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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

sábado, 25 de julho de 2026

Crônica: "Sobre Paraíso, 1982 e sobre Benedito... ou não", de Erivelto Reis

Sobre Paraíso, 1982 e sobre Benedito... ou não

Erivelto Reis

A chegada de Paraíso (1982) ao Globoplay não é apenas um resgate da teledramaturgia nacional; é um convite para encarar o espelho de um Brasil que insiste em não mudar. Longe de ser apenas mais um folhetim interiorano, a novela carrega, talvez, um dos textos mais abertamente políticos de Benedito Ruy Barbosa. Em pleno período de reabertura e na efervescência da luta pela redemocratização, Benedito usou a rádio fictícia da trama para falar, sem rodeios, sobre política partidária, democracia, representatividade, o direito ao voto, reforma agrária e a dignidade e aposentadoria dos trabalhadores do campo.

Enquanto o romance cativante entre o "filho do diabo" e a "santinha" Maria Rita servia de pano de fundo, a novela abria alas para o florescimento urbano e a popularização da canção sertaneja no espaço da grande mídia da telenovela. Foi o palco onde ecoaram nomes como Renato Teixeira, Almir Sater, a dupla Milionário & José Rico e Sérgio Reis — este último com destaque no papel do peão Diogo. Por trás da musicalidade rural, corria a crítica ácida e tácita ao conservadorismo e à hipocrisia da Igreja Católica, uma instituição que andava de mãos dadas com o poder oligárquico dos coronéis. Eram figuras que recorriam a supostos pactos demoníacos, mantendo o diabo aprisionado em uma garrafa — mito ao qual o autor retornaria com maestria anos mais tarde em Renascer. Enquanto jogavam sinuca a dinheiro, o padre da cidade e esses mesmos coronéis (menos raivosos no horário das 18h), em reuniões e visitas de circunstâncias, dividiam espaço com os hábitos das beatas e o jogo do poder, em um ambiente em que, gradativamente, os civis em cargos de gestão como a prefeitura iam aprendendo a manejar a máquina da propaganda, da religião e da boa-fé de trabalhadores e trabalhadoras diante de qualquer aceno de modernização para aquela pacata cidade.

Benedito Ruy Barbosa não poupou esforços para fazer de sua obra uma forma didática de ensinar novos rumos e percepções políticas e sociais para o grande público da telenovela — especialmente os mais pobres ou ligados ao interior rural do país —, escrevendo cenas em que a rádio da cidade apresentava, entre as canções sertanejas, peças de utilidade pública em reclames, como a campanha do soro caseiro, dicas de higiene e vacinação. E passou boa parte dos mais de 180 capítulos ensinando claramente o conceito de situação e oposição em termos políticos e as possíveis intersecções entre esses dois polos no jogo do poder, desde a construção de uma pequena ponte até o pagamento do salário atrasado das professoras da cidade.

Anos mais tarde, no remake de 2009 adaptado por Edmara Barbosa, a mesma rádio fictícia voltou ao ar como engrenagem central da narrativa, mas dessa vez espelhando as transformações da própria indústria da música no país. Se em 1982 o rádio abriu portas para o chamado “sertanejo de raiz” e para a poética do campo, na versão dos anos 2000 a emissora serviu de vitrine estratégica para a consolidação e a massificação do chamado "sertanejo universitário", marcando a migração do gênero das violas caipiras para a música chiclete, os rodeios e as arenas do agronegócio.

