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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Poema: "O chão da escola", de Erivelto Reis

O chão da escola

Erivelto Reis

 

Há uma poça de lama no chão da escola

No bairro da escola, na rua da escola

Há uma poça de lágrima

Que escorre no chão da escola

Há uma poça de suor e sangue

No chão da escola

Um livro uma professora um servente

Desprezados no chão da escola

Só os discursos sobre o chão da escola

Parecem edificantes

Ficções para principiantes

Um chão por onde já poucos caminham

Do qual muitos se desviam...

Uma trincheira – última linha antes da barbárie

A chave do cofre está nas mãos

Dos que ainda resistem no chão da escola

Depois, arrombada e saqueada,

Privatizada a educação

– o per capta do governo

Pago aos abutres e lemans que estiverem em cena

Vai se maior que o pib das grandes potências

E a escola vai ter franquias e filiais como bobs e habibs

E vai vender minguados créditos aos filhos dos trabalhadores

como quem carrega um pré-pago, um oi ou um tim talvez, claro...

Pra o aluno pobre matriculado aprender quanto puder

No tempo que lhe for destinado.

Ou haverá plataformas e aplicativos com algoritmos viciados

Como uma bet pra perder o futuro de vez.

Uma fábrica de operários mudos e obedientes

E mal remunerados.

Há muito lodo no chão da escola

Um escândalo que, se revelado,

Faria ver a todos o quanto de posse há sobre o chão da escola

De concreto só os decretos e os pontos estratégicos

Dos prédios que interessam aos investidores

E o que eles significam em lucro, propaganda e controle.

Um chão de deixar doente, um chão úmido,

Do qual já não parecem germinar as boas sementes.

Há um chão da escola, viciado em desmantelar gente.

Há um chão da escola diferente...

Há um caixão da escola!

Há ainda alguns poucos indignados...

Resistindo, lutando... re-velando.

E um montão de gente indiferente.

 

Onde é que fica o chão da escola?

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Crônica: "Ötzi, o Homem degelo", de Erivelto Reis

Ötzi, o Homem degelo

Erivelto Reis

Os cientistas descobriram que Ötzi viveu há mais de cinco mil anos. O corpo, extremamente preservado, foi encontrado em 1991. Estava congelado nos Alpes, virou uma celebridade da pré-história, mas não foi essa a causa-mortis. A autópsia moderna — sempre muito eficiente em analisar o defunto depois de milênios — descobriu uma ponta de flecha cravada em seu ombro esquerdo. A flechada perfurou uma artéria e Ötzi sangrou até morrer no gelo. Até hoje, contudo, a história preserva um grande mistério: ninguém sabe quem, afinal, disparou aquela flecha fatal contra o coitado.

No caso do magistério, porém, o mistério cai por terra. Não há segredo sobre a identidade dos arqueiros.

A começar pelo próprio nome do nosso personagem. Tomemos como exemplo o fictício personagem Sebastião — ou, como o chamam nas atas e nos corredores com um misto de respeito e comiseração, o Professor. O nome não é mera coincidência mitológica: tal qual o mártir católico, o professor passa a vida servindo de alvo. Sebastião não começou congelado, nem flechado. Há vinte e cinco anos, quando entrou pela primeira vez em uma sala de aula carregando apenas um pacote de giz, uma garrafa térmica e uma fé inabalável na educação, ele era puro fogo. Vontade de mudar o mundo, chamas de entusiasmo pedagógico.

Mas o cotidiano da educação tem uma física própria: ele não queima, ele descongela ao contrário. O ambiente vai esfriando o sujeito até transformá-lo em uma estátua preservada no tempo. Sem vida. Mas a aparência é de alguém que talvez esteja ali.  Sebastião virou Homem degelo, do verbo degelar: um ser que passou a vida inteira derretendo aos poucos, pingando a própria energia no piso de granilite da escola, até que só sobrou a carcaça petrificada um fóssil a ser banido da sala dos professores, banido dos arredores da escola.

A questão do Sebastião — e de tantos outros Ötzis de jaleco — é que a morte do professor nunca vem de uma vez só. É um esporte de tiro ao alvo praticado em marcha lenta.

A primeira flechada vem no primeiro quinquênio: o salário que desidrata. A segunda vem na reunião de pais: a autoridade pedagógica que se esfarela. As seguintes vêm em rajada: cortes de verba, violência, desvalorização e o eterno mandato de "fazer milagres com o nada". Na pré-história, Ötzi tomou apenas uma flechada certeira no ombro e morreu rápido. Sortudo o Ötzi. O professor Sebastião passa décadas sangrando profissionalmente.

Torna-se, por fim, o bom professor morto em vida. Um zumbi inofensivo, incapaz de comover até o aluno mais indisciplinado, perambulando pelos corredores sem ter sequer um céu pedagógico para onde ir.

O destino dos maus professores, contudo, às vezes é muito mais próspero. Esses — os professores-capatazes — não se deixam congelar. Em um ato de autodefesa, implodem a própria carreira docente para renascer nos estofados de alguma secretaria de educação ou no refúgio de uma sala burocrática. Por trás de uma mesa, armados apenas com uma cadeira giratória e um carimbo, ganham subitamente o poder da iluminação: desorientados incumbidos de orientar e descoordenados com a missão de coordenar. Gente com um currículo que parece um bilhete e a experiência de uma casca de noz, detonando a cooperação e anulando as possibilidades de debate em torno da educação com estudiosos, pesquisadores com formação continuada. O concurso é a porta de entrada e o sujeito pensando que é o Olimpo.  “Como seria bom se a escola fosse um programa de auditório. Passa ou repassa” ... Vai saber.

Afinal, a engrenagem não exige exatamente uma competência técnica oriunda de formação de carreira; raramente um bom professor se transforma em um bom diretor, até porque a política de educação pautada em hipocrisia, achismos, amadorismo, demagogia e quetais parece exigir pactos contraditórios aos princípios reais do magistério.

É aqui que a ironia atinge o seu ápice. Num passe de mágica institucional: aqueles mesmos que dispararam as flechas contra um São Sebastião, uma vez empossados, vivem a hipocrisia de uma falsa conversão. Antes, jogando pelas próprias regras, flanando num sistema sem controle real, escrevendo narrativas através de planilhas irreproduzíveis. Agora, praticam a microgestão seletiva com altivez dos anjos. Como quem de repente descobre a fé na gestão, o antigo arqueiro veste a túnica de autoridade e opera o milagre da amnésia conveniente. Convencido de que nunca mais precisará da trincheira, o algoz de ontem passa a ditar a oração de hoje. Alçado ao pedestal da coordenação, sente-se no direito sagrado de inquirir, questionar e determinar o fazer alheio, regrando com mão de ferro a própria convivência que ele ajudou a envenenar. Conta, para isso, com a subserviência resignada de quem continua servindo de alvo, esquecendo-se de que a maquiagem da conversão não apaga o sangue que ficou no arco.

Mais recentemente, essa mesma burocracia inventou a sua mais refinada arte magia: a gestão de alunos por osmose. A receita é simples: arrocha-se o professor moribundo no patamar da cobrança extrema: “PAD, PAD, PAD...”, como um mantra que ecoa aqui e ali, à boca pequena... como uma ameaça, como uma mordaça... enquanto muitos dos alunos continuam fazendo exatamente o que sempre fizeram — nada. Enquanto os muitos governos e secretarias de educação seguem fazendo o que sempre fizeram: nada! E ainda tem o familiar que vai à escola pra fazer a matrícula como quem faz uma promessa que só pretende cumprir se a graça for alcançada. Raros não. Mas é um tal de praguejar contra os santos. Santos mesmo são só os alecrins. “Mas essa escola!”, “Mas esse professor!”, “Mas essas más companhias!”

