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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

sábado, 2 de março de 2019

Poema: "O bicho" (sobre poema de Manuel Bandeira), de Erivelto Reis

O bicho

Erivelto Reis
(sobre poema de Manuel Bandeira)

Vi ontem um bicho,
na imundície da internet,
tripudiando a morte de uma criança,
por discordar do que imputavam ao avô dela.
(Haver trabalhado a favor do povo!)
Muitos que ali estavam
não examinavam, nem questionavam,
compartilhavam e curtiam com voracidade.
E os que pediam bom senso,
eram taxados, entre muitos insultos, de alienados.
O bicho, não era um monstro,
nem um demônio, nem estrangeiro...
o bicho, meu deus! Era gente!
E brasileiro...


Poema: "Dos maliciosos", de Erivelto Reis


Dos maliciosos
Erivelto Reis

Meu país é uma poça de lágrimas,
um cântaro de tristezas agudas,
de violência consentida;
de perversão pseudoreligiosa,
de moralidade de etiquetas,
de ética de proveta.
Meu país condena
seus professores ao escárnio, ao suicídio
e à depressão profunda...
A duvidar da própria capacidade
de pagar as contas e de prosseguir.
Meu país foi outrora,
meu país era outro,
meu país não comemoraria
a morte de inocentes,
não se curvaria aos ideais de maliciosos
milicianos...
Meu país é uma miragem
tornada mentira.
Meu país é uma verdade
de aberração e censuras,
de imprensa corrompida,
de conservadores que matam,
de gente preconceituosa,
que desdenha do que não conhece,
que insulta o que não entende.
Meu país é uma floresta
ardendo dia e noite,
um rio envenenado de ganância,
um estado de sítio permanente,
porque aprisiona, mata e afasta
aqueles que o libertariam.
Meu país é o pesadelo
dos sonhos da democracia.


sexta-feira, 1 de março de 2019

Poema: "Impreciso", de Erivelto Reis


Impreciso
Erivelto Reis

, então...
Preciso aprender a viver comigo,
preciso aprender a me perdoar...
Outro dia passei dois anos
em luto pela morte de um poema
que eu nem escrevi.
Preciso aprender a viver comigo,
preciso aprender a ver filmes tristes sem chorar
a cortar cebola sem chorar,
a ver pessoas que me deixam triste e não reclamar,
a correr e me exercitar:
porque meu coração vai brigar com
todo mundo – não é poética! é ge-né-ti-ca...
Preciso aprender que sonhar
é bom, mas dá ruga, envelhece e amarga
o café e a vida quando o plano não finaliza
como devia, como se queria.
Preciso de lições novas de vida:
sair do círculo de repetições
de emoções, de gente que sabe
que eu sofro, mas que precisa,
desesperadamente,
que eu não diga a palavra “socorro”.
Preciso aprender a solidão das ideias,
Preciso aprender a conviver com
coisas que não esqueço
e com a falta que quem eu amo me faz.
Preciso aprender coisas demais!
Estou velho na essência que carrego,
estou velho pra parar de repetir antigos erros e hábitos...
Não estou velho para ler Sophia, pra conhecer Anne Frank,
Adélia Prado, Conceição Evaristo...
Estou sim, atrasado, se não as conhecia.
Preciso de poesia e de absolvição,
de abraço e compreensão.
Preciso de tanta coisa, em tão pouco tempo...
É isso que me faz impreciso.


