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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

domingo, 29 de agosto de 2021

Crônica: "EMICIDA EM AMARELO AO VIVO: AYEYE, AJODUM DE NOSSA GENTE E DE TODOS OS ORIXÁS" , de Erivelto Reis

 

EMICIDA EM AMARELO AO VIVO: AYEYE, AJODUM

DE NOSSA GENTE E DE TODOS OS ORIXÁS

Erivelto Reis



            Já havia escrito sobre o disco AmarElo (2019/2020) do cantor e compositor Emicida. Muito mais um registro de meu assombro diante daquele que seguramente estará entre os grandes discos brasileiros de todos os tempos, do que qualquer pretensão de análise ou crítica. E talvez o embevecimento tenha se estendido ainda à primeira vez que assisti ao show Amarelo ao vivo, realizado no Teatro Municipal de São Paulo.

            Lembro-me de ter comentado como me parecia simbólico que aquele show, estruturado basicamente com as principais canções da carreira de Emicida e especialmente daquele álbum/projeto AmarElo fosse realizado no Teatro Municipal de São Paulo. Eu escrevo e falo “disco” por pura convenção cultural, principalmente diante da imaterialidade que o streaming confere à forma como lidamos com a prática de consumir música.

            Volto ao show mais uma vez, talvez motivado por uma sequência de documentários, lives ou matérias sobre grandes nomes de nossa canção como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Rita Lee, Erasmo Carlos, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Tom Zé, Raul Seixas, Martinho da Vila e mesmo pelos 80 anos do Rei Roberto Carlos.

            Francamente, pareceu-me que o show ganha novos aspectos para além de sua simbologia de evento artístico de um grande nome da cena contemporânea nacional. Reassistir a esse evento provocou em mim a idealização de como seria fundamental para nossa sociedade e para nossa cultura que, em alguma das noites de fevereiro de 2022, o show AmarElo retornasse ao palco do Municipal de São Paulo para simbolizar o reposicionamento de aspectos centrais de nossa modernidade e talvez cumprir finalmente parte do intento da primeira Semana. Assim, teríamos novos valores reafirmados, todos construídos pela reverência à história, à arte, à cultura brasileira em face do empoderamento e da quebra de paradigmas de arte consolidados pelo branqueamento e o eurocentrismo que sempre estigmatizaram e moldaram – desde os livros didáticos – as versões de nossa trajetória enquanto nação, os nossos cânones (vide Lima Barreto e os conflitos pelos quais passou e o próprio Machado de Assis), o imaginário cultural e artístico de nossa sociedade através da indústria da cultura de massa.

            Imaginem: fevereiro de 22 no Municipal de São Paulo, Emicida em AmarElo,  Conceição Evaristo lendo um dos seu textos, Carolina Maria de Jesus e seus escritos em exposição no Municipal e no Museu da Língua Portuguesa. Por toda a cidade fotos de Sebastião Salgado, um sarau de poesia, hip-hop, slam, grafite, e todas as manifestações de arte em que definitivamente a ancestralidade e as matrizes étnicas brasileiras tivessem espaço de valorização e reconhecimento num manifesto lido por Djamila Ribeiro e Ailton Krenak. Um painel gigante de Eduardo Kobra apresentaria a nova marca do centenário da Semana de 22...

            Voltando ao show AmarElo, do Emicida, revendo-o entendo sua dimensão ritual. Trata-se de uma cerimônia de comemoração e celebração – ayeye, ajodum de todos os orixás – para todos os credos e todos os corações. É uma consagração da força da palavra, uma reza, um ponto, um cântico, uma prece do coração das Áfricas que desconhecemos e daqueles que pra cá foram trazidos e construíram nosso país e nossa cidadania e nossa civilização para tocar e comover o coração de todos os brasileiros.

            Evidentemente, há em AmarElo um grito, uma explosão de denúncia, de raiva e revolta contra a violência, o preconceito de qualquer natureza, a dor, e cada canção é um convite a que todas as pessoas reflitam sobre que valores consagram e por quais se pautam. AmarElo é uma demonstração de talento, força, criatividade, profissionalismo, apuro estético em cada detalhe. Cada parte do show destaca a inclusão (há um intérprete de libras no show e um telão na porta do Teatro Municipal transmite o show para quem não conseguiu ou não pôde pagar pelo ingresso),  o empoderamento da mulher, dos mais pobres, da periferia, dos que estão ou estiveram à margem. Revela apuro, estilo, criação artística inédita e reverência aos ídolos e companheiros de jornada.

