Fu-turismo
Erivelto Reis
Porque nem todos os caminhos levam à Roma...
Eis a viagem.
O itinerário é longo.
São vários pontos de parada.
Vários lugares para visitar.
É preciso estar in loco.
Sentir a textura dos caminhos
Sob os pés e aprender a perceber
As nuances do céu
E seus matizes sobre nossas cabeças.
É preciso caminhar,
Matar a sede e perceber
A sede aumentar e se transformar.
Pacote comprado.
De repente, dizem:
"Basta apenas que ouças as histórias"
No máximo, tu verás um mapa.
Tu querias viver,
Experimentar para decidir.
Restam as histórias contadas por quem
Nem ao menos passou por lá;
Ou se passou,
Passou por atalho que levou a lugar nenhum.
À beira de nenhuma estrada.
Quem sou eu
- Erivelto Reis - Poemas e Crônicas
- Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019
Poema: "Fio", de Erivelto Reis
Fio
Erivelto Reis
Erivelto Reis
Brasil, um país que todo dia
amanhece banhado em lágrimas.
Elas provêm do espanto ante a tragédia
e o sofrimento de nossos irmãos;
do inesperado do desastre da fatalidade;
do horror do ódio dos poderosos:
aos mais fracos, aos mais pobres,
aos mais velhos e aos que ainda lutam
e não se corrompem;
provêm da desvalorização:
da vida, dos professores, das mulheres,
seus corpos, suas almas e seus direitos...
provêm da tristeza
pela desfaçatez das forças ocultas
do poder econômico,
que açulam o cinismo
e a degeneração administrativa
de muitos que governam este país;
provêm pela descrédito que temos
pelos que legislam, indisfarçavelmente, contra o povo
e dos que julgam com brandura e leveza,
absolvendo seus compadrios,
e com celeridade e fúria,
quase em desapreço
pela legalidade e seus princípios fundamentais,
àqueles que possam representar
uma esperança sequer de oposição
aos desmandos de becas e togas e colarinhos.
Não sei como vocês se sentem.
Mas a impressão que eu tenho
é de que já de há muito no Brasil,
todo dia é um amanhecer em lágrimas.
Um vale de lágrimas.
Quando não é a Vale é um Vélez
Quando não é um rico, é um reles...
Quanto desvelo em calar-nos!
quantos canalhas nos altos postos!
Todo dia assim... dor, estupor e choro.
E até quando?!
O meu país é uma pátria que anoitece
e amanhece chorando.
amanhece banhado em lágrimas.
Elas provêm do espanto ante a tragédia
e o sofrimento de nossos irmãos;
do inesperado do desastre da fatalidade;
do horror do ódio dos poderosos:
aos mais fracos, aos mais pobres,
aos mais velhos e aos que ainda lutam
e não se corrompem;
provêm da desvalorização:
da vida, dos professores, das mulheres,
seus corpos, suas almas e seus direitos...
provêm da tristeza
pela desfaçatez das forças ocultas
do poder econômico,
que açulam o cinismo
e a degeneração administrativa
de muitos que governam este país;
provêm pela descrédito que temos
pelos que legislam, indisfarçavelmente, contra o povo
e dos que julgam com brandura e leveza,
absolvendo seus compadrios,
e com celeridade e fúria,
quase em desapreço
pela legalidade e seus princípios fundamentais,
àqueles que possam representar
uma esperança sequer de oposição
aos desmandos de becas e togas e colarinhos.
Não sei como vocês se sentem.
Mas a impressão que eu tenho
é de que já de há muito no Brasil,
todo dia é um amanhecer em lágrimas.
Um vale de lágrimas.
Quando não é a Vale é um Vélez
Quando não é um rico, é um reles...
Quanto desvelo em calar-nos!
quantos canalhas nos altos postos!
Todo dia assim... dor, estupor e choro.
E até quando?!
