A primeira pessoa que conversou comigo sobre Lula foi minha saudosa professora de matemática, a querida Suely Moura (uma professora formada em Matemática pela UFRJ e graduanda em Psicologia pela Gama Filho naquela época). Ela promovia eventos culturais na escola. Foi uma das professoras que tentou a implementação do horário noturno e atuou nele pelo breve tempo em que ele existiu. Depois, se apaixonou pelo bairro e veio morar por aqui. Foi também diretora de nossa escola. Era o ano de 1987. Ela explicava alguma coisa sobre aprovar a Constituição. Me lembro claramente que ela dizia que era discriminada por ser uma mulher negra que acreditava num político de São Paulo que tinha sido metalúrgico e que havia fundado um partido que pensava nos trabalhadores. Dizia inclusive que um artista que ela idolatrava, Chico Buarque, (que ela só amava menos do que o Caetano) era favorável a essas ideias. Acreditem: ela passou pra minha turma a tarefa de criar uma lista com os nomes do presidente e dos ministros divididos por pastas e por atribuições e de entrevistar alguém ligado à política (líder de associação de moradores, um político local). Nós conhecíamos o senhor Paulo Freitas, que era um homem respeitado em nossa vizinhança e cujo pai tinha sido um importante líder comunitário, trazendo ou ajudando a trazer uma linha de ônibus e a escola estadual para o nosso bairro. Suely Moura analisava canções como as da Legião Urbana, especialmente Angra dos Reis, Que país é este? e Vento no Litoral, sua preferida. Ela também levou pra gente ouvir juntos em aula: O Guri, do Chico Buarque; Eu não sei dançar, da Marina Lima e Ela e Eu, do Caetano Veloso, na interpretação da Bethânia. Era entusiasta do livro O Alquimista, do Paulo Coelho. Dizia que a gente devia buscar aprender e saber mais coisas e coisas diferentes daquelas que nossos pais sabiam e podiam ensinar. Eu fui aluno do Colégio Estadual José Bonifácio. Minha professora de Português, a querida Maria Teresa, também falou de Lula quando trabalhou em sala de aula as canções do Cazuza do álbum Ideologia (trabalhou essa música e o Blues da Piedade, que inclusive caiu na prova). O professor Edson, de Redação e a professora Naísa ensinavam o pensamento sobre o Brasil, trabalhando poemas e crônicas. A professora Solange de Geografia, trazia fitas k7 que me emprestava, com músicas internacionais, clássicas e contemporâneas, especialmente uma gravação do Kitaro. A professora Simonie emprestava livros (Brida, Admirável mundo novo), falava das relações de trabalho ao longo da História e de como as guerras começavam. A professora Sandra Guimarães falava que havia perto de nós uma Universidade (UFRRJ) que poderia mudar a nossa vida pra melhor quando terminássemos a escola. A professora Solange (que tinha sido merendeira e se formou em História) foi a primeira a me explicar o que era a direita e a esquerda e o que significava um pensamento voltado para a prática ditatorial num governo e nem foi na sala de aula, foi numa conversa no corredor. O professor Oswaldo, de Organização e técnicas comerciais me deu uma Constituição de presente, um mês depois da promulgação da Carta Magna. A professora Fátima me ensinava matemática de uma maneira que eu conseguia entender. Foram professores e professoras que me apoiaram como cidadão através da educação. A inflação era de 89% ao mês, estávamos ainda a caminho da primeira Constituição e à caminho da primeira eleição direta para presidente. E os professores e professoras que tive na educação pública me ajudaram e acreditaram em mim, conversaram comigo, me ouviram e me inspiraram. Pouco se falava em notas. Buscava-se ensinar. Dialogar.

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