamadas elites econonômicas e levar ao poder os sabujos que lhes interessem. Leiam.
3)
A primeira pessoa que conversou comigo sobre Lula foi minha saudosa professora de matemática, a querida Suely Moura (uma professora formada em Matemática pela UFRJ e graduanda em Psicologia pela Gama Filho naquela época). Ela promovia eventos culturais na escola. Foi uma das professoras que tentou a implementação do horário noturno e atuou nele pelo breve tempo em que ele existiu. Depois, se apaixonou pelo bairro e veio morar por aqui. Foi também diretora de nossa escola. Era o ano de 1987. Ela explicava alguma coisa sobre aprovar a Constituição. Me lembro claramente que ela dizia que era discriminada por ser uma mulher negra que acreditava num político de São Paulo que tinha sido metalúrgico e que havia fundado um partido que pensava nos trabalhadores. Dizia inclusive que um artista que ela idolatrava, Chico Buarque, (que ela só amava menos do que o Caetano) era favorável a essas ideias. Acreditem: ela passou pra minha turma a tarefa de criar uma lista com os nomes do presidente e dos ministros divididos por pastas e por atribuições e de entrevistar alguém ligado à política (líder de associação de moradores, um político local). Nós conhecíamos o senhor Paulo Freitas, que era um homem respeitado em nossa vizinhança e cujo pai tinha sido um importante líder comunitário, trazendo ou ajudando a trazer uma linha de ônibus e a escola estadual para o nosso bairro. Suely Moura analisava canções como as da Legião Urbana, especialmente Angra dos Reis, Que país é este? e Vento no Litoral, sua preferida. Ela também levou pra gente ouvir juntos em aula: O Guri, do Chico Buarque; Eu não sei dançar, da Marina Lima e Ela e Eu, do Caetano Veloso, na interpretação da Bethânia. Era entusiasta do livro O Alquimista, do Paulo Coelho. Dizia que a gente devia buscar aprender e saber mais coisas e coisas diferentes daquelas que nossos pais sabiam e podiam ensinar. Eu fui aluno do Colégio Estadual José Bonifácio. Minha professora de Português, a querida Maria Teresa, também falou de Lula quando trabalhou em sala de aula as canções do Cazuza do álbum Ideologia (trabalhou essa música e o Blues da Piedade, que inclusive caiu na prova). O professor Edson, de Redação e a professora Naísa ensinavam o pensamento sobre o Brasil, trabalhando poemas e crônicas. A professora Solange de Geografia, trazia fitas k7 que me emprestava, com músicas internacionais, clássicas e contemporâneas, especialmente uma gravação do Kitaro. A professora Simonie emprestava livros (Brida, Admirável mundo novo), falava das relações de trabalho ao longo da História e de como as guerras começavam. A professora Sandra Guimarães falava que havia perto de nós uma Universidade (UFRRJ) que poderia mudar a nossa vida pra melhor quando terminássemos a escola. A professora Solange (que tinha sido merendeira e se formou em História) foi a primeira a me explicar o que era a direita e a esquerda e o que significava um pensamento voltado para a prática ditatorial num governo e nem foi na sala de aula, foi numa conversa no corredor. O professor Oswaldo, de Organização e técnicas comerciais me deu uma Constituição de presente, um mês depois da promulgação da Carta Magna. A professora Fátima me ensinava matemática de uma maneira que eu conseguia entender. Foram professores e professoras que me apoiaram como cidadão através da educação. A inflação era de 89% ao mês, estávamos ainda a caminho da primeira Constituição e à caminho da primeira eleição direta para presidente. E os professores e professoras que tive na educação pública me ajudaram e acreditaram em mim, conversaram comigo, me ouviram e me inspiraram. Pouco se falava em notas. Buscava-se ensinar. Dialogar.