            Como uma celebração dos/aos orixás, reconta a história, apresenta testemunhos, louva, menciona, revisita nomes e entidades fundamentais para a cultura e a história negra em nosso país, fala de amor, de esperança, reverencia a ancestralidade. Cada canção funciona como um salmo, um versículo, um ponto. É um show sincrético, porque não despreza nossa formação religiosa ou cultural. Não ignora a miscigenação de nosso povo, nem o que ela significa em termos de sofrimento e violência aos povos escravizados e aos povos originários e na agressão e crueldade sofridas nos tempos que seguem, infelizmente.  Porém, reafirma um novo evangelho antigo de respeito à história, à cultura e a todas as pessoas negras e nos recorda de valores que não podem ser esquecidos nem por um momento. Valores inegociáveis para com a dignidade humana.

            Como realização estética e artística, tudo é simbólico, provocativo, polissêmico. Emicida faz história ao celebrar e comemorar os orixás, a negritude, a luta do povo e seu talento, sua força como artista destaca o valor de seu público e a relação com elementos fundamentais de nossa cultura.  

            O Teatro Municipal de São Paulo e o seu entorno tornam-se espaços para um evento histórico que religa nossa história com o sagrado das raízes de nossa brasilidade e me parece uma imagem algo poética cabível ao centenário da Semana de Arte Moderna e compatível com o reposicionamento e o empoderamento de nossa gente, de nossos reais valores antropológicos, artísticos e sociais, alma de nossa cultura. Além disso, as letras e a música de Emicida são sensacionais. O show se concretiza, portanto, em âmbito estético, artístico, político, social e histórico.

            Agradeço à Elba Gaya e à Paulinha Machado que me leram antes e me ajudaram a encontrar as palavras que me faltaram e de que, sem querer, me perdi.

            Expresso meu desejo de que haja Liberdade e Respeito para o povo todo.

 

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Poema: "Raio de sol", Erivelto Reis


Raio de sol
Erivelto Reis

Leva contigo esse raio de sol
Que eu trouxe ainda hoje
Da cidade sonho de meus amores.
Eu ia guardar para usar no mês que vem.
Você devolve quando puder,
Com uma lembrança boa partilhada ou
Um silêncio fraterno que diz: "tô tentando".
Fica com esse raio de sol
Que eu trouxe lá da cidade sonho
Ele tá novinho, mas tá molhado de pranto,
Orvalho de bem querer...
É que andei chorando
Pensando na sua tristeza.
É um raio de sol que apanhei por acaso
Enquanto estava remando,
Lutando contra a correnteza.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Crônica: "House", de Erivelto Reis

 

HOUSE

Erivelto Reis

                Gregory House é um personagem de uma série de Televisão. Foi vivido brilhantemente pelo ator Hugh Laurie. Milhões de pessoas no mundo inteiro conhecem esse personagem que é um médico especialista em diagnósticos, que manca de uma perna e que devido a uma complicação cirúrgica passa a ser acometido por dores intensas e crônicas desde então. Viciado em Vicodin, misantropo, pautado na premissa de que “todo mundo mente”, sua especialidade é ler os outros.

                Cícero César foi o House possível que conheci. Descartados os problemas e idiossincrasias do personagem da ficção, considerada a forçada aproximação entre o tipo físico do personagem e do professor, o que torna o match possível realmente, além do grande talento em sua área (um grande médico na ficção em comparação a um talentoso professor na vida real) é a capacidade que Cícero tem para ler as pessoas. As lê bem. Com detalhes. Com rigor. Mas com justiça, poesia e bondade.

                Apelidá-lo de House, foi o reflexo do dom que percebi nele em diagnosticar bem os livros, as pessoas, os poemas, as canções, os textos verbais e os não-verbais. Cícero lê gestos, lê atitudes, lê expressões. É tão bom nisso que em alguns casos, chega a prever as reações e as consequências de determinados comportamentos e atitudes. Há também alguma impaciência nos dois House.

                A recente série de textos que Cícero escreveu e que trouxe do baú de nossa memória e do ninho de nosso carinho as figuras de Marinete, Andréa, Umberto, Cléber, amigos e amigas tão queridos/as, seguindo-se aos textos, uma sequência de comentários repletos de expressões de saudades, das reminiscências por um tempo em que convivemos e me fez pensar no personagem e no professor.

