Quem sou eu
- Erivelto Reis - Poemas e Crônicas
- Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Poema: "Medieval", de Erivelto Reis
terça-feira, 22 de setembro de 2026
Crônica: "Compliance, meu amigo, compliance", de Erivelto Reis
Compliance, meu amigo, compliance
Erivelto Reis
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Poema: "Anatomia de um Pixuleco", de Erivelto Reis
Anatomia de um Pixuleco
Erivelto Reis
Usa o poder para se autopromover
Paga com o poder os débitos e favores
Que acumula, secretamente,
Servindo aos interesses de terceiros
Que o conduziram ao posto que ocupa.
Usa o poder pra inibir, perseguir ou desarticular
Os que lhes sejam contrários,
Subverte as regras e leis
Em benefício de sua incapacidade,
De sua inabilidade, sua autocracia,
Ou dos interesses que tenta ocultar ou camuflar
Com sua prática danosa política,
Ética e laboralmente questionável.
Sua retórica é rasa,
Constitui-se de axiomas extraídos do senso comum,
De silogismos que envergonham
Quem trabalha ou pesquisa realmente
Uma determinada área do conhecimento.
O Pixuleco é pródigo em bravatas e negociatas...
Omite informações
Ou espalha ilações maledicentes
Sobre os que discordam
De sua postura e de seus métodos.
Sua moralidade está a serviço de suas cascas de ferida...
Não deem poder aos Pixulecos.
E não é só no STF que eles aparecem.
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Declaração de Miranda para o Professor Público Precarizado
Erivelto Reis
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
Poema: "Hipocrisol", de Erivelto Reis
Hipocrisol
Erivelto Reis
É pior do que terçol
É pior que não ter sol...
Uma injustiça programada
Uma sacaneada em doses,
Uma puxada de tapete
Administrada em drágeas.
Com o patrocínio de hipocrisol
O sujeito que não se sujeita
Vai ficando mais comprimido.
Hipocrisol
Disfarça incompetência
Serve como laxante
Para as cagadas constantes.
Hipocrisol:
Não é cura, faz ferida
Ele é a doença.
Hipocrisol
É bem mais comum do que se pensa...
Hispocrisol
É pior do que terçol
Enxaguante de besteirol
Blá, blá, blá violento
Funciona como um unguento
Que deixa em carne viva...
Inibidor de apetite
Gatilho para gastrite...
Um monte de gente
Com discurso combinadinho
Tomando hipocrisol no copinho
Como whey de proteína...
E ainda há quem acredite.
Hipocrisol não é colírio
Tem venda sem prescrição
Amostra grátis o tempo todo
Servindo de explicação.
Hipocrisol
É pior do que terçol.
Hipocrisol
Adstringente da razão
Abafador de clima
Para impedir que os de baixo
Critiquem os que estão em cima.
Hipocrisol
É placebo!
Mas tem gente que acredita.
terça-feira, 8 de setembro de 2026
Poema: "Anamnese", de Erivelto Reis
Anamnese
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Poema: "O chão da escola", de Erivelto Reis
O chão da escola
Erivelto Reis
Há uma poça de lama no chão da escola
No bairro da escola, na rua da escola
Há uma poça de lágrima
Que escorre no chão da escola
Há uma poça de suor e sangue
No chão da escola
Um livro uma professora um servente
Desprezados no chão da escola
Só os discursos sobre o chão da escola
Parecem edificantes
Ficções para principiantes
Um chão por onde já poucos caminham
Do qual muitos se desviam...
Uma trincheira – última linha antes da barbárie
A chave do cofre está nas mãos
Dos que ainda resistem no chão da escola
Depois, arrombada e saqueada,
Privatizada a educação
– o per capta do governo
Pago aos abutres e lemans que estiverem em cena
Vai se maior que o pib das grandes potências
E a escola vai ter franquias e filiais como bobs e habibs
E vai vender minguados créditos aos filhos dos
trabalhadores
como quem carrega um pré-pago, um oi ou um tim talvez,
claro...
Pra o aluno pobre matriculado aprender quanto puder
No tempo que lhe for destinado.
Ou haverá plataformas e aplicativos com algoritmos viciados
Como uma bet pra perder o futuro de vez.
Uma fábrica de operários mudos e obedientes
E mal remunerados.
Há muito lodo no chão da escola
Um escândalo que, se revelado,
Faria ver a todos o quanto de posse há sobre o chão da
escola
De concreto só os decretos e os pontos estratégicos
Dos prédios que interessam aos investidores
E o que eles significam em lucro, propaganda e controle.
Um chão de deixar doente, um chão úmido,
Do qual já não parecem germinar as boas sementes.
Há um chão da escola, viciado em desmantelar gente.
Há um chão da escola diferente...
Há um caixão da escola!
Há ainda alguns poucos indignados...
Resistindo, lutando... re-velando.
E um montão de gente indiferente.
Onde é que fica o chão da escola?
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
Crônica: "Ötzi, o Homem degelo", de Erivelto Reis
Ötzi, o Homem degelo
Erivelto Reis
Os cientistas
descobriram que Ötzi viveu há mais de cinco mil anos. O corpo, extremamente
preservado, foi encontrado em 1991. Estava congelado nos Alpes, virou uma
celebridade da pré-história, mas não foi essa a causa-mortis. A autópsia
moderna — sempre muito eficiente em analisar o defunto depois de milênios —
descobriu uma ponta de flecha cravada em seu ombro esquerdo. A flechada
perfurou uma artéria e Ötzi sangrou até morrer no gelo. Até hoje, contudo, a
história preserva um grande mistério: ninguém sabe quem, afinal, disparou
aquela flecha fatal contra o coitado.
No caso do
magistério, porém, o mistério cai por terra. Não há segredo sobre a identidade
dos arqueiros.
A começar pelo
próprio nome do nosso personagem. Tomemos como exemplo o fictício personagem Sebastião
— ou, como o chamam nas atas e nos corredores com um misto de respeito e
comiseração, o Professor. O nome não é mera coincidência mitológica: tal
qual o mártir católico, o professor passa a vida servindo de alvo. Sebastião
não começou congelado, nem flechado. Há vinte e cinco anos, quando entrou pela
primeira vez em uma sala de aula carregando apenas um pacote de giz, uma
garrafa térmica e uma fé inabalável na educação, ele era puro fogo. Vontade de
mudar o mundo, chamas de entusiasmo pedagógico.
