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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Crônica: "Tipinho", de Erivelto Reis

Tipinho

Erivelto Reis


Tipinho é clássico:
Privilégios só para os seus "chegados", carteira de favores a perder de vista, meritocracia, seu esforço sobrenatural jamais visto e igualado em toda a face da Terra fez com que ele merecesse julgar os esforços dos demais e estar onde pensa estar.
Tipinho é clássico:
se o cartão de crédito falassse, choraria por sua pobreza real; acredita que financiamento compra tudo, até reputação; moralista. Seus livros de cabeceira (se e quando os lê), só têm capa, fórmulas niilistas de autoajuda e reforço às suas convicções tacanhas e medievais.
Tipinho é clássico:
a vingança permanentemente em ebulição por ter sido preterido quando se julgava o protagonista; o enlevo pelo senso comum, a sabedoria de quem nunca vai além do post ou da manchete. A confiança de quem a vida toda se acostumou à última palavra, de quem provou seu ponto corrompendo o agente de trânsito, escondendo o gato de energia elétrica, passando a caixinha de leite ou de cerveja sem pagar à vista de todos na parte inferior do carrinho de supermercado.
Tipinho é clássico:
um sargento, um político, um empresário, ou alguém que possa simular autoridade nos contatos de discagem rápida no celular ou no whatsapp, um chip pra policiar a companheira e bancar o cara de família e outro pros seus fetiches, pras figurinhas, pros reels proibidões e pros contatos secretos de sua libido desleal e, às vezes, criminosa.
Tipinho é clássico:
não foi o mais bacana nas festas, nem a rainha do baile, nem o amigo fiel de ninguém que não lhe pudesse oferecer alguma vantagem, desde um álibi insólito até um empréstimo a perder de vista.
Tipinho é clássico:
radar pra corrupção alheia, menos pros seus bens em nome de laranjas, ou pras notas compradas ao contador de sempre no momento da declaração de imposto, a sonegação premiada, o dedo-duro, o assediador com um troféu de melhor em alguma merda irrelevante, um mba de brinquedo ou orgulho de selfman, selfwoman vocacionado/a.
Tipinho é clássico:
cabeceira da mesa, benção de beija-mão, todo mundo lhe deve alguma obrigação só por estar no mundo. Gorjeta vai com "não mereceu" e a esmola é um não vou sustentar vagabundo. Professor é serviçal, prestador de serviço tem de dar graças a Deus de trabalhar pra ele e empregada é quase como se fosse da família.
Tipinho é clássico:
maldoso, ardiloso, cínico, frio e calculista. Colérico contra os mais fracos e sedoso diante dos poderosos. Sua assinatura não vale um níquel, suas palavras nem o vento leva...
Tipinho é clássico:
vontade de poder, vontade de ter pra tentar ser e não precisar saber e nem se arrepender. Tudo que toca pode virar uma arma. Qualquer pessoa pode virar um subterfúgio ou um alvo pra tergiversar suas contradições, suas ofensas e seus desafetos.
Tipinho é clássico:
é um tipinho apenas.
Mas é perigoso como uma doença.