Quem sou eu
- Erivelto Reis - Poemas e Crônicas
- Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.
domingo, 20 de novembro de 2011
Prof. Erivelto Reis faz palestra no Centro Universitário Moacyr Sreder Bastos
No último dia 18-11-2011, na Semana de Estudos Literários do Curso de Letras (Português-Literaturas) do Centro Universitário Moacyr Sreder Bastos, convidado pela Coordenadora do Curso, Profª. Drª. Lia Martins, o Prof. Erivelto Reis, da FEUC, proferiu uma palestra sob o título: A guerra e a Literaura: o alvorecer da arte no século XX. Acompanhado pelo Prof. Dr. Valmir Miranda, professor da FEUC e da Moacyr Bastos, que falou sobre o movimento surrealista, o professor Erivelto Reis abordou o espetáculo A Sagração da Primavera, as crônicas de Rubem Braga na Segunda Guerra, e o Jornalismo Literário de Truman Capote.
Crônica: Edredom Verde - Erivelto Reis
EDREDOM VERDE
Erivelto Reis
Um amigo afirmou que um edredom verde que ganhara lhe trouxera impressões e visões de uma pessoa recém-morta. Realmente é de preocupar. Não sou supersticioso, mas evito passar embaixo de escada, bem como cair de uma – embora já tenha caído. Evito gato preto, angorá, gato da Light e da CEDAE, quando dá. Sou como boa parte dos brasileiros: acredito que água benta e aguardente podem servir pra cuidar de uma gripe e pra elevar o pensamento pros santos. Pé de coelho e coelho ensopado, tô fora! Espelho descoberto, ficar sem camisa, cortar cabelo, segurar faca, em momento de raios e tempestades, também não rola.
Não sei se meu amigo viu ou não viu o edredom verde se mexendo. Acredito desacreditando e desacredito afirmando que... sei não. Tudo é possível. O edredom verde tem até uma leitura metafórica, em relação àqueles que têm sua última morada no estilo jardim da saudade. A imagem da grama como edredom verde que cobre e conforta sepultados como a aquecê-los do frio eterno, prometendo protegê-los do esquecimento. Haja Paciência!
Não gosto do confinamento da morte. Mas há quem goste. Quem erija monumentos, odes. Há quem a suporte, explique e conforte com religião, metafísica explicação ou com um galão de Jurubeba Leão do Norte.
Antes que eu me esqueça, também não dá pra confundir alma penada, com coisa inventada, visão embaçada de gente estressada, ou sarcasmo de quem não acredita em nada. Isso vale até pra você que, como eu, até bem pouco tempo confundia fantasma com ET. Fantasma é o vulto que a gente pensa que não vê. Enquanto ET é gente do outro mundo que a gente cisma que vê. Como quando um bom poeta declama um lindo poema pra você. Se pintarem de verde, então, não tem como não parecer.
Sei de muita gente que é destemida, que revida. Que bota assombração pra correr. Que acende vela pras almas, que manda rezar novena. Que paga caro no cinema pra ver o espírito aparecer. Sei que há também gente medrosa, apavorada, desesperada. Que não pode nem pensar em horas extremas, últimos dias, momentos derradeiros. Entre uma ponta e outra, entre mortos e feridos, está o resto do mundo inteiro.
Não importa o que a NASA e a Igreja digam. Não gosto que me assustem, que me intimidem, que me pressionem, que me persigam. Se querem mandar uma mensagem, usem a criatividade, dispensem minha mediunidade claudicante, minha visão holística, astrológica, metafísica. Mandem um e-mail, com o assunto: “Importante”. Que não seja campanha, corrente, repassando ou encaminhando. Mandem uma informação autoastraltuitando.
A dor de quem perde alguém não passa com remédio. Nem mesmo sei se tem cura. Perdi minha avó e dois ou três amigos queridos e até hoje não me curei. Sofro até com a dor alheia. Sofrimento sentido assim, de meia, é uma coisa feia. É o latifúndio da dor que distribui lembranças e cruzes, à margem de covas de sete palmos, jazigos perpétuos, gavetões de cimento e gelo. Marca de calendário, dia de desaparecimento, interrupção fatal. Coroa de flores, cheiro de murta. Última lágrima. Tempo que custa a passar.