Enquanto isso, na “sala de justiça”: Intersetorialidade? Pra quê? Questionar os reais responsáveis pelo problema? De jeito nenhum. O burocrata prefere alvejar o colega com a imposição, o retrabalho, a glamorização da precarização e da exploração do trabalho e da apropriação indevida do produto e das ações e produtos intelectuais desenvolvidos pelo bom professor. Por fim: a sentença: “é difícil”, “se acha”, “se fosse bom tava na universidade”, “são ordens da coordenadoria”. Vejam: Uma empresa fornecedora ter o pagamento atrasado? Deus o livre. Mas que mal há em precarizar e explorar os recursos do docente? Ele já está ali pra isso mesmo...

Para resolver o abismo pedagógico, aplica-se a solução cartorial perfeita: fazem os estudantes assinarem "termos de compromisso" que todos sabem que jamais serão cumpridos. Enquanto o professor não tem de seu nem o direito à tranquilidade e a se sentir acolhido e seguro ambiente em que trabalha. Tem de trabalhar pra trabalhar, registrar que trabalhou, enfrentar quem não quer que ele trabalhe, não reclamar do que falta para que seu trabalho aconteça e por fim, ser confrontado porque trabalhou da forma que trabalhou sendo que isso demonstra que outros não trabalham, não trabalharam, não sabem trabalhar ou nunca trabalharão.  Ou que se há muitas formas de se trabalhar, isso dará mais trabalho pra quem coordena ou dirige. Mas que nada! Quanto os que não acolhem se doem quando são tratados apenas polidamente. Se forem questionados, então...

Mas isso não importa. O ensino pode ser uma ficção e o professor pode estar sangrando até a morte, desde que, dentro da pasta do processo, os formulários estejam impecavelmente preenchidos. O professor é, nesse cenário, definitivamente, o homem degelo.

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Crônica: "Lembrando com carinho do seu José de Arimatéa, meu pai", de Erivelto Reis

 Lembrando com carinho do seu José de Arimatéa, meu pai

Gosto de me lembrar de algumas coisas sobre o meu pai. Gosto de me lembrar de que ele não se acovardava diante das injustiças; reagia, sim — com palavras e ações. Gosto de me lembrar do dia em que ele me ensinou a enfrentar o bullying na escola, numa época em que esse nome nem existia no espaço social do mundo que eu conhecia.

Gosto de me lembrar de que ele adorava música. Especialmente daquelas cujas letras eram mais uma crônica de acontecimentos e emoções do que metafóricas. Gosto de me lembrar de que ele era um comunicador nato, um contador de histórias com carisma para encantar a audiência. Gosto de me lembrar e sou grato pela maneira como ele recebeu minha companheira de vida em nossa família e de como entendeu rapidamente que, a partir daquele encontro, eu estava construindo ao lado dela uma nova família. E de como era gentil com ela.

Gosto de me lembrar de quando ele me deu uma máquina de escrever, entendendo o meu fascínio pela leitura e pela escrita ainda na minha infância. De quando me deu discos que me acompanham até hoje, deixando, inclusive, de comprar para si, em certa ocasião, um disco que aguardava ansiosamente para investir todo o lucro de uma semana de trabalho na compra do objeto da minha fascinação musical.

Gosto de me lembrar de que, na véspera de Natal do ano de 1981, ele só voltou para casa tarde da noite, exausto, mas trazendo modestos e maravilhosos presentes para mim e para meus irmãos.

Gosto de me lembrar de sua fibra moral e sua resiliência quando foi demitido e despejado em 1988 e teve que recomeçar; e de seu sangue-frio ao sofrer um revés terrível de violência e intimidação que teria mudado ainda mais drasticamente a história de nossa família naquele 25 de outubro de 1991.

Gosto de me lembrar de como ele era caprichoso com sua moto e seu carro, a ponto de fazer a manutenção com as habilidades de um mecânico ou de um profissional de estética automotiva. Gosto de me lembrar do seu zelo com o acervo de ferramentas. Do seu hábito curioso de preservar mesmo um despretensioso parafuso ou uma conexão hidráulica para uma eventualidade de reparo. Gosto de me lembrar do seu princípio inegociável de economizar fazendo ele mesmo as tarefas que fossem aparecendo.

Gosto de me lembrar do seu empreendedorismo. Do seu amor ao lugar onde trabalhou até se aposentar e das pessoas que daquele espaço faziam parte — especialmente os alunos, as alunas e suas famílias, que ano após ano o homenageavam. E não seria exagero dizer que, sob muitos aspectos, ainda hoje seu nome é uma referência ou lembrança agradável.

Gosto de me lembrar do seu costume de almoçar sentado ao rés do chão nas tardes de domingo, preferencialmente na varanda ou na sala de casa. De sua paixão pelo futebol, que jogava com alguma habilidade e muita disposição.

Gosto de me lembrar de quando, no seu jeito simples, ele me ensinava lições valiosas, alertando-me para a insensibilidade e as injustiças dos mais abastados que escolhem explorar a mão de obra dos trabalhadores, e para que eu reconhecesse as qualidades de quem, mesmo tendo muito, era humilde e gentil ao tratar os mais pobres e os que lhes prestavam serviços. Gosto de ter aprendido com ele que a dignidade de um trabalhador é inegociável e que o suor que escorre de seu rosto, fruto do seu trabalho, é tão valioso quanto o sangue que corre em suas veias.

Gosto de me lembrar de quando, no ano de 1983, ele me disse claramente, enquanto cortávamos a grama na casa de uma família de gente rica: “Meu filho, estude sempre para que um dia você não apenas tenha uma condição de vida como a dessas pessoas, mas para que você não seja ignorado e desprezado por gente com o padrão de vida que elas têm."

Gosto de me lembrar de que ele, diante de uma dor terrível como a da perda de sua mãe, manteve-se firme e prosperou no caminho do bem que ela lhe indicara. Gosto de lembrar que ele era carinhoso, mas também temperamental. Amável, mas, às vezes, instável. Gosto de me lembrar de que amava os netos. Que foi padrinho de minha filha mais velha e que, assim como fez comigo e meus irmãos, várias vezes jogou bola comigo e meus filhos aqui no quintal de casa.

Gosto de me lembrar dele com as qualidades e defeitos que tinha, e sinto muita saudade. Uma saudade agradecida por tudo o que ele fez, pelos caminhos que indicou e que ajudou a abrir. Eu sabia que ele andava pelos lugares me elogiando para as pessoas, falando bem de mim por conta da literatura, da minha trajetória acadêmica e de eu ter me tornado um professor — que era uma das profissões que ele mais admirava. E guardo com carinho a memória dos muitos elogios que ele me fez.

Gosto de me lembrar de quando, aos sábados, ele vinha direto da entrega dos queijos que revendia, feita na sua CG 125, ou das entregas e fretes que fazia na sua Pampa (e, depois de algum tempo, na sua Montana) e parava aqui em casa para me ajudar com as tarefas de manutenção do sítio. E às, vezes, sinto ainda hoje enquanto trabalho, decorridos quase nove anos de sua partida, que ele pode chegar a qualquer momento outra vez.

