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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Poema: "Acervo", de Erivelto Reis

 Acervo

Erivelto Reis

Guarde esse ano - quase acabando -
Na estante boa das memórias e das saudades.
Mas pode ser que...
Seja preciso guardar alguma coisa
No baú das lições e das tristezas
Uma apostilada caixa de pandora
De vidro transparente
Com as luzes de alerta sempre acesas...

Reserve espaço na estante do novo ano
Para a felicidade do que você produziu:
Guarde o amor que amadurece
a amizade que floresce
a conquista celebrada
os desafios vencidos
a admiração conquistada.

Celebre a saúde, o amor de sua família
O seu mérito nem sempre notado.
Livre-se de bajuladores, odiadores
Dos que romantizam dores.
Desconstrua o que for preciso
Para se livrar de preconceitos
Para não causar dor, sofrimento e prejuízos...

Promova a aproximação
Entre sua sensibilidade e toda forma de arte
Aprenda com bons livros, filmes e exemplos...
Se afaste de deuses infláveis
Comandados por homens frustrados e irritantes...
Guarde a bondade como uma chama,
Uma melodia divina...
Nada de exagerar nos vícios e nas virtudes;

Não é o lugar, é a experiência.
Não aceite que não paguem o que você merece.
E isso não é apenas sobre grana...
É sobre não tolerar formas
Muito ou nada sutis de ofensa...
Pratique o autocuidado, eleve seu amor próprio.
A sua autoconfiança...

O ano novo promete
É a esperança que nos irmana.
Se errou, se desculpe...
Foi perdoado, não vacile...

Monte o seu acervo.
A sua história merece...
De estante em estante
Cada ano que passa
Ajuda a compor a biblioteca de sua vida
Virtual, física, emocional, em PDF...
De instante em instante.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Poema: "Repensar o Natal", de Erivelto Reis


Repensar o Natal

Erivelto Reis

Não seria nada mal
Olhar sem pressa pro Natal...
Olhar bem direitinho!
De uma maneira menos óbvia, pouco trivial.
Para além do senso comum
E dos discursos de consumo e submissão...
Não seria nada mal
Olhar de outra maneira
Pros festejos de Natal:
Enxergando a festa na alma,
Não sob os embrulhos
Ou no empratamento da ceia...
Dando ao Natal novas luzes
Novos ornamentos.
E nada de moralismos toscos
E nada de cara feia...
Não seria nada mal
Que houvesse solidariedade
Para que o Natal
Fosse afinal a partilha
Da igualdade, da equidade e da fraternidade
E não gente má fazendo de conta...
E que os amigos nada ocultos se abraçassem
Com admiração anárquica
De uma família anti-hierárquica,
Que está próxima porque ama estar unida.
Não seria nada mal
Entendermos que o Natal
Não volta, ele se renova
Mas não se repete...
Os que amamos
Um dia faltarão em nosso entorno
E o Natal vai ficando doído,
Distante e morno...
Sem o sentido de reviver e honrar
Os semblantes em recordação
E o exemplo cristão em permanente celebração,
Com os que ao nosso lado estão.
Não seria nada mal,
Repensar a ideia de Natal
Que não passe por diálogo, acolhimento
E respeito às diferenças.
Um Natal em que na manhã do vinte e cinco
Acordássemos crianças de alma:
– mais amados, mais amigos, mais gente!
E com o ânimo para um novo milagre
Que se materializasse num melhor presente...

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Poema: "Escor(r)e", de Erivelto Reis

Escor(r)e

Erivelto Reis

 

Corre um rio de esgoto na porta da escola

Em outras portas de outras escolas

Já correram rios de sangue

Na porta da minha escola

Corre um rio só de esgoto


Se fora da escola corre um rio de esgoto,

Se na esquina da escola

Há um depósito de lixo

Onde são abandonados

Restos de coisas em avançado

Estado de decomposição,

Imagine o odor e a superconcentração

De coliformes dispersos no ar,

Quando o calor seca o rastro úmido

Do esgoto impresso na calçada

Desde a rua até o pátio, a partir do portão.