Mas o
cotidiano da educação tem uma física própria: ele não queima, ele descongela ao
contrário. O ambiente vai esfriando o sujeito até transformá-lo em uma estátua
preservada no tempo. Sem vida. Mas a aparência é de alguém que talvez esteja
ali. Sebastião virou Homem degelo,
do verbo degelar: um ser que passou a vida inteira derretendo aos
poucos, pingando a própria energia no piso de granilite da escola, até que só
sobrou a carcaça petrificada um fóssil a ser banido da sala dos professores,
banido dos arredores da escola.
A questão do
Sebastião — e de tantos outros Ötzis de jaleco — é que a morte do professor
nunca vem de uma vez só. É um esporte de tiro ao alvo praticado em marcha
lenta.
A primeira
flechada vem no primeiro quinquênio: o salário que desidrata. A segunda vem na
reunião de pais: a autoridade pedagógica que se esfarela. As seguintes vêm em
rajada: cortes de verba, violência, desvalorização e o eterno mandato de
"fazer milagres com o nada". Na pré-história, Ötzi tomou apenas uma
flechada certeira no ombro e morreu rápido. Sortudo o Ötzi. O professor
Sebastião passa décadas sangrando profissionalmente.
Torna-se, por
fim, o bom professor morto em vida. Um zumbi inofensivo, incapaz de comover até
o aluno mais indisciplinado, perambulando pelos corredores sem ter sequer um
céu pedagógico para onde ir.
O destino dos
maus professores, contudo, às vezes é muito mais próspero. Esses — os
professores-capatazes — não se deixam congelar. Em um ato de autodefesa,
implodem a própria carreira docente para renascer nos estofados de alguma
secretaria de educação ou no refúgio de uma sala burocrática. Por trás de uma
mesa, armados apenas com uma cadeira giratória e um carimbo, ganham subitamente
o poder da iluminação: desorientados incumbidos de orientar e descoordenados
com a missão de coordenar. Gente com um currículo que parece um bilhete e a
experiência de uma casca de noz, detonando a cooperação e anulando as possibilidades
de debate em torno da educação com estudiosos, pesquisadores com formação
continuada. O concurso é a porta de entrada e o sujeito pensando que é o Olimpo.
“Como seria bom se a escola fosse um programa
de auditório. Passa ou repassa” ... Vai saber.
Afinal, a
engrenagem não exige exatamente uma competência técnica oriunda de formação de
carreira; raramente um bom professor se transforma em um bom diretor, até
porque a política de educação pautada em hipocrisia, achismos, amadorismo,
demagogia e quetais parece exigir pactos contraditórios aos princípios reais do
magistério.
É aqui que a
ironia atinge o seu ápice. Num passe de mágica institucional: aqueles mesmos
que dispararam as flechas contra um São Sebastião, uma vez empossados, vivem a
hipocrisia de uma falsa conversão. Antes, jogando pelas próprias regras,
flanando num sistema sem controle real, escrevendo narrativas através de
planilhas irreproduzíveis. Agora, praticam a microgestão seletiva com altivez
dos anjos. Como quem de repente descobre a fé na gestão, o antigo arqueiro
veste a túnica de autoridade e opera o milagre da amnésia conveniente.
Convencido de que nunca mais precisará da trincheira, o algoz de ontem passa a
ditar a oração de hoje. Alçado ao pedestal da coordenação, sente-se no direito
sagrado de inquirir, questionar e determinar o fazer alheio, regrando com mão
de ferro a própria convivência que ele ajudou a envenenar. Conta, para isso,
com a subserviência resignada de quem continua servindo de alvo, esquecendo-se
de que a maquiagem da conversão não apaga o sangue que ficou no arco.
Mais
recentemente, essa mesma burocracia inventou a sua mais refinada arte magia: a
gestão de alunos por osmose. A receita é simples: arrocha-se o professor
moribundo no patamar da cobrança extrema: “PAD, PAD, PAD...”, como um mantra
que ecoa aqui e ali, à boca pequena... como uma ameaça, como uma mordaça... enquanto
muitos dos alunos continuam fazendo exatamente o que sempre fizeram — nada. Enquanto
os muitos governos e secretarias de educação seguem fazendo o que sempre
fizeram: nada! E ainda tem o familiar que vai à escola pra fazer a matrícula
como quem faz uma promessa que só pretende cumprir se a graça for alcançada.
Raros não. Mas é um tal de praguejar contra os santos. Santos mesmo são só os
alecrins. “Mas essa escola!”, “Mas esse professor!”, “Mas essas más companhias!”
Enquanto isso,
na “sala de justiça”: Intersetorialidade? Pra quê? Questionar os reais
responsáveis pelo problema? De jeito nenhum. O burocrata prefere alvejar o
colega com a imposição, o retrabalho, a glamorização da precarização e da exploração
do trabalho e da apropriação indevida do produto e das ações e produtos intelectuais
desenvolvidos pelo bom professor. Por fim: a sentença: “é difícil”, “se acha”, “se
fosse bom tava na universidade”, “são ordens da coordenadoria”. Vejam: Uma
empresa fornecedora ter o pagamento atrasado? Deus o livre. Mas que mal há em
precarizar e explorar os recursos do docente? Ele já está ali pra isso mesmo...
Para resolver
o abismo pedagógico, aplica-se a solução cartorial perfeita: fazem os
estudantes assinarem "termos de compromisso" que todos sabem que
jamais serão cumpridos. Enquanto o professor não tem de seu nem o direito à
tranquilidade e a se sentir acolhido e seguro no ambiente em que trabalha. Tem de
trabalhar pra trabalhar, registrar que trabalhou, enfrentar quem não quer que
ele trabalhe, não reclamar do que falta para que seu trabalho aconteça e por
fim, ser confrontado porque trabalhou da forma que trabalhou sendo que isso
demonstra que outros não trabalham, não trabalharam, não sabem trabalhar ou
nunca trabalharão. Ou que se há muitas formas
de se trabalhar, isso dará mais trabalho pra quem coordena ou dirige. Mas que
nada! Quanto os que não acolhem se doem quando são tratados apenas polidamente.
Se forem questionados, então...
Mas isso não
importa. O ensino pode ser uma ficção e o professor pode estar sangrando até a
morte, desde que, dentro da pasta do processo, os formulários estejam
impecavelmente preenchidos. O professor é, nesse cenário, definitivamente, o
homem degelo.
sexta-feira, 7 de agosto de 2026
Crônica: "Lembrando com carinho do seu José de Arimatéa, meu pai", de Erivelto Reis
Lembrando com carinho do seu José de Arimatéa, meu pai
Gosto de me lembrar de algumas coisas sobre o meu pai. Gosto
de me lembrar de que ele não se acovardava diante das injustiças; reagia, sim —
com palavras e ações. Gosto de me lembrar do dia em que ele me ensinou a
enfrentar o bullying na escola, numa época em que esse nome nem existia no
espaço social do mundo que eu conhecia.