4)
Que as noites de esperança jamais encontrem a manhã da angústia. A democracia é um valor tão caro a um país civilizado que nenhuma violência ou projeto de barbárie poderá detê-la. Mais de 700.000 pessoas têm suas memórias pranteadas e honradas com essa eleição. Milhões de brasileiros e brasileiras dignificam a história de lutas e resistência de nosso povo. Democracia, respeito e justiça para todos... até para os que a desonram e tramam contra ela. Que paguem pela tentativa de golpe e pelos males que executam contra o país.
5)
Você me disse da sua emoção quando encontrou com o presidente Lula ainda quando ele estava no sindicato dos metalúrgicos. Depois você me disse e eu testemunhei a sua alegria quando Fernando Henrique passou a faixa presidencial. Você ficou entusiasmado com a reeleição, mas me alertava sempre sobre a fragilidade da democracia brasileira frente aos interesses de gente inescrupulosa e as manobras internacionais, naquele momento especialmente contra as estatais brasileiras e não se conformava com a venda da Vale pelo governo FHC. Quando veio a presidenta Dilma, você ficou muito feliz, sobretudo porque ela tinha enfrentado, assim como você, os horrores de uma sessão de interrogatório e tortura. E me alertava mais enfaticamente sobre como uma mulher importante como a Presidenta Dilma poderia despertar a ira das falsas elites e do congresso misógino e machista do nosso país. Eu argumentava, dizia a você que um governo de centro esquerda poderia ser uma tendência na política brasileira. Mas você estava coberto de razão. Você dizia que o "Bonossauro" e gente como ele era um perigo pra nossa democracia. Você foi embora em janeiro de 2013 e não viu o horror em que esse país foi se tornando a partir do golpe midiático-legislativo-judiciário e a traição do vampiro temerário. Daí pra frente, os direitos dos trabalhadores, o impeachement de uma mulher honesta e correta e um julgamento sem provas e manipulado em diversas esferas e com a conivência da grande mídia e a prisão por 580 dias do ex-presidente Lula marcariam a nossa história. O saqueamento da Petrobrás, o desmonte de estatais de energia e água, a entrega de nossos aeroportos, da embraer, o ataque aos servidores e aposentados... tudo que puderam fazer de mal eles fizeram. Veio a pandemia e 714.000 brasileiros e brasileiras perderam a vida. Enquanto as instituições e a grande mídia passavam pano pra um presidente miliciano e corrupto. Um homem grosseiro, violento e estúpido que foi colocando sua prole e seus aliados nos cargos mais importantes do país e transferindo nossas riquezas para empresas estrangeiras. O ex-presidente Lula foi eleito e derrotou esse "Bonossauro" pai e hoje acabou de derrotar o filho dele. Mas há muito que se fazer nesse país. Você sempre escreveu e disse seus poemas em favor da democracia, da liberdade e do bem estar dos trabalhadores e trabalhadoras, das crianças e suas famílias. Você escreveu contra a ditadura em seu Livro de Poemas. Disse que ela era como "cacos de vidro, cortantes e pontiagudos que mesmo em sonho" ainda poderiam cortar. Você me alertou e me orientou para ficar ao lado das pessoas mais simples que não tinham o que você dizia que em mim era um dom "a comunicação franca e espontânea" com as pessoas. Recomendou expressamente no prefácio do meu livro: "se eu ficar, leve a mensagem ao povo do meu Brasil. Vou contigo, poeta". Estamos aqui hoje. No limiar entre a Democracia e a barbárie e ainda há tanto por fazer. Mas nessa noite, em que o Presidente Lula foi reeleito, contra todas as manobras e prognósticos. Em que executamos o Hino da Independência em plena Avenida Paulista, no coração do corpo capitalista desse país, havemos de celebrar. Em sua memória, meu amigo, poeta pernambucano, meu grande ídolo, que foi como um pai pra mim, amado e inesquecível Patativa da Zona Oeste.
6)
Narcisos não têm máscaras. A beleza que veem é falsa.