A produção original fincou raízes em cenários marcantes: a Fazenda Florença, em Vassouras, e a Fazenda Indiana, situada na divisa entre o bairro de Campo Grande (Zona Oeste do Rio) e Nova Iguaçu, esquadrinhadas pela BR-465 (a antiga Rio–São Paulo) e pela Avenida Brasil. Vassouras, no interior do estado, emprestou seu casario antigo e sua exuberante praça principal como locações externas. A cidade conseguiu, ao menos em seu centro histórico, preservar e restaurar seu patrimônio ao longo das décadas. Já o destino da Fazenda Indiana foi o avesso da preservação: virou fábrica da Ambev, e o seu entorno foi tragado pela precarização, pelo colapso da mobilidade urbana, pela favelização, subempregos e exploração da mão de obra. A fazenda e sua criação de bois encerraram suas atividades, mas o território — entre Campo Grande e Nova Iguaçu — continua operando, ainda hoje, como um imenso curral eleitoral. O voto de cabresto e a força dos novos "coronéis" mostram que toda a luta pela democracia ainda não conseguiu coibir tais práticas. Mudam-se os tempos, mas não se mudam as vontades do poder, especialmente na assistência às periferias, subúrbios e na Baixada Fluminense.

Benedito Ruy Barbosa leu como poucos o Brasil rural e o país dos coronéis em obras emblemáticas como Cabocla, O Rei do Gado, Renascer, Sinhá Moça e Pantanal. Ele leu o país como quem lê uma manchete histórica, situando e até discutindo temas como a escravidão e o racismo. Ainda que, por vezes, perpetuasse determinados estigmas e incorreções historiográficas — afinal, o que não se corrige na ficção (embora não seja esta a sua obrigação) custa, demora e dá muito mais trabalho para ser corrigido apenas pelo viés da história e da educação. E, quando se corrige alguma coisa sem arte, às vezes fica torto, fica faltando, sem esquadro e sem base.

Rever a novela, para mim, é um exercício de memória viva. Acompanhar as cenas onde vazam ou se identificam o entorno do Km 32 da Rio–São Paulo, o Viaduto dos Cabritos, o primeiro conjunto habitacional da região, a Avenida Brasil quase deserta em direção a Santa Cruz, ou a alça de acesso para Campo Grande rasgada no morro, funciona como uma verdadeira máquina do tempo. Trata-se de uma ligação afetiva visceral, costurada pela ficção e pelos resíduos geográficos e históricos de uma região tão desfavorecida — a mesma região de onde, hoje, grupos de investidores extraem os bilhões com os quais avançam contra a economia brasileira e ainda rosnam contra qualquer política pública. Foi uma das primeiras novelas que assisti com minha mãe, meu pai e meus irmãos quando por aqui chegamos. E era bem pertinho da gente.

Hoje, a qualquer hora do dia, de domingo a domingo, é impossível cruzar a região da antiga Fazenda Indiana — atual Ambev — sem perder, no mínimo, meia hora em um engarrafamento sufocante e interminável. Ali, a luta pela sobrevivência se escancara no asfalto: trabalhadores e trabalhadoras e suas famílias arriscam a própria vida entre carros e motos, vendendo de tudo — do pacote de amendoim ao limpador de para-brisa. A antiga olaria deu lugar a um ecossistema informal e pulsante de barracas de refeições rápidas, do cafezinho à cerveja gelada, além do aluguel de vagas improvisadas de estacionamento para os operários da fábrica. No espaço exíguo entre o acostamento e a frente do terreno da olaria, ergue-se e se adensa, dia a dia, a comunidade Dilma Rousseff. Naquele mesmo solo onde outrora circulou o trem, a BR-465 ostenta hoje uma dupla privatização: no monopólio entregue a um grupo de empresas de ônibus e na cessão generosa, como brinde, à concessionária que administra o Arco Metropolitano.

Falar de segurança no trecho entre a Estrada Rio do A e a Via Dutra é, esta sim, uma autêntica obra de ficção. Que Deus defenda cada trabalhador e trabalhadora que depende desse inferno diário para conseguir chegar ao serviço, para alcançar a CEDAE (outra que também foi privatizada), o Colégio Técnico da UFRRJ (CTUR), o campus de Seropédica da Universidade Rural, ou cada uma das dezenas de escolas estaduais e municipais de Nova Iguaçu, Seropédica e Itaguaí. Escolas que, embora ainda não formalmente privatizadas, convivem aqui e ali com seus velhos "coroneizinhos" e "sinhazinhas" locais dando as cartas e ditando as regras.

