Cacos de vidro
Quem sou eu
- Erivelto Reis - Poemas e Crônicas
- Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.
sábado, 4 de julho de 2026
Poema: "Cacos de vidro", de Erivelto Reis
domingo, 28 de junho de 2026
Poema: "Arrependimento"
Arrependimento
Erivelto Reis
Eu não digo nada, nem pra mim
Com medo de arrependimento
A maturidade vai chegando
Tô sozinho faz um tempo...
Você disse num adeus:
É vivendo e aprendendo.
Eu não digo que não sinto falta
De cada carícia
de cada delícia
que vivi com você...
Tô perdido e não vejo sentido na vida
Invento desculpa
Planejo uma fuga
Procuro saída
A alma só obedece a quem ama
Eu deito na cama
Tento esquecer
A alma é malcriada
E se sofre, reclama
Eu deito na cama
Você tá morando
No meu pensamento...
Eu não digo nada,
Nem pra mim
Com medo de arrependimento...
Você disse num adeus:
É vivendo e aprendendo.
Poema: "Território", de Erivelto Reis
Território
Erivelto Reis
Território
É terra... e sonhos!
Memória que guarda história
Território é casa,
É aprender a proteger a alma
Território
É aprendizado, força pra romper
O ciclo perverso do passado
Da exploração do assalariado
Construindo o futuro, dia a dia,
Com conhecimento e sabedoria.
Território,
É fé, trabalho, amizade
Ter a escola como ponto de partida
E levar o que nela se aprende,
Levar o que que nela se ensina
No coração da gente,
Pra melhorar nossa vida.
Território, é cultura,
É paz pra abraçar quem se ama
É luta por um lugar melhor
É diversidade, pertencimento,
É inclusão e respeito
É ir e vir em segurança
Quando nos dão esse direito.
Território,
É representatividade e oportunidade.
É arte e liberdade pra criar.
Eles chamam de baixada
O que nós chamamos lar.
Eles chamam de despesa
O que pra nós tem valor
E entregam em conta gotas
Como se nos fizessem um favor.
Território
Não se mede por distância
O que vale é a importância
Que se dá,
Ao lugar em que as pessoas
Residem, estudam e trabalham
Território
Não é sobre sobreviver
É sobre viver e prosperar.
É assim que tem que ser.
Poema: "Bueno", de Erivelto Reis
Bueno
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Crônica: "Continuo amanhã... Continuo amanhã?!", de Erivelto Reis
Continuo amanhã... Continuo amanhã?!
Erivelto Reis
O ambiente de
uma sala de aula na escola pública brasileira é, por excelência, um território
de contrastes e de disputas invisíveis. De um lado, quadros negros descascados,
salários defasados e a exaustão crônica de profissionais que, contra todas as
estatísticas, ainda insistem na transformação pelo conhecimento. Do outro, uma
juventude que, por vezes, confunde a rebeldia legítima contra o sistema com o
puro e simples desrespeito individual.
É sob essa
ótica que se destaca uma das figuras mais emblemáticas do cotidiano escolar: o
aluno que escolhe a apatia ou o deboche como refúgio.
Não se trata
aqui do estudante que dorme por trabalhar na madrugada para sustentar a casa,
cuja exaustão é um sintoma da desigualdade social. A crítica cabe àquele que,
por puro desinteresse, faz da carteira um leito de hotel, ignorando o esforço
de quem está de pé na frente da sala. Dormir sob o teto da escola pública,
quando se tem a chance de aprender, é o primeiro passo para a autossabotagem
consciente.
Ainda pior é o
espetáculo do cinismo. Quando o professor tenta desfazer o nó de uma equação
complexa ou explicar as nuances da história do país, surgem as risadinhas
abafadas no fundo da sala, as piadas fora de hora e o olhar de desdém. O
deboche virou a moeda de troca para o pertencimento social dos fracos. Para não
parecer "careta" ou "cdf" diante do grupo, o estudante
prefere ironizar a única ferramenta capaz de tirá-lo da margem: a educação.
"Rir de um professor que
tenta ensinar é, no fundo, rir da própria falta de perspectiva."