Gosto de me lembrar de que o tempo em que estivemos juntos foi, para nós dois, sempre de aprendizados. Gosto de me lembrar do dia em que ele me contou que só me conheceu quando eu já estava com três dias de nascido, lá na cidade de Rio Verde, Goiás, porque ele estava trabalhando num silo de armazenamento e distribuição de sacas de arroz em uma cidade distante. Nós estávamos jogando sinuca quando ele me contou essa história. Ele adorava vir aqui em casa nos domingos à tarde ou nas noites de sábado. Gosto de me lembrar que ele comprava pen-drives e pedia pra eu fazer playlists especiais ao gosto dele e dos filmes de faroeste que ele assistia um milhão de vezes. Gosto de me lembrar que ele foi um pai parceiro na minha vida de muitos desafios e que ele próprio teve que se reinventar muitas vezes para lidar com tudo que fez parte de sua trajetória.

Gosto de me lembrar do meu pai. Mesmo quando machuca a saudade dele.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Poema: "Ultima", de Erivelto Reis

 

Ultima

Erivelto Reis

 

A humanidade é a única espécie

Capaz de filmar a própria ruína

Com celulares de última geração.

Daí, vai lá e filma.

Ultima.

Poema: "Cupins e crocodilos", de Erivelto Reis

Cupins e crocodilos

Erivelto Reis

 

Sabendo do estrago que o cupim faz num lambri

Biombo oculta o estertor do amanhã de tua prole

Mais que isto, devoram-no, sorvem-no e engolem

O néctar da capacidade que arruínam por si e só por si.

 

Das altas ordens que não são do céu e descem ao rés do chão

Só cumprem mesmo as que podem ser ficcionalizadas

Inventam índices, batalhas não travadas.

E debocham delas com desfaçatez e convicção.

 

Crocodilos choram enquanto agoniza a sua presa

Sabe-se disso há muito tempo, não há sequer surpresa

Espanto é vê-los plácidos ante o horror que nos faz ficar aflitos

 

Dizer-se-ia, incautos que os não conheça,

Que dentre estes há ainda quem mereça

A honrosa meta de instruir aos vossos filhos.

sábado, 25 de julho de 2026

Crônica: "Sobre Paraíso, 1982 e sobre Benedito... ou não", de Erivelto Reis

Sobre Paraíso, 1982 e sobre Benedito... ou não

Erivelto Reis

A chegada de Paraíso (1982) ao Globoplay não é apenas um resgate da teledramaturgia nacional; é um convite para encarar o espelho de um Brasil que insiste em não mudar. Longe de ser apenas mais um folhetim interiorano, a novela carrega, talvez, um dos textos mais abertamente políticos de Benedito Ruy Barbosa. Em pleno período de reabertura e na efervescência da luta pela redemocratização, Benedito usou a rádio fictícia da trama para falar, sem rodeios, sobre política partidária, democracia, representatividade, o direito ao voto, reforma agrária e a dignidade e aposentadoria dos trabalhadores do campo.

Enquanto o romance cativante entre o "filho do diabo" e a "santinha" Maria Rita servia de pano de fundo, a novela abria alas para o florescimento urbano e a popularização da canção sertaneja no espaço da grande mídia da telenovela. Foi o palco onde ecoaram nomes como Renato Teixeira, Rolando Boldrin, Almir Sater, a dupla Milionário & José Rico e Sérgio Reis — este último com destaque no papel do peão Diogo. Por trás da musicalidade rural, corria a crítica ácida e tácita ao conservadorismo e à hipocrisia da Igreja Católica, uma instituição que andava de mãos dadas com o poder oligárquico dos coronéis. Eram figuras que recorriam a supostos pactos demoníacos, mantendo o diabo aprisionado em uma garrafa — mito ao qual o autor retornaria com maestria anos mais tarde em Renascer. Enquanto jogavam sinuca a dinheiro, o padre da cidade e esses mesmos coronéis (menos raivosos no horário das 18h), em reuniões e visitas de circunstâncias, dividiam espaço com os hábitos das beatas e o jogo do poder, em um ambiente em que, gradativamente, os civis em cargos de gestão como a prefeitura iam aprendendo a manejar a máquina da propaganda, o poder do rádio, a utilização da religião para manter estruturas socialmente comprometidas com a imutabilidade e da boa-fé de trabalhadores e trabalhadoras diante de qualquer aceno de modernização para aquela pacata cidade. Ney Matogrosso alertava na abertura da novela: "promessas demais"...

Benedito Ruy Barbosa não poupou esforços para fazer de sua obra uma forma didática de ensinar novos rumos e percepções políticas e sociais para o grande público da telenovela — especialmente os mais pobres ou ligados ao interior rural do país —, escrevendo cenas em que a rádio da cidade apresentava, entre as canções sertanejas, peças de utilidade pública em reclames, como a campanha do soro caseiro, dicas de higiene e vacinação. E passou boa parte dos mais de 180 capítulos ensinando claramente o conceito de situação e oposição em termos políticos e as possíveis intersecções entre esses dois polos no jogo do poder, desde a construção de uma pequena ponte até o pagamento do salário atrasado das professoras da cidade.

Anos mais tarde, no remake de 2009 adaptado por Edmara Barbosa, a mesma rádio fictícia voltou ao ar como engrenagem central da narrativa, mas dessa vez espelhando as transformações da própria indústria da música no país. Se em 1982 o rádio abriu portas para o chamado “sertanejo de raiz” e para a poética do campo, na versão dos anos 2000 a emissora serviu de vitrine estratégica para a consolidação e a massificação do chamado "sertanejo universitário", marcando a migração do gênero das violas caipiras para a música chiclete, os rodeios e as arenas do agronegócio.

A produção original fincou raízes em cenários marcantes: a Fazenda Florença, em Vassouras, e a Fazenda Indiana, situada na divisa entre o bairro de Campo Grande (Zona Oeste do Rio) e Nova Iguaçu, esquadrinhadas pela BR-465 (a antiga Rio–São Paulo) e pela Avenida Brasil. Vassouras, no interior do estado, emprestou seu casario antigo e sua exuberante praça principal como locações externas. A cidade conseguiu, ao menos em seu centro histórico, preservar e restaurar seu patrimônio ao longo das décadas. Já o destino da Fazenda Indiana foi o avesso da preservação: virou fábrica da Ambev, e o seu entorno foi tragado pela precarização, pelo colapso da mobilidade urbana, pela favelização, subempregos e exploração da mão de obra. A fazenda e sua criação de bois encerraram suas atividades, mas o território — entre Campo Grande e Nova Iguaçu — continua operando, ainda hoje, como um imenso curral eleitoral. O voto de cabresto e a força dos novos "coronéis" mostram que toda a luta pela democracia ainda não conseguiu coibir tais práticas. Mudam-se os tempos, mas não se mudam as vontades do poder, especialmente na assistência às periferias, subúrbios e na Baixada Fluminense.

Benedito Ruy Barbosa leu como poucos o Brasil rural e o país dos coronéis em obras emblemáticas como Cabocla, O Rei do Gado, Renascer, Sinhá Moça e Pantanal. Ele leu o país como quem lê uma manchete histórica, situando e até discutindo temas como a escravidão e o racismo, estruturalmente entranhado. O jovem Tobi, aspirante a peão, vai preso numa “exorbitância” do delegado apenas por ser negro. Benedito era sensível e emocionalmente eficiente em suas narrativas populares construídas para as telenovelas ainda que, por vezes, perpetuasse determinados estigmas e incorreções historiográficas, sobretudo sobre o tema dos escravizados — afinal, o que não se corrige na ficção (embora não seja esta a sua obrigação) custa, demora e dá muito mais trabalho para ser corrigido apenas pelo viés da história e da educação. E, quando se corrige alguma coisa sem arte, às vezes fica torto, fica faltando algo, sem esquadro e sem base.