Corre um rio de esgoto

Na porta da minha escola,

Há moscas varejeiras e cães sem dono

Revirando o lixo ou indo pousar nas refeições

(A não ser em dias de prova,

onde só há a fome dos estudantes e as moscas)

Ainda que em turnos diferentes...

Há esgoto impresso nas calçadas de cimento

Coliformes flutuando e moscas pousando

No quê e em quem puderem,

Espalhando uma contaminação em massa

Que só por milagre ainda não veio.

Em outras escolas há varejeiras e balas perdidas

Na minha escola há só esgoto e moscas.


O dono da casa de onde emerge o esgoto

Não se acha responsável,

A prefeitura do município também não,

A secretaria de educação não se incomoda

E os que nos representam na escola não gostam

De incomodar os que não se incomodam

Com coisas que não sejam

A falta de um professor ao COC

Como forma de protestar contra

O assédio e as práticas desmobilizadoras

Da formação real dos estudantes,

O ataque frontal a autonomia docente

E a má vontade e o amadorismo dos

Indigestores...

Por isso se incomodam!

Corre um rio de esgoto.

Não incomodem os indigestores

Com não haver merenda em dia de prova,

Com um trimestre sem professor de português,

Com professores sem formação e aderência

Em matérias cujas bases ignoram ou desconhecem

Ou porque são disciplinas novas na grade

Ou porque, mesmo das disciplinas tradicionais,

Pouco ou nada sabem

Ou souberam a não ser para passar

Num concurso.

Ou com a necessidade de valorizar e prestigiar

Os bons professores que temos e ainda resistem...

Não incomodem com a reflexão 

A respeito de como a ineficiência 

E as drásticas consequências

De transformar ausência de metodologias,

Falta de acolhimento e assédio

Em problemas relacionais...

Até que professores ou alunos desistam...

Podem ser permanentemente prejudiciais

Até que bons alunos se percam

Da ética, do compromisso, do futuro...

Ausência e um rio de esgoto.

Não incomodem falando a respeito do esgoto

Ou de "projetos" que entendem

Emulação e performance 

como substitutos para 

A construção de habilidades e competências,

Por mais que evasão e provas em branco

E trabalhos não feitos

Ou desrespeito digam que o mal está feito.

Há um rio de esgoto.

Mas vá lá que não seja literalmente um rio.

Apenas um córrego, uma vala...

Mas vá lá que não seja literalmente educação

Mas vá lá que não seja literalmente gestão

Mas vá lá que não seja literalmente aprovação.

Mas vá lá que não seja literalmente aprendizado...

Mas vala...

De um lado, os que podem fazer algo, mas não querem!

Do outro, os que querem fazer algo, mas não podem...

Há um rio de esgoto,

Há um mar de pelegos,

Um mar desacertos,

Um mar de descontroles,

Um mar de desmandos

Que parece não se esgotar...

sábado, 15 de novembro de 2025

Poema: "Sopé", de Erivelto Reis

 Sopé

Erivelto Reis

Estrada é chão que adere
E marca a sua trajetória...

Quem vai tomar conta dos nossos sonhos?
Quem vai sonhar quando todos
Estiverem tendo pesadelos ou dormindo,
Ou se mostrarem apaticamente sonâmbulos?

Quem vai dizer que, se a montanha é alta,

O topo vai mostrar uma vista linda?...
E começar a planejar e executar a escalada,
Em lugar de “vamos acampar no vale
Até que a montanha diminua!”...

Acreditar no sonho,

Por mais que esperem que você não vá,
Não ande, não lute, não fale
É crer por inteiro, de alma nua.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Poema: "Rotina (ou code dress)", de Erivelto Reis

Rotina (ou code dress)

Erivelto Reis

 

Tem um cotidiano secreto

Que ninguém tá vendo!

Tem um cotidiano de fora,

Tem um cotidiano de dentro.

 

Tem uma rotina social

De existir comunitário:

Um plano, um casco,

Um papel identitário.

 

Por dentro, desespero,

Por fora, funcionário.

Por fora, funcionando...

Por dentro devastado!

 

Por fora, calçadão da praia,

Por dentro, o fundo do poço.