7)
É preciso derrubar o hediondo NEM - um abismo entre a educação dos meninos e meninas mais pobres e o que se oferece aos filhos e filhas das elites econômicas e mesmo da classe média nesse país -reempoderar os professores, qualificá-los e requalificá-los adequadamente, equiparar salários ao que se pratica nas universidades conforme o nível de formação, melhorar as condições de trabalho, limitar o número de alunos por turma ao que permita acompanhar realmente os estudantes; implementar a Dedicação exclusiva para esses profissionais com salário compatível; estabelecer programas e sistemas de ouvidoria e compliance independentes para combater assédio institucional aos docentes, criminalização da docência e abusos de gestores contra os profissionais através da perda de sua autonomia e da precarização de seu trabalho e do seu adoecimento laboral; Lotar o professor numa única unidade, incentivar programas nas universidades para apoiar e desenvolver práticas para o que e a escola poderia e deveria ser e não para mitigar e remediar o que ela é; realizar duas edições ao ano do ENEM, restringir o avanço de editoras, plataformas e empresas privadas à educação pública básica, fiscalizar empresas prestadoras de serviço e terceirizadas e acabar com a exploração dos trabalhadores e trabalhadoras dessas empresas e estabelecer protocolos de permanência, conduta e responsabilização familiar, formação técnica e tecnológica, inclusiva e diversa para além da ideia de frequência e notas para que a universalização do Pé-de-meia possa surtir o efeito pretendido. E tudo que se aplique ao Ensino Médio, deve ser aplicado, na justa medida do que caiba e seja pertinente, com cuidado, gestão coerente e valorização docente, à maneira como prefeituras país afora administram a educação fundamental.
8)
Note como fica indignado um fascista quando descobre que você não tem medo dele. E perceba como ele fica furioso quando intui que não pode te afetar através da violência e da ameaça. E a sua expressão de revolta e destempero quando percebe que a inteligência e a coragem que ele acha que tem não chegam nem aos pés da inteligência e da coragem daqueles aos que ele tenta intimidar. As vitórias pessoais que um fascista angaria vêm da manipulação, da covardia e da traição aos valores mais inegociáveis como a ética e a verdade e do horror e da morte (mesmo que seja da reputação) de seus opositores.
9)
O pai e a mãe da minha mãe eram sitiantes e lavradores. O pai do meu pai trabalhava como feirante; a mãe do meu pai era costureira. Eu não votaria jamais em quem apoia torturadores, gente armada, violência, opressão contra os trabalhadores. Meu avô ouvia Luiz Gonzaga. Forró. Meu pai era um jardineiro. Minha mãe era uma trabalhadora do lar, uma empreendedora. O Poeta Primitivo Paes, meu maior ídolo, enfrentou corajosamente a OBAN e os torturadores. Sou casado com uma professora amada por seus alunos e grande exemplo de sensibilidade e ética. Minha trajetória é dentro da escola, da Educação, da Arte, da Literatura. Meu voto é Lula 13 pela Democracia e pela Liberdade.
10)
18/10/26
Não briguei nem me afastei de ninguém por política. Me defendi apenas de um projeto de poder que me quer submisso, amedrontado e refém dos abusos contra a democracia, os direitos humanos e a minha integridade emocional, física, psicológica e a de minha família. Nenhum dos princípios que eu apoio fará com que uma força opressora vá enviar agentes a casa de ninguém para lhes intimidar ou retirar direitos constitucionais ou trabalhistas de quem quer que seja. Nenhum dos princípios dos quais eu partilho vai fazer com que eu me ufane ou me imagine pertencer a um grupo econômico que está muito distante de minha realidade e, em muitas situações, a partir de privilégios, sonegação, tráfico de influências e coisas violentas e abjetas como preconceitos diversos e ilicitudes das mais variadas. Nenhum dos princípios com os quais me identifico tem um canalha num altar ou num púlpito se aproveitando da confiança de quem quer que seja. O Deus no qual acredito é muito grande pra ser capanga ou cabo eleitoral. Eu não briguei com ninguém por causa de política. Eu apenas me defendi da violência das mentiras que não satisfeitas em querer deturpar a História, quiseram reescrever a minha história e a de trabalhadores e trabalhadoras, cidadãos e cidadãs como eu, com uma biografia em favor da democracia e da equidade. Passe bem. O cortejo de horror, uma vez que seja posto em movimento, não pode cessar sem destruir as pessoas. Pense nisso.
