Continuo amanhã... Continuo amanhã?!
Erivelto Reis
O ambiente de
uma sala de aula na escola pública brasileira é, por excelência, um território
de contrastes e de disputas invisíveis. De um lado, quadros negros descascados,
salários defasados e a exaustão crônica de profissionais que, contra todas as
estatísticas, ainda insistem na transformação pelo conhecimento. Do outro, uma
juventude que, por vezes, confunde a rebeldia legítima contra o sistema com o
puro e simples desrespeito individual.
É sob essa
ótica que se destaca uma das figuras mais emblemáticas do cotidiano escolar: o
aluno que escolhe a apatia ou o deboche como refúgio.
Não se trata
aqui do estudante que dorme por trabalhar na madrugada para sustentar a casa,
cuja exaustão é um sintoma da desigualdade social. A crítica cabe àquele que,
por puro desinteresse, faz da carteira um leito de hotel, ignorando o esforço
de quem está de pé na frente da sala. Dormir sob o teto da escola pública,
quando se tem a chance de aprender, é o primeiro passo para a autossabotagem
consciente.
Ainda pior é o
espetáculo do cinismo. Quando o professor tenta desfazer o nó de uma equação
complexa ou explicar as nuances da história do país, surgem as risadinhas
abafadas no fundo da sala, as piadas fora de hora e o olhar de desdém. O
deboche virou a moeda de troca para o pertencimento social dos fracos. Para não
parecer "careta" ou "cdf" diante do grupo, o estudante
prefere ironizar a única ferramenta capaz de tirá-lo da margem: a educação.
"Rir de um professor que
tenta ensinar é, no fundo, rir da própria falta de perspectiva."
Existe uma
profunda miopia na atitude do aluno que hostiliza o docente. Ele acredita, em
sua ilusão de rebeldia, que está desafiando a autoridade, o "sistema"
ou o Estado. Mas a realidade é cruelmente oposta: O aluno sabota o próprio
futuro. Ao esvaziar a aula com piadas e ironias, o estudante não está punindo o
professor ou o governo; está punindo a si mesmo e aos colegas que queriam
aprender. Está perpetuando o ciclo de exclusão que alguns professores e função
primordial da escola pública justamente tentam quebrar.
O deboche em
sala de aula é o triunfo da ignorância que se orgulha de si mesma. É a
validação do preconceito de quem está no topo da pirâmide social e aponta para
a escola pública dizendo que ela "não funciona". Quando o aluno
desvaloriza o professor, ele assina embaixo do discurso daqueles que querem ver
a educação pública sucateada.
A escola
pública não é um parque de diversões, tampouco um espaço de entretenimento onde
o professor atua como animador de palco para prender a atenção de plateias
mimadas. Ela é um direito conquistado a duras penas, mantido pelos impostos do
próprio povo.
O riso cínico
que ecoa no fundo da sala não é sinal de inteligência, malícia ou
superioridade; é o eco de uma trágica falta de visão. Enquanto o aluno brinca
de ser rebelde sabotando a própria aula, o mundo lá fora não espera. A vida
cobra o preço do conteúdo ignorado, e o mercado de trabalho não costuma achar
graça nenhuma do deboche. É hora de acordar da letargia — e guardar o riso para
quando a vitória for real.
Há tragédias
silenciosas que não chegam às manchetes dos jornais, mas que sangram, dia após
dia, no chão batido das salas de aula. Nenhuma delas, contudo, é tão visceral,
tão terrivelmente cruel, quanto o espetáculo da autossabotagem planejada.
Assistir a um
filho da classe trabalhadora — herdeiro do suor, dos calos e da exaustão de
pais que vendem a própria força de trabalho para garantir o pão — decidir, por
livre e espontânea vontade, que o conhecimento não lhe serve, é ver o futuro
ser assassinado na nossa frente.
É uma dor que
aperta o peito de quem observa, porque cada bocejo forçado, cada riso de
deboche e cada "não quero saber" ressoa como um tapa na face de uma
mãe que acordou às quatro da manhã, ou de um pai que carrega o peso do mundo
nas costas para que o filho tenha o direito de segurar uma caneta, e não uma
enxada ou uma britadeira.
Mas a
crueldade atinge o seu ápice dramático quando essa renúncia ao saber se veste
de falsa injustiça. O estudante que escolhe o abismo não assume o peso da
própria queda. Em vez disso, constrói uma narrativa perversa, uma cortina de
fumaça covarde, e aponta o dedo para a única pessoa que estendeu a mão: o
professor.
Com uma
retórica vazia, o jovem tenta convencer o mundo — e a si mesmo — de que sua
ignorância é culpa alheia:
· "O
professor é chato."