                Os textos também resgataram as lembranças de uma convivência coletiva resultante da convergência de tantos talentos reunidos, do respeito construído pela amizade, camaradagem, admiração e a noção implícita de que cada qual possuía um milhão de qualidades para estar onde estava. E isso nos bastava. Uma noção confortável de que o outro era e é especial independente de qualquer especialidade. Especial em essência. Não há lugar no lattes pra escrever essas qualidades.

                Cícero/House evocou de nossos corações o teatro infantil - algo ingênuo - de nossa convivência repleta de humor, cordialidade, profissionalismo, mesmo em presença de graves crises que suportamos juntos. Num momento em que confiamos mutuamente em cada um dos companheiros/as, por causa das qualidades deles/as e com eles/as contamos até quando foi possível.  Cícero nos levou de volta com seus textos sobre nossos amigos tão queridos ao locus amoenus de uma época em que cada qual foi e continuou sendo importante na lembrança de nossos corações, na fraternidade de nossa convivência.

                Os textos que escreveu e aqueles que tenho esperança que ele vá escrever deixaram claro para mim que Marinete sempre será a Marinete de nosso carinho, da memória de uma realidade profissional e amistosa que partilhamos... e o mesmo, por extensão à Andréa, ao Umberto, à Lucy, ao Jayme, ao Alzir, ao Cléber, à Marcinha, à Gilda, ao Flávio, ao Marcos Dias (que chorou diante de mim quando eu fui sendo embora), à Bruna, à Jane, à Janice, à Aparecida, ao Heleno, à Lya, ao Zé Ricardo, ao Mauro Lopes, ao Mauro Ferreira, ao Antônio Paulo, ao Sérgio, à Margarida, à Neide, ao seu Francisco, ao Miguel, à Miriam, ao Gérson, à Adriana, ao Ricardo, ao Rivelino, ao Anderson, ao Marco Antonio,  ... e tanta gente tão querida...

                Cícero diagnostica, medica e ameniza a saudade com sua poesia, com suas crônicas, com sua escrita. Estimula a todos/as nós, personagens daquela série e também da vida real, com as suas palavras e sua sensibilidade, apesar e a favor de nossos espantos. Suas recordações são em nosso ânimo os anticorpos que produzirão em nós as defesas para continuarmos lutando e acreditando na confiança, na palavra e na beleza de gestos e ações.

                Talvez seja certo pensar que na série e na vida, não se pode sair ileso da dor e do sofrimento. House cura a dor dos outros enquanto a sua própria dor o machuca. Segue trabalhando, mesmo quando seu trabalho é questionado. É insultado por pessoas que mentem e mentem e continuam mentindo até que seja possível garantir apenas o seu próprio benefício. Não porque não saibam que o que dizem seja mentira. Mas porque não tenham competência para construir o novo e o melhor pelo coletivo. Na série como na vida.

                Agradecer ao House/Cícero é pouco pela alegria que suas crônicas trouxeram ao meu coração ao homenagear nossos/as amigos/as.

                Anos depois de terminada a última temporada, acompanho o ator e vejo o personagem em cada novo trabalho e aplaudo de pé sempre que há uma nova estreia. E sempre há. E as reprises também ensinam.

                Mas eis que, de repente, Cícero escreve um novo episódio.

                 

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Texto: "A balada dos falsos revoltados", de Erivelto Reis

A BALADA DOS FALSOS REVOLTADOS

Erivelto Reis

 

            Tenha revolta contra qualquer privilégio que qualquer privilegiado já tenha: por exemplo, se um senador da República se aposenta após 2 mandatos com o teto do salário e todo apoio do erário público para seu apartamento, viagens, gasolina do carro, salário de assessores, plano de saúde, e ainda vota contra os teus direitos como trabalhador ou como cidadão, esse tipo de situação merece sua revolta. Ou ainda, se um juiz que ganha um excelente salário e ainda tem auxílio paletó, auxílio moradia e auxílio escola para seus filhos, sendo que o salário que ganha já é suficiente para que arcasse com seu próprio vestuário, sua própria moradia e com a educação de seus filhos, essa situação merece a sua revolta.

            No entanto, qual é a coisa que tem chocado você? Haver a possibilidade de um mínimo auxílio emergencial para famílias em situação de vulnerabilidade social durante uma pandemia mundial.

