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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

domingo, 7 de julho de 2019

Poema: "Discípulo", de Erivelto Reis


Discípulo
Erivelto Reis

aprendi com meus alunos
o que eles adivinharam em mim
descobri como aula
virtudes que me emprestaram
um hereditário costume
de ter medo do desconhecido
eu e eles
nós ambos
eu, porque toda aula é uma confissão do muito pouco que sabemos
eles, porque toda aula traz o futuro de algum esquecimento
aprendi muito com meus alunos
e poderia ter aprendido ainda
eu e eles
nós ambos
enredados
afetivamente
nos desafios do primeiro encontro
na triste felicidade da hora de  sua despedida.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Poema: "Sobre educar", de Erivelto Reis

Sobre educar
Erivelto Reis

Educar 
é a arte de adestrar 
os pássaros 
aos voos 
que já sabem 
e à liberdade 
que já conhecem.

Poema: "Adega", de Erivelto Reis


Adega
Erivelto Reis

É preciso tirar o sal da vida,
do rosto, retemperar o amor.
É preciso fomentar, dessacralizar a poesia
para que reste um texto e não só um rótulo,
uma botija de um litro, um tonel de nada,
um cálice do mais cálido licor...
Envasá-la, armazenar seu aroma
no fundo da alma em constante dissabor.
Pode ser embalada em tecido fino ou
no trapo desatino roto do cotidiano
do susto e do perigo de estar vivo.
E que pese sobre ela – a poesia –,
o único despretensioso plano de um momento
em que se possa chegar ao final e no qual se diga
─ Valeu a pena esse dia!
A quem caberá tal tarefa, tão litígio?
Ao leitor, presumo:
pássaro livre de pluma e chumbo...
De tudo quanto for possível:
o suspiro, o arrepio, o testemunho,
a confissão, o extravio de si
por qualquer um em quem a poesia toque.
A incerteza de cada palavra
como o suave gole de um bom Porto,
uma amizade, um amor, um pouco de conforto,
um cabernet sauvignon, um malbec,  um merlot...
palavras, como vinho tinto,
fermentando em nossa adega, ficando mais velhas
à medida em que melhoram e talvez nos ajudem
a escapar das paredes de nosso próprio labirinto.


sexta-feira, 21 de junho de 2019

Poema: "Inventário", de Erivelto Reis

Inventário
Erivelto Reis
Que era lírico, mas era feio,
Que era lindo de tão feio!
Que não era lírico,
Era dramático e enigmático
E por isso apiedava, agredia ou encantava:
Um Vesúvio em estado de dilúvio
Um inferno de lava, lama e quase cem palavras
Por isso tão grito, tão crítico
Por isso tão empático, tão estático...
Um que era sobre nada,
Sobre a infância
Ou sobre um amor sem fechadura.
Um que era sobre amargura
Sobre depressão, solidão e náusea.
Um que era sobre voltar pra casa
Ou sobre um olhar que mudou tudo.
Um que era sobre as perdas,
Um disfarçado ementário de derrotas
Ou explícito pedido de ajuda,
Autocomiseração e súplica.
Um que era sarcástico,
Autoirônico e sem destino.
Um que não tinha rima,
Um que não tinha rumo,
Um que levantava um muro,
Um tão violento quanto um murro!
Outro que eu queria que tivesse sido meu
E que jamais saberia ter escrito.
Um do Espírito Santo,
Um que era um ponto de espantar quebranto.
Um que veio direto das retóricas de boteco
Um soprado pela musas do Olimpo:
Uma vez limpo o coração,
Eus e sujeitos líricos
Colonizam a consciência...
Tem tanto poema prematuro,
Tem tanto poeta precoce,
Tem tanto poema natimorto,
Tanto poeta morto-vivo,
Tanto poeta morto, Vivo.
Tanta poesia nas coisas mais secretas,
Tanta beleza no arranjo e no ritmo
Com que se inventam metáforas.
A poesia é um rio de muitas mágoas,
Uma estrada de muitas léguas,
Que não se sabe pra onde vai...
Um Dédalo, um Quixote, um Ulisses.
Um sábio dizendo sandices
Um santo, um mártir,
Um lugar, um jamais...
As palavras se tornando imortais
Um filho ou uma filha
Apoiando os pais na velhice,
Ou guiando à velhice os pais.

terça-feira, 21 de maio de 2019

Poema: "Prata", de Erivelto Reis


Prata
Erivelto Reis
Para Gloria Regina, em nossas Bodas de Prata

comparar amor
não é ocupação de quem ame
nada se compara ao amor de quem ama
e nenhum sentimento se compara ao amor
que há, que houve e haverá
amar preenche a moldura da existência,
o encaixe da montanha de emoções
com o mundo que há em volta
o espaço entre o primeiro e o último suspiro
entre a primeira ideia e o último fio de juízo,
entre todas as noites de amor
e cada madrugada à espera, insone...
amar é dar ao amor um nome
e o meu amor tem em você a fonte,
tem memória, sensação, história
meu amor tem seu nome,
Gloria.

domingo, 19 de maio de 2019

Poema: "Peregrino", de Erivelto Reis


Peregrino
Erivelto Reis
Para o Jean e para o Cícero

cuida
porque não sabes
quando e como
tuas dores
servirão de experiência
e alento a outros
cuida
de passar por teus percalços
de cabeça erguida
pois que lavar a alma
depende de cura
e é esta a aventura
da vida
cuida de teu pranto
e de teu sorriso
contra o tempo
apesar do tempo
e do espírito
que não se esvai
mas esmorece
cuida de aprender
para si
de aprender para ensinar
mesmo sem sentir
de não desistir
e não se evadir de si
para estar onde estais
e para sair 
do vale onde se encontre
para onde tens de chegar
para onde tens de ir
cuida
cuida com carinho
vai andando, vai
teu lugar é quando
tua luta é essa, peregrino.


sexta-feira, 10 de maio de 2019

Poema: "Como é e como se parece", de Erivelto Reis


COMO É E COMO SE PARECE
Erivelto Reis


Como é e como se parece
ensinando léguas
nos pés
as asas de hermes
as palavras
salivam medos
como é e como se parece
um santo sem prece
um deus sem pressa
um monge que se estressa
rústico resort de riscos
como é e como se parece
o dia que nunca chega
o golpe que nos devolve
à estúpida convicção
como é e como se parece
a inteligência desatenta
grávida de gêmeos:
vaidade e perseverança
como é e como se parece.
murmúrio de desculpa que se impeça
carta de impróprio punho
murro na cara,
denúncia canalha,
carro caro faltando peça
histórico de busca sombrio
histórica derrota repetida
como é e como se parece
notório anônimo
que todo mundo conhece
quando é...
e quanto se parece.