Por fora, uma vida inventada,

Por dentro, uma vida vazia.

Por fora, escuta afetiva

Por dentro, nem vem que não te ouço.

 

Há uma portaria de mármore

Fazendo propaganda do prédio

Mas há uma entrada de serviço

Que, ultrapassada,

Gera crise, gera o tédio

Estraga o interesse,

Cessa o apetite...

 

Por fora, bela fachada,

Por dentro, uma obra que não termina,

Difícil reforma...

Que depois de pronta,

Revela ruínas.

 

Tem um code dress:

Por fora, glamour, paletó,

Vestido, perfume e strass...

Por dentro, nu...

Amargura, solidão e estresse.

 

Por fora, nada mal...

Por dentro Bornout,

Por fora, pessoa genial

Por dentro, uma árvore

De produzir o fruto do caos.

 

Por fora, a favor da paz

Por dentro, querendo paz

Por fora, olhar sereno,

Por dentro, vulcão!

Por fora, feliz e pleno

Por dentro, não:

Lava e lágrima em estado de erupção.

 

Sempre a mesma rotina:

Por fora, a felicidade que não cessa,

Por dentro, o sofrimento que não termina.

 

Tem um code dress.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Poema: "Miserável enigma", de Erivelto Reis

 

Miserável Enigma

Erivelto Reis

 

É miserável enigma

Ansiedade

Ver por detrás do tempo

Antecipar o que ficará

Gravado na memória

O que vai virar saudade...

 

É um medo repentino

De que a felicidade seja um trem

Que passe só uma vez na vida

E que seja passageira,

Um presente sem futuro...

A felicidade é um trem

Atravessando um túnel

 

É destino de alguns

Perder o rumo, ser infeliz,

Perder os pais,

Ficar sem par...

Não se encontrar...

E nunca,

quase nunca

Ou nunca mais

Viver em paz...

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Poema: "Mormaço", de Erivelto Reis

 Mormaço

Erivelto Reis

 

Não é a chuva

Mas fica pingando

Sangue

Depois forma uma poça

(Que a muita lama se mistura)

Depois um Rio...

Não é a chuva

Mas fica pingando

Sangue

Daí forma um poço sem fundo

Um oceano de amargura

É sangue jorrando

Longe das casas projetadas

Irrigando projetos e carreiras políticas

Inundando cofres de empresas parceiras

Ondeando paraísos fiscais

Lavando dinheiro

E mentindo que se lavam honras!

Mas é sangue alheio

Jorrando longe

Dos condomínios fechados

Dos carros blindados

Dos amigos influentes

É um mar de sangue

Instagramável

Fluindo de discursos odiosos

São forças de proteção

Colocadas à beira do abismo

Pais e mães de família

Ambiguamente transformados

Em alvos e algozes...

Depois o choro e o lamento

Traumas e dramas e dores atrozes

Depois o escandaloso

Silêncio de uma vastidão

De consciências e de vozes...

Não é chuva

É mormaço e ódio

Por enquanto.

Depois, é muito sangue jorrando...