Não é que falte quem console. Há quem não se deixe consolar. A morte é a morte da morte. Você pode não perceber! Covas, sepulturas, campos santos, cemitérios, jazigos, crematórios e o que mais aparecer. O jardim da saudade é o céu, mas poderia ser o mar. Edredom verde talvez não seja o jardim da saudade. Quem sabe, um jardim de sempre lembrar.
Um amigo afirmou que um edredom verde que ganhara lhe trouxera impressões e visões de uma pessoa recém-morta. Realmente é de preocupar. Não sou supersticioso, mas evito passar embaixo de escada, bem como cair de uma – embora já tenha caído. Evito gato preto, angorá, gato da Light e da CEDAE, quando dá. Sou como boa parte dos brasileiros: acredito que água benta e aguardente podem servir pra cuidar de uma gripe e pra elevar o pensamento pros santos. Pé de coelho e coelho ensopado, tô fora! Espelho descoberto, ficar sem camisa, cortar cabelo, segurar faca, em momento de raios e tempestades, também não rola.
Não sei se meu amigo viu ou não viu o edredom verde se mexendo. Acredito desacreditando e desacredito afirmando que... sei não. Tudo é possível. O edredom verde tem até uma leitura metafórica, em relação àqueles que têm sua última morada no estilo jardim da saudade. A imagem da grama como edredom verde que cobre e conforta sepultados como a aquecê-los do frio eterno, prometendo protegê-los do esquecimento. Haja Paciência!
Não gosto do confinamento da morte. Mas há quem goste. Quem erija monumentos, odes. Há quem a suporte, explique e conforte com religião, metafísica explicação ou com um galão de Jurubeba Leão do Norte.
Antes que eu me esqueça, também não dá pra confundir alma penada, com coisa inventada, visão embaçada de gente estressada, ou sarcasmo de quem não acredita em nada. Isso vale até pra você que, como eu, até bem pouco tempo confundia fantasma com ET. Fantasma é o vulto que a gente pensa que não vê. Enquanto ET é gente do outro mundo que a gente cisma que vê. Como quando um bom poeta declama um lindo poema pra você. Se pintarem de verde, então, não tem como não parecer.
Sei de muita gente que é destemida, que revida. Que bota assombração pra correr. Que acende vela pras almas, que manda rezar novena. Que paga caro no cinema pra ver o espírito aparecer. Sei que há também gente medrosa, apavorada, desesperada. Que não pode nem pensar em horas extremas, últimos dias, momentos derradeiros. Entre uma ponta e outra, entre mortos e feridos, está o resto do mundo inteiro.
Não importa o que a NASA e a Igreja digam. Não gosto que me assustem, que me intimidem, que me pressionem, que me persigam. Se querem mandar uma mensagem, usem a criatividade, dispensem minha mediunidade claudicante, minha visão holística, astrológica, metafísica. Mandem um e-mail, com o assunto: “Importante”. Que não seja campanha, corrente, repassando ou encaminhando. Mandem uma informação autoastraltuitando.
A dor de quem perde alguém não passa com remédio. Nem mesmo sei se tem cura. Perdi minha avó e dois ou três amigos queridos e até hoje não me curei. Sofro até com a dor alheia. Sofrimento sentido assim, de meia, é uma coisa feia. É o latifúndio da dor que distribui lembranças e cruzes, à margem de covas de sete palmos, jazigos perpétuos, gavetões de cimento e gelo. Marca de calendário, dia de desaparecimento, interrupção fatal. Coroa de flores, cheiro de murta. Última lágrima. Tempo que custa a passar.
