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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O Poeta e Cronista Erivelto Reis relançará seu livro na VI JORNADA NACIONAL DE LINGUÍSTICA E FILOLOGIA DA LÍNGUA PORTUGUESA




O Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos tem o prazer de informar  sobre o “LANÇAMENTO DO LIVRO "SOMOS - CRÔNICAS E POESIAS”  na modalidade de Comunicação Oral na VI JORNADA NACIONAL DE LINGUÍSTICA E FILOLOGIA DA LÍNGUA PORTUGUESA, que se realizará nas FACULDADES INTEGRADAS CAMPO-GRANDENSES no dia 05 de novembro de 2011.

domingo, 16 de outubro de 2011

Crônica: A Confraria dos Relojoários - Erivelto Reis

A CONFRARIA DOS RELOJOÁRIOS
Erivelto Reis



A primeira coisa que ganhamos ao nascermos, não é um nome, é um relógio. Um relógio biológico é verdade. Mas é um relógio. Vá lá que ele demore um pouquinho para se adaptar ao espaço extra-uterino e que, à medida que o tempo passe, ele piore gradativamente, pois nem os suíços têm um relógio biológico suíço!
Assim, inauguramos a obsessão humana pela passagem do tempo e assim prosseguiremos até o último segundo. Vejam: não se pergunta simplesmente o nome de um bebê sem que se pergunte quanto tempo ele tem. Depois, só se lembram da data ou nem disso. A data é uma espécie de relógio que parou no tempo e que pelo menos uma vez por ano terá razão. Relógios e tempo são assuntos pontuais na estranha e invisível máquina da condição humana de existir.
Sinceramente, não me surpreende o fascínio que as pessoas têm pelo tempo e pelos relógios. Eu as respeito e espreito. Flávios, Freds, Umbertos, Arildos, Paulos, Primitivos e tantos mais, perdendo ou ganhando tempo diante de vitrines, em balcões de relojoarias e joalherias ou, como eu, nas bancas de camelô, escolhendo, comparando, comprando modelos, sonhos e desejos.
O brilho dos mostradores tal qual o espelho da madrasta no imaginário popular marcado a fogo e sombra, a indagar: “espelho, espelho meu, blá, blá, blá...” – substitua por “tempo, tempo, tempo, blá, blá, blá...”, de Caetano Veloso e parece claro que o relógio é o espelho individual de ver o tempo que passa. De ver o que ganhamos e o que perdemos. É o espelho de nos projetar no tempo futuro, no momento que agendamos para passarmos por lá. Um relógio é uma fatia de bolo que nos lembra de partilhar o tempo. Ou deveria ser, sei lá.
Filósofos, sociólogos, pedagogos, literatos, tecnocratas, operários, professores e artistas sabem do segredo. Não é futilidade, subjetividade tacanha. É a constatação de que não importa a ocupação funcional, o dom celestial, a capacidade laboral ou a formação profissional que o indivíduo tenha, ostente ou conquiste, a verdade é uma só, desde que o mundo existe: há poesia em observar o tempo. E não há capacidade criadora que resista à praticidade de olhar o tempo num “mecanismo de precisão”, num “cebolão”, num símbolo de status e ostentação, numa réplica à perfeição, numa barata imitação.
Pergunte a Santos Dumont, que tirou o homem do chão, mas só aprendeu a voar quando teve o tempo ao seu dispor num dos pulsos. É o impulso criador que move o mundo, como num relógio, a cada segundo.
Relógios de modelos digitais, geniais, clássicos, inovadores, de parede, de corrente, de anel, relógio londrino monumental, relógio cuco, de carrilhão, o relógio público da Central. Relógio de sol, na tela do computador, com ou sem mostrador, relógio com a máquina aparente, com pulseira de aço, de borracha, de napa, de plástico, de couro, de silicone, de ouro. Relógio como eterna opção de presente, para cronometrar o esporte e o momento da derrota ou da vitória. Relógios que vêm com um carro pelo lado de fora.
Consultado para registrar o direito ao salário do operário; para marcar o criativo momento do hábito de nosso ócio crítico e ácido; para assinalar nosso último suspiro na certidão de óbito. Para garantir que a noiva se atrase em qualquer casamento, para pesar nos centésimos de nossos sofrimentos. Para eternizar a hora de nosso nascimento. Para marcar nosso tempo de esperar na fila, para ajudar a supor os motivos de quem nos faz esperar.
A fome é o relógio do corpo, o amor é o relógio da alma (esse, às vezes atrasa ou para de funcionar). O tempo é o relógio da vida. Relógio é obra de arte parada que se mexe. É o livro das horas ganhas e perdidas. É utensílio, é instrumento que mede e pelo qual a sociedade decidiu medir a importância de um homem: quanto menos tempo ele tem para ouvir, ler, conversar e abraçar, mais importante ele parece ser. Será?
A saudade é o relógio do passado, a gaveta é o relógio do guardado. A memória é um relógio escangalhado. A bússola é o relógio do mundo, a biruta é o relógio do vento. O medo é o relógio do silêncio. Um relógio é a bula de um remédio que cura todos os males. É a joia da esperança. É algema que nos prende ao tempo. É um link, um insight, um flashback, um porta-portrait, uma desculpa de pensar no idioma inglês. Quem ainda não teve um relógio, tenha fé que um dia terá.
Convido, sem ser convidado, a que todos ingressem na Confraria dos Relojoários. Uma confraria dedicada e formada por todos aqueles que gostam, que usam, que admiram, que colecionam e que pagam para ver o tempo passar, mas que não o deixam passar impune. E mesmo assim ele passa.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Crônica: É, Pai... - Erivelto Reis