Rever a novela, para mim, é um exercício de memória viva. Acompanhar as cenas onde vazam ou se identificam o entorno do Km 32 da Rio–São Paulo, o Viaduto dos Cabritos, o primeiro conjunto habitacional da região, a Avenida Brasil quase deserta em direção a Santa Cruz, ou a alça de acesso para Campo Grande rasgada no morro, funciona como uma verdadeira máquina do tempo. Trata-se de uma ligação afetiva visceral, costurada pela ficção e pelos resíduos geográficos e históricos de uma região tão desfavorecida — a mesma região de onde, hoje, grupos de investidores extraem os bilhões com os quais avançam contra a economia brasileira e ainda rosnam contra qualquer política pública. Foi uma das primeiras novelas que assisti com minha mãe, meu pai e meus irmãos quando por aqui chegamos. E era bem pertinho da gente.

Hoje, a qualquer hora do dia, de domingo a domingo, é impossível cruzar a região da antiga Fazenda Indiana — atual Ambev — sem perder, no mínimo, meia hora em um engarrafamento sufocante e interminável. Ali, a luta pela sobrevivência se escancara no asfalto: trabalhadores e trabalhadoras e suas famílias arriscam a própria vida entre carros e motos, vendendo de tudo — do pacote de amendoim ao limpador de para-brisa. A antiga olaria deu lugar a um ecossistema informal e pulsante de barracas de refeições rápidas, do cafezinho à cerveja gelada, além do aluguel de vagas improvisadas de estacionamento para os operários da fábrica. No espaço exíguo entre o acostamento e a frente do terreno da olaria, ergue-se e se adensa, dia a dia, a comunidade Dilma Rousseff. Naquele mesmo solo onde outrora circulou o trem, a BR-465 ostenta hoje uma dupla privatização: no monopólio entregue a um grupo de empresas de ônibus e na cessão generosa, como brinde, à concessionária que administra o Arco Metropolitano.

Falar de segurança no trecho entre a Estrada Rio do A e a Via Dutra é, esta sim, uma autêntica obra de ficção. Que Deus defenda cada trabalhador e trabalhadora que depende desse inferno diário para conseguir chegar ao serviço, para alcançar a CEDAE (outra que também foi privatizada), o Colégio Técnico da UFRRJ (CTUR), o campus de Seropédica da Universidade Rural, ou cada uma das dezenas de escolas estaduais e municipais de Nova Iguaçu, Seropédica e Itaguaí. Escolas que, embora ainda não formalmente privatizadas, convivem aqui e ali com seus velhos "coroneizinhos" e "sinhazinhas" locais dando as cartas e ditando as regras.

O tempo passou, e o diabo, que na ficção vivia trancado na garrafa, parece ter conseguido fugir e ganhar o coração e as mentes das pessoas que se alternam no poder através das faces mais perversas do capitalismo: a exclusão, a perda do direito à cidade, o racismo ambiental e geográfico e o desrespeito ao meio ambiente. Como exemplos, a poluição do Guandu, a desapropriação de um bairro inteiro para as Águas do Rio — entre o Km 37 e o Km 39 —, e a abertura de uma verdadeira fenda numa das faces da Serra do Vulcão, colocando milhares de famílias em risco permanente às margens da Estrada de Madureira.

Somam-se a isso as constantes rupturas de tubulações ou a falta d'água crônica, intercalada com cobranças abusivas de água e esgoto; e as taxas de iluminação pública cobradas para a tubulação da CEDAE, enquanto as localidades cujo desenvolvimento ela sepultou com a elevação da tubulação ao nível da estrada principal — impedindo ou dificultando o desenvolvimento de seu comércio ou ocultando o horror de sua falta de recursos básicos com saneamento e calçamento —, os tais dos "quilômetros" 33, 34, 35, 37 e 39, nas ruas de seu interior, ainda sofrem com a escuridão, os buracos, o lixo e o esgoto a céu aberto.

É a exploração desenfreada e a desapropriação daquilo que, em outros tempos, constituía o patrimônio e os bens populares. Além disso, na última década, assiste-se nessa região à construção desenfreada de conjuntos habitacionais sem nenhum plano real de expansão e mobilidade urbana ou de melhoria das condições de vida dessas populações.

Claro, a Fazenda Indiana (dizia-se ser de propriedade dos atores Tarcísio Meira e Glória Menezes) era uma propriedade privada. No entanto, tudo o que a sua venda e os seus desdobramentos políticos, econômicos e sociais trouxeram para a região — de 1982 até os dias de hoje — nos deixa na boca o gosto amargo de constatar que as críticas de Benedito Ruy Barbosa não foram assimiladas pela sociedade. O diabo está solto, e a ficção de quatro décadas atrás continua sendo o nosso retrato mais dolorosamente real.

Zé Eleutério, Maria Rita, Terêncio, Padre Bento, a Rádio Voz do Vale, o casario e a praça “emprestados” pela querida cidade de Vassouras como cenário e tantos personagens marcantes formavam a alma daquela trama. Um elenco estelar em que veteranos como Jofre Soares, Cláudio Corrêa e Castro, Eloísa Mafalda, Ary Fontoura, Tereza Raquel, Sérgio Britto, Henriqueta Brieba, Roberto Bonfim, Neuza Amaral e Rui Resende construíram uma química excelente com os jovens Cristina Mullins, Kadu Moliterno, Íris Nascimento, Cosme dos Santos, Bia Seidl, Caíque Ferreira, Simone Carvalho, Zaira Zambelli, Mário Cardoso, Roberto Pirillo e Elisângela, entre tantos outros atores e atrizes que a partir dali consolidariam ou redirecionariam suas carreiras.

Em 1988, na novela Vale Tudo, o vilão Marco Aurélio ameaçava um dos seus lacaios, um policial corrupto, com uma transferência para Seropédica: “bem pra lá de São Sebastião do Calçado”, segundo o personagem. Já no início dos anos 2000, uma outra fazenda, em Seropédica, também às margens da rodovia BR-465 — nomeada oficialmente em 2014 como Rodovia Luiz Henrique Resende Novaes, quase chegando à Dutra e logo depois da área por onde passaria o Arco Metropolitano, seria cenário para uma outra novela das 18h: Força de um Desejo, escrita por Gilberto Braga, outro ícone da teledramaturgia. Na trama, a casa de fazenda pertencia ao antagonista Higino Ventura, vivido pelo talentosíssimo ator Paulo Betti. A construção pode ser vista por todos que passam pela estrada e já abrigou, por pouco tempo, um centro cultural.

Eu queria apenas falar do resgate da novela no Globoplay, saudar a trajetória e a memória de Benedito Ruy Barbosa, grande autor de telenovelas brasileiras, mas acho que acabei falando de como a política sem ética e sem responsabilidade com a população pode fazer com que toda uma região permaneça tão desassistida quanto estava há 44 anos — talvez até em uma condição pior. Essa região, definitivamente, não é um paraíso.

 

 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Poema: "Avisado", de Erivelto Reis

Avisado

Erivelto Reis

 

Há quem reze para um deus machista

Alcoolista

Preconceituoso

Drogado

E ludibriado

Quanto à própria

Sabedoria, onipresença, onipotência

E onisciência.