Existe uma
profunda miopia na atitude do aluno que hostiliza o docente. Ele acredita, em
sua ilusão de rebeldia, que está desafiando a autoridade, o "sistema"
ou o Estado. Mas a realidade é cruelmente oposta: O aluno sabota o próprio
futuro. Ao esvaziar a aula com piadas e ironias, o estudante não está punindo o
professor ou o governo; está punindo a si mesmo e aos colegas que queriam
aprender. Está perpetuando o ciclo de exclusão que alguns professores e função
primordial da escola pública justamente tentam quebrar.
O deboche em
sala de aula é o triunfo da ignorância que se orgulha de si mesma. É a
validação do preconceito de quem está no topo da pirâmide social e aponta para
a escola pública dizendo que ela "não funciona". Quando o aluno
desvaloriza o professor, ele assina embaixo do discurso daqueles que querem ver
a educação pública sucateada.
A escola
pública não é um parque de diversões, tampouco um espaço de entretenimento onde
o professor atua como animador de palco para prender a atenção de plateias
mimadas. Ela é um direito conquistado a duras penas, mantido pelos impostos do
próprio povo.
O riso cínico
que ecoa no fundo da sala não é sinal de inteligência, malícia ou
superioridade; é o eco de uma trágica falta de visão. Enquanto o aluno brinca
de ser rebelde sabotando a própria aula, o mundo lá fora não espera. A vida
cobra o preço do conteúdo ignorado, e o mercado de trabalho não costuma achar
graça nenhuma do deboche. É hora de acordar da letargia — e guardar o riso para
quando a vitória for real.
Há tragédias
silenciosas que não chegam às manchetes dos jornais, mas que sangram, dia após
dia, no chão batido das salas de aula. Nenhuma delas, contudo, é tão visceral,
tão terrivelmente cruel, quanto o espetáculo da autossabotagem planejada.
Assistir a um
filho da classe trabalhadora — herdeiro do suor, dos calos e da exaustão de
pais que vendem a própria força de trabalho para garantir o pão — decidir, por
livre e espontânea vontade, que o conhecimento não lhe serve, é ver o futuro
ser assassinado na nossa frente.
É uma dor que
aperta o peito de quem observa, porque cada bocejo forçado, cada riso de
deboche e cada "não quero saber" ressoa como um tapa na face de uma
mãe que acordou às quatro da manhã, ou de um pai que carrega o peso do mundo
nas costas para que o filho tenha o direito de segurar uma caneta, e não uma
enxada ou uma britadeira.
Mas a
crueldade atinge o seu ápice dramático quando essa renúncia ao saber se veste
de falsa injustiça. O estudante que escolhe o abismo não assume o peso da
própria queda. Em vez disso, constrói uma narrativa perversa, uma cortina de
fumaça covarde, e aponta o dedo para a única pessoa que estendeu a mão: o
professor.
Com uma
retórica vazia, o jovem tenta convencer o mundo — e a si mesmo — de que sua
ignorância é culpa alheia:
· "O
professor é chato."
· "A
matéria não serve para nada."
· "A
didática dele não bate com a minha energia."
· "Ele
pegou no meu pé."
Transforma-se
o mestre em carrasco e o omisso em vítima. É uma inversão de valores de um
cinismo devastador. Culpa-se a personalidade do docente para mascarar a própria
preguiça; condena-se a rigidez da disciplina para justificar a falta de caráter
e de brio. O professor, que muitas vezes gasta a voz e a saúde mental tentando
resgatar aquela mente da vala da mediocridade, é sacrificado no altar do
orgulho juvenil.
É de uma
ironia trágica, quase teatral. Enquanto o filho do burguês, nas escolas
particulares de elite, é treinado sob rédeas curtas para liderar, para dominar
a ciência, a linguagem e a tecnologia, o filho do trabalhador, na escola
pública, escolhe o deboche. Ele acha "bonito" ser o rebelde sem causa
que sabota a aula. Ele se orgulha de dar as costas para o quadro-negro.