11)
18/10/26
Crônica: "Narciso e Dorian Gray", de Erivelto Reis
Narciso e Dorian Gray
Crônica: "Lembrando de meus professores", de Erivelto Reis
A primeira pessoa que conversou comigo sobre Lula foi minha saudosa professora de matemática, a querida Suely Moura (uma professora formada em Matemática pela UFRJ e graduanda em Psicologia pela Gama Filho naquela época). Ela promovia eventos culturais na escola. Foi uma das professoras que tentou a implementação do horário noturno e atuou nele pelo breve tempo em que ele existiu. Depois, se apaixonou pelo bairro e veio morar por aqui. Foi também diretora de nossa escola. Era o ano de 1987. Ela explicava alguma coisa sobre aprovar a Constituição. Me lembro claramente que ela dizia que era discriminada por ser uma mulher negra que acreditava num político de São Paulo que tinha sido metalúrgico e que havia fundado um partido que pensava nos trabalhadores. Dizia inclusive que um artista que ela idolatrava, Chico Buarque, (que ela só amava menos do que o Caetano) era favorável a essas ideias. Acreditem: ela passou pra minha turma a tarefa de criar uma lista com os nomes do presidente e dos ministros divididos por pastas e por atribuições e de entrevistar alguém ligado à política (líder de associação de moradores, um político local). Nós conhecíamos o senhor Paulo Freitas, que era um homem respeitado em nossa vizinhança e cujo pai tinha sido um importante líder comunitário, trazendo ou ajudando a trazer uma linha de ônibus e a escola estadual para o nosso bairro. Suely Moura analisava canções como as da Legião Urbana, especialmente Angra dos Reis, Que país é este? e Vento no Litoral, sua preferida. Ela também levou pra gente ouvir juntos em aula: O Guri, do Chico Buarque; Eu não sei dançar, da Marina Lima e Ela e Eu, do Caetano Veloso, na interpretação da Bethânia. Era entusiasta do livro O Alquimista, do Paulo Coelho. Dizia que a gente devia buscar aprender e saber mais coisas e coisas diferentes daquelas que nossos pais sabiam e podiam ensinar. Eu fui aluno do Colégio Estadual José Bonifácio. Minha professora de Português, a querida Maria Teresa, também falou de Lula quando trabalhou em sala de aula as canções do Cazuza do álbum Ideologia (trabalhou essa música e o Blues da Piedade, que inclusive caiu na prova). O professor Edson, de Redação e a professora Naísa ensinavam o pensamento sobre o Brasil, trabalhando poemas e crônicas. A professora Solange de Geografia, trazia fitas k7 que me emprestava, com músicas internacionais, clássicas e contemporâneas, especialmente uma gravação do Kitaro. A professora Simonie emprestava livros (Brida, Admirável mundo novo), falava das relações de trabalho ao longo da História e de como as guerras começavam. A professora Sandra Guimarães falava que havia perto de nós uma Universidade (UFRRJ) que poderia mudar a nossa vida pra melhor quando terminássemos a escola. A professora Solange (que tinha sido merendeira e se formou em História) foi a primeira a me explicar o que era a direita e a esquerda e o que significava um pensamento voltado para a prática ditatorial num governo e nem foi na sala de aula, foi numa conversa no corredor. O professor Oswaldo, de Organização e técnicas comerciais me deu uma Constituição de presente, um mês depois da promulgação da Carta Magna. A professora Fátima me ensinava matemática de uma maneira que eu conseguia entender. Foram professores e professoras que me apoiaram como cidadão através da educação. A inflação era de 89% ao mês, estávamos ainda a caminho da primeira Constituição e à caminho da primeira eleição direta para presidente. E os professores e professoras que tive na educação pública me ajudaram e acreditaram em mim, conversaram comigo, me ouviram e me inspiraram. Pouco se falava em notas. Buscava-se ensinar. Dialogar.
terça-feira, 20 de outubro de 2026
Poema: "Camomila", de Erivelto Reis
Camomila
Erivelto Reis
Não é desse jeito
Que deveria ser feito.