O tempo passou, e o diabo, que na ficção vivia trancado na garrafa, parece ter conseguido fugir e ganhar o coração e as mentes das pessoas que se alternam no poder através das faces mais perversas do capitalismo: a exclusão, a perda do direito à cidade, o racismo ambiental e geográfico e o desrespeito ao meio ambiente. Como exemplos, a poluição do Guandu, a desapropriação de um bairro inteiro para as Águas do Rio — entre o Km 37 e o Km 39 —, e a abertura de uma verdadeira fenda numa das faces da Serra do Vulcão, colocando milhares de famílias em risco permanente às margens da Estrada de Madureira.

Somam-se a isso as constantes rupturas de tubulações ou a falta d'água crônica, intercalada com cobranças abusivas de água e esgoto; e as taxas de iluminação pública cobradas para a tubulação da CEDAE, enquanto as localidades cujo desenvolvimento ela sepultou com a elevação da tubulação ao nível da estrada principal — impedindo ou dificultando o desenvolvimento de seu comércio ou ocultando o horror de sua falta de recursos básicos com saneamento e calçamento —, os tais dos "quilômetros" 33, 34, 35, 37 e 39, nas ruas de seu interior, ainda sofrem com a escuridão, os buracos, o lixo e o esgoto a céu aberto.

É a exploração desenfreada e a desapropriação daquilo que, em outros tempos, constituía o patrimônio e os bens populares. Além disso, na última década, assiste-se nessa região à construção desenfreada de conjuntos habitacionais sem nenhum plano real de expansão e mobilidade urbana ou de melhoria das condições de vida dessas populações.

Claro, a Fazenda Indiana (dizia-se ser de propriedade dos atores Tarcísio Meira e Glória Menezes) era uma propriedade privada. No entanto, tudo o que a sua venda e os seus desdobramentos políticos, econômicos e sociais trouxeram para a região — de 1982 até os dias de hoje — nos deixa na boca o gosto amargo de constatar que as críticas de Benedito Ruy Barbosa não foram assimiladas pela sociedade. O diabo está solto, e a ficção de quatro décadas atrás continua sendo o nosso retrato mais dolorosamente real.

Zé Eleutério, Maria Rita, Terêncio, Padre Bento, a Rádio Voz do Vale, o casario e a praça “emprestados” pela querida cidade de Vassouras como cenário e tantos personagens marcantes formavam a alma daquela trama. Um elenco estelar em que veteranos como Jofre Soares, Cláudio Corrêa e Castro, Eloísa Mafalda, Ary Fontoura, Tereza Raquel, Sérgio Britto, Henriqueta Brieba, Roberto Bonfim, Neuza Amaral e Rui Resende construíram uma química excelente com os jovens Cristina Mullins, Kadu Moliterno, Íris Nascimento, Cosme dos Santos, Bia Seidl, Caíque Ferreira, Simone Carvalho, Zaira Zambelli, Mário Cardoso, Roberto Pirillo e Elisângela, entre tantos outros atores e atrizes que a partir dali consolidariam ou redirecionariam suas carreiras.

Em 1988, na novela Vale Tudo, o vilão Marco Aurélio ameaçava um dos seus lacaios, um policial corrupto, com uma transferência para Seropédica: “bem pra lá de São Sebastião do Calçado”, segundo o personagem. Já no início dos anos 2000, uma outra fazenda, em Seropédica, também às margens da rodovia BR-465 — nomeada oficialmente em 2014 como Rodovia Luiz Henrique Resende Novaes, quase chegando à Dutra e logo depois da área por onde passaria o Arco Metropolitano, seria cenário para uma outra novela das 18h: Força de um Desejo, escrita por Gilberto Braga, outro ícone da teledramaturgia. Na trama, a casa de fazenda pertencia ao antagonista Higino Ventura, vivido pelo talentosíssimo ator Paulo Betti. A construção pode ser vista por todos que passam pela estrada e já abrigou, por pouco tempo, um centro cultural.