domingo, 26 de outubro de 2025

Poema: "Enlutados", de Erivelto Reis

 Enlutados

Erivelto Reis
O sistema é todo feito para nos adoecer
Cooptam nossos colegas,
Que sucumbem ante a possibilidade
De se retirar do insalubre
E desgastante espaço da arena
Que se tornou a sala de aula.
Daí, lutamos contra a demagogia,
Lutamos as guerras que nossos
Melhores alunos e alunas travam...
Lutamos contra a cooptação
De seus corações e mentes
Impulsionada pela proposital
Desvalorização da disciplina para o estudo
Em favor da mediana conformação.
Lutamos contra as telas, contra as corporações
Que, em conluio com a administração da educação,
Metem o pé na porta
E nos veem e nos vendem
Como improdutivos colaboradores
Que sua bondosa condescendência* (acento irônico)
Poderá aproveitar de alguma forma...
Na escola que é do povo, na escola que deveria ser nossa.
Lutamos contra o assédio moral,
A superlotação, a falta de recursos,
A mediocridade da gestão local
Acomodada ou emulada...
Lutamos contra aqueles
Que transferem responsabilidades suas
Para os profissionais da escola...
Lutamos ainda mais porque sabemos
Que em algum lugar
Poderá haver gestores vibrantes,
Parceiros e preparados
Para fazer a diferença
E colegas a fim de topar o desafio...
Lutamos mais ainda por
Nos sentirmos sozinhos,
Feridos todo dia um pouquinho.
Lutamos contra as violências simbólicas,
As ameaças no mundo fora da escola...
Lutamos pra fechar o mês,
Equilibrando os pratos e dividindo o nosso tempo
Entre todas as escolas e turmas possíveis.
Adoecemos de medo dos alunos não-estudantes
Que tentam nos intimidar a todo momento...
Adoecemos de saudade dos que amamos
De não ter tempo pra pensar neles
De não ter tempo pra pensar em nós...
Lutamos contra a avalanche de burocracia,
Contra a puxada de tapete sórdida e inescrupulosa...
Lutamos contra a judicialização, demonização
De qualquer ação pedagógica
E contra a glorificação do óbvio
E a didática da preguiça.
Lutamos tanto, que até quando estamos felizes
Estamos preocupados
E quando estamos tristes
Damos o nome de domingo à noite.
Ou de semana inteira...
Lutamos e vamos nos calando
É ao nosso velório que assistimos
Diante das lutas que travamos.
Lutamos contra a ingratidão,
Lutamos contra a falta de ética,
Lutamos de coração partido
Quando reconhecemos
Resquícios de um amigo
Na imagem do novo opressor...
Quando percebemos
A hipocrisia gritante de cobrar de nós
O que nunca fez
Ou não seria capaz de fazer,
Ainda que apoiado como não somos,
Munido de uma cadeira, um cargo
E um livro de ponto...
Lutamos contra os analógicos
Que mal organizam murais...
Ou mal formulam frases!
Ou que vomitam frases-feitas,
Oriundas de almanaques ou de tik-toks
E exigem de nós aulas mais atrativas.
Daquelas que nem com toda condescendência
Seriam capazes de produzir.
Lutamos contra pessoas que pararam de estudar
No dia exato em que passaram num concurso...
Lutamos contra os que se encastelam
Nas salas da direção
E de lá pensam que a escola
Faz parte de seus domínios
E por ela andam fantasiados de patrão.
Lutamos contra os compadrios,
Lutamos contra o isolamento
A que nos relegam se pedimos
Que reflitam, que repensem,
Que revertam decisões arbitrárias
E antidemocráticas e antipedagógicas...
Lutamos contra seres e forças que de fora da escola
Movem os fios invisíveis da performance
De seus títeres.
Lutamos o tempo todo.
Lutamos contra a maldade
Dos colegas que nos veem lutando
E secreta ou abertamente
Dizem: “lá vai o doido!”
Lutamos contra o jogo duro,
Lutamos contra o corpo mole,
Lutamos contra a falta de acolhimento,
Lutamos contra os que tornam
O nosso ambiente de trabalho
Tóxico e nocivo
E ainda têm coragem de cobrar a nossa empatia...
Lutamos porque não existe milagre!
Mesmo que os institutos e editoras
E empresas privadas prometam realizá-lo
E ganhem para isso rios do nosso dinheiro...
Nossa luta é pacífica,
Mas não é menos luta
Ou menos dramática por causa disso...
De tanto lutar, estamos exaustos,
Exauridos, enlutados...
Tão feridos, empobrecidos
E cansados, que dentre as coisas
Que queremos e não nos dão
E que não temos
Está mesmo um “muito obrigado”.
Percebem o tamanho do abismo?
Percebem agora
O tamanho do estrago?