Gosto de me lembrar de que ele adorava música. Especialmente
daquelas cujas letras eram mais uma crônica de acontecimentos e emoções do que
metafóricas. Gosto de me lembrar de que ele era um comunicador nato, um
contador de histórias com carisma para encantar a audiência. Gosto de me
lembrar e sou grato pela maneira como ele recebeu minha companheira de vida em
nossa família e de como entendeu rapidamente que, a partir daquele encontro, eu
estava construindo ao lado dela uma nova família. E de como era gentil com ela.
Gosto de me lembrar de quando ele me deu uma máquina de
escrever, entendendo o meu fascínio pela leitura e pela escrita ainda na minha
infância. De quando me deu discos que me acompanham até hoje, deixando,
inclusive, de comprar para si, em certa ocasião, um disco que aguardava
ansiosamente para investir todo o lucro de uma semana de trabalho na compra do
objeto da minha fascinação musical.
Gosto de me lembrar de que, na véspera de Natal do ano de
1981, ele só voltou para casa tarde da noite, exausto, mas trazendo modestos e
maravilhosos presentes para mim e para meus irmãos.
Gosto de me lembrar de sua fibra moral e sua resiliência
quando foi demitido e despejado em 1988 e teve que recomeçar; e de seu
sangue-frio ao sofrer um revés terrível de violência e intimidação que teria
mudado ainda mais drasticamente a história de nossa família naquele 25 de
outubro de 1991.
Gosto de me lembrar de como ele era caprichoso com sua moto
e seu carro, a ponto de fazer a manutenção com as habilidades de um mecânico ou
de um profissional de estética automotiva. Gosto de me lembrar do seu zelo com
o acervo de ferramentas. Do seu hábito curioso de preservar mesmo um
despretensioso parafuso ou uma conexão hidráulica para uma eventualidade de
reparo. Gosto de me lembrar do seu princípio inegociável de economizar fazendo
ele mesmo as tarefas que fossem aparecendo.
Gosto de me lembrar do seu empreendedorismo. Do seu amor ao
lugar onde trabalhou até se aposentar e das pessoas que daquele espaço faziam
parte — especialmente os alunos, as alunas e suas famílias, que ano após ano o
homenageavam. E não seria exagero dizer que, sob muitos aspectos, ainda hoje
seu nome é uma referência ou lembrança agradável.
Gosto de me lembrar do seu costume de almoçar sentado ao rés
do chão nas tardes de domingo, preferencialmente na varanda ou na sala de casa.
De sua paixão pelo futebol, que jogava com alguma habilidade e muita
disposição.
Gosto de me lembrar de quando, no seu jeito simples, ele me
ensinava lições valiosas, alertando-me para a insensibilidade e as injustiças
dos mais abastados que escolhem explorar a mão de obra dos trabalhadores, e
para que eu reconhecesse as qualidades de quem, mesmo tendo muito, era humilde
e gentil ao tratar os mais pobres e os que lhes prestavam serviços. Gosto de
ter aprendido com ele que a dignidade de um trabalhador é inegociável e que o
suor que escorre de seu rosto, fruto do seu trabalho, é tão valioso quanto o
sangue que corre em suas veias.
Gosto de me lembrar de quando, no ano de 1983, ele me disse
claramente, enquanto cortávamos a grama na casa de uma família de gente rica:
“Meu filho, estude sempre para que um dia você não apenas tenha uma condição de
vida como a dessas pessoas, mas para que você não seja ignorado e desprezado
por gente com o padrão de vida que elas têm."
Gosto de me lembrar de que ele, diante de uma dor terrível
como a da perda de sua mãe, manteve-se firme e prosperou no caminho do bem que
ela lhe indicara. Gosto de lembrar que ele era carinhoso, mas também
temperamental. Amável, mas, às vezes, instável. Gosto de me lembrar de que
amava os netos. Que foi padrinho de minha filha mais velha e que, assim como
fez comigo e meus irmãos, várias vezes jogou bola comigo e meus filhos aqui no
quintal de casa.
Gosto de me lembrar dele com as qualidades e defeitos que
tinha, e sinto muita saudade. Uma saudade agradecida por tudo o que ele fez,
pelos caminhos que indicou e que ajudou a abrir. Eu sabia que ele andava pelos
lugares me elogiando para as pessoas, falando bem de mim por conta da
literatura, da minha trajetória acadêmica e de eu ter me tornado um professor —
que era uma das profissões que ele mais admirava. E guardo com carinho a
memória dos muitos elogios que ele me fez.
Gosto de me lembrar de quando, aos sábados, ele vinha direto da entrega dos queijos que revendia, feita na sua CG 125, ou das entregas e fretes que fazia na sua Pampa (e, depois de algum tempo, na sua Montana) e parava aqui em casa para me ajudar com as tarefas de manutenção do sítio. E às, vezes, sinto ainda hoje enquanto trabalho, decorridos quase nove anos de sua partida, que ele pode chegar a qualquer momento outra vez.
Gosto de me lembrar de que o tempo em que estivemos juntos
foi, para nós dois, sempre de aprendizados. Gosto de me lembrar do dia em que
ele me contou que só me conheceu quando eu já estava com três dias de nascido,
lá na cidade de Rio Verde, Goiás, porque ele estava trabalhando num silo de
armazenamento e distribuição de sacas de arroz em uma cidade distante. Nós
estávamos jogando sinuca quando ele me contou essa história. Ele adorava vir
aqui em casa nos domingos à tarde ou nas noites de sábado. Gosto de me lembrar
que ele comprava pen-drives e pedia pra eu fazer playlists especiais ao gosto
dele e dos filmes de faroeste que ele assistia um milhão de vezes. Gosto de me
lembrar que ele foi um pai parceiro na minha vida de muitos desafios e que ele
próprio teve que se reinventar muitas vezes para lidar com tudo que fez parte
de sua trajetória.
Gosto de me lembrar do meu pai. Mesmo quando machuca a
saudade dele.
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Poema: "Ultima", de Erivelto Reis
Ultima
Erivelto Reis
A humanidade é a única espécie
Capaz de filmar a própria ruína
Com celulares de última geração.
Daí, vai lá e filma.
Ultima.