O que ele não
consegue enxergar, em sua miopia soberba, é que o sistema comemora o seu
silêncio. Cada vez que um aluno rejeita o conhecimento e culpa o professor, os
arquitetos da desigualdade sorriem. O jovem está cumprindo exatamente o roteiro
que os opressores escreveram para ele: o roteiro da subalternidade eterna.
Quando o filho
do trabalhador se recusa a aprender, ele não está punindo o Estado, ele não
está se vingando do professor "chato". Ele está assinando a sua
própria sentença de subemprego. Está decretando que o sacrifício de seus pais
foi em vão.
Não se pode
romantizar a atitude do estudante que se recusa a saber. Há apenas o triste
espetáculo de uma mente que escolheu se algemar. Culpar o professor pela
própria ignorância é o último refúgio de quem não tem a coragem de olhar no
espelho e admitir que é o único responsável pelo próprio fracasso.
A vida real,
implacável e desprovida de qualquer compaixão, não aceitará essas desculpas.
Quando as portas se fecharem e o peso da sobrevivência esmagar os ombros desse
jovem, de nada adiantará qualquer pretensa justificativa. A ignorância terá
cobrado o seu preço mais alto, e o eco daquelas risadas de deboche na sala de
aula se transformará, inevitavelmente, no lamento tardio de quem teve a chance
de se libertar e preferiu a servidão voluntária.
E aqui reside
o refinamento mais cruel dessa engrenagem: não importa a excelência do mestre.
Pode ser o professor mais preparado, aquele que respira a docência, que chega à
sala com o olhar brilhando, munido de uma gentileza inabalável e disposto ao
diálogo mais franco. Pode ser o profissional que passa noites em claro
selecionando conteúdos, preparando materiais dinâmicos e que, não raramente, tira
do próprio bolso o dinheiro que falta ao Estado para oferecer aos alunos uma
experiência diferenciada, um lampejo de dignidade pedagógica. Pode ser a figura
mais compreensiva, parceira e acolhedora do mundo.
Nada disso
basta. Porque quando o estudante decide fincar os pés na rejeição, todo esse
banquete de dedicação é desperdiçado
Quando o aluno
sela o pacto com a própria ignorância, ele transforma a sala de aula em uma
arena de combate psicológico. O limite entre o desprezo silencioso e a ironia
do deboche é cruzado diariamente. Não se trata apenas de não querer aprender;
trata-se de destruir a autoridade de quem ensina.
O estudante
estabelece uma queda de braço perversa: recusa-se a realizar as atividades mais
corriqueiras, nega-se a abrir o caderno e chega ao extremo de recusar um
cumprimento formal no início da aula. A educação deixa de ser um processo
intelectual e passa a ser um teste de poder.
Para mascarar
o seu vazio, esse jovem aciona uma máquina de difamação:
·
A culpabilização: Avalia o professor
negativamente de forma deliberada, distorcendo critérios para punir quem o
cobra.
·
A mentira sistemática: Inventa narrativas,
distorce fatos e mente abertamente sobre a conduta do docente para a
coordenação ou para os pais, tentando transformar sua própria indisciplina em
um "problema relacional".
·
O tribunal da incompetência: Tenta convencer os
pares de que o erro está na postura do professor, invertendo os papéis de
agressor e vítima.
Essa dinâmica
contínua produz um rastro de destruição humana. Esse comportamento adoece. Ele
mina a autoconfiança de profissionais experientes, injeta a paralisante
substância da insegurança na mente de quem estudou anos para estar ali e
descredibiliza o saber diante de toda a turma.
Sob essa
pressão, a docência é violentada, empurrada para se tornar um rebaixado concurso
de popularidade. O professor é coagido a ser um "animador de torcida"
ou, pior, a aceitar um conchavo humilhante: um pacto de mediocridade onde o
aluno finge que aprende e o professor finge que não vê ou torna-se conivente
com o caos para preservar o que lhe resta de sanidade mental. A escola pública,
que deveria ser o berço da emancipação, é transformada em um cativeiro
psicológico para quem ousa tentar ensinar.
O que esse
estudante pratica não é uma travessura juvenil; é um processo de violência
multifacetada e avassaladora:
- Simbólica e Intelectual: Ao ridicularizar o
conhecimento, o aluno apaga o valor da ciência, da história e da cultura,
decretando que o saber não vale nada.
