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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Poema: "Ruflar", de Erivelto Reis

 

Ruflar

Erivelto Reis

 

É porque amamos muito

Que perdemos tanto

Quando o mínimo que esperamos

Não está no fim do romance

Que nos lê...

Só resta virar a página,

Enlutar-se, esquecer.

 

É porque sonhamos muito

E queremos algo que é tão raro:

Um outro ouro puro

E primordial...

Um gesto, um tempo, um perfume,

Um sabor, uma palavra, um som essencial.

 

Eu estava aqui tão atento a tudo

Que nem notei você saindo.

Estava lutando, mesmo estando de luto...

Eu estava voando tão alto

Que nem me senti caindo.

 

É porque sonhamos, amamos e queremos muito

Que aquilo que ainda houver,

E o que tiver havido

Não sacia...

É uma reação tardia,

A uma casa vazia,

Em perpétua quarentena.

Pássaro sem asas,

Ruflar de dar pena.

 

Eu estava voando tão alto

Que nem me senti caindo...

Eu estava imaginando o céu

No exato instante em que desabei no abismo.

 

domingo, 19 de setembro de 2021

Crônica: "Uma historinha sobre Paulo Freire", de Erivelto Reis

 

            Uma historinha sobre Paulo Freire

            Erivelto Reis

                       

 

            Um dos momentos mais emocionantes na minha formação como professor nos bancos da graduação ocorreu em um evento em homenagem a Paulo Freire. Curiosamente, também foi nesse evento que testemunhei uma das grandes violências intelectuais contra o professor Paulo Freire.  

            Esse momento dual que vivenciei contribuiu enormemente para um breve vislumbre da real situação da educação, área em que eu sempre desejei atuar, e para a percepção dos desafios reais a que eu seria submetido como pesquisador e professor, desde o primeiro semestre de meu ingresso na faculdade, na área de Letras.

            Esse fato ocorreu em um evento em homenagem a Paulo Freire, que contaria com a aula magna do proferida pelo professor Moacir Gadotti, presidente do Instituto Paulo Freire, um intelectual de altíssimo nível e um grande amigo do Patrono da educação brasileira.

            Durante todo o mês que antecedeu à palestra, a minha faculdade fez divulgação; os professores e professoras davam exemplos, comentavam artigos; a rede de leitura que havia prescrevia a leitura de Pedagogia da autonomia, o professor e filósofo Flávio Pimentel, na disciplina Filosofia da Educação, nos orientava para o que deveríamos questionar ao lermos a obra e tomarmos conhecimento do pensamento do autor. Muitos/as professores/as experientes, especialmente as que tinham construído carreira também na educação básica, nos falavam de casos pontuais ocorridos em sala de aula em que os métodos e ensinamentos freirianos os/as tinham ajudado e, naturalmente, os seus alunos e alunas haviam sido beneficiados.

            Mesmo antes de ingressar na faculdade, eu sabia que Paulo Freire era importante. Eu sabia que ele havia sido preso. O poeta, meu amigo, Primitivo Paes me contara da mobilização no interior de São Paulo, em prol da alfabetização de adultos operários, desenvolvida a partir do trabalho e do exemplo de Paulo Freire. Eu havia lido no clássico livro de poemas de Thiago de Melo, Faz escuro mas eu canto, com diversos poemas compostos quando o poeta amazonense encontrava-se exilado no Chile, em 1964, o poema “Canção para os fonemas da alegria”, dedicado a Paulo Freire.

            Em resumo, todas as referências de gente que eu admirava, de meus professores e professoras, do pouco que eu conhecia como leitor sobre a vida de Paulo Freire inflamavam em mim as melhores expectativas por aquele momento.         Além do fato de que, por muitos anos, eu aguardara para realizar o sonho de entrar na faculdade e cursar Letras e aquela seria a primeira aula magna de que participaria como estudante. E seria justamente uma aula sobre um professor conhecido no mundo todo e cuja figura eu associava à defesa da educação fraterna e libertadora dos mais pobres e oprimidos e que surgia em meu imaginário, fosse pela poesia de Thiago de Mello, fosse pela fala dos meus professores e professoras, como um Quixote contra a opressão, um nômade em prol da sabedoria, um Betinho da Educação. Na minha ingenuidade, eu achava que ninguém poderia vir a atacar ou teria motivos para a atitude  de desmerecer aquele professor e sua trajetória. Ledo engano.