É, PAI...
Erivelto Reis


É bom que meu pai nem saiba o quanto por mim é amado. Senão é capaz de chorar. Não é amor negado. É amor velado. Guardado. É um amor manipulado para não manipular. É Caixa de bibelô. Coisa que se faz de frágil para não fragilizar. É amor verdadeiro. Ou que um dia será.
O amor paterno é um amor profundo. É um amor sagrado. É santo de barro no andor da vida. Copo que não se derruba. Aceno gentil de mão. É minha mais antiga ruga. É a vida dura. A curva da estrada. É perder o medo do escuro. É não ficar inseguro.
É bom que ele nem pense no quanto por mim é amado. Senão é capaz de chorar, é capaz de sofrer. De pedir perdão por coisas que eu não possa perdoar porque não saiba esquecer. É bom que ele não pense. Que apenas sinta. Talvez evite que eu minta.
É bom que ele me inclua e que conte comigo. Que, mais do que pai, queira ser meu amigo. Que seja honesto. Que ame os netos. Para se redimir. Para exemplificar. Para que prove que é sempre possível melhorar.
É bom que ele não leia. Que não me leia. Que ignore meus textos de ar e matéria. Mas que saiba, por portador fidedigno, que é pai de um menino que escreve versos e loas, que é até gente boa. Embora não chegue nem perto da popularidade de seu pai. É bom que não se compare. Que compreenda que a vida é assim. É bom que ele não saiba, mas que dê pistas de que, de vez em quando, pensa em mim.
É bom que ele não saiba do meu orgulho, do meu respeito e que o imito... do meu jeito. Talvez eu não dissesse antes, por sentir menos, por não perceber que sentia. Sentimento não é ciclo de vida. Ciclo de vida é tempo que a gente sente passar enquanto não sente amor.
Mas chega um tempo em que somos sinceros para elogiar e não para fingir. Para pedir desculpas e não para agredir e afastar. Chega um tempo que é tempo de ouvir e de ficar calado. Chega um dia que é feito para abraçar. Escrever homenagens, mensagens, falar de saudades e de remorsos.
Talvez para desejar que o amor entre pais e filhos perdure até o final dos tempos. Até no tutano dos ossos.

sábado, 9 de julho de 2011

Crônica: Resto de Coca-Cola - Erivelto Reis

RESTO DE COCA-COLA

Criança fora da escola. Trabalhador sem salário. Gente pedindo esmola. Exploração no trabalho. Solteirona que persegue. Alcaguete que não negue. É resto de Coca-cola.
Porteiro, irmão do ricaço. Fazer papel de palhaço. Figurante atrás da árvore e sem fala. Barba rala. Pedaço fraco de barbante. Falta de descongestionante. É resto de Coca-cola.
Dor de dente. Visita de parente. Pente quebrado. Operário acidentado. Professor doente. Servir cerveja quente. É resto de Coca-cola.
Braguilha desembestada. Homem, velho ou novo, sem palavra. Foto da identidade. Quem nunca fala a verdade. Nota falsificada. Levar tombo da escada. Gente que não vale nada. É resto de Coca-cola.
Menino que usa droga. Homem que bate em mulher. Noiva que “dá no pé”. Falta de educação. Soberba. Submissão. É resto de Coca-cola.
Falta de pontualidade. Ferir, com sinceridade. Ficar feliz com a maldade. Agredir, entrar “de sola”. Inveja. Injustiça. Impunidade. É resto de Coca-cola.
Humilhar quem quer que seja. Calúnia. Injúria. Penúria. Não dividir a despesa. Malícia. Preguiça. Avareza. Ira. Falta de mira. Luxúria. Marido que trai. Surra do pai. Avó que falta, mãe que maltrata. É resto de Coca-cola.
Poema desperdiçado. Texto mal revisado. Vizinho desaforado. Depender do Estado. Família que só discute. Fotomontagem no Orkut. Aneroxia. Bulimia. Bullying. Vídeoesculacho no Youtube. Perfil falso no Facebook. É resto de Coca-cola.
Atacante, impedido, pedindo bola. Doping. Cabelo na mariola. Disco arranhado na vitrola. Dormir sozinho. Trocar presente. Bueiro que explode gente. Explicação pouco convincente. É resto de Coca-cola.
É coisa que ninguém quer. Que esqueceram. Que abandonaram. Irrefletido, desagradável, inconcebível, Inaceitável. Não é bonito. É agressivo. Que não faz bem. Que jogam fora. Resto de Coca-cola é resto de Coca-cola.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Erivelto Reis e alguns mestres da Literatura brasileira

Erivelto e a Profª., escritora e historiadora Mary Del Priore


Erivelto e a escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras Nélida Piñon.