A quem reze para um deus consciente

Da própria crueldade

Como quem lê um romance

Onde o narrador sabe que está narrando,

Porque está narrando e o que vai ser feito

Da vida de todas as personagens.

 

Ser deus talvez seja sobre não saber ser deus

Ou não saber reconhecer um deus

Ou uma deusa...

Sobre não saber nada sobre existência alguma

Que seja superior ao tempo,

Ao sorriso de uma criança,

Ao silêncio de testemunhar um fim...


Ser deus não deveria ser

Sobre ter fiéis, crentes ou sequestradores

De enredos...

Ou sobre ter seu nome em nenhum livro

Em que a existência esteja restrita a um espaço

Circunscrito a nascer e morrer.


Ou existir sem sofrer.

Ou promessas de prendas e paraísos

Ou ameaças de sacrifícios.

 

Ser deus deveria ser algo tão banal

Que ninguém se desse conta.

 

Desconfio desse tipo de deus que é sendo

E que não é se desentendendo

E que é não sendo

Quando mais se precisa

Que seja

Penso talvez num deus que não é e não foi

Sempre não sendo,

Mas que avisa.

sábado, 4 de julho de 2026

Poema: "Cacos de vidro", de Erivelto Reis

Cacos de vidro

Erivelto Reis

Cacos de vidro
Vidro moído
Chumbinho
Desprezo e xingo.
Cacos de vidro
Desprezo
Vidro moído
Soco, palavrão
Estilete e xingo.
Cacos de vidro,
Empurrão,
Não permitir
O exercício digno do ofício
Palavrão, violência
Desprezo e xingo.
Cacos de vidro,
Cola na cadeira,
Tapa na cara,
Provocação,
Exposição,
Ameaça e xingo.
Na escola,
De segunda a sexta-feira...
De domingo à domingo
Na cabeça de quem
Passa por isso.
Tapa, ameaça,
Cacos de vidro,
Desprezo e xingo.

domingo, 28 de junho de 2026

Poema: "Arrependimento"

 

Arrependimento

Erivelto Reis

 

Eu não digo nada, nem pra mim

Com medo de arrependimento

A maturidade vai chegando

Tô sozinho faz um tempo...

Você disse num adeus:

É vivendo e aprendendo.

Eu não digo que não sinto falta

De cada carícia

de cada delícia

que vivi com você...

Tô perdido e não vejo sentido na vida

Invento desculpa

Planejo uma fuga

Procuro saída

A alma só obedece a quem ama

Eu deito na cama

Tento esquecer

A alma é malcriada

E se sofre, reclama

Eu deito na cama

Você tá morando

No meu pensamento...

Eu não digo nada,

Nem pra mim

Com medo de arrependimento...

Você disse num adeus:

É vivendo e aprendendo.

 

Poema: "Território", de Erivelto Reis

 Território

Erivelto Reis

 

Território

É terra... e sonhos!

Memória que guarda história

Território é casa,

É aprender a proteger a alma

Território

É aprendizado, força pra romper

O ciclo perverso do passado

Da exploração do assalariado

Construindo o futuro, dia a dia,

Com conhecimento e sabedoria.

Território,

É fé, trabalho, amizade

Ter a escola como ponto de partida

E levar o que nela se aprende,

Levar o que que nela se ensina

No coração da gente,

Pra melhorar nossa vida.

Território, é cultura,

É paz pra abraçar quem se ama

É luta por um lugar melhor

É diversidade, pertencimento,

É inclusão e respeito

É ir e vir em segurança

Quando nos dão esse direito.

Território,

É representatividade e oportunidade.

É arte e liberdade pra criar.

Eles chamam de baixada

O que nós chamamos lar.

Eles chamam de despesa

O que pra nós tem valor

E entregam em conta gotas

Como se nos fizessem um favor.

Território

Não se mede por distância

O que vale é a importância

Que se dá,

Ao lugar em que as pessoas

Residem, estudam e trabalham

Território

Não é sobre sobreviver

É sobre viver e prosperar.

É assim que tem que ser.



 

Poema: "Bueno", de Erivelto Reis

 Bueno

Erivelto Reis
Para alguns, as becas,
Os capelos e os salões,
Paramentos, capas duras e fardões.
Para alguns, os nomes de família,
Os brasões, os barões e tubarões,
Refletidos nos cristais de Baccarat
Das confeitarias e nos vitrais
Das bibliotecas.
Incenso saltando dos rascunhos.
Para outros, apenas o bar na esquina
Da Presidente Wilson;
Um pró-labore por serviço,
Uma literatura com preservativo
Para proteger-se
Do que quer que chamem a isso.
Para alguns, a grife;
Para outros, sobrevivência
E sustento.
Pertinho do sonho,
Quase como se fosse
Da família,
Quase como se fosse acadêmico.
Nem tudo é tão perfeito
Quando visto de perto
E por dentro.
Aceitar o fardo,
Quando lhe negam o fardão,
É um prêmio injusto
De desconsideração;
É uma láurea do imaginário.
A corredeira desce inóspita...
Dentre todas as letras,
Algumas têm mel
Ministérios da Cultura...
E outras, só mistério.
Desde a Araújo Porto Alegre —
E não vai sobrar ninguém —
Da Almirante Barroso
À Rua México,
Da Candelária até os
Versos de Campos & Sant'Anna.
Como é bacana essa gente que
Lima Barreto, que lima outras gentes!
Na porta da igreja de Santa Luzia,
Bandeira vigia, feito estátua,
E tísico declama "Belo Belo".
Dura lex, sed lex...
A lei é dura, mas é lei.
Eu sei, Alex...
Eu sei.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Crônica: "Continuo amanhã... Continuo amanhã?!", de Erivelto Reis

 Continuo amanhã... Continuo amanhã?!

Erivelto Reis

 

O ambiente de uma sala de aula na escola pública brasileira é, por excelência, um território de contrastes e de disputas invisíveis. De um lado, quadros negros descascados, salários defasados e a exaustão crônica de profissionais que, contra todas as estatísticas, ainda insistem na transformação pelo conhecimento. Do outro, uma juventude que, por vezes, confunde a rebeldia legítima contra o sistema com o puro e simples desrespeito individual.

É sob essa ótica que se destaca uma das figuras mais emblemáticas do cotidiano escolar: o aluno que escolhe a apatia ou o deboche como refúgio.

Não se trata aqui do estudante que dorme por trabalhar na madrugada para sustentar a casa, cuja exaustão é um sintoma da desigualdade social. A crítica cabe àquele que, por puro desinteresse, faz da carteira um leito de hotel, ignorando o esforço de quem está de pé na frente da sala. Dormir sob o teto da escola pública, quando se tem a chance de aprender, é o primeiro passo para a autossabotagem consciente.

Ainda pior é o espetáculo do cinismo. Quando o professor tenta desfazer o nó de uma equação complexa ou explicar as nuances da história do país, surgem as risadinhas abafadas no fundo da sala, as piadas fora de hora e o olhar de desdém. O deboche virou a moeda de troca para o pertencimento social dos fracos. Para não parecer "careta" ou "cdf" diante do grupo, o estudante prefere ironizar a única ferramenta capaz de tirá-lo da margem: a educação.

"Rir de um professor que tenta ensinar é, no fundo, rir da própria falta de perspectiva."

