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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Poema: "A vida é isso", de Erivelto Reis


A VIDA É ISSO
Erivelto Reis

A vida é isso:
metade do tempo não saber o motivo
por detrás das coisas,
a outra metade, não entender
o motivo por detrás das coisas...
o resto é vício.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Poema: "Adivinho", de Erivelto Reis


Adivinho
Erivelto Reis

E sobre tua cabeça
brotem lírios,
os fios de teus cachos
ondulam, modulam
meu jeito de olhar pro teu rosto.
Ao fim de um dia,
os rios que partem de teus olhos
indicam a raiz de teus desgostos.
Decorem-se os nomes de teus filhos:
coroa de rei ou de rainha
desde o ventre...
e o vento água-marinha.
“Partir” nem é mais verbo,
é uma necessidade.
Adivinha em que cidade
irei aportar sozinho?
Talvez em nenhuma parte,
talvez pare no meio do caminho,
distante de qualquer destino.
Talvez eu morra menino:
Espectro permanecido.
E sobre tua cabeça
brotem lírios,
tiaras,
as rugas na tua cara,
os vincos de tuas vestes,
as areias de tuas praias
meus pés jamais
hão de tocar.
Desejo é tudo o que me doma,
do mar é tudo que não posso,
poder é tudo que não tenho,
morrer é só o que não quero.
Para vir de onde eu vim é distante.
Estar preso em mim, ainda mais!
O mero existir que me cansa,
desistir, minha única vaidade.
As aves mergulham e emergem,
os peixes alçam voo e voltam...
Humano, quisera de tudo um pouco,
fizera de tudo um nada.
De tua cabeça brotam lírios,
de tua boca, nenhuma palavra.
Adivinha em que cidade
irei aportar vazio?


segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Poema: "Antiepígrafe emprestada de Neide Archanjo"


Antiepígrafe emprestada de Neide Archanjo

Erivelto Reis

É que não se desfaz
Um pacto depois
Que o acatamos
Principalmente
Se o propomos.
Leio o tempo
Viúvo de paz
Desde o seu casamento
Com a vida.
É vida
Alguém duvida
É dádiva, é obvio.
Nenhuma casa
É segura o bastante
Pra não se habitar.
É o mar bramindo
É um vendaval
Experiência, sarau
Mosaico, vitral
Um último vídeo viral.
Um último arroubo passional
Último verão
Da praia vê-se o horizonte:
A maré alta
A afogar o ontem.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Poema: "Tampo", de Erivelto Reis


Tampo
Erivelto Reis

É o tampo bambo de uma mesa,
Afixada numa calçada do mundo,
O palco improvisado e improvável
Do sucesso:
Do poema-protesto,
Do poema-político,
Do poema-irônico,
Do poema-satírico,
Do poema-silêncio,
Do poema-testamento,
Do poema-confissão,
Do poeta, cretino-crítico,
Inimigo libertador de si mesmo...
Sua plateia é outro bêbado,
Um incauto como testemunha,
Um prato de linguiça ou de torresmo,
Uma cerveja choca(da), a lembrança torpe
De um amor destilado.
O vômito é que é, de verdade, um poema visceral:
O resto do poeta, que escapa
Por um esgoto lacrimal.
E entre uma folha de papel amassada, rasurada,
Uma fala grotesco-enrolada,
Dá vazão a um elogio feito de forma grosseira.
A cartografia dos afetos
Do Poeta De Calçada
Localiza-se entre o estrelato pretendido,
A sarjeta a ser evitada
E a saideira (do bar ou da vida):
Entreato e reestreia,
Encenação e reprise
De uma mesma tragédia intelectopseudo-suicida.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Poema: "Proibido", de Erivelto Reis


Proibido
Erivelto Reis

Animais domésticos
Produtos cosméticos
Porres homéricos
Acidentes isquêmicos
Paradas cardíacas
E outras paradas
Amores platônicos
Romances românticos
Atores histriônicos
Voos supersônicos
Consumir tóxico
Canudo de plástico
Confiar em Horóscopo
Placas de trânsito
Ânsia de vômito
Pisar nos crisântemos
Proferir anátemas
Só viver é permitido
Entre as reticências
Entre as aparências
De todas as aspas.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Poema: "Araque", de Erivelto Reis

Araque
Erivelto Reis

Não venha com essa história esfarrapada
De que o que você passou
Não te faça mais sensível a nada e ninguém
Educação é ter respeito.
Pare agora com esse teu mau hábito!
Vou prender a respiração
E ficar distante do arame farpado
Que te cerca.
Tem muita poeira na tua biblioteca!
Não quero me intoxicar
Com o gás metano do teu hálito.
Desabafo:
Deve ser triste ter de diminuir
Aos outros tentando se sentir maior.
Teu espelho te olha e sente dó.
Ilusão de ótica, desilusão de ética.
“Vergonha”
Em quantos idiomas se soletra?
Na falta de discussão,
Acho melhor é te deixar no vácuo
Pseudossábio, Pseudo-almanaque
Alma seca, Gênio de araque!
Não brota um elogio do teu lábio.
E que a tua arrogância te massacre.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Poema: "Santinho", de Erivelto Reis


Santinho
Erivelto Reis

Não, companheiro, não é desse que eu tenho medo,
Nem do outro ou dos que os seguem
E acreditam cegamente neles...
Nem daqueles que esquadrinham intenções propostas
Ou dos que inventam fake news, fake lifes, lives fake...
Não tenho medo de ideologias, nem do embate de ideias:
Tenho medo da falta de ideais,
E das atitudes que tornam os horrores irreversíveis e reais.
Tenho medo da angústia de desconfiar
Do ex (tinto) irmão e do ex (tinto) amigo,
De não confiar no meu instinto,
De só confiar depois de muito vinho tinto...
Tenho medo de me equivocar,
Tentando lembrar a ordem dos nomes
Que não deverei mencionar
Quando vierem me torturar.
Omitir o quê? Seja agora ou depois...
Todos os nomes já estarão ditos
Quando o desejo do algoz é condenar!
Tenho medo dos que nos entregam
Por um lugar efêmero ao qual jamais poderiam alcançar,
Tenho medo dos que nos julgam traidores,
Quando habitam um cubículo grandioso de rancores.
Tenho medo da inveja,
Daqueles que poderiam ser, se quisessem,
Bem maiores do que eu jamais seria...
Mas que preferiram gastar o seu tempo e sua energia
Ocupando-se da vida que supunham que eu teria
E das coisas que temiam que eu dissesse.
Tenho medo dos que não trabalham,
Ainda quando poderiam...
Dos que simulam que trabalham,
E daqueles cujo trabalho se incube
De desesculpir sonhos e regurgitar vereditos!
Tenho medo dos malditos disfarçados de bonitos.
Dos sem alma, dos sem graça, humor,
Pudor, amor e predicados.
Tenho medo dos articulados sem ética,
Dos patéticos com prática,
Dos hipócritas com simulacros de razão,
Dos religiosos e ateus sem coração,
Dos poetas que não valem a pena com que escrevem.
Tenho medo dos que tomam conta do sexo do outro
Do nexo do outro:
Frígido pensamento congelado,
Veneno letal disfarçado.
Tenho medo e protesto?
Tenho medo e fico calado?
Oh, dúvida mais antiga!
Tenho medo e denuncio?!
Talvez seja essa a constante dor que me atinja,
Talvez seja essa a próxima coisa que eu sinta,
Talvez seja essa a última coisa que eu diga.