- Emocional e Psicológica: O massacre diário de olhar
para rostos cínicos, de ouvir risadinhas sussurradas e de enfrentar a
rejeição deliberada destrói a saúde mental do docente, gerando crises de
ansiedade, depressão e a síndrome de Burnout.
- Física: A barreira entre a violência psicológica e
a agressão física é tênue. O tensionamento constante do ambiente escolar
quebra o pacto de paz e, em muitos casos, descamba para a intimidação
física direta e ameaças reais à integridade do trabalhador da educação.
Para agravar
essa tragédia institucional, o professor agredido frequentemente descobre que a
solidão da docência é alimentada pela traição corporativa: há colegas de
profissão que, longe de defenderem a dignidade do cargo, não apenas compactuam
silenciosamente com essas práticas antipedagógicas, mas se associam ativamente
a elas. Essa cumplicidade opera em múltiplos níveis, manifestando-se desde a
dissimulação covarde — como o silêncio obsequioso nos conselhos de classe e o
endosso velado às reclamações infundadas dos estudantes — até a participação
explícita na desestruturação da imagem do colega, validando o deboche dos
alunos para angariar uma popularidade barata ou alimentar rivalidades internas.
Ao relativizarem a barbárie e justificarem o injustificável sob o pretexto de
uma falsa "empatia juvenil", esses profissionais tornam-se
engrenagens fundamentais no aviltamento de seus pares, legitimando a violência
psicológica e carimbando, de dentro da própria categoria, o atestado de
falência da autoridade docente.
Ver o filho do
trabalhador usar o seu tempo para linchar psicologicamente o professor que
tenta salvá-lo da engrenagem da exclusão é um soco no estômago da sociedade. É
a barbárie instalada na antessala do futuro. Quando a escola pública aceita que
o deboche e a mentira vençam o acolhimento e a competência, ela deixa de ser um
templo de luz para se tornar o cenário de uma das maiores crueldades sociais do
nosso tempo.
Em meio a esse
deserto de afetos e respeito, seria injusto não reconhecer o oásis: existem,
sim, aqueles alunos maravilhosos que justificam a nossa permanência no chão da
escola. Estudantes que carregam no olhar o brilho da curiosidade e para quem é
uma verdadeira honra lecionar. Eles se tornam quase parceiros no cotidiano da
sala de aula; trazem consigo um bom humor contagiante, uma lealdade firme,
ética, comprometimento, inteligência e uma sensibilidade rara. O problema é
que, a cada ano que passa, encontrar essas mentes luminosas tornou-se uma
raridade estatística. Uma turma inteira composta por eles? Um sonho quase
utópico.
No entanto, o
que dilacera o peito do educador não é apenas a escassez desses jovens, mas a
estarrecedora descoberta de que, em certas situações, essa "turma dos
sonhos" existe, mas escolhe a exclusão deliberada. Dói profundamente
perceber que um grupo de alunos, dotado de pleno discernimento, firma um pacto
velado de silêncio e distância na sua aula. Sabe-se lá por qual motivo ou
justificativa torpe, eles decidem, coletivamente, que você não merece o melhor
deles.
É uma punição
covarde que se renova a cada toque do sinal, aplicada contra o professor por
crime ou erro nenhum. Negam qualquer possibilidade de aproximação humana ou
pedagógica. Esse isolamento muitas vezes se alimenta das sombras mais
mesquinhas: do etarismo que desvaloriza a experiência, de preconceitos de
qualquer natureza, do "ouvir dizer" alimentado por fofocas de
corredor, ou, mais doloroso ainda, pelo simples fato de você se recusar a ser
"mais do mesmo". Por você insistir em realizar o seu trabalho com
rigor, seriedade e paixão, em vez de se render ao pacto da mediocridade, a
turma o pune com o gelo do desprezo. É a inteligência e a sensibilidade
instrumentalizadas para o boicote, transformando o que deveria ser um espaço de
partilha em um tribunal silencioso e implacável.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Poema: "Silos", de Erivelto Reis
Silos
Erivelto Reis
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Poema: "Cantilena", de Erivelto Reis
Cantilena
Erivelto Reis
Escuto o teu murmúrio
Como se fosse prece.