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Poema: "Dos cemitérios verticais", de Erivelto Reis

 Dos cemitérios verticais

Erivelto Reis
Quando você passar na rua,
(Em qualquer rua)
É melhor reparar direito!
Não há mais uma escola pública...
Há um prédio público
Com uma gestão privada no meio.
Desde a merenda, à sala de leitura,
Passando pelos equipamentos,
Pelos livros didáticos, até a hora do recreio...
O que se come, o que se veste
Como são tratados
Os funcionários públicos
Ali lotados, sobreviventes...
Os terceirizados aterrorizados
Com os descontos no contracheque
Com a ausência de garantias trabalhistas
E o volume de trabalho crescente.
Os estatutários, desconfiados,
Tentando entender a repentina
Mudança de humor e de postura ética
Dos ex-colegas que viraram títeres-gestores
Mas que agem e se comportam
Com a desfaçatez autoritária dos donos e dos chefes.
Na escola pública, por enquanto,
Apenas o prédio, conteiner, depósito
É público de fato.
Já vimos esse filme com o petróleo,
com a energia, com as estradas,
com os aeroportos... até com a água...
Depois, em muito pouco tempo,
Não nos pertencerão nem os prédios,
Não sobrarão nem servidores públicos,
Nem isso mais ao menos...
Quem passar na rua
E olhar pra escola, pro colégio público
Vai estar vendo só o prédio
Verá um biscoito sem recheio,
Um automóvel sem estepe,
Um cemitério de soberanias,
Um esquife de cimento e esquecimento...
Um prédio público
Com a escola pública sendo privatizada,
Desmantelada...
Com sua função social e democrática
Sendo sepultada por dentro...

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Poema: "A dura lição do saeb", de Erivelto Reis

A dura lição do saeb

Erivelto Reis


Não é na Sorbonne

Suborne pro saeb

Saber o que todo mundo

Já sabe

Suborne pra o saeb esconder

O que todo mundo já sabe

Ofereça passeios, viagens,

Lanches - livros não servem!

Uma avalanche de propinas,

Gincanas para maquiar a nota

Se for pouco ou nenhum o aprendizado,

“Quem é que liga, quem se importa?”

Pra livrar a cara de quem não sabe,

Pra livrar a cara de quem não ensina,

Pra esconder que o aluno não frequenta,

Pra esconder que o aluno não respeita,

Pra esconder que o aluno não liga...

Enquanto quem denuncia esse horror

Só se prejudica...

Pra esconder que o governo, o diretor ou a família se ausentam

Se isentam, se inocentam, sobrecarregam

E culpabilizam quem trabalha na sala de aula

Superestimam quem veste a camisa

Não a da escola, mas a de sua confraria

Me diga o que você faria...

Quando quem em lugar de dirigir

Ignora a importância, a trajetória, a formação e assedia?!

E quem poderia te ajudar, se cala...

Por um lugar melhora na escala

Pra não sofrer na pele o que fazem contra você...

O governo sabe que nesse modelo não se consegue

Educar de verdade, educar pra autonomia

E não para a exclusão e servidão

O saeb sabe

Todo mundo sabe como termina:

Aprovação total numa canetada

Ou uma avalanche de assédio moral

Sob pretexto demagógico, inócuo e burocracional.

O aluno te olhando atravessado

E os colegas dizendo que você

É estranho, esquisito, excêntrico,

Esnobe e amargurado.

Há tantos discursos pra justificar...

A simulação do educar.

Não precisa questionário nem consulta

Basta ver um monte de gente adoecendo,

Desistindo da profissão,

Sofrendo sem pedir ajuda ou

Pedindo apoio e sendo ridicularizado e hostilizado...

“Não trabalhe para não sofrer

E se sofrer, faça o favor

De se acabar calado!”

A escola já sabe,

A vida não ensina!

Não é na Sorbonne...

sábado, 18 de outubro de 2025

Poema: "Cuspe", de Erivelto Reis

 