Não é que falte quem console. Há quem não se deixe consolar. A morte é a morte da morte. Você pode não perceber! Covas, sepulturas, campos santos, cemitérios, jazigos, crematórios e o que mais aparecer. O jardim da saudade é o céu, mas poderia ser o mar. Edredom verde talvez não seja o jardim da saudade. Quem sabe, um jardim de sempre lembrar.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
O Poeta e Cronista Erivelto Reis relançará seu livro na VI JORNADA NACIONAL DE LINGUÍSTICA E FILOLOGIA DA LÍNGUA PORTUGUESA
O Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos tem o prazer de informar sobre o “LANÇAMENTO DO LIVRO "SOMOS - CRÔNICAS E POESIAS” na modalidade de Comunicação Oral na VI JORNADA NACIONAL DE LINGUÍSTICA E FILOLOGIA DA LÍNGUA PORTUGUESA, que se realizará nas FACULDADES INTEGRADAS CAMPO-GRANDENSES no dia 05 de novembro de 2011.
domingo, 16 de outubro de 2011
Crônica: A Confraria dos Relojoários - Erivelto Reis
A CONFRARIA DOS RELOJOÁRIOS
Erivelto Reis
Erivelto Reis
A primeira coisa que ganhamos ao nascermos, não é um nome, é um relógio. Um relógio biológico é verdade. Mas é um relógio. Vá lá que ele demore um pouquinho para se adaptar ao espaço extra-uterino e que, à medida que o tempo passe, ele piore gradativamente, pois nem os suíços têm um relógio biológico suíço!
Assim, inauguramos a obsessão humana pela passagem do tempo e assim prosseguiremos até o último segundo. Vejam: não se pergunta simplesmente o nome de um bebê sem que se pergunte quanto tempo ele tem. Depois, só se lembram da data ou nem disso. A data é uma espécie de relógio que parou no tempo e que pelo menos uma vez por ano terá razão. Relógios e tempo são assuntos pontuais na estranha e invisível máquina da condição humana de existir.
Sinceramente, não me surpreende o fascínio que as pessoas têm pelo tempo e pelos relógios. Eu as respeito e espreito. Flávios, Freds, Umbertos, Arildos, Paulos, Primitivos e tantos mais, perdendo ou ganhando tempo diante de vitrines, em balcões de relojoarias e joalherias ou, como eu, nas bancas de camelô, escolhendo, comparando, comprando modelos, sonhos e desejos.
O brilho dos mostradores tal qual o espelho da madrasta no imaginário popular marcado a fogo e sombra, a indagar: “espelho, espelho meu, blá, blá, blá...” – substitua por “tempo, tempo, tempo, blá, blá, blá...”, de Caetano Veloso e parece claro que o relógio é o espelho individual de ver o tempo que passa. De ver o que ganhamos e o que perdemos. É o espelho de nos projetar no tempo futuro, no momento que agendamos para passarmos por lá. Um relógio é uma fatia de bolo que nos lembra de partilhar o tempo. Ou deveria ser, sei lá.
Filósofos, sociólogos, pedagogos, literatos, tecnocratas, operários, professores e artistas sabem do segredo. Não é futilidade, subjetividade tacanha. É a constatação de que não importa a ocupação funcional, o dom celestial, a capacidade laboral ou a formação profissional que o indivíduo tenha, ostente ou conquiste, a verdade é uma só, desde que o mundo existe: há poesia em observar o tempo. E não há capacidade criadora que resista à praticidade de olhar o tempo num “mecanismo de precisão”, num “cebolão”, num símbolo de status e ostentação, numa réplica à perfeição, numa barata imitação.
Pergunte a Santos Dumont, que tirou o homem do chão, mas só aprendeu a voar quando teve o tempo ao seu dispor num dos pulsos. É o impulso criador que move o mundo, como num relógio, a cada segundo.
Relógios de modelos digitais, geniais, clássicos, inovadores, de parede, de corrente, de anel, relógio londrino monumental, relógio cuco, de carrilhão, o relógio público da Central. Relógio de sol, na tela do computador, com ou sem mostrador, relógio com a máquina aparente, com pulseira de aço, de borracha, de napa, de plástico, de couro, de silicone, de ouro. Relógio como eterna opção de presente, para cronometrar o esporte e o momento da derrota ou da vitória. Relógios que vêm com um carro pelo lado de fora.
Consultado para registrar o direito ao salário do operário; para marcar o criativo momento do hábito de nosso ócio crítico e ácido; para assinalar nosso último suspiro na certidão de óbito. Para garantir que a noiva se atrase em qualquer casamento, para pesar nos centésimos de nossos sofrimentos. Para eternizar a hora de nosso nascimento. Para marcar nosso tempo de esperar na fila, para ajudar a supor os motivos de quem nos faz esperar.