Erivelto e o escritor, ensaísta, crítico e professor Silviano Santiago.






domingo, 29 de maio de 2011

Poema: Chamada - Erivelto Reis

CHAMADA
Erivelto Reis

Os presentes e os faltosos
Os corretos e os enganosos
Os sábios e os exaltados
Os serenos e os malhados
Os discretos e os pirados
Os melhores e os falhados
Os primeiros e os parados
Os honestos e os otários
Os mentirosos e os manipulados
Os fortes e os esforçados
Os fracos e os fracassados
Os doentes e os curados
Os românticos e os lesados
Os obscuros e os iluminados
Os brilhantes e os travados
Os indecisos e os acovardados
Os vencedores e os derrotados
Os obscenos e os moralizados

Os solteiros e os separados

Todos estressados quando
Decidem trocar de lado.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Crônica: Buscar o menino - Erivelto Reis

BUSCAR O MENINO


Erivelto Reis


eriveltoreis@yahoo.com.br



Nada disso. Não dá trabalho, não. Esse aqui é o meu filho. Passa um sábado e um domingo comigo. Fala oi pro tio, Luizinho. Venho buscar o menino a cada duas semanas. Isso é sagrado. Falto ao trabalho, mas não falto à visita. Se não a ex já implica. Antes eu dizia: “ô, mulher, abre aí, que eu vim buscar o moleque!” E ela, descacetada: “Que moleque que nada! Moleque é o filho dos outros, é o filho dos nossos vizinhos”. Conhece esses tipos de gente, que agride com as palavras como quem desse carinho?...


Sabe como é, né? A gente não se acertou. Erro de parte a parte. Briga pra todo lado e, no meio dos nossos pecados, o menino sobrou. Agora, tu mesmo tá vendo, ele tá sorrindo, brincando... Mas na hora que as coisas se passaram, que o bicho tava pegando, com agressão de lado a lado, a gente de cabeça quente e a caninha lubrificando as mensagens da mente; nossa, mas o garoto sofria! A mulher fez trutagem com a sogra selvagem, escondeu o menino, pediu pensão, passou na minha cara com o Valadão, o ex-parceiro de garagem que dirigia o busão.


Pois é, se fosse noutros tempos, me chamavam de “leão”. Sou trocador, porteiro de lotação, cobrador, roleteiro, catraqueiro. Sou um pai, com um filho no colo, inventando uma imagem, uma passagem que não machuque a sua ilusão. Hoje ele fica com os primos, na casa da minha mãe. Amanhã, vai comigo ao maraca, pra ver o meu mengo jogar. Acredita que até vascaíno ela fez o moleque virar?! Mas, não falo mal da mãe dele, quando ele está por perto. Pra não traumatizar o garoto, que isso não é direito, que isso não está certo. É uma questão de princípio, de respeito. Não é como dinheiro que a gente perde e procura porque tá sem. Respeito é um troço capitalista que mais se dá a quem mais tem.


Minha mãezinha é uma santa. Não é mulher de pilantra. Mulher de pegar no pesado, mulher de xepa da feira, mas comida no barraco não faltava, de segunda a segunda-feira. Trabalhava em casa de madame, em casa de emergente, em casa de pobre também, pra não faltar de um tudo pra gente.


Estudo, eu tive pouco, mas aprendi a fazer troco. E sem querer me gabar, na minha profissão eu sou o melhor que há. Pego dobra, mudo a linha. Sou pontual e caxias. Cativo os passageiros, agrado as senhorinhas...


Fica com Deus, amigo, deixa eu me adiantar. Que vida de pobre é assim: a gente não pode parar. Tenho que buscar meu sustento, meu filho e a felicidade. Vou descer no próximo ponto, que é parte do itinerário. De lá, pego mais duas conduções até chegar ao destino. Vou cansado, mas vou contente. Porque a infância, quando é boa, alegra a vida da gente. Por isso, protejo o menino; meu filho, meu ideal. Para que ele cresça feliz, seja um sujeito legal. Que tenha sorte na vida, que estude e que trabalhe. Que saiba que nesse mundo, não importa a profissão, a dignidade é o que vale.


Ô motor, quebra essa, já puxei a campainha! Qualquer hora a gente toma aquela cerva geladinha. Tô indo nessa, companheiro, manda um abraço pro pessoal. Vida estranha essa nossa: a gente não vê o itinerário, não escolhe o nosso destino, mas conhece o ponto final.