            Gente morrendo aos milhares por uma doença para a qual já há vacina não revolta você, criança sendo explorada e trabalhando em sinal não revolta, escola sucateada para grande parte da população não revolta. Salário de exploração pago ao professor do seu filho não revolta... miséria, desemprego em massa, violência, fascismo e corrupção não revolta. Militares de alta patente e comprovada incompetência loteando estatais não revolta... Entreguismo não revolta.

            A buzina do motoboy passando próximo ao retrovisor do teu sedã te revolta.  O atraso do teu empregado, humilhado e massacrado no execrável transporte público te revolta. A tua empregada desejar ter uma assinatura na carteira de trabalho te revolta. O filho do porteiro ser colega de turma  de seu filho na Universidade pública em que ambos estudam e são tratados com respeito e igualdade de condições te revolta. Uma revolta apenas menor do que se o seu filho não tivesse entrado para a Universidade pública e o teu porteiro pedisse folga um dia para ir à formatura...

            Vai amadurecer, vai estudar, vai aprender a ter empatia... depois vem falar em revolta. Não é extremismo o que você tem. É fetiche pela covardia e pelo extermínio dos mais pobres. Não é extremismo, não é polarização. É mediocridade mesmo.

            Não é uma guerra de narrativas. É apenas crueldade de pessoas violentas enrustidas que contam histórias em que os corruptos, privilegiados e exploradores lhes pareçam heróis.

            Eu fui aos correios hoje... e pelo que lá eu vi, como proposta de gerência e metodologia de trabalho, desconfio que boa parte do povo do Brasil nem saiba que a adaga risca o ar compondo um réquiem para sua falência, para sua morte.

            Obrigam os próprios trabalhadores a abrirem buracos no casco do navio. O naufrágio é quase certo. Os prejuízos, irreversíveis. Vão entregar o sistema hídrico, energético, de saúde, de transporte, de educação - tudo o que a Constituição diz que o governo deveria garantir como soberania de nosso país.

            Se teremos que pagar pelos principais serviços, a preço de mercado, à iniciativa privada, com tarifas cotadas em dólar, por que compete ao governo nos extorquir através de todo tipo de impostos, uma vez que ele abriu mão de fornecer os serviços, embolsou o dinheiro dos impostos, não reinvestiu e ainda vendeu o patrimônio que gerações de brasileiros ajudaram a construir?

            Sua revolta é seletiva. Você não está revoltado, está abalado pela ideia de igualdade entre as pessoas. Pela ideia de que todo seu dinheiro e toda a sua network não conseguem impedir os mais pobres de sonharem e de realizarem. Mesmo que ainda lhes possam adiar os sonhos. O uso de um vocabulário politicamente correto é teu habeas corpus, teu verniz mais frágil, tua empatia de mentirinha. Daí as palavras ‘meritocracia’, ‘berço’, ‘estirpe’, ‘mimimi’, ‘fatalismo’, ‘coitadismo’, ‘lulismo’, ‘empreendedorismo’ espumam pelo canto de sua boca como a saliva de um cão raivoso.

            Sua revolta é revoltante. Sua revolta nem é revolta. É preconceito mal disfarçado. Você é um velho e encardido ursinho de pelúcia esquecido no porão dos poderosos, uma passadeira dos ricaços, um boneco de ventriloquismo dos canalhas, um títere dos onanistas do erário público.

            Tudo o que os mais pobres possam ter de bom, apesar do quanto se lhes ofereça de ruim, te deixa revoltadíssimo. Sua ignorância, vendida como opinião ponderada, moralista e ética, é uma sentença de morte diária, em branco contra qualquer um que seja pobre e sem a responsabilidade formal da sua assinatura.

            Você não é um vencedor, a porta do cofre já estava escancarada. Não é excêntrico, é soturno e pedante. Não é justo. Ninguém em sua posição o é. Não é nada, mas seu espelho grita as loas que você tanto gosta. Quando muito, você é corrupto, herdeiro de corrupto ou fechou os olhos para esses dados ao fazer negócios semi ou pré ou pós ilícitos com corruptos ou filhos de corruptos. Você só não roubou, não corrompeu, não trapaceou oficialmente, porque pagou pessoas para que alterassem as leis que provariam ou que te impediriam de roubar, de corromper e de trapacear. Você atropelaria a ética, sóbrio, em uma reta, à luz do dia e fugiria do local do crime, sem exceder o limite de velocidade, sem olhar pelo retrovisor e sem prestar socorro. A lei que não te alcança é prova do teu crime. A cadeia que não te detém ou não te alcança é a moradia do seu verdadeiro eu.