Em meio às tuas febres,
Não é o meu semblante
Que nos teus delírios aparece.
Caminhas pela casa,
Fantasma onipresente
Que não portando alma
Nem és santo, nem és gente.
Amou-me e desamou
Sofreu e fez sofrer quem não merece.
Amor, raro licor,
Escuto o teu murmúrio
Como se fosse prece.
domingo, 10 de maio de 2026
Poema: "Double Fantasy", de Erivelto Reis
Double Fantasy
Erivelto Reis
Às vezes,
Você pensa que está trabalhando
Mas está saindo
Do Dakota Building
Talvez pela última vez...
Às vezes, em certos lugares,
Você pensa que está agradando
Mas, sem saber, está apenas
Autografando um long-play
Pra um assassino.
Às vezes você pensa.
E enquanto pensa, nem sempre nota
(O monte de Judas em Dakota)
O quanto Chapman trama
Puxar seu tapete, puxar o gatilho,
Fechar sua porta...
Deixar órfão o seu mundo,
Deixar órfão o seu filho.
terça-feira, 5 de maio de 2026
Poema: "O futuro é pra dentro", de Erivelto Reis
O futuro é pra dentro
Erivelto Reis
Quando
O Homem deixar de ser a humanidade
O feminino passar a ser o ser o universal
A arte for o ar que oxigena a existência
Começaremos a transformação
Quando
A educação comportar a memória da sabedoria ancestral
A ética estiver em todas as consciências
E a música nos irmanar
Em paz e afetos genuínos
Quando
Amor e amizade não forem mais substituíveis
Nem descartáveis
Haverá alguma chance
O futuro é pra dentro
Pra um lugar que ainda não existe
Em todo mundo
Oco, ergue-se e desmorona
Num jogo de luz e sombra.
Catedral ou cratera
Conforme avança o tempo.
quarta-feira, 29 de abril de 2026
Poema: "Neutro", de Erivelto Reis
Neutro
segunda-feira, 27 de abril de 2026
Poema: "Seria um bom domingo", de Erivelto Reis
Seria um bom domingo
Erivelto Reis
A saída mais perto é para o fim.
E é também a mais longe
Disfarçada de única.
Não tem foice, nem alfange,
Nem caveira, nem máscara,
Nem túnica
Suficientes...
Quando se passa dos limites
Suportáveis.
O pensamento passa mil vezes
Filmes inclassificáveis.
Os hormônios, os neurônios
São intransigentes.
Tal como um membro amputado
Que não para de doer,
Como pode um coração amputado,
Dilacerado
Não parar um instante de se debater?!
Cérebro não é pátria alguma
Onde a razão possa se hospedar!
Quando não se constrói coisa nenhuma...
E corrói saber que o que se faz
Não machuca tanto
Como o modo que se diz
Receita clássica de fazer
Gente sem amigos, amargurada,
Última e infeliz:
Apenas mudar os móveis de lugar
E crer inaugurar um novo país...
Amanhã seria um bom domingo.
terça-feira, 14 de abril de 2026
Poema: "Tábua sem salvação", de Erivelto Reis
Tábua sem salvação
Erivelto Reis
Tristeza mareja o olhar
Saudade turva:
Tábua sem salvação!
Enquanto se tenta respirar...
Desespero é espalhar as lágrimas
No rosto, apertar os olhos,
Debatendo-se desordenadamente,
Gritando silenciosamente...
Soluçando cada sílaba
Do nome à deriva...
Medo: ente desobediente!
Naufragado etéreo.
Um mar na cara
Afogando o tempo...
–Tábua sem salvação –
Parados na eternidade do sofrimento.
Desesperado coração,
Desesperada mente.
terça-feira, 24 de março de 2026
Poema: "Sabre", de Erivelto Reis
Sabre
Erivelto Reis
Senhores,
Vossas cadeiras são fantasmas,
Assombram quando o espírito mau
As possua...
Vossas tentativas de astúcia
São lupas de vossa horrenda
E desmedida incapacidade.