            Chega a noite da aula magna, auditório lotado, direção da faculdade presente. Todo um protocolo solene para receber o ilustre palestrante. O Professor Moacir Gadotti começa a proferir a aula, lembrando a trajetória e algumas das experiências de Paulo Freire. Projetam-se imagens de Paulo Freire mundo afora, alternadas em dois momentos bem característicos: abraçado e acolhido pelos mais humildes e reverenciado no mundo todo por intelectuais, magníficos reitores de Universidades Históricas e importantíssimas, políticos importantes ligados aos movimentos populares, presidentes de países desenvolvidos, e até mesmo por reis e rainhas.

            Naquela noite, algumas histórias de medo, desafios e inseguranças que Paulo Freire teve que enfrentar aqui em seu próprio país também foram contadas.

            Era incontestável a importância de Paulo Freire para a educação no Brasil e no mundo. No entanto, a violência intelectual a que me referi no início desse texto, se deveu a um grupo de alunos e alunas que no fundo do auditório dizia coisas como: "velho comunista" - algumas fotos de Paulo Freire eram ao lado de políticos notada e reconhecidamente associados à esquerda e às causas populares, tendo sido ele próprio um político, secretário de educação na cidade de São Paulo, na administração de Luiza Erundina, do Partido dos Trabalhadores.

            Ouvi ainda coisas: "aposto que está rico com o dinheiro desses pobres coitados", assim que imagem de Paulo Freire rodeado de crianças, em uma "escola" do interior do interior do Brasil, sem paredes e sem qualquer mínimo recurso de infraestrutura para sua função de escola, apareceu no telão. E não adiantava dizer que Paulo Freire dedicou sua vida, correu diversos riscos ao contrariar os poderosos, os militares, os corruptos. Os insultos irreproduzíveis aqui continuaram durante toda a palestra.

            Aquela situação foi de uma crueldade e de uma violência traumatizantes e reveladoras dos inúmeros desafios que dali para diante eu precisaria enfrentar como educador adepto da pedagogia da autonomia, da pedagogia da fraternidade. O tempo, infelizmente, se encarregaria de provar que minha preocupação era legítima.

            Após a aula, no espaço dedicado aos comentários de professores/as e alunos/as, a cada comentário elogioso que destacasse a importância de Paulo Freire, o mesmo grupo de alunos e alunas no fundo do auditório permanecia irredutível e nada os demovia dos comentários sarcásticos e agressivos contra a memória e o legado freiriano.

            Notem que não era uma posição baseada em nenhum contraponto pretensamente teórico, como eu teria a oportunidade de testemunhar algum tempo depois, num evento na Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro, que contava com a presença da professora Nita Freire, viúva do educador. Também nessa ocasião, alguns insultos foram proferidos, a despeito do reconhecimento mesmo dos desrespeitosos interlocutores à obra de Paulo Freire.

            Lembrei-me, naquele dia, da frase célebre do professor Darcy Ribeiro que afirmava que havia um projeto para que a educação não prosperasse no país. Ao perceber e testemunhar, mais uma vez, o ataque à memória, à obra e à trajetória de Paulo Freire entendi que o perverso projeto a que o professor Darcy Ribeiro se referira, basicamente poderia ser resumido em três eixos: a) não deixar educar; b) dificultar ao máximo a quem eduque; e c) atacar e desvalorizar os/as educadores/as, sua formação e sua biografia, mantendo-os/as tensos/as e inseguros/as e sempre justificar a insanidade e a violência dos ataques com a pretensa defesa dos interesses dos/as educandos/as.

            Voltando à aula magna: terminada a conferência, muitos alunos e alunas correram para voltar pra casa depois de um dia exaustivo de trabalho, felizes com a magnifica aula. Aqueles/as, do grupo que manteve-se fechado ao que era ensinado e insultando o educador, se foram ainda debochando e afirmando que se não fosse pelas horas de atividade complementar jamais estariam ali. E os/as alunos/as, como eu que podiam aguardar, entraram na fila para cumprimentar e solicitar uma foto e um autógrafo do maravilhoso professor Moacir Gadotti.