    Eu queria apenas falar do resgate da novela no Globoplay, saudar a trajetória e a memória de Benedito Ruy Barbosa, grande autor de telenovelas brasileiras, mas acho que acabei falando de como a política sem ética e sem responsabilidade com a população pode fazer com que toda uma região permaneça tão desassistida quanto estava há 44 anos — talvez até em uma condição pior. Essa região, definitivamente, não é um paraíso.

 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Poema: "Avisado", de Erivelto Reis

Avisado

Erivelto Reis

 

Há quem reze para um deus machista

Alcoolista

Preconceituoso

Drogado

E ludibriado

Quanto à própria

Sabedoria, onipresença, onipotência

E onisciência.

A quem reze para um deus consciente

Da própria crueldade

Como quem lê um romance

Onde o narrador sabe que está narrando,

Porque está narrando e o que vai ser feito

Da vida de todas as personagens.

 

Ser deus talvez seja sobre não saber ser deus

Ou não saber reconhecer um deus

Ou uma deusa...

Sobre não saber nada sobre existência alguma

Que seja superior ao tempo,

Ao sorriso de uma criança,

Ao silêncio de testemunhar um fim...


Ser deus não deveria ser

Sobre ter fiéis, crentes ou sequestradores

De enredos...

Ou sobre ter seu nome em nenhum livro

Em que a existência esteja restrita a um espaço

Circunscrito a nascer e morrer.


Ou existir sem sofrer.

Ou promessas de prendas e paraísos

Ou ameaças de sacrifícios.

 

Ser deus deveria ser algo tão banal

Que ninguém se desse conta.

 

Desconfio desse tipo de deus que é sendo

E que não é se desentendendo

E que é não sendo

Quando mais se precisa

Que seja

Penso talvez num deus que não é e não foi

Sempre não sendo,

Mas que avisa.

sábado, 4 de julho de 2026

Poema: "Cacos de vidro", de Erivelto Reis

Cacos de vidro

Erivelto Reis

Cacos de vidro
Vidro moído
Chumbinho
Desprezo e xingo.
Cacos de vidro
Desprezo
Vidro moído
Soco, palavrão
Estilete e xingo.
Cacos de vidro,
Empurrão,
Não permitir
O exercício digno do ofício
Palavrão, violência
Desprezo e xingo.
Cacos de vidro,
Cola na cadeira,
Tapa na cara,
Provocação,
Exposição,
Ameaça e xingo.
Na escola,
De segunda a sexta-feira...
De domingo à domingo
Na cabeça de quem
Passa por isso.
Tapa, ameaça,
Cacos de vidro,
Desprezo e xingo.

domingo, 28 de junho de 2026

Poema: "Arrependimento"

 

Arrependimento

Erivelto Reis

 

Eu não digo nada, nem pra mim

Com medo de arrependimento

A maturidade vai chegando

Tô sozinho faz um tempo...

Você disse num adeus:

É vivendo e aprendendo.

Eu não digo que não sinto falta

De cada carícia

de cada delícia

que vivi com você...

Tô perdido e não vejo sentido na vida

Invento desculpa

Planejo uma fuga

Procuro saída

A alma só obedece a quem ama

Eu deito na cama

Tento esquecer

A alma é malcriada

E se sofre, reclama

Eu deito na cama

Você tá morando

No meu pensamento...

Eu não digo nada,

Nem pra mim

Com medo de arrependimento...

Você disse num adeus:

É vivendo e aprendendo.

 

Poema: "Território", de Erivelto Reis

 Território

Erivelto Reis

 

Território

É terra... e sonhos!

Memória que guarda história

Território é casa,

É aprender a proteger a alma

Território

É aprendizado, força pra romper

O ciclo perverso do passado

Da exploração do assalariado

Construindo o futuro, dia a dia,

Com conhecimento e sabedoria.

Território,

É fé, trabalho, amizade

Ter a escola como ponto de partida

E levar o que nela se aprende,

Levar o que que nela se ensina

No coração da gente,

Pra melhorar nossa vida.