Elenco de vossa fúria
É a ignorância não ignorável
De vossa inveja, de vosso recalque:
Pagar pela viagem,
Não aproveitar a paisagem
Porque não sabe para onde vai
E porque se esqueceu de onde veio.
Vosso poder é um devaneio
Vossos fiadores estão morrendo de medo
De que vossas tramas
Estreiem ante a plateia
Que não ri de vossos truques
E que sabe que o que ofereces
Não chega nem perto de um espetáculo.
Vossos sonhos são ganâncias
Aos quais vossa estupidez
É obstáculo.
Vossas bocas cospem delitos
Vossas mãos simulam tentáculos.
Vossos sonhos são artimanhas
Às quais vossa estupidez
Converte em provas
De vosso ostensivo fracasso.
Senhores...
Inútil querer o que o poder não pode
Inútil querer o que o saber não sabe.
Vosso gesto insalubre,
Parte de vosso costume:
Esmurrar uma porta que jamais se abre,
Brandir pra ameaçar com a guarnição
Sem gume, sem sabre...
segunda-feira, 16 de março de 2026
Poema: "Dissonantes", de Erivelto Reis
Dissonantes
Erivelto Reis
É preciso ter esperança
Para ter coragem
Às vezes ocorre uma coragem
Sem esperança,
Uma centelha disruptiva
Entre o emocional e o racional.
É preciso ter coragem, apesar da esperança
Para dizer claramente
Que os pactos silenciosos
Entre os estúpidos e violentos
E mal intencionados
Não se chama coragem, se chama covardia.
Não se atribua a esses
Ilações sobre ética e consciência...
Os corajosos e esperançosos
Debatem em campo aberto
À luz do dia, sem reféns e sem escudos.
Sua coragem liberta, liberta-nos, liberta-os.
A coragem esperançosa dos utópicos
Difere em muito
Da covardia preguiçosa dos dissonantes
Onírica e cognitivamente.
Os utópicos penam, padecem
Os dissonantes ruminam.
Não dá pra dizer, a priori,
A quem a ruína escolha:
Os que sonham corajosamente
Os que tramam covardemente...
Mas dá pra saber quando há escombro
Escorado em carma.
É só olhar com calma.
terça-feira, 10 de março de 2026
Poema: "Não sou eu", de Erivelto Reis
Não sou eu
Erivelto Reis
Certamente, não sou eu
Quem deseduca o seu filho.
Certamente, não sou eu
Quem deseduca o seu filho.
São os teus secretos vícios,
É a intolerância e o fanatismo
É a inveja e a estupidez
São seus traumas de infância...
É a sua arrogância
E a visão desatualizada
Que tens sobre a educação.
É o dinheiro que te sobra
É o dinheiro que te falta
É a tua política de trocar
O teu voto por ilícita vantagem
E por qualquer favor...
É o respeito que não tens
Por alguém que acolhe o futuro
Da geração do teu amor.
Certamente, não sou eu
Quem deseduca o seu filho.
Certamente, não sou eu
Quem deseduca o seu filho.
É a bestial rede antissocial
Que abriste como
Se adormecesse o Cérbero
Para que teu rebento
Fosse habitar no hades virtual
E assim, anestesiar o cérebro,
Tornando-o pouco usual.
É a tela sempre usada
Como amiga, conselheira e babá
É premiar o mal feito
É a ética rara, escassa
É a falta de diálogo
Só menor que a de exemplo
Que cultivas no jardim de tua casa.
Certamente, não sou eu
Quem deseduca o seu filho.
Certamente, não sou eu
Quem deseduca o seu filho.
Poema: "Teórico", de Erivelto Reis
Teórico
Erivelto Reis
Porque eu sabia
Que era mais fácil
Um deus fingir-se caótico
Do que fingir-se teórico
Porque eu sabia
Que era mais fácil
Um deus sacar a espada
Do que matar a esperança
Porque eu sabia
Que era mais fácil
Eu perseguia
O improvável
O impossível
O imponderável
Não bastaria qualquer milagre
Ou teoria.
Justo no dia do seu descanso
Ele, pessoalmente, me explicaria...
