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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Crônica: "Ötzi, o Homem degelo", de Erivelto Reis

Ötzi, o Homem degelo

Erivelto Reis

Os cientistas descobriram que Ötzi viveu há mais de cinco mil anos. O corpo, extremamente preservado, foi encontrado em 1991. Estava congelado nos Alpes, virou uma celebridade da pré-história, mas não foi essa a causa-mortis. A autópsia moderna — sempre muito eficiente em analisar o defunto depois de milênios — descobriu uma ponta de flecha cravada em seu ombro esquerdo. A flechada perfurou uma artéria e Ötzi sangrou até morrer no gelo. Até hoje, contudo, a história preserva um grande mistério: ninguém sabe quem, afinal, disparou aquela flecha fatal contra o coitado.

No caso do magistério, porém, o mistério cai por terra. Não há segredo sobre a identidade dos arqueiros.

A começar pelo próprio nome do nosso personagem. Tomemos como exemplo o fictício personagem Sebastião — ou, como o chamam nas atas e nos corredores com um misto de respeito e comiseração, o Professor. O nome não é mera coincidência mitológica: tal qual o mártir católico, o professor passa a vida servindo de alvo. Sebastião não começou congelado, nem flechado. Há vinte e cinco anos, quando entrou pela primeira vez em uma sala de aula carregando apenas um pacote de giz, uma garrafa térmica e uma fé inabalável na educação, ele era puro fogo. Vontade de mudar o mundo, chamas de entusiasmo pedagógico.

Mas o cotidiano da educação tem uma física própria: ele não queima, ele descongela ao contrário. O ambiente vai esfriando o sujeito até transformá-lo em uma estátua preservada no tempo. Sem vida. Mas a aparência é de alguém que talvez esteja ali.  Sebastião virou Homem degelo, do verbo degelar: um ser que passou a vida inteira derretendo aos poucos, pingando a própria energia no piso de granilite da escola, até que só sobrou a carcaça petrificada um fóssil a ser banido da sala dos professores, banido dos arredores da escola.

A questão do Sebastião — e de tantos outros Ötzis de jaleco — é que a morte do professor nunca vem de uma vez só. É um esporte de tiro ao alvo praticado em marcha lenta.

A primeira flechada vem no primeiro quinquênio: o salário que desidrata. A segunda vem na reunião de pais: a autoridade pedagógica que se esfarela. As seguintes vêm em rajada: cortes de verba, violência, desvalorização e o eterno mandato de "fazer milagres com o nada". Na pré-história, Ötzi tomou apenas uma flechada certeira no ombro e morreu rápido. Sortudo o Ötzi. O professor Sebastião passa décadas sangrando profissionalmente.

Torna-se, por fim, o bom professor morto em vida. Um zumbi inofensivo, incapaz de comover até o aluno mais indisciplinado, perambulando pelos corredores sem ter sequer um céu pedagógico para onde ir.

O destino dos maus professores, contudo, às vezes é muito mais próspero. Esses — os professores-capatazes — não se deixam congelar. Em um ato de autodefesa, implodem a própria carreira docente para renascer nos estofados de alguma secretaria de educação ou no refúgio de uma sala burocrática. Por trás de uma mesa, armados apenas com uma cadeira giratória e um carimbo, ganham subitamente o poder da iluminação: desorientados incumbidos de orientar e descoordenados com a missão de coordenar. Gente com um currículo que parece um bilhete e a experiência de uma casca de noz, detonando a cooperação e anulando as possibilidades de debate em torno da educação com estudiosos, pesquisadores com formação continuada. O concurso é a porta de entrada e o sujeito pensando que é o Olimpo.  “Como seria bom se a escola fosse um programa de auditório. Passa ou repassa” ... Vai saber.