Território, é cultura,

É paz pra abraçar quem se ama

É luta por um lugar melhor

É diversidade, pertencimento,

É inclusão e respeito

É ir e vir em segurança

Quando nos dão esse direito.

Território,

É representatividade e oportunidade.

É arte e liberdade pra criar.

Eles chamam de baixada

O que nós chamamos lar.

Eles chamam de despesa

O que pra nós tem valor

E entregam em conta gotas

Como se nos fizessem um favor.

Território

Não se mede por distância

O que vale é a importância

Que se dá,

Ao lugar em que as pessoas

Residem, estudam e trabalham

Território

Não é sobre sobreviver

É sobre viver e prosperar.

É assim que tem que ser.



 

Poema: "Bueno", de Erivelto Reis

 Bueno

Erivelto Reis
Para alguns, as becas,
Os capelos e os salões,
Paramentos, capas duras e fardões.
Para alguns, os nomes de família,
Os brasões, os barões e tubarões,
Refletidos nos cristais de Baccarat
Das confeitarias e nos vitrais
Das bibliotecas.
Incenso saltando dos rascunhos.
Para outros, apenas o bar na esquina
Da Presidente Wilson;
Um pró-labore por serviço,
Uma literatura com preservativo
Para proteger-se
Do que quer que chamem a isso.
Para alguns, a grife;
Para outros, sobrevivência
E sustento.
Pertinho do sonho,
Quase como se fosse
Da família,
Quase como se fosse acadêmico.
Nem tudo é tão perfeito
Quando visto de perto
E por dentro.
Aceitar o fardo,
Quando lhe negam o fardão,
É um prêmio injusto
De desconsideração;
É uma láurea do imaginário.
A corredeira desce inóspita...
Dentre todas as letras,
Algumas têm mel
Ministérios da Cultura...
E outras, só mistério.
Desde a Araújo Porto Alegre —
E não vai sobrar ninguém —
Da Almirante Barroso
À Rua México,
Da Candelária até os
Versos de Campos & Sant'Anna.
Como é bacana essa gente que
Lima Barreto, que lima outras gentes!
Na porta da igreja de Santa Luzia,
Bandeira vigia, feito estátua,
E tísico declama "Belo Belo".
Dura lex, sed lex...
A lei é dura, mas é lei.
Eu sei, Alex...
Eu sei.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Crônica: "Continuo amanhã... Continuo amanhã?!", de Erivelto Reis

 Continuo amanhã... Continuo amanhã?!

Erivelto Reis

 

O ambiente de uma sala de aula na escola pública brasileira é, por excelência, um território de contrastes e de disputas invisíveis. De um lado, quadros negros descascados, salários defasados e a exaustão crônica de profissionais que, contra todas as estatísticas, ainda insistem na transformação pelo conhecimento. Do outro, uma juventude que, por vezes, confunde a rebeldia legítima contra o sistema com o puro e simples desrespeito individual.

É sob essa ótica que se destaca uma das figuras mais emblemáticas do cotidiano escolar: o aluno que escolhe a apatia ou o deboche como refúgio.

Não se trata aqui do estudante que dorme por trabalhar na madrugada para sustentar a casa, cuja exaustão é um sintoma da desigualdade social. A crítica cabe àquele que, por puro desinteresse, faz da carteira um leito de hotel, ignorando o esforço de quem está de pé na frente da sala. Dormir sob o teto da escola pública, quando se tem a chance de aprender, é o primeiro passo para a autossabotagem consciente.

Ainda pior é o espetáculo do cinismo. Quando o professor tenta desfazer o nó de uma equação complexa ou explicar as nuances da história do país, surgem as risadinhas abafadas no fundo da sala, as piadas fora de hora e o olhar de desdém. O deboche virou a moeda de troca para o pertencimento social dos fracos. Para não parecer "careta" ou "cdf" diante do grupo, o estudante prefere ironizar a única ferramenta capaz de tirá-lo da margem: a educação.