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Poema: "México", de Erivelto Reis


México
Erivelto Reis

É o muro pro México,
É o muro entre os trabalhadores e suas aposentadorias,
É a prisão sem provas,
A justiça com prepotência,
A truculência da omissão e da violência...
São os que querem mandar em professores, sendo professores, sem dialogar com eles e elas e valorizar seu trabalho,
Os que nunca foram professores e acham que sabem tudo...
São os alunos, futuros professores e trabalhadores, respeitando a educação da boca pra fora,
As promessas que não se cumprem,
E os juros que pago ao banco, sobre aquilo que não recebo.
É o preconceito, é a intolerância
Que os bons sofrem em sua errância...
São pesquisadores sem disciplina, respeito por outros pesquisadores, e sem condições de fazer o seu próprio trabalho,
São ícones abandonando sua própria biografia por conveniências,
São leitores que não leem,
É o subterfúgio e a semântica contra o trabalhador,
Sou eu, como um velho do restelo, desde novo, reclamando da vã cobiça dos que anseiam pela hora de mandar,
São os salários não pagos,
A superlotação das turmas, a falta de condições de trabalho,
O medo do desemprego e de nunca receber,
É o ego inflado das aparências.
A intransigência dos patrões,
A desculpa dos governos,
Os jeitinhos que marginalizam a ética
É o muro pro México,
Todos os problemas de novo,
Todo dia um problema novo,
E a falta de nexo.


sábado, 16 de fevereiro de 2019

Poema: "Cofre", de Erivelto Reis


Cofre
Erivelto Reis

Não me sento à vossa mesa,
não como de vossa comida,
não bebo de vossos licores,
não celebro vossa infâmia.
Fico longe.
Fico quieto.
Sei o horror que escondes.
Escapa de vossos lábios,
brota de vossas atitudes,
o mapa de vossas maldades.
Não me convides pra plateia,
não me peça pra aplaudir,
respeite a minha inteligência,
resguardes vossa dignidade.
O que fazes não tem sentido:
não tens a necessidade,
não tem a eficácia,
não tens o direito de fazer.
mas fazes, trator humano de insultos...
Não és inócuo, não és ingênuo,
ages com clara intenção.
daqui observo vosso salto
daqui observo vossas garras
abismo e vento em contrário
e usas asas que pertenceram a outros.
Pule mesmo, pule alto
(Pretendes planar sobre as águas)
vosso voo é um voo cego,
vosso voo é um voo de galo
E pensas que é voo de águia.
Não me sento à vossa mesa
Não bebo do cálice de teus licores
Não vos falta horizonte
O que vos falta são valores.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Poema: "Floriópolis", de Erivelto Reis

Floriópolis 

Erivelto Reis 

Não é fácil chegar a Floriópolis.
Não é fácil ir embora de Floriópolis.
Só os bons, os justos, os amigos
E as pessoas que sonham alto podem lá chegar.
Floriópolis existe no Piauí, por aqui,
Como metáfora
Para designar onde quer que uma pessoa amiga
Resolva nos recordar.
Se eu conheço um lugar assim,
Nunca mais na minha vida
Eu saía de lá...
Quantos desafios, quantas vitórias.
Em que outras épocas Floriópolis floresce?
Floriópolis pode ser qualquer lugar
Onde gente boa já foi feliz.
Onde gente querida habita...
Onde gente de bem, gente amiga,
Daquelas que a gente não esquece,
Quanto mais fica feliz, ainda mais merece...

"4.3", poema de Erivelto Reis


4. 3
Erivelto Reis

Cheguei a uma idade
que mais parece o número de
um capítulo de uma tese
sobre absolutamente ninguém.
A não ser que queiram tratar
de como é difícil ir perdendo
as pessoas pelo caminho
enquanto vai ficando mais
difícil manter alguém do seu lado.
Idiossincrasias,  cada dia uma nova,
e as velhas, cada vez menos levadas a sério.
Estou mais longe do dia em que nasci
do que do dia que haverei de estar no cemitério.
4.3
É a idade que dizem que tem o tal
do Erivelto Reis
Só os ingênuos acreditam nessa idade!
Na verdade, ele já nasceu velho.
Repete as mesmas três palavras
em todos os seu poemas,
tem insônia, herança cardíaca
duplicada de problemas...
Não há para onde fugir,
é o que a sua biografia nos sugere!
Vai ver ele já fugiu:
está escondido nas palavras
que escreve.