Ou o universo se abria
O então eu não creria
Porque eu sabia
Que era mais fácil
Um deus todo feito de amor
Do que ocupado qual professor...
sábado, 28 de fevereiro de 2026
Poema: "Quem mais gosta", de Erivelto Reis
Quem mais gosta
Erivelto Reis
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Poema: "Patenteado", de Erivelto Reis
Patenteado
Erivelto Reis
Patenteada
A perfeição irresponsável
De criticar sem fazer nada,
Do teatro patético
de folhear os livros e não lê-los.
De fingir que sabe do que está falando.
Patenteada
A empatia seletiva
A defesa indefensável de um não-lugar
Garantido sistematicamente por um não-educar...
Pode patentear.
O fio da navalha com que canalha
Se espraia nos futuros que interrompes.
Mas não espere meu silêncio conivente.
Não vou ficar parado.
Não serei indiferente.
Atravesso sua cancela...
Eu furo sua panela.
Patenteado.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
Poema: "Forró", de Erivelto Reis
Forró
Erivelto ReisAgiu bem
Quem botou o céu no mundo
Saiu por aí
Prometendo tudo,
Tudo...
Em troca de obediência
E serventia.
Agiu bem
Quem criou a consciência
Que norteia e ilumina a estrada
Quem aos sábios proveu
A inteligência
E aos aflitos legou a alvorada
Esquecido, talvez, se não tivesse
De prover de estratégia
Aos mais tolos
Que ao invisível humanamente
Tecem preces
Enquanto aos loucos
Reprisam os males de que padecem.
Quereria que este célebre inventor
Corrigisse as consequências dos seus atos
Meditasse que as lacunas que erigiu
Correspondem à justificativa dos tiranos
Saciam a solidão dos insensatos
E confirmam a insegurança dos incautos.
Agiu bem quem botou o céu no mundo.
"Quem foi esse inteligente
Que inventou o forró?..."
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
Poema: "Retrô-grafado", Erivelto Reis
Retrô-grafado
Erivelto Reis
O autógrafo é um rabisco
Que só vale quando o poeta está vivo
Acorda, criatura...
Como pode a obra valer menos que a assinatura?
Arte literária libertária
Não é arte tabelionária.
Vale o carinho de ter assinado,
Mais do que o enjambement?
Mente sã, literatura vã...
É um galo sozinho querendo tecer
Uma manhã
É um interlocutor andando atrás,
Morando dentro do José
Quando o mundo dele ruiu.
Gullar me escreveu uma dedicatória.
Me entregou o livro pela janela.
Comprei um livro autografado por Hilda Hilst
Só porque gostei da letra dela.
Um livro do Walter Benjamin
Caiu em cima de mim.
Li bem um livro de Aragon
E me surpreendi porque o achei surreal.
Não gostei de Baudelaire
Porque suas flores são do mal.
E porque cansei de o confundir com Flaubert...
O autógrafo é um rabisco
Que só vale quando o poeta está vivo
Acorda, criatura...
Como pode a obra valer menos que a assinatura?
Confessar ignorância ou
Fingir sapiência...
Nenhum farsante resiste,
Nenhum arrogante resiste
a dois minutos de ciência.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
Poema: "Acrítico", de Erivelto Reis
Acrítico
Erivelto ReisEu leio poesia pra gostar do texto
Não pra gostar do poeta!
Pode até ser que deixe de gostar do poema
Por causa do cinismo do poeta,
Que se esconde atrás de um eu-lírico,
Quando todo mundo sabe
O quanto ele é cínico.
O quanto o crítico tem de acrítico...
Pode ser que a poesia o redima:
A que estiver em mim,
Se eu estiver no clima...
O mesmo vale para a música,
Pro cinema, pra estilística,
Pra pintura, pra linguística...
O critério é meu.
Não é seu crivo,
Não são seus livros,
Suas obras ou seus ombros
Que vão mesmo suportar o mundo.
Pega mais leve, responda
A quem pergunte,
Não se faça de muso
Não se assuste, se assunte.
– Pare de abuso!
Olha a patacoada!
Deixa de dar carteirada!
Tá correndo atrás das motos
Igualzinho a um vira-latas...