"Rir de um professor que tenta ensinar é, no fundo, rir da própria falta de perspectiva."

Existe uma profunda miopia na atitude do aluno que hostiliza o docente. Ele acredita, em sua ilusão de rebeldia, que está desafiando a autoridade, o "sistema" ou o Estado. Mas a realidade é cruelmente oposta: O aluno sabota o próprio futuro. Ao esvaziar a aula com piadas e ironias, o estudante não está punindo o professor ou o governo; está punindo a si mesmo e aos colegas que queriam aprender. Está perpetuando o ciclo de exclusão que alguns professores e função primordial da escola pública justamente tentam quebrar.

O deboche em sala de aula é o triunfo da ignorância que se orgulha de si mesma. É a validação do preconceito de quem está no topo da pirâmide social e aponta para a escola pública dizendo que ela "não funciona". Quando o aluno desvaloriza o professor, ele assina embaixo do discurso daqueles que querem ver a educação pública sucateada.

A escola pública não é um parque de diversões, tampouco um espaço de entretenimento onde o professor atua como animador de palco para prender a atenção de plateias mimadas. Ela é um direito conquistado a duras penas, mantido pelos impostos do próprio povo.

O riso cínico que ecoa no fundo da sala não é sinal de inteligência, malícia ou superioridade; é o eco de uma trágica falta de visão. Enquanto o aluno brinca de ser rebelde sabotando a própria aula, o mundo lá fora não espera. A vida cobra o preço do conteúdo ignorado, e o mercado de trabalho não costuma achar graça nenhuma do deboche. É hora de acordar da letargia — e guardar o riso para quando a vitória for real.

Há tragédias silenciosas que não chegam às manchetes dos jornais, mas que sangram, dia após dia, no chão batido das salas de aula. Nenhuma delas, contudo, é tão visceral, tão terrivelmente cruel, quanto o espetáculo da autossabotagem planejada.

Assistir a um filho da classe trabalhadora — herdeiro do suor, dos calos e da exaustão de pais que vendem a própria força de trabalho para garantir o pão — decidir, por livre e espontânea vontade, que o conhecimento não lhe serve, é ver o futuro ser assassinado na nossa frente.

É uma dor que aperta o peito de quem observa, porque cada bocejo forçado, cada riso de deboche e cada "não quero saber" ressoa como um tapa na face de uma mãe que acordou às quatro da manhã, ou de um pai que carrega o peso do mundo nas costas para que o filho tenha o direito de segurar uma caneta, e não uma enxada ou uma britadeira.

Mas a crueldade atinge o seu ápice dramático quando essa renúncia ao saber se veste de falsa injustiça. O estudante que escolhe o abismo não assume o peso da própria queda. Em vez disso, constrói uma narrativa perversa, uma cortina de fumaça covarde, e aponta o dedo para a única pessoa que estendeu a mão: o professor.

Com uma retórica vazia, o jovem tenta convencer o mundo — e a si mesmo — de que sua ignorância é culpa alheia:

· "O professor é chato."

· "A matéria não serve para nada."

· "A didática dele não bate com a minha energia."

· "Ele pegou no meu pé."

Transforma-se o mestre em carrasco e o omisso em vítima. É uma inversão de valores de um cinismo devastador. Culpa-se a personalidade do docente para mascarar a própria preguiça; condena-se a rigidez da disciplina para justificar a falta de caráter e de brio. O professor, que muitas vezes gasta a voz e a saúde mental tentando resgatar aquela mente da vala da mediocridade, é sacrificado no altar do orgulho juvenil.

É de uma ironia trágica, quase teatral. Enquanto o filho do burguês, nas escolas particulares de elite, é treinado sob rédeas curtas para liderar, para dominar a ciência, a linguagem e a tecnologia, o filho do trabalhador, na escola pública, escolhe o deboche. Ele acha "bonito" ser o rebelde sem causa que sabota a aula. Ele se orgulha de dar as costas para o quadro-negro.