Poema: "Cupins e crocodilos", de Erivelto Reis
Cupins e crocodilos
Erivelto Reis
Sabendo do estrago que o cupim faz num lambri
Biombo oculta o estertor do amanhã de tua prole
Mais que isto, devoram-no, sorvem-no e engolem
O néctar da capacidade que arruínam por si e só por si.
Das altas ordens que não são do céu e descem ao rés do chão
Só cumprem mesmo as que podem ser ficcionalizadas
Inventam índices, batalhas não travadas.
E debocham delas com desfaçatez e convicção.
Crocodilos choram enquanto agoniza a sua presa
Sabe-se disso há muito tempo, não há sequer surpresa
Espanto é vê-los plácidos ante o horror que nos faz ficar
aflitos
Dizer-se-ia, incautos que os não conheça,
Que dentre estes há ainda quem mereça
A honrosa meta de instruir aos vossos filhos.
sábado, 25 de julho de 2026
Crônica: "Sobre Paraíso, 1982 e sobre Benedito... ou não", de Erivelto Reis
Sobre Paraíso, 1982 e sobre
Benedito... ou não
Erivelto Reis
A chegada de Paraíso (1982) ao
Globoplay não é apenas um resgate da teledramaturgia nacional; é um convite
para encarar o espelho de um Brasil que insiste em não mudar. Longe de ser
apenas mais um folhetim interiorano, a novela carrega, talvez, um dos textos
mais abertamente políticos de Benedito Ruy Barbosa. Em pleno período de
reabertura e na efervescência da luta pela redemocratização, Benedito usou a
rádio fictícia da trama para falar, sem rodeios, sobre política partidária,
democracia, representatividade, o direito ao voto, reforma agrária e a
dignidade e aposentadoria dos trabalhadores do campo.
Enquanto o romance cativante
entre o "filho do diabo" e a "santinha" Maria Rita servia
de pano de fundo, a novela abria alas para o florescimento urbano e a
popularização da canção sertaneja no espaço da grande mídia da telenovela. Foi
o palco onde ecoaram nomes como Renato Teixeira, Rolando Boldrin, Almir Sater,
a dupla Milionário & José Rico e Sérgio Reis — este último com destaque no
papel do peão Diogo. Por trás da musicalidade rural, corria a crítica ácida e
tácita ao conservadorismo e à hipocrisia da Igreja Católica, uma instituição
que andava de mãos dadas com o poder oligárquico dos coronéis. Eram figuras que
recorriam a supostos pactos demoníacos, mantendo o diabo aprisionado em uma
garrafa — mito ao qual o autor retornaria com maestria anos mais tarde em
Renascer. Enquanto jogavam sinuca a dinheiro, o padre da cidade e esses mesmos
coronéis (menos raivosos no horário das 18h), em reuniões e visitas de
circunstâncias, dividiam espaço com os hábitos das beatas e o jogo do poder, em
um ambiente em que, gradativamente, os civis em cargos de gestão como a
prefeitura iam aprendendo a manejar a máquina da propaganda, o poder do rádio,
a utilização da religião para manter estruturas socialmente comprometidas com a
imutabilidade e da boa-fé de trabalhadores e trabalhadoras diante de qualquer
aceno de modernização para aquela pacata cidade. Ney Matogrosso alertava na
abertura da novela: "promessas demais"...
Benedito Ruy Barbosa não poupou
esforços para fazer de sua obra uma forma didática de ensinar novos rumos e
percepções políticas e sociais para o grande público da telenovela —
especialmente os mais pobres ou ligados ao interior rural do país —, escrevendo
cenas em que a rádio da cidade apresentava, entre as canções sertanejas, peças
de utilidade pública em reclames, como a campanha do soro caseiro, dicas de
higiene e vacinação. E passou boa parte dos mais de 180 capítulos ensinando
claramente o conceito de situação e oposição em termos políticos e as possíveis
intersecções entre esses dois polos no jogo do poder, desde a construção de uma
pequena ponte até o pagamento do salário atrasado das professoras da cidade.
Anos mais tarde, no remake de
2009 adaptado por Edmara Barbosa, a mesma rádio fictícia voltou ao ar como
engrenagem central da narrativa, mas dessa vez espelhando as transformações da
própria indústria da música no país. Se em 1982 o rádio abriu portas para o
chamado “sertanejo de raiz” e para a poética do campo, na versão dos anos 2000
a emissora serviu de vitrine estratégica para a consolidação e a massificação
do chamado "sertanejo universitário", marcando a migração do gênero
das violas caipiras para a música chiclete, os rodeios e as arenas do
agronegócio.
A produção original fincou raízes
em cenários marcantes: a Fazenda Florença, em Vassouras, e a Fazenda Indiana,
situada na divisa entre o bairro de Campo Grande (Zona Oeste do Rio) e Nova
Iguaçu, esquadrinhadas pela BR-465 (a antiga Rio–São Paulo) e pela Avenida
Brasil. Vassouras, no interior do estado, emprestou seu casario antigo e sua
exuberante praça principal como locações externas. A cidade conseguiu, ao menos
em seu centro histórico, preservar e restaurar seu patrimônio ao longo das
décadas. Já o destino da Fazenda Indiana foi o avesso da preservação: virou
fábrica da Ambev, e o seu entorno foi tragado pela precarização, pelo colapso
da mobilidade urbana, pela favelização, subempregos e exploração da mão de
obra. A fazenda e sua criação de bois encerraram suas atividades, mas o
território — entre Campo Grande e Nova Iguaçu — continua operando, ainda hoje,
como um imenso curral eleitoral. O voto de cabresto e a força dos novos
"coronéis" mostram que toda a luta pela democracia ainda não conseguiu
coibir tais práticas. Mudam-se os tempos, mas não se mudam as vontades do
poder, especialmente na assistência às periferias, subúrbios e na Baixada
Fluminense.
Benedito Ruy Barbosa leu como
poucos o Brasil rural e o país dos coronéis em obras emblemáticas como Cabocla,
O Rei do Gado, Renascer, Sinhá Moça e Pantanal. Ele leu o país como quem lê uma
manchete histórica, situando e até discutindo temas como a escravidão e o
racismo, estruturalmente entranhado. O jovem Tobi, aspirante a peão, vai preso
numa “exorbitância” do delegado apenas por ser negro. Benedito era sensível e emocionalmente
eficiente em suas narrativas populares construídas para as telenovelas ainda
que, por vezes, perpetuasse determinados estigmas e incorreções
historiográficas, sobretudo sobre o tema dos escravizados — afinal, o que não
se corrige na ficção (embora não seja esta a sua obrigação) custa, demora e dá
muito mais trabalho para ser corrigido apenas pelo viés da história e da
educação. E, quando se corrige alguma coisa sem arte, às vezes fica torto, fica
faltando algo, sem esquadro e sem base.