Por causa de purismos,
Quer fechar a porta de entrada.
Fala sério,
Vá brigar com Graham Bell, com Gutenberg,
Com os assírios, com os sumérios...
Ou não brigar com ninguém...
Ou vá pra o diabo que o carregue.
Deixe de falsa fúria, pare de patrulha.
Escolhe melhor suas batalhas.
Para de fazer como o pombo
Que tanto suja a rua quanto arrulha...
Não é o capitalismo,
Não são as trends,
É agredir, gratuitamente,
Em lugar de explicar com zelo
O que acha que o outro não entende.
Se não puder desse jeito,
É melhor ser arquiteto
Do deserto de seu insuperável padrão.
Ficar como um super homem
Na fortaleza de sua solidão.
sábado, 24 de janeiro de 2026
Poema: "Santimônia", de Erivelto Reis
Santimônia
Erivelto Reis
Em agudo sofrimento
Foi ao mercado,
Curtiu um post,
Compartilhou um meme,
Escolheu uma roupa,
Almoçou bem...
Mas a cabeça tava a mil,
O coração a mais de 100,
O cérebro em motim...
A depressão também é assim.
Ansiedade e frustração
Como duas facções inimigas
Duelando no desfiladeiro das suas emoções,
Nos becos de suas inseguranças,
Nos escombros de sua autoestima...
Quem vê sua selfie, nem acredita
Nem imagina...
Quem vê cara, não vê depressão...
Não é toda regra que tem uma exceção.
E ainda tem a milícia da dopamina
Esfregando sua cara
No altar do arrasta pra cima...
Adorando o deus das curtidas!
A depressão também é assim.
Vai à praia, faz amor, reza despudoradamente
Um credo descrente...
Faz do hospedeiro uma casca...
De um segundo uma eternidade!
E impede de perceber horizontes.
Tudo é pra ontem!
Nada é pra sempre...
A depressão também é assim.
Sem insônia, exterior em santimônia.
Tem filme preferido, tem séries de conforto,
Tem áudios dos filhos e foto no aeroporto.
Tem férias em família, passeio de barco,
Foto na academia e aventura na trilha.
Ilhas de desafogo...
Desse jeito ninguém desconfia.
Um pedido de ajuda em código de silêncios intercalados...
Os casos crônicos de torpor e vícios
Não podem servir como únicos indícios.
A depressão também é assim...
Você sai de você pra brincar de fazer
O que você mais gostava
E nunca mais volta pra casa
Onde seu coração morava...
domingo, 4 de janeiro de 2026
Poema: "Blitz", de Erivelto Reis
Blitz
Erivelto Reis
Usa o idioma, usa o cinema
E a sua música pra vender
A ideia de um lugar alegre
A ideia de um lugar feliz...
O norte-americano tosco gosta
É de abrir uma cova
Pra enterrar a soberania de outro país
Usa a economia, as universidades
As forças armadas, a busca da liberdade
E da democracia como fachada,
Exclusividade de sua força motriz...
O norte-americano monstro não presta
Pode começar uma guerra
Pra explorar e explodir
Pessoas e governos em outro país
Se fecha para o mundo
E posa de vitrine,
E modelo de tecnologia e modernidade
Para todas as nações
Enquanto mantém um ninho de ratos,
Uma CIA de assassinos e espiões
E de tempos em tempos
Elege e reelege inimigos além das fronteiras,
Depõe governos e
Faz a sua nova blitz...
Animal apocalíptico sem verniz
Ignora a ONU, a cooperação multilateral
De qualquer tratado internacional...
O norte-americano mau, moralista fajuto
Faz da guerra e da morte
A mola propulsora de seu lucro.
De vez em quando um Clinton,
De vez em quando um Kennedy
De vez em quando um Bush
De vez em quando um Reagan
De vez em quando um Truman
De vez em quando um Trump
De vez em quando um Carter
De vez em quando um Biden
Isso não é acaso, isso não é acidente
É um padrão de violência
É a recorrência histórica
Da escolha de padrões de governo
Explicitada pelas políticas de guerra,
De intervenção econômica
Mantidas por seus presidentes.