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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Poema: "Quem mais gosta", de Erivelto Reis

 Quem mais gosta

Erivelto Reis

 Quem mais gosta do tempo que você perde
lutando contra quem gosta
do tempo que você perde lutando
contra quem mais gosta
do tempo que você perde lutando
é quem fica escondido
gostando do tempo
que você perde lutando.
Não importa o motivo.
Não precisa de outro motivo.
A não ser ficar escondido
enquanto vê você lutando
contra quem gosta do tempo
que você perde lutando,
mesmo sem saber
contra quem, como,
onde e porque alguém
ainda gostaria de ver
você lutando contra quem gosta
do tempo que você perde lutando.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Poema: "Patenteado", de Erivelto Reis

Patenteado

Erivelto Reis

Patenteada

A perfeição irresponsável

De criticar sem fazer nada,

Do teatro patético

de folhear os livros e não lê-los.

De fingir que sabe do que está falando.

Patenteada

A empatia seletiva

A defesa indefensável de um não-lugar

Garantido sistematicamente por um não-educar...

Pode patentear.

O fio da navalha com que canalha

Se espraia nos futuros que interrompes.

Mas não espere meu silêncio conivente.

Não vou ficar parado.

Não serei indiferente.

Atravesso sua cancela...

Eu furo sua panela.

Patenteado.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Poema: "Forró", de Erivelto Reis

 Forró

Erivelto Reis

Agiu bem
Quem botou o céu no mundo
Saiu por aí
Prometendo tudo,
Tudo...
Em troca de obediência
E serventia.

Agiu bem
Quem criou a consciência
Que norteia e ilumina a estrada
Quem aos sábios proveu
A inteligência
E aos aflitos legou a alvorada
Esquecido, talvez, se não tivesse
De prover de estratégia
Aos mais tolos
Que ao invisível humanamente
Tecem preces
Enquanto aos loucos
Reprisam os males de que padecem.

Quereria que este célebre inventor
Corrigisse as consequências dos seus atos
Meditasse que as lacunas que erigiu
Correspondem à justificativa dos tiranos
Saciam a solidão dos insensatos
E confirmam a insegurança dos incautos.

Agiu bem quem botou o céu no mundo.
"Quem foi esse inteligente
Que inventou o forró?..."

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Poema: "Retrô-grafado", Erivelto Reis

Retrô-grafado

Erivelto Reis

 

O autógrafo é um rabisco

Que só vale quando o poeta está vivo

Acorda, criatura...

Como pode a obra valer menos que a assinatura?

Arte literária libertária

Não é arte tabelionária.

Vale o carinho de ter assinado,

Mais do que o enjambement?

Mente sã, literatura vã...

É um galo sozinho querendo tecer

Uma manhã

É um interlocutor andando atrás,

Morando dentro do José

Quando o mundo dele ruiu.

 

Gullar me escreveu uma dedicatória.

Me entregou o livro pela janela.

Comprei um livro autografado por Hilda Hilst

Só porque gostei da letra dela.

Um livro do Walter Benjamin

Caiu em cima de mim.

Li bem um livro de Aragon

E me surpreendi porque o achei surreal.

Não gostei de Baudelaire

Porque suas flores são do mal.

E porque cansei de o confundir com Flaubert...

 

O autógrafo é um rabisco

Que só vale quando o poeta está vivo

Acorda, criatura...

Como pode a obra valer menos que a assinatura?

 

Confessar ignorância ou

Fingir sapiência...

Nenhum farsante resiste,

Nenhum arrogante resiste

a dois minutos de ciência.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Poema: "Acrítico", de Erivelto Reis

 Acrítico

Erivelto Reis

Eu leio poesia pra gostar do texto
Não pra gostar do poeta!
Pode até ser que deixe de gostar do poema
Por causa do cinismo do poeta,
Que se esconde atrás de um eu-lírico,
Quando todo mundo sabe
O quanto ele é cínico.
O quanto o crítico tem de acrítico...

Pode ser que a poesia o redima:
A que estiver em mim,
Se eu estiver no clima...

O mesmo vale para a música,
Pro cinema, pra estilística,
Pra pintura, pra linguística...
O critério é meu.
Não é seu crivo,
Não são seus livros,
Suas obras ou seus ombros
Que vão mesmo suportar o mundo.

Pega mais leve, responda
A quem pergunte,
Não se faça de muso
Não se assuste, se assunte.
– Pare de abuso!
Olha a patacoada!
Deixa de dar carteirada!
Tá correndo atrás das motos
Igualzinho a um vira-latas...
Por causa de purismos,
Quer fechar a porta de entrada.

Fala sério,
Vá brigar com Graham Bell, com Gutenberg,
Com os assírios, com os sumérios...
Ou não brigar com ninguém...
Ou vá pra o diabo que o carregue.

Deixe de falsa fúria, pare de patrulha.
Escolhe melhor suas batalhas.
Para de fazer como o pombo
Que tanto suja a rua quanto arrulha...

Não é o capitalismo,
Não são as trends,
É agredir, gratuitamente,
Em lugar de explicar com zelo
O que acha que o outro não entende.
Se não puder desse jeito,
É melhor ser arquiteto
Do deserto de seu insuperável padrão.
Ficar como um super homem
Na fortaleza de sua solidão.