O meu país é uma pátria que anoitece
e amanhece chorando.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
Poema: "Bibelôs", de Erivelto Reis
Bibelôs
Erivelto Reis
Tenho uma cristaleira cheia,
repleta de bibelôs quebrados
isso mesmo: bibelôs.
relíquias de momentos memoráveis,
relicários devotados aos santos e santas
aos quais rezei em prece fervorosa
de amizade e admiração
santos aos quais nenhum favor neguei
e que nenhum milagre me ofertaram
santos que me amaldiçoaram
mártires do próprio ego
bibelôs quebrados,
raríssimas antiguidades,
cristais com pequenas fendas
com pequenas trincas
palavras puras em lexicografia
e horrendamente obscenas
em ardis intenções
aí os conservo,
sei a expressão que tinham
quando intactos
e congelo a memória da expressão
dissimulada dos primeiros indícios
de que se partiriam em mil pedaços
de que tentariam me cortar com seus estilhaços
─ e não é que de fato alguns me estraçalharam?! ─,
kamikazes de amizade
simuladores de lealdade
morem na minha cristaleira,
prisão de memória e espelho,
morem apenas lá, covardes
guardo todos,
convencido de evitar que seus cacos
se espalhem por toda parte
bibelôs quebrados:
ilusão de quem coleciona desastres.
Poema: "da paixão", de Erivelto Reis
da paixão
Erivelto Reis
na primeira estação estavam os cães raivosos
na segunda, os atiradores de pedras
na terceira, os que proferiam calúnias
na quarta, os que se divertiam com a dor do outro
na quinta, os que conspiravam a história que os
absolveria
na sexta, os ferreiros que forjaram a lança da inveja
na sétima, os invejosos que espetaram a lança
na oitava, as mulheres que sofriam a opressão por só
querer o bem
na nona, os velhos e a fadiga de seus olhos por
reconhecer o mal
na décima, os homens íntegros que sabiam que em breve
seria a sua hora
na décima primeira, a horda de traidores
na décima segunda, os hereges e beatos cada qual se
fingindo do outro
na décima terceira, cada um que fez alguma coisa para não
fazer nada
na décima quarta, os lamentadores, os carrascos e os que
viram os sonhos ruírem
convulsão de vozes, estertor de alma:
uns pensam e se calam:
“meu deus, sacrificaram mais um inocente!”
outros não pensam e se ufanam:
─ que bom, matamos mais um inocente!
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
Crônica: "Uma carta para meu irmão trabalhador", de Erivelto Reis
UMA
CARTA PARA MEU IRMÃO TRABALHADOR
Erivelto Reis
Queria
escrever uma carta para o meu irmão trabalhador que nem eu. Não porque eu saiba
escrever, ou escreva melhor ou mais bonito, ou porque ele, talvez, não saiba
nada sobre o que eu vou dizer a ele, ou nada entenda sobre os perigos de dizer
o que ele tem dito e de escrever o que ele tem escrito.
Queria
escrever uma carta. Só uma. Para o meu irmão trabalhador que nem eu. Não porque
sejamos amigos, ou sejamos colegas ou trabalhemos no mesmo ramo, ou estejamos
no mesmo barco, ou porque sejamos torcedores do mesmo time ou sonhemos com as
mesmas coisas para o país. Também não seria porque pensemos de forma distinta,
ou sonhemos com ideais completa ou parcialmente diferentes. Não porque eu não tenha
tanta experiência, não porque ele não tenha o mesmo conhecimento que eu. Não
porque ele talvez suponha que não estejamos no mesmo barco.
Queria
escrever ao meu irmão, trabalhador que nem eu, uma carta. Uma carta que
perdesse de todo a sua intenção de aviso, de conselho de alerta, de pedido, de
interseção. Uma carta que perdesse a finalidade de chamar sua atenção e
exercesse única, exclusiva e preponderantemente a função de servir como um
alento, como uma expressão de afeto, como um abraço.
Ainda
que meu irmão trabalhador me confrontasse, ainda que ele me desprezasse, ainda
que não me entendesse, que me julgasse, que me excluísse... Ainda que ninguém
soubesse. Ou, em sabendo, que não curtisse, não comentasse, nem compartilhasse.
Ainda que criticasse. Queria escrever uma carta que fosse uma prece a quem não
rezasse, que fosse uma reza por quem não acreditasse, que fosse uma súplica por
quem não lamentasse. Que fosse silêncio e um olhar por aqueles a quem não se
olhasse. Queria que meu irmão trabalhador que nem eu, apenas parasse, por um
instante, e que repensasse.