Rever a novela, para mim, é um
exercício de memória viva. Acompanhar as cenas onde vazam ou se identificam o
entorno do Km 32 da Rio–São Paulo, o Viaduto dos Cabritos, o primeiro conjunto
habitacional da região, a Avenida Brasil quase deserta em direção a Santa Cruz,
ou a alça de acesso para Campo Grande rasgada no morro, funciona como uma
verdadeira máquina do tempo. Trata-se de uma ligação afetiva visceral,
costurada pela ficção e pelos resíduos geográficos e históricos de uma região
tão desfavorecida — a mesma região de onde, hoje, grupos de investidores
extraem os bilhões com os quais avançam contra a economia brasileira e ainda
rosnam contra qualquer política pública. Foi uma das primeiras novelas que
assisti com minha mãe, meu pai e meus irmãos quando por aqui chegamos. E era
bem pertinho da gente.
Hoje, a qualquer hora do dia, de
domingo a domingo, é impossível cruzar a região da antiga Fazenda Indiana —
atual Ambev — sem perder, no mínimo, meia hora em um engarrafamento sufocante e
interminável. Ali, a luta pela sobrevivência se escancara no asfalto:
trabalhadores e trabalhadoras e suas famílias arriscam a própria vida entre
carros e motos, vendendo de tudo — do pacote de amendoim ao limpador de
para-brisa. A antiga olaria deu lugar a um ecossistema informal e pulsante de
barracas de refeições rápidas, do cafezinho à cerveja gelada, além do aluguel
de vagas improvisadas de estacionamento para os operários da fábrica. No espaço
exíguo entre o acostamento e a frente do terreno da olaria, ergue-se e se
adensa, dia a dia, a comunidade Dilma Rousseff. Naquele mesmo solo onde outrora
circulou o trem, a BR-465 ostenta hoje uma dupla privatização: no monopólio
entregue a um grupo de empresas de ônibus e na cessão generosa, como brinde, à
concessionária que administra o Arco Metropolitano.
Falar de segurança no trecho
entre a Estrada Rio do A e a Via Dutra é, esta sim, uma autêntica obra de
ficção. Que Deus defenda cada trabalhador e trabalhadora que depende desse
inferno diário para conseguir chegar ao serviço, para alcançar a CEDAE (outra
que também foi privatizada), o Colégio Técnico da UFRRJ (CTUR), o campus de
Seropédica da Universidade Rural, ou cada uma das dezenas de escolas estaduais
e municipais de Nova Iguaçu, Seropédica e Itaguaí. Escolas que, embora ainda
não formalmente privatizadas, convivem aqui e ali com seus velhos
"coroneizinhos" e "sinhazinhas" locais dando as cartas e
ditando as regras.
O tempo passou, e o diabo, que na
ficção vivia trancado na garrafa, parece ter conseguido fugir e ganhar o
coração e as mentes das pessoas que se alternam no poder através das faces mais
perversas do capitalismo: a exclusão, a perda do direito à cidade, o racismo
ambiental e geográfico e o desrespeito ao meio ambiente. Como exemplos, a
poluição do Guandu, a desapropriação de um bairro inteiro para as Águas do Rio
— entre o Km 37 e o Km 39 —, e a abertura de uma verdadeira fenda numa das
faces da Serra do Vulcão, colocando milhares de famílias em risco permanente às
margens da Estrada de Madureira.
Somam-se a isso as constantes
rupturas de tubulações ou a falta d'água crônica, intercalada com cobranças
abusivas de água e esgoto; e as taxas de iluminação pública cobradas para a
tubulação da CEDAE, enquanto as localidades cujo desenvolvimento ela sepultou
com a elevação da tubulação ao nível da estrada principal — impedindo ou
dificultando o desenvolvimento de seu comércio ou ocultando o horror de sua
falta de recursos básicos com saneamento e calçamento —, os tais dos
"quilômetros" 33, 34, 35, 37 e 39, nas ruas de seu interior, ainda
sofrem com a escuridão, os buracos, o lixo e o esgoto a céu aberto.
É a exploração desenfreada e a
desapropriação daquilo que, em outros tempos, constituía o patrimônio e os bens
populares. Além disso, na última década, assiste-se nessa região à construção
desenfreada de conjuntos habitacionais sem nenhum plano real de expansão e
mobilidade urbana ou de melhoria das condições de vida dessas populações.
Claro, a Fazenda Indiana
(dizia-se ser de propriedade dos atores Tarcísio Meira e Glória Menezes) era
uma propriedade privada. No entanto, tudo o que a sua venda e os seus
desdobramentos políticos, econômicos e sociais trouxeram para a região — de
1982 até os dias de hoje — nos deixa na boca o gosto amargo de constatar que as
críticas de Benedito Ruy Barbosa não foram assimiladas pela sociedade. O diabo
está solto, e a ficção de quatro décadas atrás continua sendo o nosso retrato
mais dolorosamente real.
Zé Eleutério, Maria Rita,
Terêncio, Padre Bento, a Rádio Voz do Vale, o casario e a praça “emprestados”
pela querida cidade de Vassouras como cenário e tantos personagens marcantes
formavam a alma daquela trama. Um elenco estelar em que veteranos como Jofre
Soares, Cláudio Corrêa e Castro, Eloísa Mafalda, Ary Fontoura, Tereza Raquel,
Sérgio Britto, Henriqueta Brieba, Roberto Bonfim, Neuza Amaral e Rui Resende
construíram uma química excelente com os jovens Cristina Mullins, Kadu
Moliterno, Íris Nascimento, Cosme dos Santos, Bia Seidl, Caíque Ferreira,
Simone Carvalho, Zaira Zambelli, Mário Cardoso, Roberto Pirillo e Elisângela,
entre tantos outros atores e atrizes que a partir dali consolidariam ou
redirecionariam suas carreiras.
Em 1988, na novela Vale Tudo, o
vilão Marco Aurélio ameaçava um dos seus lacaios, um policial corrupto, com uma
transferência para Seropédica: “bem pra lá de São Sebastião do Calçado”,
segundo o personagem. Já no início dos anos 2000, uma outra fazenda, em
Seropédica, também às margens da rodovia BR-465 — nomeada oficialmente em 2014
como Rodovia Luiz Henrique Resende Novaes, quase chegando à Dutra e logo depois
da área por onde passaria o Arco Metropolitano, seria cenário para uma outra
novela das 18h: Força de um Desejo, escrita por Gilberto Braga, outro ícone da
teledramaturgia. Na trama, a casa de fazenda pertencia ao antagonista Higino
Ventura, vivido pelo talentosíssimo ator Paulo Betti. A construção pode ser
vista por todos que passam pela estrada e já abrigou, por pouco tempo, um
centro cultural.