O que ele não consegue enxergar, em sua miopia soberba, é que o sistema comemora o seu silêncio. Cada vez que um aluno rejeita o conhecimento e culpa o professor, os arquitetos da desigualdade sorriem. O jovem está cumprindo exatamente o roteiro que os opressores escreveram para ele: o roteiro da subalternidade eterna.

Quando o filho do trabalhador se recusa a aprender, ele não está punindo o Estado, ele não está se vingando do professor "chato". Ele está assinando a sua própria sentença de subemprego. Está decretando que o sacrifício de seus pais foi em vão.

Não se pode romantizar a atitude do estudante que se recusa a saber. Há apenas o triste espetáculo de uma mente que escolheu se algemar. Culpar o professor pela própria ignorância é o último refúgio de quem não tem a coragem de olhar no espelho e admitir que é o único responsável pelo próprio fracasso.

A vida real, implacável e desprovida de qualquer compaixão, não aceitará essas desculpas. Quando as portas se fecharem e o peso da sobrevivência esmagar os ombros desse jovem, de nada adiantará qualquer pretensa justificativa. A ignorância terá cobrado o seu preço mais alto, e o eco daquelas risadas de deboche na sala de aula se transformará, inevitavelmente, no lamento tardio de quem teve a chance de se libertar e preferiu a servidão voluntária.

E aqui reside o refinamento mais cruel dessa engrenagem: não importa a excelência do mestre. Pode ser o professor mais preparado, aquele que respira a docência, que chega à sala com o olhar brilhando, munido de uma gentileza inabalável e disposto ao diálogo mais franco. Pode ser o profissional que passa noites em claro selecionando conteúdos, preparando materiais dinâmicos e que, não raramente, tira do próprio bolso o dinheiro que falta ao Estado para oferecer aos alunos uma experiência diferenciada, um lampejo de dignidade pedagógica. Pode ser a figura mais compreensiva, parceira e acolhedora do mundo.

Nada disso basta. Porque quando o estudante decide fincar os pés na rejeição, todo esse banquete de dedicação é desperdiçado

Quando o aluno sela o pacto com a própria ignorância, ele transforma a sala de aula em uma arena de combate psicológico. O limite entre o desprezo silencioso e a ironia do deboche é cruzado diariamente. Não se trata apenas de não querer aprender; trata-se de destruir a autoridade de quem ensina.

O estudante estabelece uma queda de braço perversa: recusa-se a realizar as atividades mais corriqueiras, nega-se a abrir o caderno e chega ao extremo de recusar um cumprimento formal no início da aula. A educação deixa de ser um processo intelectual e passa a ser um teste de poder.

Para mascarar o seu vazio, esse jovem aciona uma máquina de difamação:

·         A culpabilização: Avalia o professor negativamente de forma deliberada, distorcendo critérios para punir quem o cobra.

·         A mentira sistemática: Inventa narrativas, distorce fatos e mente abertamente sobre a conduta do docente para a coordenação ou para os pais, tentando transformar sua própria indisciplina em um "problema relacional".

·         O tribunal da incompetência: Tenta convencer os pares de que o erro está na postura do professor, invertendo os papéis de agressor e vítima.

Essa dinâmica contínua produz um rastro de destruição humana. Esse comportamento adoece. Ele mina a autoconfiança de profissionais experientes, injeta a paralisante substância da insegurança na mente de quem estudou anos para estar ali e descredibiliza o saber diante de toda a turma.

Sob essa pressão, a docência é violentada, empurrada para se tornar um rebaixado concurso de popularidade. O professor é coagido a ser um "animador de torcida" ou, pior, a aceitar um conchavo humilhante: um pacto de mediocridade onde o aluno finge que aprende e o professor finge que não vê ou torna-se conivente com o caos para preservar o que lhe resta de sanidade mental. A escola pública, que deveria ser o berço da emancipação, é transformada em um cativeiro psicológico para quem ousa tentar ensinar.