Queria
escrever uma carta que ensinasse. Ao meu irmão, trabalhador que nem eu, como é
infinita a sua possibilidade. Como ele é importante em sua função, em sua
alegria, em sua família, em sua comunidade, em nosso trabalho, em sua missão para
todos os que dele dependem, para todos os que com ele convivem, para todos como
eu, que nele se espelham. Para dizer a ele como são duras as coisas tristes de
que ele se aproxima talvez sem querer, talvez sem perceber, talvez querendo,
sabendo, percebendo. Mas que é, também, possível mudar de ideia, ponderar.
Rever-se. Sei lá. Retroceder.
Não
escrevo, pois não me cabe esse direito. Não escrevo porque não me cabe essa
função. Mas, sendo amigo, caberia. Mas, sendo irmão, trabalhador que nem eu
aceitaria a empreitada. Caminharia por quanto tempo e a que distância, desde
que pudesse fazê-lo perceber a antipatia de certas coisas, que certas coisas
provocam. A dúvida é: se meu irmão iria querer. Iria me entender e se
caminharia comigo. Se me veria como amigo. Depois que lhe escrevesse e lhe
mostrasse que os que chama de inimigos, talvez assim não sejam. Se os que elege
como dignos talvez nem tanto sejam. E que não vale a pena atrair pra si a
imagem dos que defende ou ataca. Sua imagem pessoal e sua trajetória de
trabalhador, meu amigo e meu irmão, já falam por si só.
Não
pretenderia demovê-lo de seus valores, de seus princípios. Não pretenderia convencê-lo,
doutriná-lo, exortá-lo, insultá-lo, limitá-lo. Pretenderia, contudo,
sensibilizá-lo. Buscaria afastar de sua figura pública de trabalhador, meu
irmão, o amargor da banalidade de um mal com o qual eu sei que ele não
compactua. Que ele não profere, que ele não pratica, mas que o circundam, a
partir de textos e imagens dos quais ele se acerca. Talvez não por pensar
diferente... Talvez apenas por querer expressar de uma forma dinâmica, o que no
dinamismo da informação carrega também fúria, ressentimento, mentira, calúnia, desfaçatez,
manipulação e ódio.
Queria
que ele escrevesse poesia, salmos, cânticos. Queria mais do seu humor de
trabalhador como eu. Queria mais da resenha do seu time de coração. Queria mais
das imagens engraçadas e dos seus trocadilhos. Queria mais das provocações do
dia a dia de nosso trabalho comum; mais de sua família, mais de seus passeios,
mais de seus amigos. Ainda que as coisas que publica e compartilha fossem de
sua autoria ou ainda que chegassem ao encontro das lacunas do que sinto e do
que penso, seria dele que eu quereria mais notícias. E não me juntaria a ele
numa voz solista de paladino ou num coral gigante de tenores para bradar contra
quem quer que fosse. Bradaríamos, sim, contra a fome, a falta de trabalho, de
oportunidades, de salário, de emprego, de respeito. Discutiríamos ideias e não
pessoas. Talvez, Fernando Pessoa. Talvez, só conversássemos à toa.
Queria
que minha carta fosse rasgada, queimada, trancafiada num baú de trecos sem
valor. Queria que não precisasse ser escrita e, muito menos, lida. Queria uma
nova perspectiva de sociedade e de vida para mim e para meu irmão trabalhador
que nem eu.
Queria
compreender mais e melhor. Que me desculpasse se lesse em minhas palavras
quaisquer intenções que não a de abraçá-lo. Queria que o espaço para o
pensamento contraditório não servisse nunca de palco para a maledicência da
corrupção. Não alego estar com a verdade, não pretendo estar com a razão.
Queria direcionar minhas palavras, meus bons sentimentos, minha boa intenção,
meu silêncio complacente, meus respeitos, meu afago, meu carinho, meu afeto e
minha admiração a cada trabalhador e trabalhadora: meus amigos, meus irmãos. Façamos
de nossas palavras o espaço em que se compartilha o pão.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2019
Poema: "exilado", de Erivelto Reis
exilado
Erivelto Reis
Erivelto Reis
É o primeiro a ir
sendo ido
nessa nova fase antiga
de nós já tão conhecida
é preciso sair pra preservar a própria vida
é o primeiro que foge
é o primeiro que sai fugido
é o primeiro que não precisando
precisa fugir.