Não é assim mesmo.
É assim porque é a esmo...
Sem presença, sem pensamento,
Sem prática, sem pesquisa.
Somente pretexto, número sem contexto
Continência à contingência
Exceção ditando a regra.
Valentões e covardes e suas cartilhas
De desmobilização, de falso chá de camomila
Não é desse jeito
Que deveria ser feito.
Não é assim mesmo.
Não tem que ser assim!
É assim porque é a esmo.
terça-feira, 13 de outubro de 2026
Crônica: "Tipinho", de Erivelto Reis
Tipinho
Erivelto Reis
Tipinho é clássico:
Privilégios só para os seus "chegados", carteira de favores a perder de vista, meritocracia — seu esforço sobrenatural, jamais visto e igualado em toda a face da Terra, fez com que ele merecesse julgar os esforços dos demais e estar onde pensa estar.
Tipinho é clássico:
Se o cartão de crédito falasse, choraria por sua pobreza real; acredita que financiamento compra tudo, até reputação; moralista. Seus livros de cabeceira — se e quando os lê — só têm capa, fórmulas niilistas de autoajuda e reforço às suas convicções tacanhas e medievais.
Tipinho é clássico:
A vingança permanentemente em ebulição por ter sido preterido quando se julgava o protagonista; o enlevo pelo senso comum, a sabedoria de quem nunca vai além do post ou da manchete. A confiança de quem a vida toda se acostumou à última palavra, de quem provou seu ponto corrompendo o agente de trânsito, escondendo o gato de energia elétrica, passando a caixinha de leite ou de cerveja sem pagar à vista de todos na parte inferior do carrinho de supermercado.
Tipinho é clássico:
Um sargento, um político, um empresário ou alguém que possa simular autoridade nos contatos de discagem rápida no celular ou no WhatsApp; um chip pra policiar a companheira e bancar o cara de família e outro pros seus fetiches, pras figurinhas, pros reels proibidões e pros contatos secretos de sua libido desleal e, às vezes, criminosa.
Tipinho é clássico:
Não foi o mais bacana nas festas, nem a rainha do baile, nem o amigo fiel de ninguém que não lhe pudesse oferecer alguma vantagem, desde um álibi insólito até um empréstimo a perder de vista.
Tipinho é clássico:
Radar pra corrupção alheia, menos pros seus bens em nome de laranjas, ou pras notas compradas ao contador de sempre no momento da declaração de imposto; a sonegação premiada, o dedo-duro, o assediador com um troféu de melhor em alguma merda irrelevante, um MBA de brinquedo ou orgulho de self-made man vocacionado.
Tipinho é clássico:
Cabeceira da mesa, bênção de beija-mão, todo mundo lhe deve alguma obrigação só por estar no mundo. Gorjeta vai com "não mereceu" e a esmola é um "não vou sustentar vagabundo". Professor é serviçal, prestador de serviço tem de dar graças a Deus de trabalhar pra ele e empregada é quase como se fosse da família.
Tipinho é clássico:
Maldoso, ardiloso, cínico, frio e calculista. Colérico contra os mais fracos e sedoso diante dos poderosos. Sua assinatura não vale um níquel, suas palavras nem o vento leva...
Tipinho é clássico:
Vontade de poder, vontade de ter pra tentar ser e não precisar saber e nem se arrepender. Tudo que toca pode virar uma arma. Qualquer pessoa pode virar um subterfúgio ou um alvo pra tergiversar suas contradições, suas ofensas e seus desafetos.
Tipinho é clássico:
É um tipinho apenas.
Mas é perigoso como uma doença.