Existe uma profunda miopia na atitude do aluno que hostiliza o docente. Ele acredita, em sua ilusão de rebeldia, que está desafiando a autoridade, o "sistema" ou o Estado. Mas a realidade é cruelmente oposta: O aluno sabota o próprio futuro. Ao esvaziar a aula com piadas e ironias, o estudante não está punindo o professor ou o governo; está punindo a si mesmo e aos colegas que queriam aprender. Está perpetuando o ciclo de exclusão que alguns professores e função primordial da escola pública justamente tentam quebrar.

O deboche em sala de aula é o triunfo da ignorância que se orgulha de si mesma. É a validação do preconceito de quem está no topo da pirâmide social e aponta para a escola pública dizendo que ela "não funciona". Quando o aluno desvaloriza o professor, ele assina embaixo do discurso daqueles que querem ver a educação pública sucateada.

A escola pública não é um parque de diversões, tampouco um espaço de entretenimento onde o professor atua como animador de palco para prender a atenção de plateias mimadas. Ela é um direito conquistado a duras penas, mantido pelos impostos do próprio povo.

O riso cínico que ecoa no fundo da sala não é sinal de inteligência, malícia ou superioridade; é o eco de uma trágica falta de visão. Enquanto o aluno brinca de ser rebelde sabotando a própria aula, o mundo lá fora não espera. A vida cobra o preço do conteúdo ignorado, e o mercado de trabalho não costuma achar graça nenhuma do deboche. É hora de acordar da letargia — e guardar o riso para quando a vitória for real.

Há tragédias silenciosas que não chegam às manchetes dos jornais, mas que sangram, dia após dia, no chão batido das salas de aula. Nenhuma delas, contudo, é tão visceral, tão terrivelmente cruel, quanto o espetáculo da autossabotagem planejada.

Assistir a um filho da classe trabalhadora — herdeiro do suor, dos calos e da exaustão de pais que vendem a própria força de trabalho para garantir o pão — decidir, por livre e espontânea vontade, que o conhecimento não lhe serve, é ver o futuro ser assassinado na nossa frente.

É uma dor que aperta o peito de quem observa, porque cada bocejo forçado, cada riso de deboche e cada "não quero saber" ressoa como um tapa na face de uma mãe que acordou às quatro da manhã, ou de um pai que carrega o peso do mundo nas costas para que o filho tenha o direito de segurar uma caneta, e não uma enxada ou uma britadeira.

Mas a crueldade atinge o seu ápice dramático quando essa renúncia ao saber se veste de falsa injustiça. O estudante que escolhe o abismo não assume o peso da própria queda. Em vez disso, constrói uma narrativa perversa, uma cortina de fumaça covarde, e aponta o dedo para a única pessoa que estendeu a mão: o professor.

Com uma retórica vazia, o jovem tenta convencer o mundo — e a si mesmo — de que sua ignorância é culpa alheia:

· "O professor é chato."

· "A matéria não serve para nada."

· "A didática dele não bate com a minha energia."

· "Ele pegou no meu pé."

Transforma-se o mestre em carrasco e o omisso em vítima. É uma inversão de valores de um cinismo devastador. Culpa-se a personalidade do docente para mascarar a própria preguiça; condena-se a rigidez da disciplina para justificar a falta de caráter e de brio. O professor, que muitas vezes gasta a voz e a saúde mental tentando resgatar aquela mente da vala da mediocridade, é sacrificado no altar do orgulho juvenil.

É de uma ironia trágica, quase teatral. Enquanto o filho do burguês, nas escolas particulares de elite, é treinado sob rédeas curtas para liderar, para dominar a ciência, a linguagem e a tecnologia, o filho do trabalhador, na escola pública, escolhe o deboche. Ele acha "bonito" ser o rebelde sem causa que sabota a aula. Ele se orgulha de dar as costas para o quadro-negro.

O que ele não consegue enxergar, em sua miopia soberba, é que o sistema comemora o seu silêncio. Cada vez que um aluno rejeita o conhecimento e culpa o professor, os arquitetos da desigualdade sorriem. O jovem está cumprindo exatamente o roteiro que os opressores escreveram para ele: o roteiro da subalternidade eterna.

Quando o filho do trabalhador se recusa a aprender, ele não está punindo o Estado, ele não está se vingando do professor "chato". Ele está assinando a sua própria sentença de subemprego. Está decretando que o sacrifício de seus pais foi em vão.

Não se pode romantizar a atitude do estudante que se recusa a saber. Há apenas o triste espetáculo de uma mente que escolheu se algemar. Culpar o professor pela própria ignorância é o último refúgio de quem não tem a coragem de olhar no espelho e admitir que é o único responsável pelo próprio fracasso.

A vida real, implacável e desprovida de qualquer compaixão, não aceitará essas desculpas. Quando as portas se fecharem e o peso da sobrevivência esmagar os ombros desse jovem, de nada adiantará qualquer pretensa justificativa. A ignorância terá cobrado o seu preço mais alto, e o eco daquelas risadas de deboche na sala de aula se transformará, inevitavelmente, no lamento tardio de quem teve a chance de se libertar e preferiu a servidão voluntária.

E aqui reside o refinamento mais cruel dessa engrenagem: não importa a excelência do mestre. Pode ser o professor mais preparado, aquele que respira a docência, que chega à sala com o olhar brilhando, munido de uma gentileza inabalável e disposto ao diálogo mais franco. Pode ser o profissional que passa noites em claro selecionando conteúdos, preparando materiais dinâmicos e que, não raramente, tira do próprio bolso o dinheiro que falta ao Estado para oferecer aos alunos uma experiência diferenciada, um lampejo de dignidade pedagógica. Pode ser a figura mais compreensiva, parceira e acolhedora do mundo.

Nada disso basta. Porque quando o estudante decide fincar os pés na rejeição, todo esse banquete de dedicação é desperdiçado

Quando o aluno sela o pacto com a própria ignorância, ele transforma a sala de aula em uma arena de combate psicológico. O limite entre o desprezo silencioso e a ironia do deboche é cruzado diariamente. Não se trata apenas de não querer aprender; trata-se de destruir a autoridade de quem ensina.

O estudante estabelece uma queda de braço perversa: recusa-se a realizar as atividades mais corriqueiras, nega-se a abrir o caderno e chega ao extremo de recusar um cumprimento formal no início da aula. A educação deixa de ser um processo intelectual e passa a ser um teste de poder.

Para mascarar o seu vazio, esse jovem aciona uma máquina de difamação:

·         A culpabilização: Avalia o professor negativamente de forma deliberada, distorcendo critérios para punir quem o cobra.

·         A mentira sistemática: Inventa narrativas, distorce fatos e mente abertamente sobre a conduta do docente para a coordenação ou para os pais, tentando transformar sua própria indisciplina em um "problema relacional".

·         O tribunal da incompetência: Tenta convencer os pares de que o erro está na postura do professor, invertendo os papéis de agressor e vítima.

Essa dinâmica contínua produz um rastro de destruição humana. Esse comportamento adoece. Ele mina a autoconfiança de profissionais experientes, injeta a paralisante substância da insegurança na mente de quem estudou anos para estar ali e descredibiliza o saber diante de toda a turma.

Sob essa pressão, a docência é violentada, empurrada para se tornar um rebaixado concurso de popularidade. O professor é coagido a ser um "animador de torcida" ou, pior, a aceitar um conchavo humilhante: um pacto de mediocridade onde o aluno finge que aprende e o professor finge que não vê ou torna-se conivente com o caos para preservar o que lhe resta de sanidade mental. A escola pública, que deveria ser o berço da emancipação, é transformada em um cativeiro psicológico para quem ousa tentar ensinar.