Não é o primeiro a temer,
não é o primeiro que sabe
que está marcado para morrer
Não é o único
não será o último.
Infelizmente, podes crer.
É teu filho na malha da noite
preso na angústia
de não poder voltar pra casa
porque alguém decidiu
Não gostar de sua cara,
de suas palavras, do seu jeito de ser.
é o primeiro a ir
sendo ido
outros já foram carregados
Outros já foram mareados
outras já foram marielles,
já sentiram na própria pele...
Como é reles
a política que se faz sobre a morte
de inocentes, de oponentes.
Onde falta ideia, sobra a ira,
a mira, a moral inconsistente.
é o primeiro a ir
e, sabemos,
infelizmente não será o último
a sair, a sucumbir,
a já ir...
sendo ido
nessa nova fase antiga
de nós já tão conhecida
é preciso sair pra preservar a própria vida
é o primeiro que foge
é o primeiro que sai fugido
é o primeiro que não precisando
precisa fugir.
Não é o primeiro a temer,
não é o primeiro que sabe
que está marcado para morrer
Não é o único
não será o último.
Infelizmente, podes crer.
É teu filho na malha da noite
preso na angústia
de não poder voltar pra casa
porque alguém decidiu
Não gostar de sua cara,
de suas palavras, do seu jeito de ser.
é o primeiro a ir
sendo ido
outros já foram carregados
Outros já foram mareados
outras já foram marielles,
já sentiram na própria pele...
Como é reles
a política que se faz sobre a morte
de inocentes, de oponentes.
Onde falta ideia, sobra a ira,
a mira, a moral inconsistente.
é o primeiro a ir
e, sabemos,
infelizmente não será o último
a sair, a sucumbir,
a já ir...
Crônica: "Armorial", de Erivelto Reis
![]() |
| Xilogravura: Perron Ramos (Pernambuco) sobre a obra Abaporu (1928), de Tarsila do Amaral |
ARMORIAL:
A MÚSICA DA ALMA
DA
ARTE DO POVO BRASILEIRO
Para Daniel Marcos
Martins e Cinda Gonda:
Professores armoriais brasileiros
[que nem eu...]
Erivelto Reis
Em memória de
Primitivo Paes e José de Arimatéa
O brasileiro, indubitavelmente, irá se comover com a música e
com a arte Armorial, tão logo tenha contato com ela. Ela é uma importante
vertente de um Universo cultural brasileiro. Remete às nossas raízes como
civilização. Liga pontos vitais do imaginário de nosso folclore, do nosso
mítico, de nossa miscigenação. Seus instrumentos são a viola, a rabeca, o
pífano, as mãos e ar vital dos poetas, dos músicos, dos artistas populares
brasileiros. Seu retrato falado são as paisagens do interior do espírito humano
e as xilogravuras de todos os cordéis. Tem o movimento do mar e dos rios e do
corpo mamulengo que se agita na gana da vida.
Parece estar em Ravel e seu bolero magistral e está em Luiz e
sua Asa Branca. Nos cabelos brancos do nordestino mais cansado e combalido e no
couro do gibão e nas chinelas das crianças. Está em Milton Nascimento e seu
contracanto celestial e no metálico da voz de Zé Ramalho e nos falsetes de
Belchior. Está no ritmo da Tropicana de Alceu e em sua Anunciação. Está no
esganiçado crítico de Tom Zé e na sacra fonêmica missa do canto de Bethânia. Está
no espaço pretensamente proibido que exista na sonoridade sempre viva dos
versos de João Cabral. Armorial é Guimarães Rosa e as veredas do seu sertão. As
vidas secas de Graciliano, a Maria Moura de Rachel de Queiroz.
A música armorial é a ópera do nordestino forte, dos
habitantes primordiais. O “Abaporu”, de Tarsila e “Os retirantes”, de
Portinari, certamente estariam ouvindo uma canção armorial. Ela embala tudo que
Suassuna escreveu e pulsa em todo coco, embolada, catira, repente que se ouça
de repente. É silente como o som da rede e do encontro das águas com a jangada
do pescador.