Eu queria apenas falar do resgate
da novela no Globoplay, saudar a trajetória e a memória de Benedito Ruy
Barbosa, grande autor de telenovelas brasileiras, mas acho que acabei falando
de como a política sem ética e sem responsabilidade com a população pode fazer
com que toda uma região permaneça tão desassistida quanto estava há 44 anos —
talvez até em uma condição pior. Essa região, definitivamente, não é um
paraíso.
segunda-feira, 20 de julho de 2026
Poema: "Avisado", de Erivelto Reis
Avisado
Erivelto Reis
Há quem reze para um deus machista
Alcoolista
Preconceituoso
Drogado
E ludibriado
Quanto à própria
Sabedoria, onipresença, onipotência
E onisciência.
A quem reze para um deus consciente
Da própria crueldade
Como quem lê um romance
Onde o narrador sabe que está narrando,
Porque está narrando e o que vai ser feito
Da vida de todas as personagens.
Ser deus talvez seja sobre não saber ser deus
Ou não saber reconhecer um deus
Ou uma deusa...
Sobre não saber nada sobre existência alguma
Que seja superior ao tempo,
Ao sorriso de uma criança,
Ao silêncio de testemunhar um fim...
Ser deus não deveria ser
Sobre ter fiéis, crentes ou sequestradores
De enredos...
Ou sobre ter seu nome em nenhum livro
Em que a existência esteja restrita a um espaço
Circunscrito a nascer e morrer.
Ou existir sem sofrer.
Ou promessas de prendas e paraísos
Ou ameaças de sacrifícios.
Ser deus deveria ser algo tão banal
Que ninguém se desse conta.
Desconfio desse tipo de deus que é sendo
E que não é se desentendendo
E que é não sendo
Quando mais se precisa
Que seja
Penso talvez num deus que não é e não foi
Sempre não sendo,
Mas que avisa.
sábado, 4 de julho de 2026
Poema: "Cacos de vidro", de Erivelto Reis
Cacos de vidro
domingo, 28 de junho de 2026
Poema: "Arrependimento"
Arrependimento
Erivelto Reis
Eu não digo nada, nem pra mim
Com medo de arrependimento
A maturidade vai chegando
Tô sozinho faz um tempo...
Você disse num adeus:
É vivendo e aprendendo.
Eu não digo que não sinto falta
De cada carícia
de cada delícia
que vivi com você...
Tô perdido e não vejo sentido na vida
Invento desculpa
Planejo uma fuga
Procuro saída
A alma só obedece a quem ama
Eu deito na cama
Tento esquecer
A alma é malcriada
E se sofre, reclama
Eu deito na cama
Você tá morando
No meu pensamento...
Eu não digo nada,
Nem pra mim
Com medo de arrependimento...
Você disse num adeus:
É vivendo e aprendendo.
Poema: "Território", de Erivelto Reis
Território
Erivelto Reis
Território
É terra... e sonhos!
Memória que guarda história
Território é casa,
É aprender a proteger a alma
Território
É aprendizado, força pra romper
O ciclo perverso do passado
Da exploração do assalariado
Construindo o futuro, dia a dia,
Com conhecimento e sabedoria.
Território,
É fé, trabalho, amizade
Ter a escola como ponto de partida
E levar o que nela se aprende,
Levar o que que nela se ensina
No coração da gente,
Pra melhorar nossa vida.
Território, é cultura,
É paz pra abraçar quem se ama
É luta por um lugar melhor
É diversidade, pertencimento,
É inclusão e respeito
É ir e vir em segurança
Quando nos dão esse direito.
Território,
É representatividade e oportunidade.
É arte e liberdade pra criar.
Eles chamam de baixada
O que nós chamamos lar.
Eles chamam de despesa
O que pra nós tem valor
E entregam em conta gotas
Como se nos fizessem um favor.
Território
Não se mede por distância
O que vale é a importância
Que se dá,
Ao lugar em que as pessoas
Residem, estudam e trabalham
Território
Não é sobre sobreviver
É sobre viver e prosperar.
É assim que tem que ser.
Poema: "Bueno", de Erivelto Reis
Bueno
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Crônica: "Continuo amanhã... Continuo amanhã?!", de Erivelto Reis
Continuo amanhã... Continuo amanhã?!
Erivelto Reis
O ambiente de
uma sala de aula na escola pública brasileira é, por excelência, um território
de contrastes e de disputas invisíveis. De um lado, quadros negros descascados,
salários defasados e a exaustão crônica de profissionais que, contra todas as
estatísticas, ainda insistem na transformação pelo conhecimento. Do outro, uma
juventude que, por vezes, confunde a rebeldia legítima contra o sistema com o
puro e simples desrespeito individual.
É sob essa
ótica que se destaca uma das figuras mais emblemáticas do cotidiano escolar: o
aluno que escolhe a apatia ou o deboche como refúgio.
Não se trata
aqui do estudante que dorme por trabalhar na madrugada para sustentar a casa,
cuja exaustão é um sintoma da desigualdade social. A crítica cabe àquele que,
por puro desinteresse, faz da carteira um leito de hotel, ignorando o esforço
de quem está de pé na frente da sala. Dormir sob o teto da escola pública,
quando se tem a chance de aprender, é o primeiro passo para a autossabotagem
consciente.
Ainda pior é o
espetáculo do cinismo. Quando o professor tenta desfazer o nó de uma equação
complexa ou explicar as nuances da história do país, surgem as risadinhas
abafadas no fundo da sala, as piadas fora de hora e o olhar de desdém. O
deboche virou a moeda de troca para o pertencimento social dos fracos. Para não
parecer "careta" ou "cdf" diante do grupo, o estudante
prefere ironizar a única ferramenta capaz de tirá-lo da margem: a educação.
"Rir de um professor que
tenta ensinar é, no fundo, rir da própria falta de perspectiva."
Existe uma
profunda miopia na atitude do aluno que hostiliza o docente. Ele acredita, em
sua ilusão de rebeldia, que está desafiando a autoridade, o "sistema"
ou o Estado. Mas a realidade é cruelmente oposta: O aluno sabota o próprio
futuro. Ao esvaziar a aula com piadas e ironias, o estudante não está punindo o
professor ou o governo; está punindo a si mesmo e aos colegas que queriam
aprender. Está perpetuando o ciclo de exclusão que alguns professores e função
primordial da escola pública justamente tentam quebrar.