            Te revolta saber disso, não é?! E todo mundo já sacou quem é você.

 

 

  

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Texto: "MINISTRO DA EDUCAÇÃO: IRRESPONSÁVEL, OMISSO E CRIMINOSO", de Erivelto Reis

 

MINISTRO DA EDUCAÇÃO: IRRESPONSÁVEL, OMISSO E CRIMINOSO.  

 Erivelto Reis

 

            Notem que além do indisfarçável desprezo pela vida de professores/as, alunos/as, profissionais da educação e seus familiares, as premissas práticas de sua fala criminosa e desprezível não explicam quais investimentos serão feitos na segurança dos atores da vida escolar no ensino presencial. Antes, vergonhosamente, omite que o governo do qual faz parte não deu a mínima para a educação ou para a vida das pessoas. Além disso, considera a coexistência de ensino remoto e presencial sem qualquer tipo de remuneração para os profissionais da educação. Ou seja, depois de explorar nossos recursos por mais de um ano e meio e de 540.000 mortes de brasileiros e brasileiras, prepara-se para nos explorar ainda mais e nos expor a nos tornarmos agentes transmissores do vírus e de sua nova cepa e ainda açula prefeitos, governadores e a população contra a categoria, sob pretensa preocupação com o ensino das crianças e dos jovens. Poupe-nos de seu cinismo. VERGONHOSO DISCURSO.    

            Conheçam a realidade de uma escola pública no país para perceber que o governo quase nada fez em um ano e meio que garantisse minimamente as condições que diz prezar para o retorno ao ensino presencial, além da flagrante disposição de dobrar, triplicar a jornada de trabalho dos professores e professoras sem, no entanto, desembolsar um centavo a mais por isso ou que o governo do qual o senhor toma parte tenha investido um real sequer nessa modalidade híbrida que compensasse o que os profissionais da educação já fizeram do seu próprio bolso, ou facultasse equipamento e acesso virtual aos milhões de alunos/as brasileiros/as, sobretudo das camadas mais vulneráveis socialmente de nossa sociedade, ou haver comprado e distribuído a vacina quando foi o tempo correto já nos teria poupado da dor da perda de amigos, colegas de trabalho, familiares ou teria garantido cobertura vacinal e imunização para uma parcela bem mais ampla da população.

            Que há um "efeito devastador do fechamento das escolas" e evasão escolar todos sabemos. De quem é a responsabilidade? E o que os responsáveis fizeram em um ano e meio? Esses processos são fruto do gigantesco abismo social que a política de desemprego, violência, corrupção do governo do qual esse ministro faz parte tem implementado no Brasil.

Não joguem a responsabilidade mais uma vez nas costas do professor. A responsabilidade pelas coisas que Ministros, Governadores, prefeitos e secretários não fazem porque não têm competência ou interesse em fazer.

            Nesse período de pandemia, preocuparam-se em colocar mais um degrau rumo à privatização do ensino com o desmantelamento do ensino médio.

E nas grandes redes de TV, quem corrobora com o ministro, ainda que outrora tenha sido professor ou professora, há muito que se vendeu ao deus capital em troca de milhares de reais de conglomerados econômicos que querem se apropriar dos bilhões do FUNDEB ou daquilo que por direito deveria ser investido em educação pública, ou simplesmente de se ver afastado da sala de aula através de um cargo político com um nome "pomposo".

            Os coniventes são cinicamente constantes no assédio que seus superiores não fazem pessoalmente porque sabem que é crime e sempre respondem a questionamentos com "eu já estive no seu lugar e entendo que... porém, essas propostas, esses projetos precisam ser implementados".

            Mais uma vez ouve-se um discurso sujo. Ele parte do político e sua malta, da austeridade simulada, da hipocrisia dessas pessoas e seus asseclas, de quem não percebe que vai ser uber do vírus, da contaminação e da morte entre a sala de aula e seus familiares. Rodízio de alunos, distanciamento de um metro, álcool em gel, superfícies sanitizantes, intervalos para higienização, permanência da utilização de máscaras...