Sincrética: apresenta nuances representativos de nossas
matrizes, em caleidoscópio de cores e sons intercambiáveis ininterruptamente,
convida à sinestesia, tem em si a fragrância, o tato de todos os elementos e a
volatilidade que lhes seja própria. É o medo da morte e a rutilância da fé. O
pacto com o tinhoso e o batismo de pia com nome de “Raimundo”, “Francisco”,
“Maria” e “José”.
Espelha nossa alegria, solar e intensa; e nossa tristeza
implícita, eco redivivo de nossa colonização traumática. Irmana campo e
floresta, litoral e agreste mais árido. Dialoga ─ ainda
quando aparentemente à distância ─, com
o espaço em que a cidade se agiganta e da solidão dos homens que a constroem.
Tem a cor da pele de cada brasileiro e do tanto de sangue que já correu nesse chão.
A dor da cova rasa do filho, a dor da tocaia contra o pai e irmão. A seca, a
fome e a fuga pra outro rincão: o fogo do sol que não se apaga na luz da
memória da retina do retirante. Armorial é não possuir a terra, que esta não é
pra ter dono: esta é feita pra se viver nela e dela se cobrir quando o destino
se lembrar de você.
Armorial é a irmã mais nova dos sons tribais de cada micro
nação-estado em África e da andina cordilheira e seu povo. Voz personificada de
um coral composto pelo casamento das forças naturais que eclodem do encontro
das águas, do vento na caatinga, do lamento das árvores em florestas em estado
de descoberta, do zunido dos insetos que polinizam o cerrado, e do capinzal que
balança ao som das chuvas dos pampas. Ritual e ruptura. O sagrado e os que o
reverenciam agregados à mesma nota.
Armorial. Todo brasileiro que nunca ouviu, terá a nítida
impressão de já haver ouvido seus sons. Ela tem o rosto de nossos pais, de nossos
avós, de nossos ancestrais. Ela tem o cheiro dos produtos de nossa terra. Da
solidez e da aridez do chão prenhe dos alimentos que sustentam esse país em
resistência perpétua ao desejo daqueles que pretendem escravizar nossos sonhos
na labuta de sua má vontade. As rendas,
o trançar do laço, cada objeto, cada cordel e cada pequeno mimo. As obras de
Vitalino, as ligas camponesas, os versos de Patativa, a história e a arte de
Primitivo, a força de Chico Julião e a valentia de Virgulino. Armorial é semente
de uma planta que brota dessa terra seca em que parece que todo cabra já nasce
e cresce marcado para morrer.
É o trabalho do sertanejo, o aboio do vaqueiro, o canto de
labor das lavadeiras, o choro das carpideiras, o rosário em estado de prece, o
ritmo do terço, na prece à mãe santíssima. O uivo da assombração, a fúria
perpétua de todos os demônios aprisionados em escala pentatônica, o som dos
animais domésticos brincando nos terreiros com as crianças mais livres e
aprisionadas do mundo; e daqueles que lidam e fornecem o sustento e alimento
das famílias brasileiras.
É o som de todas as profissões, o ruído dos evangelhos, dos passos
dos santos, sinfonia de milagres e ladainha dos orixás. É onírica e telúrica. É
o canto gregoriano do silêncio dos povos em remissão de pecados que jamais
cometeram ou que jamais confessaram. É o farfalhar das folhas, a alegria das
crianças que crescem com a força de quem não era nem pra vingar, num solo com
donos de menos, oprimindo gente demais. Casa-se com a luz mais brilhante que
penetra os mais longínquos lugares naturais, desnaturais e antinaturais que
possa haver nesse país.
É o ritmo do coração dos homens que têm coragem
e das mulheres que já nascem sabendo amar. É o oratório dos santos, é a solidão
dos mártires. Armorial. Imemorial e atemporal é a sinfonia do que preservas. É
o som da fome e da fartura. É a valentia do brasileiro bom de briga, da coragem
dos espertos e afoitos e a formosura de todas as mulheres. Música e arte
armorial estão no DNA e no coração: arte primeira da alma de cada brasileiro.
VERSÃO ESTENDIDA
ARMORIAL:
A MÚSICA DA ALMA
DA
ARTE DO POVO BRASILEIRO
Para Daniel Marcos
Martins e Cinda Gonda:
Professores armoriais brasileiros
[que nem eu...]
