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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Poema: "À beira do caminho" - Erivelto Reis


“À beira do caminho”
Erivelto Reis

 
E eu te diria assim…
Coração calado bate contrito
Descompassado, rápido, fora de ritmo,
Sem sombra e água fresca
Ou mão amiga
Mesmo que uma força
Desesperada e louca grite:
“Prossiga!”
É estranho e diferente
Me vejo assim completamente
Barco à deriva
Não naufraguei ainda
Mas ancorei a vida com sua partida
Me vejo o tempo todo enrodilhado
Absorto em suas lembranças
Me pauto, movo e comovo com suas histórias
Faz falta a sua voz, o seu exemplo e o seu carinho
Todas as horas do dia, eu sinto a sua partida
Parece que fiquei à beira do caminho
Você me ajudou, me amou e me preparou
Para a minha batalha
Choro sua ausência, com dor e sem disfarce
Levando seus ensinamentos,
Não importa quão forte seja o vento,
Por onde quer que eu passe.

Poema: "A ilha" - Erivelto Reis



A ILHA
Erivelto Reis
“... Porque seu coração é uma ilha a centenas de milhas daqui.”
Djavan

A ilha submerge se não a habitam?
Ou flutua inerte aos que a visitam?
A ilha deserta não endereça,
Não interessa,
Não adereça, por incrível que pareça,
Correspondência sem procedência.
Estive ontem, hoje... e amanhã estarei,
Por isso posso dizer que moro lá!
Não ouso dizer que sou a ilha,
Embora seja parte dela:
A parte que não flutua,
Em que pássaros não pousam,
Em que sombras surgem
Sem a presença de luz...
A ilha guarda o que acumula
Ou aguarda o mar que a emoldura?
O mar é a voz que vem da ilha,
Ou a ilha é o silêncio que o mar espera?
Quem me dera ser só ilha,
Quem me dera ser só onda,
Quem dera ser hoje,
Meu próprio itinerário de fuga,
Meu antiancoradouro de ira...
Quem me dera,
Em meio ao oceano
De algas, lágrimas e rugas,
Ler a resposta à carta de um náufrago
Que alguém enviou à ilha.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Poema: Bisturi - Erivelto Reis



Bisturi
Erivelto Reis

A carne cortada sangra e dói
O lábio ferido sangra e dói
A pele furada sangra e dói
A palavra rasgada, interrompida,
Calada, mutilada
Sangra, silencia e dói...
Entedia, mitifica e confunde a ideia
De que dividindo a dor
Ela se multiplica
Ou se reduz à metade.
O sangue estanca, mas não para de pulsar...
A palavra estanca, mas não para de pulsar...
Tudo, todo (s), cada em toda arte:
Sangra, dói
E morre um pouco quando parte.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Poema: Éter - Erivelto Reis



Éter
Erivelto Reis

Não se guarda o heterônimo dos deuses,
Até que eles iniciem a vingança...
Foi quando, então, senti
Netuno esvaziar-se de mim:
Surgido entre os vagidos,
Os sufrágios e os naufrágios
Da descoberta do que em mim não mente,
Mas que minto, mito do que sinto
E sei que muita gente sente.
Apólogos ensaiados, sorrisos de mecenas,
Ilude-se o bardo, o persa, o grego,
E o oriental humano, espelho de um sol diferente.
Vá cuidar de obedecer a tudo, a todos,
E provar do manjar dos dissabores
Apertar a mão dos seus sabotadores...
E vai rir de um deus desumano
Que não tem memória, mas não te perdoa
E não cura tuas dores.
Vai procurar entender de Pessoa,
De Dante, Cervantes...
Vai pensar que o desato
Era mais seguro do que antes.
E vai se perder de si mesmo,
Até que não reste nem mesmo lembrança.
Não se guarda o heterônimo dos deuses,
Até que algum dia,
Algum deles inicie a vingança...


domingo, 3 de novembro de 2013

Poema: "Banca" - Erivelto Reis

BANCA
Erivelto Reis

Vários alunos entregaram monografia esta semana
Eu os vi e ouvi seus comentários:
Felizes, exaustos, recompensados, aliviados...
Não sei se sabem que escreveram
A carta de descobrimento de seu futuro
Ou dos muitos futuros que poderão escrever.

Já não são apenas nossos alunos.
São nossos colegas,
Escritores, pesquisadores
E acadêmicos.
Eu, e alguns mais,
Ainda os vemos de outro jeito:
São pássaros que alçam voo,
Navegantes em busca de continentes,
Crianças alegres e inocentes
Brincando de imitar os parentes.

O exercício da profissão os fará mais fortes.
Admito que os admiro
E que olho para eles com orgulho e respeito.

São pessoas que professaram seu amor à Educação,
Que abraçaram e lutaram com o mesmo empenho,
Com a mesma sede e a mesma confiança
Dos que beberam na foz de um rio
Que não seca nunca.

Poema: "On the rocks" - Erivelto Reis



ON THE ROCKS
Erivelto Reis

À medida que derrete o gelo
Tramo meu drama
Traço meu apelo
Embaralho as cartas remarcadas
Não vejo que consumo, sob consenso,
Em ebulição ou em sossego,
A minha última cartada.

À medida que derrete o gelo
Que torrente de emoção,
Concorrente da razão,
Disfarça-se como espetáculo patético?

À medida que derrete o gelo
Listo uma procuração à alma
Confiro a quem de direito,
Um eito do que há em mim,
De bom ou de ruim...
Reparto silêncios,

 À medida que derrete o gelo,
Revejo meu itinerário,
Delego bens e maldades,
Mentiras e verdades,
Acusações e desculpas,
A quem se recusa, me agride
E se oculta,
Reflexivo, refratário,
Na partilha íntima,
Lúdica e telúrica
De perdas e pedras
Das dores do meu inventário.