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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Poema: "És tudo", de Erivelto Reis


És tudo!
Erivelto Reis

Estudo porque minha vida depende
De cada palavra, de cada ideia...
Meu espírito carece de logos
Para que minha alma escape
De pathos...
Estudo e leio como vivo
Cada história.
Estudo porque meu espírito quer
Ser livre:
De uma liberdade que só as palavras
E a música proporcionam.
Estudo porque só assim
A sensibilidade e a emoção me aprisionam.
Estudo como quem tem fome
De um alimento que não cesse,
Não seja escasso e que jamais sacie.
Uma fonte que nunca seca,
Um florescer e um brotar contínuos
Que não conhecem outono ou inverno.
Estudo porque assim descubro
E me descubro através da arte e da literatura.
Estudo como quem tem febre:
Uma febre que não encontra cura.

Poema: "Roleta", de Erivelto Reis


Roleta
Erivelto Reis

Ou isso é um quebra-cabeça,
Ou uma mão ruim de bacará...
Dados rolando na mesa,
Roleta ...
Croupier... dealer...
Ou um jogo de dominó,
Só fica faltando um pedaço
Sobra apenas uma pedra só.
No jogo de tabuleiro
As peças estão contadas:
Quanto mais se embaralha,
Mais as cartas ficam marcadas.
Os jogadores não sabem o quanto perdem
E as peças são manipuladas.
Depois que o jogo acaba,
Debalde, tropeçam,
Pulam de casa em casa,
Sem terem como prosseguir...
Sem terem pra onde voltar...
Fizeram jogo, com vossa história!
Dos vossos sonhos, cassinos.
Apostadores que só perdem,
Vosso futuro se insinua:
Destrunfados, caminhantes,
Agarram-se à esperança muda e ilusória
De que o jogo continua.

sábado, 12 de maio de 2018

Poema: "Falenas", de Erivelto Reis


FALENAS
Erivelto Reis

Falésias,
Acidentes geográficos de toda ordem,
Ebulição de acontecimentos,
Num homem centrado,
Parado no tempo:
Causa e explicação de algo que deu muito errado.
Os burocratas dominaram o mundo,
Organizaram-no pra que deixasse de ser mundo,
Deixaram-nos mudos.
Com medo de tudo.
Tolos. Achamos graça e eficiência
Na maneira ordenada como
Arrancaram os espinhos
Que acompanhavam as flores.
Sem nos apercebermos que deixaram de cultivá-las,
Esperando que nascessem do nada...
Patentearam tristezas esparsas
Que  desencorajavam e descosturavam os amores.
Puídos ficamos todos.
As Dunas, desenhos que o vento faz,
Com o desencontro de seus caminhos,
Ele não faz mais.
A gente sofre e se resigna
Desacostuma-se das dunas.
Mas não se esquece dos horizontes.
Dura mesmo é a vida de quem vive só,
Das falenas, dos servis,
Dos omissos e dos que seguem rastros
Com o único propósito de apagá-los.
Falésias. Dunas. Cancro e amnésias.
Morte e suas peripécias.




segunda-feira, 30 de abril de 2018

Poema: "Passo!"


Passo!
Erivelto Reis

Sou do grupo das pessoas
Que, em silêncio, anseiam por socorro...
Desesperadas cerram as pálpebras:
Às quais as quase lágrimas e rugas
Dançam monocórdica valsa
No rosto lúgubre, palco
Da infame necessidade
De não dar um “ai”.
Sou assim, não reclame.
Sou do grupo das pessoas
Que andam tão sozinhas
Insones – ainda quando dormem!
Que em sonhos vão
A lugares onde nunca estiveram
Encontrar pessoas que já conheceram
Ou que nunca viram...
Que, mortas, caminham!
Que, vivas, sucumbem,
Que materializam luz e espírito
Na energia que propagam.
Sou esse tipo de pessoa:
Uma consciência rígida
Moldada na brasa, na lava
No fogo de todos os desejos
E de todos os medos que
A vida coloca no jogo.
Blefo passo perco...
Fecha-se o cerco.
A carta não vem, a conta não fecha,
Apaga-se a luz, o disjuntor desarma,
Arma-se a trégua...
De nada adianta, por mais que me doa,
Desenho-me à mingua...
Sou do grupo de pessoas
Que morrem com o grito preso na garganta
Com a palavra presa na ponta da língua.


sábado, 28 de abril de 2018

Poema: "Ginocrítica", de Erivelto Reis

Ginocrítica
Erivelto Reis

Essa mulher caminhando
Podia ser uma filha, uma esposa, uma irmã.
Podia ser uma mãe ou uma estrela, uma estranha,
Homens que desejassem sê-la ou tê-la, ou um homem se quisesse ser...
Podia ser uma professora, uma trabalhadora, uma amiga, uma líder...
Podia ser Iansã, cientista, artista, poeta, cantora,
Valorosa tradutora, compadecida dos sonhos e dos afãs.
Iemanjá, nossas senhoras, avós, tias e revolucionárias –
Resignada, há em si mesma, serenas jovens libertárias,
Musas, deusas, mulheres de Atenas,
Experientes, carentes, caretas, cansadas... –,
Queimando seus sutiãs, nas praças e nos romances,
E não os seus sonhos na espera, às portas das Universidades,
Onde as não querem os maus e vis.
Essa mulher caminhando podia ser e é de verdade
Namorada da felicidade, amada de coração.
Deveria ser e estar e ir aonde bem entendesse
Do jeito que lhe aprouvesse, devia ser sempre feliz.
Sem ter de dever a outrem, explicação.
Essa mulher caminhando, traz em si sua e nossa história:
Os sonhos primaveris de todas as moças gentis...
Marcas da solidão por velar pela volta de todos
Os seus guerreiros, cavalheiros e cavaleiros,
Por cuidar de seus martírios, enterrar seus corpos,
Ou a dor da memória de seus filhos desaparecidos:
No Araguaia, nas baias humanas do centro e das periferias das capitais...
No interior de Goiás ou nas terras de nunca mais.
A santa, a cunhã, a índia... Simplesmente ser mulher...
Essa mulher europeia, indígena,
Ameríndia, africana como a Terra toda.
Essa mulher caminhando
Podia ser o berço da sociedade,
A crente mais fervorosa e mais deliciosamente pagã.
Cheirosa como romã, ou tangerina pocã.
Luminosa como a alma intensa de uma radiosa manhã.
Essa mulher que para o senhor só existe pra servir,
Pra explorar, pra sorver e sem roupa.
É negra, é cabocla, é brasileira, universal, múltipla e plena.
Merece o seu silêncio, o seu respeito, uma flor ou um poema...
A pulseira de contas do infinito, do tempo, do orvalho e do sereno.
Merece um laço de fita, (é uma moça bonita!),
Não o ódio e o desejo que o senhor vomita.
Não é mistura de sua azeda marmita,
Não é dama cansada do seu castelo
De cartas marcadas.
Essa mulher não se maltrata, não se ameaça,
Nem com o olhar, a força física do corpo,
Ou a violência torpe da palavra.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Poema: Fado da Distância, de Erivelto Reis


Poema: Am(o) ar de Sophia - De Erivelto Reis

AM (O) AR DE SOPHIA
Erivelto Reis
À memória rediviva de Sophia de Mello Breyner Andresen
O bom poeta é como um dicionário da vida, 
inventada ou vivida. 
Seu texto é tudo e nada
na representação do sentimento
e da emoção
do mito da morte pressentida
e da alma renascida.
Olha o mundo eternamente
em estado de chegada e de partida.