Erivelto Reis
Em memória de
Primitivo Paes e José de Arimatéa
O brasileiro, indubitavelmente, irá se comover com a música e
com a arte Armorial, tão logo tenha contato com ela. Ela é uma importante
vertente de um Universo cultural brasileiro. Remete às nossas raízes como
civilização. Liga pontos vitais do imaginário de nosso folclore, do nosso
mítico, de nossa miscigenação. Seus instrumentos são a viola, a rabeca, o
pífano, as mãos e ar vital dos poetas, dos músicos, dos artistas populares
brasileiros. Seu retrato falado são as paisagens do interior do espírito humano
e as xilogravuras de todos os cordéis. Tem o movimento do mar e dos rios e do
corpo Mamulengo que se agita na gana da vida. Armorial é chic, é vintage, é
xique-xique.
Parece estar em Ravel e seu bolero magistral e está em Luiz e
sua Asa Branca. Na Banda Pau e Corda, em Zabumbê-bum-á de Hermeto Pascoal, na
corda de berimbau, em Africadeus de Naná Vasconcelos e em Carlinhos Brown. Na
“Alegria-Alegria” de Caetano, no “Domingo no Parque”, de Gil, no “Ponteio” de
Edu Lobo, na “Disparada” de Vandré e Theo de Barros, nas Cordas vivas de
Heraldo do Monte. Eterno como areia em Diana Pequeno; evoca as 20 palavras ao
redor do sol de Cátia de França. Está em Teca Calazans e Ricardo Vilas e seu
antológico Teca e Ricardo (1974), em Amanheceremos de Jayme Allen e Nair de
Cândia; está em Metalmadeira, de Marco Bosco; no Canto do Tempo, de Willian
Senna, na releitura afro pop de Jorge Degas & Marcelo Salazar em Muxima.
Armorial está na Frauta de Pã, de Carlos Walker, o Trem dos
Condenados de Marcus Vinicius, na Chapada de Corisco de Clodo, Climério e
Clésio; e na Cantoria de Elomar, Vital Farias, Geraldo Azevedo e Xangai. Em
Caruá, de Zé da Flauta e Paulo Rafael. Está no Sub Reino dos Metazoários, de
Marconi Notaro, em Manduka e seu Brasil 1500, em Joyce e seu Passarinho Urbano,
com a subversão da Coca-Cola verde, em Da Terra Firme, Um Canto Forte, de
Edigar Mão Branca; em Paulinho Pedra Azul e seu Uma Janela Dentro dos Meus
Olhos, no Grupo Paranga e seu Chora Viola, Canta Coração.
Está na “Feira de Mangaio”, de Sivuca e Glorinha Gadelha, na
Orquestra e no Quinteto Armorial, em Cussy de Almeida, em Guerra Peixe, no
Pavão Misterioso de Ednardo, em Mestre Ambrósio, em Comadre Fulozinha, no
Zunido da Mata de Renata Rosa, na “Força que nunca seca”, de Chico César, no
“Sangue de Bairro” de Chico Science e Nação Zumbi, no “Relampiano” de Lenine,
na Saramandaia de Dias Gomes, na “Romaria” de Renato Teixeira, e até no
“Coração de luto”, de Teixeirinha.
Armorial está no “Cavaleiro e os moinhos”, de João Bosco e
Aldir Blanc, na Cantilena das Bachianas do maestro Villa-Lobos, no estudo de
Câmara Cascudo, na Terra, vento e caminho, de Dércio Marques. Nas canções de Gesta na Chave de ouro do reino
do vai-não-volta. Está no Baiano e nos novos caetanos, está em Psychedelic
Pernambuco, na Caiana dos Crioulos, nas Catadoras das Mangabas, nas Ganhadeiras
de Itapuã, no Samba Chula de São Braz; nas Águas de São Francisco, de Carlos
Pita, no Cavaleiro Macunaíma e nas Carrancas, de João Bá, na Erva Cidreira de
Doroty Marques, no Venta moinho de João Arruda, nas Cantigas de Socorro Lira. A
Gota d’água de Chico Buarque e Paulo Pontes.