· "A
matéria não serve para nada."
· "A
didática dele não bate com a minha energia."
· "Ele
pegou no meu pé."
Transforma-se
o mestre em carrasco e o omisso em vítima. É uma inversão de valores de um
cinismo devastador. Culpa-se a personalidade do docente para mascarar a própria
preguiça; condena-se a rigidez da disciplina para justificar a falta de caráter
e de brio. O professor, que muitas vezes gasta a voz e a saúde mental tentando
resgatar aquela mente da vala da mediocridade, é sacrificado no altar do
orgulho juvenil.
É de uma
ironia trágica, quase teatral. Enquanto o filho do burguês, nas escolas
particulares de elite, é treinado sob rédeas curtas para liderar, para dominar
a ciência, a linguagem e a tecnologia, o filho do trabalhador, na escola
pública, escolhe o deboche. Ele acha "bonito" ser o rebelde sem causa
que sabota a aula. Ele se orgulha de dar as costas para o quadro-negro.
O que ele não
consegue enxergar, em sua miopia soberba, é que o sistema comemora o seu
silêncio. Cada vez que um aluno rejeita o conhecimento e culpa o professor, os
arquitetos da desigualdade sorriem. O jovem está cumprindo exatamente o roteiro
que os opressores escreveram para ele: o roteiro da subalternidade eterna.
Quando o filho
do trabalhador se recusa a aprender, ele não está punindo o Estado, ele não
está se vingando do professor "chato". Ele está assinando a sua
própria sentença de subemprego. Está decretando que o sacrifício de seus pais
foi em vão.
Não se pode
romantizar a atitude do estudante que se recusa a saber. Há apenas o triste
espetáculo de uma mente que escolheu se algemar. Culpar o professor pela
própria ignorância é o último refúgio de quem não tem a coragem de olhar no
espelho e admitir que é o único responsável pelo próprio fracasso.
A vida real,
implacável e desprovida de qualquer compaixão, não aceitará essas desculpas.
Quando as portas se fecharem e o peso da sobrevivência esmagar os ombros desse
jovem, de nada adiantará qualquer pretensa justificativa. A ignorância terá
cobrado o seu preço mais alto, e o eco daquelas risadas de deboche na sala de
aula se transformará, inevitavelmente, no lamento tardio de quem teve a chance
de se libertar e preferiu a servidão voluntária.
E aqui reside
o refinamento mais cruel dessa engrenagem: não importa a excelência do mestre.
Pode ser o professor mais preparado, aquele que respira a docência, que chega à
sala com o olhar brilhando, munido de uma gentileza inabalável e disposto ao
diálogo mais franco. Pode ser o profissional que passa noites em claro
selecionando conteúdos, preparando materiais dinâmicos e que, não raramente, tira
do próprio bolso o dinheiro que falta ao Estado para oferecer aos alunos uma
experiência diferenciada, um lampejo de dignidade pedagógica. Pode ser a figura
mais compreensiva, parceira e acolhedora do mundo.
Nada disso
basta. Porque quando o estudante decide fincar os pés na rejeição, todo esse
banquete de dedicação é desperdiçado
Quando o aluno
sela o pacto com a própria ignorância, ele transforma a sala de aula em uma
arena de combate psicológico. O limite entre o desprezo silencioso e a ironia
do deboche é cruzado diariamente. Não se trata apenas de não querer aprender;
trata-se de destruir a autoridade de quem ensina.
O estudante
estabelece uma queda de braço perversa: recusa-se a realizar as atividades mais
corriqueiras, nega-se a abrir o caderno e chega ao extremo de recusar um
cumprimento formal no início da aula. A educação deixa de ser um processo
intelectual e passa a ser um teste de poder.
Para mascarar
o seu vazio, esse jovem aciona uma máquina de difamação:
·
A culpabilização: Avalia o professor
negativamente de forma deliberada, distorcendo critérios para punir quem o
cobra.
·
A mentira sistemática: Inventa narrativas,
distorce fatos e mente abertamente sobre a conduta do docente para a
coordenação ou para os pais, tentando transformar sua própria indisciplina em
um "problema relacional".
·
O tribunal da incompetência: Tenta convencer os
pares de que o erro está na postura do professor, invertendo os papéis de
agressor e vítima.
Essa dinâmica
contínua produz um rastro de destruição humana. Esse comportamento adoece. Ele
mina a autoconfiança de profissionais experientes, injeta a paralisante
substância da insegurança na mente de quem estudou anos para estar ali e
descredibiliza o saber diante de toda a turma.