A fome é o relógio do corpo, o amor é o relógio da alma (esse, às vezes atrasa ou para de funcionar). O tempo é o relógio da vida. Relógio é obra de arte parada que se mexe. É o livro das horas ganhas e perdidas. É utensílio, é instrumento que mede e pelo qual a sociedade decidiu medir a importância de um homem: quanto menos tempo ele tem para ouvir, ler, conversar e abraçar, mais importante ele parece ser. Será?
A saudade é o relógio do passado, a gaveta é o relógio do guardado. A memória é um relógio escangalhado. A bússola é o relógio do mundo, a biruta é o relógio do vento. O medo é o relógio do silêncio. Um relógio é a bula de um remédio que cura todos os males. É a joia da esperança. É algema que nos prende ao tempo. É um link, um insight, um flashback, um porta-portrait, uma desculpa de pensar no idioma inglês. Quem ainda não teve um relógio, tenha fé que um dia terá.
Convido, sem ser convidado, a que todos ingressem na Confraria dos Relojoários. Uma confraria dedicada e formada por todos aqueles que gostam, que usam, que admiram, que colecionam e que pagam para ver o tempo passar, mas que não o deixam passar impune. E mesmo assim ele passa.
Assim, inauguramos a obsessão humana pela passagem do tempo e assim prosseguiremos até o último segundo. Vejam: não se pergunta simplesmente o nome de um bebê sem que se pergunte quanto tempo ele tem. Depois, só se lembram da data ou nem disso. A data é uma espécie de relógio que parou no tempo e que pelo menos uma vez por ano terá razão. Relógios e tempo são assuntos pontuais na estranha e invisível máquina da condição humana de existir.
Sinceramente, não me surpreende o fascínio que as pessoas têm pelo tempo e pelos relógios. Eu as respeito e espreito. Flávios, Freds, Umbertos, Arildos, Paulos, Primitivos e tantos mais, perdendo ou ganhando tempo diante de vitrines, em balcões de relojoarias e joalherias ou, como eu, nas bancas de camelô, escolhendo, comparando, comprando modelos, sonhos e desejos.
O brilho dos mostradores tal qual o espelho da madrasta no imaginário popular marcado a fogo e sombra, a indagar: “espelho, espelho meu, blá, blá, blá...” – substitua por “tempo, tempo, tempo, blá, blá, blá...”, de Caetano Veloso e parece claro que o relógio é o espelho individual de ver o tempo que passa. De ver o que ganhamos e o que perdemos. É o espelho de nos projetar no tempo futuro, no momento que agendamos para passarmos por lá. Um relógio é uma fatia de bolo que nos lembra de partilhar o tempo. Ou deveria ser, sei lá.
Filósofos, sociólogos, pedagogos, literatos, tecnocratas, operários, professores e artistas sabem do segredo. Não é futilidade, subjetividade tacanha. É a constatação de que não importa a ocupação funcional, o dom celestial, a capacidade laboral ou a formação profissional que o indivíduo tenha, ostente ou conquiste, a verdade é uma só, desde que o mundo existe: há poesia em observar o tempo. E não há capacidade criadora que resista à praticidade de olhar o tempo num “mecanismo de precisão”, num “cebolão”, num símbolo de status e ostentação, numa réplica à perfeição, numa barata imitação.
Pergunte a Santos Dumont, que tirou o homem do chão, mas só aprendeu a voar quando teve o tempo ao seu dispor num dos pulsos. É o impulso criador que move o mundo, como num relógio, a cada segundo.
Relógios de modelos digitais, geniais, clássicos, inovadores, de parede, de corrente, de anel, relógio londrino monumental, relógio cuco, de carrilhão, o relógio público da Central. Relógio de sol, na tela do computador, com ou sem mostrador, relógio com a máquina aparente, com pulseira de aço, de borracha, de napa, de plástico, de couro, de silicone, de ouro. Relógio como eterna opção de presente, para cronometrar o esporte e o momento da derrota ou da vitória. Relógios que vêm com um carro pelo lado de fora.