Não é a saliva escorrendo,
Não são os caninos à mostra,
Não é a desfaçatez
Nem o sarcasmo documentado.
Não é a instransigência,
Não são os capuzes e as tochas,
O segurança andando atrás de nós
Como se o mundo fosse uma grande loja,
Como se a educação fosse um grande varejo.
O cuspe não disfarça o nojo,
O cuspe não disfarça o medo,
O cuspe não disfarça o ódio.
Faz alvo da tez que lhe desagrada
Quando alguém fura a sua bolha,
Muda tudo, muda a regra do jogo...
Não é o Cérbero pensando ser São Pedro!
É a busca por uma justificativa
Indisfarçável...
A cascavel sem chocalho dando o bote
É o cuspe na cara da ordem
É o cuspe na alteridade
É o cuspe na legalidade
Não venham dizer depois
Que qualquer um dos pobres
e pretos e desapadrinhados
Não sabem os códigos tácitos, implícitos
Escritos nas paredes, nos corredores,
Nas fachadas e salas de aula
De certos tipos de miniversidades.
Todos nós sabemos os limites outros
Que nos são impostos e que teremos de transpor
Aceitar insulto como um favor,
Ameaças como avisos,
E humilhações como idiossincrasias
De discursos indiretos
De sujeitos ocultos e mal resolvidos...
Verdade é que encontramos
Os que nos compreendem e respeitam,
Mas... aqui e ali,
Criaturas horrendas nos espreitam.
Nos tratam como invasores
Que vieram andar nos seus brinquedos
Que vieram andar por seus domínios
Mas que se recusam a ir embora
No começo de um novo dia
Ou no fim de uma longa tarde.
Porque vemos que casa pode servir
Para construir um futuro
Mais digno, mais voltado para o coletivo...
Inspirados pela democracia e pela liberdade.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Poema: "Shiuuu!!!", de Erivelto Reis

Shiuuu!!!
Erivelto Reis

A solidão,
a distância e o desprezo,
E tudo que transcende
A compreensão mínima
Da ética
Têm voz humana.
E se não fala, faz gestos,
Mímica
Mimetiza
Emula
Animais de sombra...
Zomba do sonho
Limpa o sangue na manga
Já ensopada de pus!
É um esgar gutural
Como se a tumba
Do submundo fosse aberta
E de lá não parasse nunca mais
De jorrar o caos.
A única coisa natural no mundo
não ética
tem voz humana...

Shiuuuu!!! 

Poema: "Reflexões sobre cupins", de Erivelto Reis

 Reflexões sobre cupins

Erivelto Reis
O cupim habita a casa,
O cupim sabota a casa,
O cupim é hipócrita:
Está na casa
Mas não gosta dos que estão
Na casa em outra função.
O cupim é um bicho
De asas temporárias,
Simpático apenas às traças,
Mas que pensa que se iguala às águias.
O cupim é sorrateiro
Parasita a estrutura,
o trabalho do hospedeiro...
Da toca onde sai,
Até a construir o vazio
No que antes dele era sólido
E depois dele só casca e ruína,
Quanto rancor!
De não ter casulo e de não ser
Borboleta, abelha, libélula
A latrina e o que nela deposita
É o que alimenta o seu organismo
A sua sina.
O cupim só tem ego se lhe emprestam uma cadeira,
Nem escrúpulo, nem vergonha, nem coerência
Cego, se lhe mostram o estrago que faz
Surdo, se lhe pedem que pare,
Só para quando a casa desaba,
Quando os moradores se evadem,
Cupim é bicho covarde!
Tão insaciável quanto preguiçoso...
Ambicioso ao ócio,
Avesso ao esforço,
Que anda solto por aí
Fazendo estrago em toda parte.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Poema: "Os bem-aventurados", de Erivelto Reis

 Os Bem-aventurados 

Erivelto Reis

Os que os preguiçosos admiram
E os que os maldosos ignoram
Bem-aventurados os que os criativos conhecem
E o que as criaturas imitam
Bem-aventurados os que tendo o que dizer, ouvem
E os que quando falam encantam
Bem-aventurados os que com poder ponderam
E os que expõem o imponderável dos déspotas
Bem-aventurados os amáveis,
Os sensíveis e os fraternos
Bem-aventurados os que falam a verdade
Os éticos, os que não mandam recado...
Bem-aventurados.
Os poetas, os pacíficos,
Os que educam,
Os que têm alma intensa,
Propensa aos sustos
Que a emoção provoca.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Poema: "Soft, ué?!", de Erivelto Reis

Soft, ué?!