Afinal, a engrenagem não exige exatamente uma competência técnica oriunda de formação de carreira; raramente um bom professor se transforma em um bom diretor, até porque a política de educação pautada em hipocrisia, achismos, amadorismo, demagogia e quetais parece exigir pactos contraditórios aos princípios reais do magistério.

É aqui que a ironia atinge o seu ápice. Num passe de mágica institucional: aqueles mesmos que dispararam as flechas contra um São Sebastião, uma vez empossados, vivem a hipocrisia de uma falsa conversão. Antes, jogando pelas próprias regras, flanando num sistema sem controle real, escrevendo narrativas através de planilhas irreproduzíveis. Agora, praticam a microgestão seletiva com altivez dos anjos. Como quem de repente descobre a fé na gestão, o antigo arqueiro veste a túnica de autoridade e opera o milagre da amnésia conveniente. Convencido de que nunca mais precisará da trincheira, o algoz de ontem passa a ditar a oração de hoje. Alçado ao pedestal da coordenação, sente-se no direito sagrado de inquirir, questionar e determinar o fazer alheio, regrando com mão de ferro a própria convivência que ele ajudou a envenenar. Conta, para isso, com a subserviência resignada de quem continua servindo de alvo, esquecendo-se de que a maquiagem da conversão não apaga o sangue que ficou no arco.

Mais recentemente, essa mesma burocracia inventou a sua mais refinada arte magia: a gestão de alunos por osmose. A receita é simples: arrocha-se o professor moribundo no patamar da cobrança extrema: “PAD, PAD, PAD...”, como um mantra que ecoa aqui e ali, à boca pequena... como uma ameaça, como uma mordaça... enquanto muitos dos alunos continuam fazendo exatamente o que sempre fizeram — nada. Enquanto os muitos governos e secretarias de educação seguem fazendo o que sempre fizeram: nada! E ainda tem o familiar que vai à escola pra fazer a matrícula como quem faz uma promessa que só pretende cumprir se a graça for alcançada. Raros não. Mas é um tal de praguejar contra os santos. Santos mesmo são só os alecrins. “Mas essa escola!”, “Mas esse professor!”, “Mas essas más companhias!”

Enquanto isso, na “sala de justiça”: Intersetorialidade? Pra quê? Questionar os reais responsáveis pelo problema? De jeito nenhum. O burocrata prefere alvejar o colega com a imposição, o retrabalho, a glamorização da precarização e da exploração do trabalho e da apropriação indevida do produto e das ações e produtos intelectuais desenvolvidos pelo bom professor. Por fim: a sentença: “é difícil”, “se acha”, “se fosse bom tava na universidade”, “são ordens da coordenadoria”. Vejam: Uma empresa fornecedora ter o pagamento atrasado? Deus o livre. Mas que mal há em precarizar e explorar os recursos do docente? Ele já está ali pra isso mesmo...

Para resolver o abismo pedagógico, aplica-se a solução cartorial perfeita: fazem os estudantes assinarem "termos de compromisso" que todos sabem que jamais serão cumpridos. Enquanto o professor não tem de seu nem o direito à tranquilidade e a se sentir acolhido e seguro ambiente em que trabalha. Tem de trabalhar pra trabalhar, registrar que trabalhou, enfrentar quem não quer que ele trabalhe, não reclamar do que falta para que seu trabalho aconteça e por fim, ser confrontado porque trabalhou da forma que trabalhou sendo que isso demonstra que outros não trabalham, não trabalharam, não sabem trabalhar ou nunca trabalharão.  Ou que se há muitas formas de se trabalhar, isso dará mais trabalho pra quem coordena ou dirige. Mas que nada! Quanto os que não acolhem se doem quando são tratados apenas polidamente. Se forem questionados, então...

Mas isso não importa. O ensino pode ser uma ficção e o professor pode estar sangrando até a morte, desde que, dentro da pasta do processo, os formulários estejam impecavelmente preenchidos. O professor é, nesse cenário, definitivamente, o homem degelo.

 

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