Consultado para registrar o direito ao salário do operário; para marcar o criativo momento do hábito de nosso ócio crítico e ácido; para assinalar nosso último suspiro na certidão de óbito. Para garantir que a noiva se atrase em qualquer casamento, para pesar nos centésimos de nossos sofrimentos. Para eternizar a hora de nosso nascimento. Para marcar nosso tempo de esperar na fila, para ajudar a supor os motivos de quem nos faz esperar.
A fome é o relógio do corpo, o amor é o relógio da alma (esse, às vezes atrasa ou para de funcionar). O tempo é o relógio da vida. Relógio é obra de arte parada que se mexe. É o livro das horas ganhas e perdidas. É utensílio, é instrumento que mede e pelo qual a sociedade decidiu medir a importância de um homem: quanto menos tempo ele tem para ouvir, ler, conversar e abraçar, mais importante ele parece ser. Será?
A saudade é o relógio do passado, a gaveta é o relógio do guardado. A memória é um relógio escangalhado. A bússola é o relógio do mundo, a biruta é o relógio do vento. O medo é o relógio do silêncio. Um relógio é a bula de um remédio que cura todos os males. É a joia da esperança. É algema que nos prende ao tempo. É um link, um insight, um flashback, um porta-portrait, uma desculpa de pensar no idioma inglês. Quem ainda não teve um relógio, tenha fé que um dia terá.
Convido, sem ser convidado, a que todos ingressem na Confraria dos Relojoários. Uma confraria dedicada e formada por todos aqueles que gostam, que usam, que admiram, que colecionam e que pagam para ver o tempo passar, mas que não o deixam passar impune. E mesmo assim ele passa.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Crônica: É, Pai... - Erivelto Reis
É, PAI...
Erivelto Reis
Erivelto Reis
É bom que meu pai nem saiba o quanto por mim é amado. Senão é capaz de chorar. Não é amor negado. É amor velado. Guardado. É um amor manipulado para não manipular. É Caixa de bibelô. Coisa que se faz de frágil para não fragilizar. É amor verdadeiro. Ou que um dia será.
O amor paterno é um amor profundo. É um amor sagrado. É santo de barro no andor da vida. Copo que não se derruba. Aceno gentil de mão. É minha mais antiga ruga. É a vida dura. A curva da estrada. É perder o medo do escuro. É não ficar inseguro.
É bom que ele nem pense no quanto por mim é amado. Senão é capaz de chorar, é capaz de sofrer. De pedir perdão por coisas que eu não possa perdoar porque não saiba esquecer. É bom que ele não pense. Que apenas sinta. Talvez evite que eu minta.
É bom que ele me inclua e que conte comigo. Que, mais do que pai, queira ser meu amigo. Que seja honesto. Que ame os netos. Para se redimir. Para exemplificar. Para que prove que é sempre possível melhorar.
É bom que ele não leia. Que não me leia. Que ignore meus textos de ar e matéria. Mas que saiba, por portador fidedigno, que é pai de um menino que escreve versos e loas, que é até gente boa. Embora não chegue nem perto da popularidade de seu pai. É bom que não se compare. Que compreenda que a vida é assim. É bom que ele não saiba, mas que dê pistas de que, de vez em quando, pensa em mim.
É bom que ele não saiba do meu orgulho, do meu respeito e que o imito... do meu jeito. Talvez eu não dissesse antes, por sentir menos, por não perceber que sentia. Sentimento não é ciclo de vida. Ciclo de vida é tempo que a gente sente passar enquanto não sente amor.
Mas chega um tempo em que somos sinceros para elogiar e não para fingir. Para pedir desculpas e não para agredir e afastar. Chega um tempo que é tempo de ouvir e de ficar calado. Chega um dia que é feito para abraçar. Escrever homenagens, mensagens, falar de saudades e de remorsos.
Talvez para desejar que o amor entre pais e filhos perdure até o final dos tempos. Até no tutano dos ossos.
sábado, 9 de julho de 2011
Crônica: Resto de Coca-Cola - Erivelto Reis
RESTO DE COCA-COLA
Criança fora da escola. Trabalhador sem salário. Gente pedindo esmola. Exploração no trabalho. Solteirona que persegue. Alcaguete que não negue. É resto de Coca-cola.