            Vão ver os diários on-line das prefeituras dos municípios dos grandes centros e das periferias e subúrbios, cinquenta alunos e alunas inscritos/as numa turma de sexto ano... nem presencialmente e sem pandemia esse modelo se sustentaria para desenvolvimento adequado dessas crianças... O que os professores e professoras realizam é um milagre de abnegação ante o horror, o despreparo e o descaso de prefeitos, secretários, governadores... além da odiosa conivência de determinados profissionais da educação...

            Há dias que não há papel higiênico nas escolas... internet, computadores, conectividade... esqueçam... Há dias em que os alunos revezam sapato, e camisa de uniforme (quando há) para poderem estudar... que dirá máscaras trocadas a cada duas horas... há dias em que os que podem e estão no presencial, por não reconhecerem na escola e nos profissionais qualquer motivo para admiração, cordialidade e respeito, ostensivamente recusam-se a seguir as medidas mais simples da civilidade ou da organização como cumprir horário, fazer as atividades ou um simples bom dia ao ingressar na aula, que dirá cumprir protocolos de saúde...

            MINISTRO DA EDUCAÇÃO, CÍNICO E CANALHA E OS, COMO ELE, defensores de um discurso e de práticas que mais uma vez vilanizam e diminuem os educadores e profissionais da educação e desviam o foco da incompetência, do desinteresse e do desprezo pela educação da população enquanto, sorrateiramente, empurram a educação pública para o controle dos grandes conglomerados econômicos. Criminosa é a sua atitude e a do governo do qual o senhor faz parte. Nojo e revolta.

 

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Poema: "Halo", de Erivelto Reis

 

Halo

Erivelto Reis

 

E foi tão diferente ver você de longe

Um halo de névoa sobre os seus cabelos

E os olhos enxergados a distância

Traziam qualquer brilho,

Qualquer luz de decifrar impossível...

E foi tão diferente ver você de longe

Como se eu não fora mais quem eu era

Como se você outra pessoa fosse...

Mais misteriosa, mais linda, mais doce!

Mas distante,

Tornou-se um sabor imaginado

De beijos antigos, uma recordação, (um leve arrepio),

De carinhos suspensos, de caminhos desencontrados.

E foi tão diferente ver você de longe

E foi tão claro que você soubesse que eu senti medo,

Que eu fiquei sem rumo, que eu fiquei sem graça,

Fiquei sem compasso, fiquei sem enredo.

E voltei pro nada, ao redor da orla de mim, precipício!

E foi tão diferente e foi tão estranho e foi tão difícil.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Texto: "Sobre a reabertura das escolas do Estado durante a pandemia", de Erivelto Reis

"Sobre a reabertura das escolas do Estado durante a pandemia"

 Erivelto Reis

           

            Nesse exato momento, há mais de 50 municípios do Estado do Rio de Janeiro cujas escolas da rede estadual estão sendo usadas como propagadoras do vírus da Covid.

            Seus funcionários e funcionárias, professores e professoras, alunos e alunas sendo submetidos/as à exposição, à propagação ao contágio e à doença. Quem será responsabilizado por isso?

            Entre a casa e a escola, o vírus vai na mochila, no uniforme, na máscara usada de forma inadequada, subtraída ou ausente até que, num teatro patético, seja colocada diante do portão da escola para burlar grotescamente as recomendações mais básicas de saúde pública.

            Pais e mães negacionistas, assintomáticos, convalescentes da doença vão à porta das escolas de bicicleta, a pé ou de carro, e alguns aproveitam e usam do mesmo expediente de usar a máscara apenas para fingir submeter-se a uma exigência legal, e não por respeito à vida dos profissionais da educação, ou às vidas humanas, para solicitarem atendimento na secretaria das escolas ou junto às equipes de direção e de coordenação. O vírus circula poderoso e onipresente como um deus da morte. Quem vai responder por isso?

            Na saída da escola, depois de um turno de aula, dezenas de alunos subtraem as máscaras, se aglomeram, se cumprimentam e esperam o ônibus que os levará e aos vírus de volta para as suas casas, direto para a destruição dos pulmões de seus familiares ou para a ruína de famílias inteiras.

            Pressionados pelas coordenadorias metropolitanas, colegas convocam colegas a comparecerem às unidades escolares em municípios onde as taxas de contágio estão altíssimas para que retirem ou tenham contato com avaliações em papel, oriundas de casas e de lugares onde possivelmente haja exposição ao vírus. Esses papéis são arremedos de avaliação apenas para livrar a cara do governo, de seu secretário e assessores quanto à ineficácia, ineficiência e desinteresse pela educação pública. Quem vai responder por isso?