O que esse estudante pratica não é uma travessura juvenil; é um processo de violência multifacetada e avassaladora:

  • Simbólica e Intelectual: Ao ridicularizar o conhecimento, o aluno apaga o valor da ciência, da história e da cultura, decretando que o saber não vale nada.
  • Emocional e Psicológica: O massacre diário de olhar para rostos cínicos, de ouvir risadinhas sussurradas e de enfrentar a rejeição deliberada destrói a saúde mental do docente, gerando crises de ansiedade, depressão e a síndrome de Burnout.
  • Física: A barreira entre a violência psicológica e a agressão física é tênue. O tensionamento constante do ambiente escolar quebra o pacto de paz e, em muitos casos, descamba para a intimidação física direta e ameaças reais à integridade do trabalhador da educação.

Para agravar essa tragédia institucional, o professor agredido frequentemente descobre que a solidão da docência é alimentada pela traição corporativa: há colegas de profissão que, longe de defenderem a dignidade do cargo, não apenas compactuam silenciosamente com essas práticas antipedagógicas, mas se associam ativamente a elas. Essa cumplicidade opera em múltiplos níveis, manifestando-se desde a dissimulação covarde — como o silêncio obsequioso nos conselhos de classe e o endosso velado às reclamações infundadas dos estudantes — até a participação explícita na desestruturação da imagem do colega, validando o deboche dos alunos para angariar uma popularidade barata ou alimentar rivalidades internas. Ao relativizarem a barbárie e justificarem o injustificável sob o pretexto de uma falsa "empatia juvenil", esses profissionais tornam-se engrenagens fundamentais no aviltamento de seus pares, legitimando a violência psicológica e carimbando, de dentro da própria categoria, o atestado de falência da autoridade docente.

Ver o filho do trabalhador usar o seu tempo para linchar psicologicamente o professor que tenta salvá-lo da engrenagem da exclusão é um soco no estômago da sociedade. É a barbárie instalada na antessala do futuro. Quando a escola pública aceita que o deboche e a mentira vençam o acolhimento e a competência, ela deixa de ser um templo de luz para se tornar o cenário de uma das maiores crueldades sociais do nosso tempo.

Em meio a esse deserto de afetos e respeito, seria injusto não reconhecer o oásis: existem, sim, aqueles alunos maravilhosos que justificam a nossa permanência no chão da escola. Estudantes que carregam no olhar o brilho da curiosidade e para quem é uma verdadeira honra lecionar. Eles se tornam quase parceiros no cotidiano da sala de aula; trazem consigo um bom humor contagiante, uma lealdade firme, ética, comprometimento, inteligência e uma sensibilidade rara. O problema é que, a cada ano que passa, encontrar essas mentes luminosas tornou-se uma raridade estatística. Uma turma inteira composta por eles? Um sonho quase utópico.

No entanto, o que dilacera o peito do educador não é apenas a escassez desses jovens, mas a estarrecedora descoberta de que, em certas situações, essa "turma dos sonhos" existe, mas escolhe a exclusão deliberada. Dói profundamente perceber que um grupo de alunos, dotado de pleno discernimento, firma um pacto velado de silêncio e distância na sua aula. Sabe-se lá por qual motivo ou justificativa torpe, eles decidem, coletivamente, que você não merece o melhor deles.

É uma punição covarde que se renova a cada toque do sinal, aplicada contra o professor por crime ou erro nenhum. Negam qualquer possibilidade de aproximação humana ou pedagógica. Esse isolamento muitas vezes se alimenta das sombras mais mesquinhas: do etarismo que desvaloriza a experiência, de preconceitos de qualquer natureza, do "ouvir dizer" alimentado por fofocas de corredor, ou, mais doloroso ainda, pelo simples fato de você se recusar a ser "mais do mesmo". Por você insistir em realizar o seu trabalho com rigor, seriedade e paixão, em vez de se render ao pacto da mediocridade, a turma o pune com o gelo do desprezo. É a inteligência e a sensibilidade instrumentalizadas para o boicote, transformando o que deveria ser um espaço de partilha em um tribunal silencioso e implacável.