Erivelto Reis

 

O burocrata é uma máquina

Que não dá defeito

(Ela é o defeito!)

Uma ia sem i

Só artificial mesmo...

O burocrata parece

Feito de pedra

Mas é feito de gosma.

Rosna com o formulário

Desenterrado do fundo da gaveta,

Arrancado do armário

Pra esfregar na sua cara

(Enquanto você faz uma careta).

Ele ama que você se sinta inseguro

Ele ama ver você precarizado...

Tipo um cão que ladra

E que morde o subordinado,

Enquanto abana o rabo

Para os seus benfeitores.

Um burocrata é um panaca

Que corta a fita da obra alheia

No dia da inauguração.

Tem fetiches de fazer

Orgias com memorandos

E portarias.

É um qualquer...

Um erro de design e de hardware.

De pedra é só o seu coração...

E de lama, que arremessa

Contra qualquer reputação.

Quer a sua educação, o seu acolhimento

Enquanto assedia e faz você passar

Pelos seus piores momentos.

O burocrata lê os números

Com a precisão com que

As videntes leem mãos.

O burocrata é uma máquina

Que não dá defeito...

Efeito colateral do sistema,

O burocrata é máquina:

É de quebrar e quebra

Cérebro de lata,

Software de merda.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Poema: "Eutanásia", de Erivelto Reis

 Eutanásia

Erivelto Reis

 

Fantasiar amar

(Como um fantasma)

Como um conto

Uma fábula, uma falácia

Um discurso,

Sem ações, só em palavras!

Em emulações várias.

Como falsário a imitar um Rembrandt,

Um conselho de mãe,

Um Portinari,

Uma obra da Frida Khalo,

Um fragmento de Gabo,

Um anticlímax de Machado,

Um texto de Rubem Braga...

Um estelionato emocional, passional,

Simular amar, em perene heresia,

Piromania, pirotecnia...

Para desconstruir o outro

Para demolir a casa...

Perpetrar o amor a outrem

Como se praticasse eutanásia.

sábado, 14 de junho de 2025

Poema: "Geo(i)lógico", de Erivelto Reis

 Geo(i)lógico

Erivelto Reis

O Rio de Janeiro

É um oásis que brotou nos trópicos

Um estado equinóstico

Equatorial

Um exótico manancial

Um paradoxo tipicamente caótico

Entre paisagem celestial

Ecumênica

E uma geografia surreal

É um arquipélago antimonótono

De falésias favélicas

Subúrbios rurais

Periferias abissais

Permeadas por histórias

E culturas por todos os lados

É um quadro de Dali

Assinado por Picasso

O Rio de Janeiro

Permanentemente geo(i)lógico

É uma miragem

Que nasceu nos trópicos

Da qual estamos mais distantes

Quanto mais nos sentimos próximos.

domingo, 8 de junho de 2025

Poema: "No sense", de Erivelto Reis

 No sense

Erivelto Reis

 

Não é nem ao menos o medo de morrer...

É medo de não ter o que dizer,

Se eu tiver que justificar

O momento que atalhei,

Que me perdi

Ou o quanto demorei pra

Retomar o caminho.

É um medo da falta que vou fazer

Pra gente que eu nem sabia

Que ia sentir minha falta...

E o medo de não fazer falta alguma

Pra gente que tinha um apê, um airbnb, bem aqui

No lugar que parou de bater.

É medo de ser numa sexta,

É medo de ser na data de um aniversário,

No dia de uma formatura,

No dia de alguém importante

Para um grupo social mais relevante.

Não é medo de morrer propriamente,

É medo de não poder mais cuidar do quintal,

É medo do outro espaço

Ser um deserto espiritual,

Ou um oásis para o qual

Eu não tenha passe vip ou preferencial.

Ou pior:

Ser um céu inalcansável,

Um não-céu no sense,

Um areal de escombros,

Um lodaçal de pessimismos,

Cheio de pensamentos intrusivos,

Remorsos terrenos...

E de coisas que continuem me fazendo mal.

Não é medo de morrer exatamente

É medo do extrato com saldo negativo

De uma vida inexpressiva e banal!

Uma desvida caricatural...