O que esse estudante pratica não é uma travessura juvenil; é um processo de violência multifacetada e avassaladora:

  • Simbólica e Intelectual: Ao ridicularizar o conhecimento, o aluno apaga o valor da ciência, da história e da cultura, decretando que o saber não vale nada.
  • Emocional e Psicológica: O massacre diário de olhar para rostos cínicos, de ouvir risadinhas sussurradas e de enfrentar a rejeição deliberada destrói a saúde mental do docente, gerando crises de ansiedade, depressão e a síndrome de Burnout.
  • Física: A barreira entre a violência psicológica e a agressão física é tênue. O tensionamento constante do ambiente escolar quebra o pacto de paz e, em muitos casos, descamba para a intimidação física direta e ameaças reais à integridade do trabalhador da educação.

Para agravar essa tragédia institucional, o professor agredido frequentemente descobre que a solidão da docência é alimentada pela traição corporativa: há colegas de profissão que, longe de defenderem a dignidade do cargo, não apenas compactuam silenciosamente com essas práticas antipedagógicas, mas se associam ativamente a elas. Essa cumplicidade opera em múltiplos níveis, manifestando-se desde a dissimulação covarde — como o silêncio obsequioso nos conselhos de classe e o endosso velado às reclamações infundadas dos estudantes — até a participação explícita na desestruturação da imagem do colega, validando o deboche dos alunos para angariar uma popularidade barata ou alimentar rivalidades internas. Ao relativizarem a barbárie e justificarem o injustificável sob o pretexto de uma falsa "empatia juvenil", esses profissionais tornam-se engrenagens fundamentais no aviltamento de seus pares, legitimando a violência psicológica e carimbando, de dentro da própria categoria, o atestado de falência da autoridade docente.

Ver o filho do trabalhador usar o seu tempo para linchar psicologicamente o professor que tenta salvá-lo da engrenagem da exclusão é um soco no estômago da sociedade. É a barbárie instalada na antessala do futuro. Quando a escola pública aceita que o deboche e a mentira vençam o acolhimento e a competência, ela deixa de ser um templo de luz para se tornar o cenário de uma das maiores crueldades sociais do nosso tempo.

Em meio a esse deserto de afetos e respeito, seria injusto não reconhecer o oásis: existem, sim, aqueles alunos maravilhosos que justificam a nossa permanência no chão da escola. Estudantes que carregam no olhar o brilho da curiosidade e para quem é uma verdadeira honra lecionar. Eles se tornam quase parceiros no cotidiano da sala de aula; trazem consigo um bom humor contagiante, uma lealdade firme, ética, comprometimento, inteligência e uma sensibilidade rara. O problema é que, a cada ano que passa, encontrar essas mentes luminosas tornou-se uma raridade estatística. Uma turma inteira composta por eles? Um sonho quase utópico.

No entanto, o que dilacera o peito do educador não é apenas a escassez desses jovens, mas a estarrecedora descoberta de que, em certas situações, essa "turma dos sonhos" existe, mas escolhe a exclusão deliberada. Dói profundamente perceber que um grupo de alunos, dotado de pleno discernimento, firma um pacto velado de silêncio e distância na sua aula. Sabe-se lá por qual motivo ou justificativa torpe, eles decidem, coletivamente, que você não merece o melhor deles.

É uma punição covarde que se renova a cada toque do sinal, aplicada contra o professor por crime ou erro nenhum. Negam qualquer possibilidade de aproximação humana ou pedagógica. Esse isolamento muitas vezes se alimenta das sombras mais mesquinhas: do etarismo que desvaloriza a experiência, de preconceitos de qualquer natureza, do "ouvir dizer" alimentado por fofocas de corredor, ou, mais doloroso ainda, pelo simples fato de você se recusar a ser "mais do mesmo". Por você insistir em realizar o seu trabalho com rigor, seriedade e paixão, em vez de se render ao pacto da mediocridade, a turma o pune com o gelo do desprezo. É a inteligência e a sensibilidade instrumentalizadas para o boicote, transformando o que deveria ser um espaço de partilha em um tribunal silencioso e implacável.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Poema: "Silos", de Erivelto Reis

 Silos

Erivelto Reis

Uma saudade grata.
Uma lembrança que não passa.
Quem tem seu quinhão de amor,
Já deixou a terra semeada.
Poesia, pão e trigo!
Um poeta tão criança,
Um menino tão antigo...
A colheita e o reencontro não tardam,
A memória lota silos.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Poema: "Cantilena", de Erivelto Reis

Cantilena

Erivelto Reis


Escuto o teu murmúrio

Como se fosse prece.

Em meio às tuas febres,

Não é o meu semblante

Que nos teus delírios aparece.

 

Caminhas pela casa,

Fantasma onipresente

Que não portando alma

Nem és santo, nem és gente.

 

Amou-me e desamou

Sofreu e fez sofrer quem não merece.

Amor, raro licor,

Escuto o teu murmúrio

Como se fosse prece.



domingo, 10 de maio de 2026

Poema: "Double Fantasy", de Erivelto Reis

Double Fantasy

Erivelto Reis

 

Às vezes,

Você pensa que está trabalhando

Mas está saindo

Do Dakota Building

Talvez pela última vez...


Às vezes, em certos lugares,

Você pensa que está agradando

Mas, sem saber, está apenas

Autografando um long-play

Pra um assassino.


Às vezes você pensa.

E enquanto pensa, nem sempre nota

(O monte de Judas em Dakota)


O quanto Chapman trama

Puxar seu tapete, puxar o gatilho,

Fechar sua porta...

Deixar órfão o seu mundo,

Deixar órfão o seu filho.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Poema: "O futuro é pra dentro", de Erivelto Reis

 

O futuro é pra dentro

Erivelto Reis

Quando

O Homem deixar de ser a humanidade

O feminino passar a ser o ser o universal

A arte for o ar que oxigena a existência

Começaremos a transformação

Quando

A educação comportar a memória da sabedoria ancestral

A ética estiver em todas as consciências

E a música nos irmanar

Em paz e afetos genuínos

Quando

Amor e amizade não forem mais substituíveis

Nem descartáveis

Haverá alguma chance

O futuro é pra dentro

Pra um lugar que ainda não existe

Em todo mundo

Oco, ergue-se e desmorona

Num jogo de luz e sombra.

Catedral ou cratera

Conforme avança o tempo.

 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Poema: "Neutro", de Erivelto Reis

 Neutro

Erivelto Reis

Neutro é uma forma de deter gente.
É colonialismo
É misoginia
Dissonância cognitiva
Mentira e arrogância
Numa embalagem discreta...
É preconceito,
Puxadinha de tapete
Fingir inteligência com IA.
Neutro é uma forma de deter gente.
Neutro
É o favorecimento da desigualdade
Neutro
É o discurso do terremoto da meritocracia
Neutro é uma forma de deter gente.
Neutro
É o disfarce do abusador
Do tóxico assediador
Do colega que te vende
Por um melhor dia na semana
Que faz da educação
Sua fazendinha, seu game.
Neutro é uma forma de deter gente.
Neutro é a violência
De smoking alugado
Na festa do não ler, não ser,
Não saber e ter raiva de quem sabe
É uma omissão low-profile.
É o desprezo pela qualidade
Da formação do outro
Uma inveja que escapa como mini arrotos.
Neutro
É um verniz que descasca
É o jeito adulador de equilibrar a máscara.
Neutro é uma forma de deter gente.
Neutro é um moralismo tacanho
É um cuidado em não ouvir o que é real
É um filtro sobre a realidade
É um storyelling de narrativa
Perigosa e vazia.
Neutro
É um comportamento de herdeiro
É atacar em surdina...
É o sorrisinho de vaselina
De quem parasita qualquer hospedeiro
É sinônimo de conivente
Neutro não é uma qualidade.
É fazer política como forma de covardia!
É sinônimo de conivente...
Neutro é uma forma de deter gente.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Poema: "Seria um bom domingo", de Erivelto Reis

Seria um bom domingo

Erivelto Reis

 

A saída mais perto é para o fim.