Porteiro, irmão do ricaço. Fazer papel de palhaço. Figurante atrás da árvore e sem fala. Barba rala. Pedaço fraco de barbante. Falta de descongestionante. É resto de Coca-cola.
Dor de dente. Visita de parente. Pente quebrado. Operário acidentado. Professor doente. Servir cerveja quente. É resto de Coca-cola.
Braguilha desembestada. Homem, velho ou novo, sem palavra. Foto da identidade. Quem nunca fala a verdade. Nota falsificada. Levar tombo da escada. Gente que não vale nada. É resto de Coca-cola.
Menino que usa droga. Homem que bate em mulher. Noiva que “dá no pé”. Falta de educação. Soberba. Submissão. É resto de Coca-cola.
Falta de pontualidade. Ferir, com sinceridade. Ficar feliz com a maldade. Agredir, entrar “de sola”. Inveja. Injustiça. Impunidade. É resto de Coca-cola.
Humilhar quem quer que seja. Calúnia. Injúria. Penúria. Não dividir a despesa. Malícia. Preguiça. Avareza. Ira. Falta de mira. Luxúria. Marido que trai. Surra do pai. Avó que falta, mãe que maltrata. É resto de Coca-cola.
Poema desperdiçado. Texto mal revisado. Vizinho desaforado. Depender do Estado. Família que só discute. Fotomontagem no Orkut. Aneroxia. Bulimia. Bullying. Vídeoesculacho no Youtube. Perfil falso no Facebook. É resto de Coca-cola.
Atacante, impedido, pedindo bola. Doping. Cabelo na mariola. Disco arranhado na vitrola. Dormir sozinho. Trocar presente. Bueiro que explode gente. Explicação pouco convincente. É resto de Coca-cola.
É coisa que ninguém quer. Que esqueceram. Que abandonaram. Irrefletido, desagradável, inconcebível, Inaceitável. Não é bonito. É agressivo. Que não faz bem. Que jogam fora. Resto de Coca-cola é resto de Coca-cola.
Criança fora da escola. Trabalhador sem salário. Gente pedindo esmola. Exploração no trabalho. Solteirona que persegue. Alcaguete que não negue. É resto de Coca-cola.
Porteiro, irmão do ricaço. Fazer papel de palhaço. Figurante atrás da árvore e sem fala. Barba rala. Pedaço fraco de barbante. Falta de descongestionante. É resto de Coca-cola.
Dor de dente. Visita de parente. Pente quebrado. Operário acidentado. Professor doente. Servir cerveja quente. É resto de Coca-cola.
Braguilha desembestada. Homem, velho ou novo, sem palavra. Foto da identidade. Quem nunca fala a verdade. Nota falsificada. Levar tombo da escada. Gente que não vale nada. É resto de Coca-cola.
Menino que usa droga. Homem que bate em mulher. Noiva que “dá no pé”. Falta de educação. Soberba. Submissão. É resto de Coca-cola.
Falta de pontualidade. Ferir, com sinceridade. Ficar feliz com a maldade. Agredir, entrar “de sola”. Inveja. Injustiça. Impunidade. É resto de Coca-cola.
Humilhar quem quer que seja. Calúnia. Injúria. Penúria. Não dividir a despesa. Malícia. Preguiça. Avareza. Ira. Falta de mira. Luxúria. Marido que trai. Surra do pai. Avó que falta, mãe que maltrata. É resto de Coca-cola.
Poema desperdiçado. Texto mal revisado. Vizinho desaforado. Depender do Estado. Família que só discute. Fotomontagem no Orkut. Aneroxia. Bulimia. Bullying. Vídeoesculacho no Youtube. Perfil falso no Facebook. É resto de Coca-cola.
Atacante, impedido, pedindo bola. Doping. Cabelo na mariola. Disco arranhado na vitrola. Dormir sozinho. Trocar presente. Bueiro que explode gente. Explicação pouco convincente. É resto de Coca-cola.
É coisa que ninguém quer. Que esqueceram. Que abandonaram. Irrefletido, desagradável, inconcebível, Inaceitável. Não é bonito. É agressivo. Que não faz bem. Que jogam fora. Resto de Coca-cola é resto de Coca-cola.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Erivelto Reis e alguns mestres da Literatura brasileira
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