Está em Fabiano Nascimento e seu Tempo dos Mestres; em
Priscila Ermel e seus Campo dos Sonhos e Cine Mato Gráfico; em Antônio José
Madureira e seu Violão; no Quarteto Romançal e o antológico Ancestral; em Onça
Combo e o inquietante som de “Em diáspora”; em “Um dia estranho”, do Grupo Rua.
Está na Grande Missa Armorial de Capiba, no Cordel do Fogo Encantado e também
na Missa do Vaqueiro do Quinteto Violado. Está em “Carcará”, de João do Vale e
José Cândido e em “Mora na Filosofia”, de Arnaldo Passos e Monsueto Menezes.
Armoriais são José Dumont, Marcélia Cartaxo, Tânia Alves,
Elba Ramalho, Amelinha, Nelson Xavier, Domingos Montagner, Dominguinhos,
Gonzaguinha, Irmã Dulce,
Fernanda Montenegro, João Ubaldo Ribeiro, Bibi Ferreira e Fagner. Poetas e repentistas: Geraldo do Norte, Catulo
da Paixão Cearense, Otacílio Batista, Oliveira de Panelas, Zé do Norte, Pinto
do Monteiro, Zé Pequeno, Jessier Quirino, Juvenal Galeno e Ferreira Gullar.
Armorial está em “O menino da porteira”, na interpretação de
Marlui Miranda; em “Gavião”, de Siba, nos Rabequeiros de Pernambuco; na Folia
de Santo de Alessandra Leão, no Passo Elétrico de Passo Torto, na Capoeira de
Besouro, de Paulo César Pinheiro, em “Amor Cinza”, em todo o Cinco Sentidos de
Mateus Aleluia. Está no Samba de Gira do Grupo Bongar; no Coco de Toré, de
Pandeiro do Mestre; no Maçalê de Tiganá Santana. Nas “12 baladas”, de Jorge
Cabeleira, no Dia em Que Seremos Todos Inúteis; em Paraibô, de Hugo Filho; em
Oásis de Vidro, de Rafael Dutra; em Ancanga, de Juçara Marçal & Cadu
Tenório; em O Canto dos Escravos, de Clementina de Jesus, Doca e Geraldo Filme;
em “Balada para quem nunca morre”, de Lula Côrtes & Jarbas Mariz; em
“Note”, de Canções Velhas Para Embrulhar Peixes; em Pitanga em Pé de Amora, de
Ponte Para Si.
Armorial está em Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos,
de Otto; em Silencia, de Ceumar; em Mazuca de Agrestina, em Cantando com o Sol,
do Grupo Fethxa; no Coco de Roda, de Zé de Teté; em Os Afro-Sambas; de Baden
Powell e Vinicius de Moraes; em Berimbau e Percussão, de Papete; Almir Sater em
“Tocando em frente”; o Frevo de Índio, de Celso Mendes.
Armorial é o neoespírito antimedieval. Está em Nei Leandro de Castro, João Ferreira
de Lima, nos compêndios de Marco Haurélio, em Leandro Gomes de Barros e nos
cordéis que criaram. Está em Perron Ramos, Gilvan Sâmico, Francisco Borges, Manuel
Suassuna e nos emblemas armoriais, heráldica de nossa terra, que são as suas
xilogravuras.
Armorial são os cabelos brancos do nordestino mais cansado e
combalido e no couro do gibão e nas chinelas das crianças. Está em Milton
Nascimento e seu contracanto celestial e no metálico da voz de Zé Ramalho, nos
falsetes e na “Divina comédia humana” de Belchior. Está no ritmo da Tropicana
de Alceu e em sua Anunciação. Está no esganiçado crítico de Tom Zé, Jards
Macalé, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Jose Miguel Wisnick, Luiz Tatit
também é.
Armorial é a sacra fonêmica missa do canto de Maria Bethânia.
Está no espaço pretensamente proibido que exista na sonoridade sempre viva dos
versos de João Cabral. Armorial é Guimarães Rosa e as veredas do seu sertão. As
vidas secas de Graciliano, a Maria Moura de Rachel de Queiroz.
A música armorial é a ópera do nordestino forte, dos
habitantes primordiais. O “Abaporu”, de Tarsila e
“Os retirantes”, de Portinari, certamente estariam ouvindo uma canção armorial.