Sob essa
pressão, a docência é violentada, empurrada para se tornar um rebaixado concurso
de popularidade. O professor é coagido a ser um "animador de torcida"
ou, pior, a aceitar um conchavo humilhante: um pacto de mediocridade onde o
aluno finge que aprende e o professor finge que não vê ou torna-se conivente
com o caos para preservar o que lhe resta de sanidade mental. A escola pública,
que deveria ser o berço da emancipação, é transformada em um cativeiro
psicológico para quem ousa tentar ensinar.
O que esse
estudante pratica não é uma travessura juvenil; é um processo de violência
multifacetada e avassaladora:
- Simbólica e Intelectual: Ao ridicularizar o
conhecimento, o aluno apaga o valor da ciência, da história e da cultura,
decretando que o saber não vale nada.
- Emocional e Psicológica: O massacre diário de olhar
para rostos cínicos, de ouvir risadinhas sussurradas e de enfrentar a
rejeição deliberada destrói a saúde mental do docente, gerando crises de
ansiedade, depressão e a síndrome de Burnout.
- Física: A barreira entre a violência psicológica e
a agressão física é tênue. O tensionamento constante do ambiente escolar
quebra o pacto de paz e, em muitos casos, descamba para a intimidação
física direta e ameaças reais à integridade do trabalhador da educação.
Para agravar
essa tragédia institucional, o professor agredido frequentemente descobre que a
solidão da docência é alimentada pela traição corporativa: há colegas de
profissão que, longe de defenderem a dignidade do cargo, não apenas compactuam
silenciosamente com essas práticas antipedagógicas, mas se associam ativamente
a elas. Essa cumplicidade opera em múltiplos níveis, manifestando-se desde a
dissimulação covarde — como o silêncio obsequioso nos conselhos de classe e o
endosso velado às reclamações infundadas dos estudantes — até a participação
explícita na desestruturação da imagem do colega, validando o deboche dos
alunos para angariar uma popularidade barata ou alimentar rivalidades internas.
Ao relativizarem a barbárie e justificarem o injustificável sob o pretexto de
uma falsa "empatia juvenil", esses profissionais tornam-se
engrenagens fundamentais no aviltamento de seus pares, legitimando a violência
psicológica e carimbando, de dentro da própria categoria, o atestado de
falência da autoridade docente.
Ver o filho do
trabalhador usar o seu tempo para linchar psicologicamente o professor que
tenta salvá-lo da engrenagem da exclusão é um soco no estômago da sociedade. É
a barbárie instalada na antessala do futuro. Quando a escola pública aceita que
o deboche e a mentira vençam o acolhimento e a competência, ela deixa de ser um
templo de luz para se tornar o cenário de uma das maiores crueldades sociais do
nosso tempo.
Em meio a esse
deserto de afetos e respeito, seria injusto não reconhecer o oásis: existem,
sim, aqueles alunos maravilhosos que justificam a nossa permanência no chão da
escola. Estudantes que carregam no olhar o brilho da curiosidade e para quem é
uma verdadeira honra lecionar. Eles se tornam quase parceiros no cotidiano da
sala de aula; trazem consigo um bom humor contagiante, uma lealdade firme,
ética, comprometimento, inteligência e uma sensibilidade rara. O problema é
que, a cada ano que passa, encontrar essas mentes luminosas tornou-se uma
raridade estatística. Uma turma inteira composta por eles? Um sonho quase
utópico.
No entanto, o
que dilacera o peito do educador não é apenas a escassez desses jovens, mas a
estarrecedora descoberta de que, em certas situações, essa "turma dos
sonhos" existe, mas escolhe a exclusão deliberada. Dói profundamente
perceber que um grupo de alunos, dotado de pleno discernimento, firma um pacto
velado de silêncio e distância na sua aula. Sabe-se lá por qual motivo ou
justificativa torpe, eles decidem, coletivamente, que você não merece o melhor
deles.
É uma punição
covarde que se renova a cada toque do sinal, aplicada contra o professor por
crime ou erro nenhum. Negam qualquer possibilidade de aproximação humana ou
pedagógica. Esse isolamento muitas vezes se alimenta das sombras mais
mesquinhas: do etarismo que desvaloriza a experiência, de preconceitos de
qualquer natureza, do "ouvir dizer" alimentado por fofocas de
corredor, ou, mais doloroso ainda, pelo simples fato de você se recusar a ser
"mais do mesmo". Por você insistir em realizar o seu trabalho com
rigor, seriedade e paixão, em vez de se render ao pacto da mediocridade, a
turma o pune com o gelo do desprezo. É a inteligência e a sensibilidade
instrumentalizadas para o boicote, transformando o que deveria ser um espaço de
partilha em um tribunal silencioso e implacável.