            Assim, o professor tem sua jornada duplicada, triplicada, seus recursos particulares – seu computador, seu celular, sua internet, sua eletricidade, por exemplo –, utilizados pelo governo sem qualquer compensação, sua jornada de trabalho ampliada indefinidamente conforme a demanda – trabalha na escola, na plataforma on-line, no celular, na correção de material impresso e na correção dos trabalhos virtuais, em reuniões as mais diversas.

            Verifica-se que a categoria profissional fica dividida, categorizada, rotulada – os cordatos e empáticos X os criadores de caso e briguentos/as – explorada, fragmentada pela ação de colegas que se veem obrigados/as a reproduzir discursos em grande parte sem qualquer fundamentação didática ou pedagógica e com altíssima característica de assédio moral ou de demagogia política (alerta de spoiler: pode haver casos de profissionais que reproduzam tais discursos porque concordam com eles), mas que disfarçam com o uso de mensagens tóxico-positivas e textos passivo-agressivos.

Quem vai responder por isso?

            Nesse momento o governo se aproveita mais ainda para atacar o funcionalismo, para criar mecanismos para nos punir ostensivamente ou através de retaliações. Fecha turmas, registra de 12 a 15% a mais de alunos e alunas do que a legislação permite a cada turma nos diários das turmas virtuais (e olha que a legislação em educação pública no Brasil está entre as mais perversas do mundo). Isso significa que a cada dez turmas o governo fecha uma. Mas eles vão chamar a isso de “otimização”.

            Enquanto o contágio se espalha e ainda não há vacina para todos, o governo diz à população que está pagando auxílio-tecnologia para os professores,  enquanto obriga colegas a trabalharem diuturnamente para manterem as escolas abertas. Assim, os profissionais permanecem sob risco elevadíssimo de contágio, cumprindo funções burocráticas, administrativas inerentes não apenas à gestão da escola, como também a carências de apoio a questões de seguridade social que o governo cumpre mínima e forçadamente através da exploração da mão de obra desses profissionais, tendo as unidades escolares como referência.

            Abandonados, há um grupo gigantesco de alunos e alunas excluídos/as, cujas famílias os querem em segurança e sabem que seu futuro está comprometido pela omissão histórica e pela ausência absoluta de uma política inclusiva de educação remota no contexto pandêmico.

            E há aqueles e aquelas que já não estavam nem aí para a ideia de educação e escola como uma via real de acesso à formação, à cidadania e à inclusão. Influenciados por líderes os mais diversos, por mentiras, fake news... Para esses casos registram-se práticas tais como, qualquer coisa, trabalhos feitos e entregues de qualquer jeito, fuga das aulas remotas nas plataformas virtuais, nenhuma leitura, pouquíssima escrita, práticas seletivas de exclusão de matérias específicas e direcionamento para as quais vão se dedicar, copia e cola da internet sem qualquer aprendizado ou construção de sentido ou a omissão completa desde que, ao final do segundo ano letivo seguido durante a pandemia possa constar no sistema a palavra "aprovado/a". E pouco importa se presencial ou remota, pois a escola e a educação não lhes interessam de fato. Quem vai responder por isso?

            Professores e professoras, funcionários públicos da educação de um modo geral, seguimos sem aumento, reajuste sequer das perdas inflacionárias e/ou decorrentes da não correção de alíquotas fiscais. Antes, temos convivido com perdas salariais, aumento obrigatório do valor de descontos em nossos salários, condições precárias de trabalho, assédio moral, falta de autonomia e respeito à liberdade de ensino, desvalorização, desrespeito e retaliações contínuas.  Nossos colegas de firmas terceirizadas que prestam serviços são demitidos sem qualquer amparo às centenas, ou seus baixíssimos salários são pagos com atraso e descontos inexplicáveis que os colocam abaixo do piso mínimo determinado pela Constituição.  

            Nesse exato momento, em mais de 50 municípios do Estado do Rio de Janeiro, a política do disfarce da incompetência do governador e de seu secretário de educação dá curso a um Rio de contaminação, morte e assédio moral contra servidores e servidoras e principalmente contra a vida de alunos e alunas e das pessoas em seu entorno, através da reabertura das escolas estaduais nesses municípios. 510.000 mortos de Covid em um ano e meio não ensinou nada a essas pessoas. Nem despertou qualquer empatia em seus corações ou temor pela justiça se ou quando ela vier.