Ela embala tudo que Ariano Suassuna (este Gil Vicente armorial) escreveu. Pulsa
em todo coco, embolada, catira, num rap e num repente que se ouçam de repente.
É silente como o som da rede e do encontro das águas com a jangada do pescador.
Sincrética: apresenta nuances representativos de nossas
matrizes, em caleidoscópio de cores e sons intercambiáveis ininterruptamente,
convida à sinestesia, tem em si a fragrância, o tato de todos os elementos e a
volatilidade que lhes seja própria. É o medo da morte e a rutilância da fé. O
pacto com o tinhoso e o batismo de pia com nome de “Raimundo”, “Francisco”,
“Maria” e “José”.
Espelha nossa alegria, solar e intensa; e nossa tristeza
implícita, eco redivivo de nossa colonização traumática. Irmana campo e
floresta, litoral e agreste mais árido. Dialoga ─ ainda
quando aparentemente à distância ─, com
o espaço em que a cidade se agiganta e da solidão dos homens que a constroem.
Tem a cor da pele de cada brasileiro e do tanto de sangue que já correu nesse
chão. A dor da cova rasa do filho, a dor da tocaia contra o pai e irmão. A
seca, a fome e a fuga pra outro rincão: o fogo do sol que não se apaga na luz
da memória da retina do retirante. Armorial é não possuir a terra, que esta não
é pra ter dono: esta é feita pra se viver nela e dela se cobrir quando o destino
se lembrar de você.
Armorial é a irmã mais nova dos sons tribais de cada micro
nação-estado em África e da andina cordilheira e seu povo. Voz personificada de
um coral composto pelo casamento das forças naturais que eclodem do encontro
das águas, do vento na caatinga, do lamento das árvores em florestas em estado
de descoberta, do zunido dos insetos que polinizam o cerrado, e do capinzal que
balança ao som das chuvas dos pampas. Ritual e ruptura. O sagrado e os que o
reverenciam agregados à mesma nota.
Armorial. Todo brasileiro que nunca ouviu, terá a nítida
impressão de já haver ouvido seus sons. Ela tem o rosto de nossos pais, de
nossos avós, de nossos ancestrais. Ela tem o cheiro dos produtos de nossa
terra. Da solidez e da aridez do chão prenhe dos alimentos que sustentam esse
país em resistência perpétua ao desejo daqueles que pretendem escravizar nossos
sonhos na labuta de sua má vontade. As
rendas, o trançar do laço, cada objeto, cada cordel e cada pequeno mimo.
As obras de Vitalino, as ligas camponesas, os versos de
Patativa, a história e a arte de Primitivo, a força de Chico Julião e a
valentia de Virgulino. Armorial é semente de uma planta que brota dessa terra
seca em que parece que todo cabra já nasce e cresce marcado para morrer.
É o trabalho do sertanejo, o aboio do vaqueiro, o canto de
labor das lavadeiras, o choro das carpideiras, o rosário em estado de prece, o
ritmo do terço, na prece à mãe santíssima. O uivo da assombração, a fúria
perpétua de todos os demônios aprisionados em escala pentatônica, o som dos
animais domésticos brincando nos terreiros com as crianças mais livres e
aprisionadas do mundo; e daqueles que lidam e fornecem o sustento e alimento
das famílias brasileiras.
É o som de todas as profissões, o ruído dos evangelhos, dos passos
dos santos, sinfonia de milagres e ladainha dos orixás. É onírica e telúrica. É
o canto gregoriano do silêncio dos povos em remissão de pecados que jamais
cometeram ou que jamais confessaram. É o farfalhar das folhas, a alegria das crianças
que crescem com a força de quem não era nem pra vingar, num solo com donos de
menos, oprimindo gente demais. Casa-se com a luz mais brilhante que penetra os
mais longínquos lugares naturais, desnaturais e antinaturais que possa haver
nesse país.
É o ritmo do coração dos homens que têm coragem
e das mulheres que já nascem sabendo amar. É o oratório dos santos, é a solidão
dos mártires. Armorial. Imemorial e atemporal é a sinfonia do que preservas. É
o som da fome e da fartura. É a valentia do brasileiro bom de briga, da coragem
dos espertos e afoitos e a formosura de todas as mulheres. Música e arte
armorial estão no DNA e no coração: arte primeira da alma de cada brasileiro.
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