O deboche em
sala de aula é o triunfo da ignorância que se orgulha de si mesma. É a
validação do preconceito de quem está no topo da pirâmide social e aponta para
a escola pública dizendo que ela "não funciona". Quando o aluno
desvaloriza o professor, ele assina embaixo do discurso daqueles que querem ver
a educação pública sucateada.
A escola
pública não é um parque de diversões, tampouco um espaço de entretenimento onde
o professor atua como animador de palco para prender a atenção de plateias
mimadas. Ela é um direito conquistado a duras penas, mantido pelos impostos do
próprio povo.
O riso cínico
que ecoa no fundo da sala não é sinal de inteligência, malícia ou
superioridade; é o eco de uma trágica falta de visão. Enquanto o aluno brinca
de ser rebelde sabotando a própria aula, o mundo lá fora não espera. A vida
cobra o preço do conteúdo ignorado, e o mercado de trabalho não costuma achar
graça nenhuma do deboche. É hora de acordar da letargia — e guardar o riso para
quando a vitória for real.
Há tragédias
silenciosas que não chegam às manchetes dos jornais, mas que sangram, dia após
dia, no chão batido das salas de aula. Nenhuma delas, contudo, é tão visceral,
tão terrivelmente cruel, quanto o espetáculo da autossabotagem planejada.
Assistir a um
filho da classe trabalhadora — herdeiro do suor, dos calos e da exaustão de
pais que vendem a própria força de trabalho para garantir o pão — decidir, por
livre e espontânea vontade, que o conhecimento não lhe serve, é ver o futuro
ser assassinado na nossa frente.
É uma dor que
aperta o peito de quem observa, porque cada bocejo forçado, cada riso de
deboche e cada "não quero saber" ressoa como um tapa na face de uma
mãe que acordou às quatro da manhã, ou de um pai que carrega o peso do mundo
nas costas para que o filho tenha o direito de segurar uma caneta, e não uma
enxada ou uma britadeira.
Mas a
crueldade atinge o seu ápice dramático quando essa renúncia ao saber se veste
de falsa injustiça. O estudante que escolhe o abismo não assume o peso da
própria queda. Em vez disso, constrói uma narrativa perversa, uma cortina de
fumaça covarde, e aponta o dedo para a única pessoa que estendeu a mão: o
professor.
Com uma
retórica vazia, o jovem tenta convencer o mundo — e a si mesmo — de que sua
ignorância é culpa alheia:
· "O
professor é chato."
· "A
matéria não serve para nada."
· "A
didática dele não bate com a minha energia."
· "Ele
pegou no meu pé."
Transforma-se
o mestre em carrasco e o omisso em vítima. É uma inversão de valores de um
cinismo devastador. Culpa-se a personalidade do docente para mascarar a própria
preguiça; condena-se a rigidez da disciplina para justificar a falta de caráter
e de brio. O professor, que muitas vezes gasta a voz e a saúde mental tentando
resgatar aquela mente da vala da mediocridade, é sacrificado no altar do
orgulho juvenil.
É de uma
ironia trágica, quase teatral. Enquanto o filho do burguês, nas escolas
particulares de elite, é treinado sob rédeas curtas para liderar, para dominar
a ciência, a linguagem e a tecnologia, o filho do trabalhador, na escola
pública, escolhe o deboche. Ele acha "bonito" ser o rebelde sem causa
que sabota a aula. Ele se orgulha de dar as costas para o quadro-negro.
O que ele não
consegue enxergar, em sua miopia soberba, é que o sistema comemora o seu
silêncio. Cada vez que um aluno rejeita o conhecimento e culpa o professor, os
arquitetos da desigualdade sorriem. O jovem está cumprindo exatamente o roteiro
que os opressores escreveram para ele: o roteiro da subalternidade eterna.
Quando o filho
do trabalhador se recusa a aprender, ele não está punindo o Estado, ele não
está se vingando do professor "chato". Ele está assinando a sua
própria sentença de subemprego. Está decretando que o sacrifício de seus pais
foi em vão.
Não se pode
romantizar a atitude do estudante que se recusa a saber. Há apenas o triste
espetáculo de uma mente que escolheu se algemar. Culpar o professor pela
própria ignorância é o último refúgio de quem não tem a coragem de olhar no
espelho e admitir que é o único responsável pelo próprio fracasso.
A vida real,
implacável e desprovida de qualquer compaixão, não aceitará essas desculpas.
Quando as portas se fecharem e o peso da sobrevivência esmagar os ombros desse
jovem, de nada adiantará qualquer pretensa justificativa. A ignorância terá
cobrado o seu preço mais alto, e o eco daquelas risadas de deboche na sala de
aula se transformará, inevitavelmente, no lamento tardio de quem teve a chance
de se libertar e preferiu a servidão voluntária.
E aqui reside
o refinamento mais cruel dessa engrenagem: não importa a excelência do mestre.
Pode ser o professor mais preparado, aquele que respira a docência, que chega à
sala com o olhar brilhando, munido de uma gentileza inabalável e disposto ao
diálogo mais franco. Pode ser o profissional que passa noites em claro
selecionando conteúdos, preparando materiais dinâmicos e que, não raramente, tira
do próprio bolso o dinheiro que falta ao Estado para oferecer aos alunos uma
experiência diferenciada, um lampejo de dignidade pedagógica. Pode ser a figura
mais compreensiva, parceira e acolhedora do mundo.
Nada disso
basta. Porque quando o estudante decide fincar os pés na rejeição, todo esse
banquete de dedicação é desperdiçado
Quando o aluno
sela o pacto com a própria ignorância, ele transforma a sala de aula em uma
arena de combate psicológico. O limite entre o desprezo silencioso e a ironia
do deboche é cruzado diariamente. Não se trata apenas de não querer aprender;
trata-se de destruir a autoridade de quem ensina.
O estudante
estabelece uma queda de braço perversa: recusa-se a realizar as atividades mais
corriqueiras, nega-se a abrir o caderno e chega ao extremo de recusar um
cumprimento formal no início da aula. A educação deixa de ser um processo
intelectual e passa a ser um teste de poder.
Para mascarar
o seu vazio, esse jovem aciona uma máquina de difamação:
·
A culpabilização: Avalia o professor
negativamente de forma deliberada, distorcendo critérios para punir quem o
cobra.