E é também a mais longe

Disfarçada de única.

 

Não tem foice, nem alfange,

Nem caveira, nem máscara,

Nem túnica

Suficientes...

 

Quando se passa dos limites

Suportáveis.

O pensamento passa mil vezes

Filmes inclassificáveis.

 

Os hormônios, os neurônios

São intransigentes.

Tal como um membro amputado

Que não para de doer,

Como pode um coração amputado,

Dilacerado

Não parar um instante de se debater?!

 

Cérebro não é pátria alguma

Onde a razão possa se hospedar!

Quando não se constrói coisa nenhuma...

 

E corrói saber que o que se faz

Não machuca tanto

Como o modo que se diz

Receita clássica de fazer

Gente sem amigos, amargurada,

Última e infeliz:

Apenas mudar os móveis de lugar

E crer inaugurar um novo país...

 

Amanhã seria um bom domingo.

 

terça-feira, 14 de abril de 2026

Poema: "Tábua sem salvação", de Erivelto Reis

 Tábua sem salvação

Erivelto Reis

 

Tristeza mareja o olhar

Saudade turva:

Tábua sem salvação!

Enquanto se tenta respirar...

 

Desespero é espalhar as lágrimas

No rosto, apertar os olhos,

Debatendo-se desordenadamente,

Gritando silenciosamente...

Soluçando cada sílaba

Do nome à deriva...

 

Medo: ente desobediente!

Naufragado etéreo.

Um mar na cara

Afogando o tempo...

 

–Tábua sem salvação –

Parados na eternidade do sofrimento.

Desesperado coração,

Desesperada mente.

terça-feira, 24 de março de 2026

Poema: "Sabre", de Erivelto Reis

 Sabre

Erivelto Reis

 

Senhores,

Vossas cadeiras são fantasmas,

Assombram quando o espírito mau

As possua...

Vossas tentativas de astúcia

São lupas de vossa horrenda

E desmedida incapacidade.

Elenco de vossa fúria

É a ignorância não ignorável

De vossa inveja, de vosso recalque:

Pagar pela viagem,

Não aproveitar a paisagem

Porque não sabe para onde vai

E porque se esqueceu de onde veio.

Vosso poder é um devaneio

Vossos fiadores estão morrendo de medo

De que vossas tramas

Estreiem ante a plateia

Que não ri de vossos truques

E que sabe que o que ofereces

Não chega nem perto de um espetáculo.

Vossos sonhos são ganâncias

Aos quais vossa estupidez

É obstáculo.

Vossas bocas cospem delitos

Vossas mãos simulam tentáculos.

Vossos sonhos são artimanhas

Às quais vossa estupidez

Converte em provas

De vosso ostensivo fracasso.

Senhores...

Inútil querer o que o poder não pode

Inútil querer o que o saber não sabe.

Vosso gesto insalubre,

Parte de vosso costume:

Esmurrar uma porta que jamais se abre,

Brandir pra ameaçar com a guarnição

Sem gume, sem sabre...

segunda-feira, 16 de março de 2026

Poema: "Dissonantes", de Erivelto Reis

Dissonantes

Erivelto Reis

 

É preciso ter esperança

Para ter coragem

Às vezes ocorre uma coragem

Sem esperança,

Uma centelha disruptiva

Entre o emocional e o racional.

É preciso ter coragem, apesar da esperança

Para dizer claramente

Que os pactos silenciosos

Entre os estúpidos e violentos

E mal intencionados

Não se chama coragem, se chama covardia.

Não se atribua a esses

Ilações sobre ética e consciência...

Os corajosos e esperançosos

Debatem em campo aberto

À luz do dia, sem reféns e sem escudos.

Sua coragem liberta, liberta-nos, liberta-os.

A coragem esperançosa dos utópicos

Difere em muito

Da covardia preguiçosa dos dissonantes

Onírica e cognitivamente.

Os utópicos penam, padecem

Os dissonantes ruminam.

Não dá pra dizer, a priori,

A quem a ruína escolha:

Os que sonham corajosamente

Os que tramam covardemente...

Mas dá pra saber quando há escombro

Escorado em carma.

É só olhar com calma.

terça-feira, 10 de março de 2026

Poema: "Não sou eu", de Erivelto Reis

 Não sou eu

Erivelto Reis

 

Certamente, não sou eu

Quem deseduca o seu filho.

Certamente, não sou eu

Quem deseduca o seu filho.

 

São os teus secretos vícios,

É a intolerância e o fanatismo

É a inveja e a estupidez

São seus traumas de infância...

É a sua arrogância

E a visão desatualizada

Que tens sobre a educação.

 

É o dinheiro que te sobra

É o dinheiro que te falta

É a tua política de trocar

O teu voto por ilícita vantagem

E por qualquer favor...

É o respeito que não tens

Por alguém que acolhe o futuro

Da geração do teu amor.

 

Certamente, não sou eu

Quem deseduca o seu filho.

Certamente, não sou eu

Quem deseduca o seu filho.

 

É a bestial rede antissocial

Que abriste como

Se adormecesse o Cérbero

Para que teu rebento

Fosse habitar no hades virtual

E assim, anestesiar o cérebro,

Tornando-o pouco usual.

 

É a tela sempre usada

Como amiga, conselheira e babá

É premiar o mal feito

É a ética rara, escassa

É a falta de diálogo

Só menor que a de exemplo

Que cultivas no jardim de tua casa.

 

Certamente, não sou eu

Quem deseduca o seu filho.

Certamente, não sou eu

Quem deseduca o seu filho.

Poema: "Teórico", de Erivelto Reis

 Teórico

Erivelto Reis

 

Porque eu sabia

Que era mais fácil

Um deus fingir-se caótico

Do que fingir-se teórico

Porque eu sabia

Que era mais fácil

Um deus sacar a espada

Do que matar a esperança

Porque eu sabia

Que era mais fácil

Eu perseguia

O improvável

O impossível

O imponderável

Não bastaria qualquer milagre

Ou teoria.

Justo no dia do seu descanso

Ele, pessoalmente, me explicaria...

Ou o universo se abria

O então eu não creria

Porque eu sabia

Que era mais fácil

Um deus todo feito de amor

Do que ocupado qual professor...

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Poema: "Quem mais gosta", de Erivelto Reis

 Quem mais gosta

Erivelto Reis

 Quem mais gosta do tempo que você perde
lutando contra quem gosta
do tempo que você perde lutando
contra quem mais gosta
do tempo que você perde lutando
é quem fica escondido
gostando do tempo
que você perde lutando.
Não importa o motivo.
Não precisa de outro motivo.
A não ser ficar escondido
enquanto vê você lutando
contra quem gosta do tempo
que você perde lutando,
mesmo sem saber
contra quem, como,
onde e porque alguém
ainda gostaria de ver
você lutando contra quem gosta
do tempo que você perde lutando.