·
A mentira sistemática: Inventa narrativas,
distorce fatos e mente abertamente sobre a conduta do docente para a
coordenação ou para os pais, tentando transformar sua própria indisciplina em
um "problema relacional".
·
O tribunal da incompetência: Tenta convencer os
pares de que o erro está na postura do professor, invertendo os papéis de
agressor e vítima.
Essa dinâmica
contínua produz um rastro de destruição humana. Esse comportamento adoece. Ele
mina a autoconfiança de profissionais experientes, injeta a paralisante
substância da insegurança na mente de quem estudou anos para estar ali e
descredibiliza o saber diante de toda a turma.
Sob essa
pressão, a docência é violentada, empurrada para se tornar um rebaixado concurso
de popularidade. O professor é coagido a ser um "animador de torcida"
ou, pior, a aceitar um conchavo humilhante: um pacto de mediocridade onde o
aluno finge que aprende e o professor finge que não vê ou torna-se conivente
com o caos para preservar o que lhe resta de sanidade mental. A escola pública,
que deveria ser o berço da emancipação, é transformada em um cativeiro
psicológico para quem ousa tentar ensinar.
O que esse
estudante pratica não é uma travessura juvenil; é um processo de violência
multifacetada e avassaladora:
- Simbólica e Intelectual: Ao ridicularizar o
conhecimento, o aluno apaga o valor da ciência, da história e da cultura,
decretando que o saber não vale nada.
- Emocional e Psicológica: O massacre diário de olhar
para rostos cínicos, de ouvir risadinhas sussurradas e de enfrentar a
rejeição deliberada destrói a saúde mental do docente, gerando crises de
ansiedade, depressão e a síndrome de Burnout.
- Física: A barreira entre a violência psicológica e
a agressão física é tênue. O tensionamento constante do ambiente escolar
quebra o pacto de paz e, em muitos casos, descamba para a intimidação
física direta e ameaças reais à integridade do trabalhador da educação.
Para agravar
essa tragédia institucional, o professor agredido frequentemente descobre que a
solidão da docência é alimentada pela traição corporativa: há colegas de
profissão que, longe de defenderem a dignidade do cargo, não apenas compactuam
silenciosamente com essas práticas antipedagógicas, mas se associam ativamente
a elas. Essa cumplicidade opera em múltiplos níveis, manifestando-se desde a
dissimulação covarde — como o silêncio obsequioso nos conselhos de classe e o
endosso velado às reclamações infundadas dos estudantes — até a participação
explícita na desestruturação da imagem do colega, validando o deboche dos
alunos para angariar uma popularidade barata ou alimentar rivalidades internas.
Ao relativizarem a barbárie e justificarem o injustificável sob o pretexto de
uma falsa "empatia juvenil", esses profissionais tornam-se
engrenagens fundamentais no aviltamento de seus pares, legitimando a violência
psicológica e carimbando, de dentro da própria categoria, o atestado de
falência da autoridade docente.
Ver o filho do
trabalhador usar o seu tempo para linchar psicologicamente o professor que
tenta salvá-lo da engrenagem da exclusão é um soco no estômago da sociedade. É
a barbárie instalada na antessala do futuro. Quando a escola pública aceita que
o deboche e a mentira vençam o acolhimento e a competência, ela deixa de ser um
templo de luz para se tornar o cenário de uma das maiores crueldades sociais do
nosso tempo.
Em meio a esse
deserto de afetos e respeito, seria injusto não reconhecer o oásis: existem,
sim, aqueles alunos maravilhosos que justificam a nossa permanência no chão da
escola. Estudantes que carregam no olhar o brilho da curiosidade e para quem é
uma verdadeira honra lecionar. Eles se tornam quase parceiros no cotidiano da
sala de aula; trazem consigo um bom humor contagiante, uma lealdade firme,
ética, comprometimento, inteligência e uma sensibilidade rara. O problema é
que, a cada ano que passa, encontrar essas mentes luminosas tornou-se uma
raridade estatística. Uma turma inteira composta por eles? Um sonho quase
utópico.
No entanto, o
que dilacera o peito do educador não é apenas a escassez desses jovens, mas a
estarrecedora descoberta de que, em certas situações, essa "turma dos
sonhos" existe, mas escolhe a exclusão deliberada. Dói profundamente
perceber que um grupo de alunos, dotado de pleno discernimento, firma um pacto
velado de silêncio e distância na sua aula. Sabe-se lá por qual motivo ou
justificativa torpe, eles decidem, coletivamente, que você não merece o melhor
deles.
É uma punição
covarde que se renova a cada toque do sinal, aplicada contra o professor por
crime ou erro nenhum. Negam qualquer possibilidade de aproximação humana ou
pedagógica. Esse isolamento muitas vezes se alimenta das sombras mais
mesquinhas: do etarismo que desvaloriza a experiência, de preconceitos de
qualquer natureza, do "ouvir dizer" alimentado por fofocas de
corredor, ou, mais doloroso ainda, pelo simples fato de você se recusar a ser
"mais do mesmo". Por você insistir em realizar o seu trabalho com
rigor, seriedade e paixão, em vez de se render ao pacto da mediocridade, a
turma o pune com o gelo do desprezo. É a inteligência e a sensibilidade
instrumentalizadas para o boicote, transformando o que deveria ser um espaço de
partilha em um tribunal silencioso e implacável.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Poema: "Silos", de Erivelto Reis
Silos
Erivelto Reis
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Poema: "Cantilena", de Erivelto Reis
Cantilena
Erivelto Reis
Escuto o teu murmúrio
Como se fosse prece.
Em meio às tuas febres,
Não é o meu semblante
Que nos teus delírios aparece.
Caminhas pela casa,
Fantasma onipresente
Que não portando alma
Nem és santo, nem és gente.
Amou-me e desamou
Sofreu e fez sofrer quem não merece.
Amor, raro licor,
Escuto o teu murmúrio
Como se fosse prece.
domingo, 10 de maio de 2026
Poema: "Double Fantasy", de Erivelto Reis
Double Fantasy
Erivelto Reis
Às vezes,
Você pensa que está trabalhando
Mas está saindo
Do Dakota Building
Talvez pela última vez...
Às vezes, em certos lugares,
Você pensa que está agradando
Mas, sem saber, está apenas
Autografando um long-play
Pra um assassino.
Às vezes você pensa.
E enquanto pensa, nem sempre nota
(O monte de Judas em Dakota)
O quanto Chapman trama
Puxar seu tapete, puxar o gatilho,
Fechar sua porta...
Deixar órfão o seu mundo,
Deixar órfão o seu filho.