            Quando chegou a minha vez, todo formal, agradeci ao professor Gadotti e falei a ele, brevemente, da importância daquele que era o meu primeiro grande evento acadêmico. Disse a ele que eu era garçom, mas que sempre quis ser professor e que me comprometia com ele a, a partir daquele momento, tentar colocar em prática na minha carreira, ainda em construção, a pedagogia da fraternidade e da autonomia que percebi no relato sobre a vida e a obra de Paulo Freire. Ainda formalmente, estendi a mão para um cumprimento ao professor Gadotti, que sentado à mesa, acabara de me autografar o folder do evento – eu não tinha dinheiro para comprar um exemplar de um dos livros à venda naquele dia –, ao que ele levantou-se e disse:

            – Me dá aqui um abraço. Por mim, em apoio a um futuro colega de profissão. E, certamente, porque seria essa a atitude de Paulo Freire, diante de uma história como a sua.

            Salve o centenário de Paulo Freire, o educador que nos ensinou a buscar e valorizar a nossa liberdade e a não desistir de encontrar a nossa felicidade.

sábado, 18 de setembro de 2021

Poema: "Reglus", de Erivelto Reis (Homenagem ao Centenário de Paulo Freire)

 

Reglus

 Homenagem ao Centenário de Paulo Freire

 (a partir de Ferreira Gullar e Thiago de Mello)

 Erivelto Reis

 

Ao menor sinal do seu nome,

Que o opressor se esgueire

Que brotem flores de esperança

Por léguas e mais léguas,

Em todo e qualquer alqueire,

Em cada pedaço de chão,

Patrono da Educação,

Nosso amigo, nosso irmão,

Professor Paulo Freire.

 

Seu nome é a Pedagogia precisa

Para quem quer autonomia,

Para quem está oprimido...

Que a sua história e sua luta,

São lume que nos libertam,

Inspiram-nos a mudar nosso destino,

Para que a vida melhore,

Para que ela se ajeite...

Exemplo de retidão,

Professor Paulo Freire.

 

Seu nome é símbolo,

Da importância de ler o mundo

E conquistar independência

É bússola que indica o rumo

É errância, sensibilidade, competência.

Eis um defensor da infância,

Eis um defensor da escola,

Eis um defensor da ciência.

 

Quero dizer seu nome,

Celebrar o seu centenário,

Que as suas lições podem mudar

O destino de nossa gente,

Pelo quanto você foi visionário,

Pelo quanto você foi solidário

Aos mais humildes, aos desamparados.

 

Quero dizer seu nome,

Mestre da afetividade no ofício da Educação,

E de todo o bem que nos beire.

E é do seu legado, companheiro,

Que o país ainda tem precisão.

   

Eu quero dizer seu nome, Paulo Freire,

Para que a vida valha a pena

Para que o mundo se enfeite

Para que a esperança prospere

Para que ninguém a rejeite.

 

Porque a vida ainda é linda,

Ainda é flor que se cheire!

Quero dizer seu nome,

Patrono da Educação,

Orgulho dessa nação,

Nosso Professor Paulo Freire.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Texto: "O Ultimato", de Erivelto Reis

 

O ULTIMATO

Erivelto Reis

 

            É só procurar no dicionário:

1.

num processo de negociação diplomática, exigência, pedido ou proposta final cuja rejeição acarretará o fim das conversações e o uso de uma ação direta.

2.

na guerra, comunicado enviado por um chefe militar ao inimigo exigindo rendição imediata, sob ameaça de obtê-la por meios mais violentos.

            Ele não é louco, seus seguidores se prepararam, há uma grande rede de controle e manipulação de uma legião de escudos humanos que serão usados inclusive em situações de conflito e litígio bélico e físico; seus apoiadores dispõem de recursos que incidem por todos os setores, especialmente, sobre energia, abastecimento e estrutura econômica do país e suas forças contam com mercenários de toda ordem em diversas frentes e em diversos escalões.

            A ponta do iceberg, num grito ao enfrentamento entre pessoas da mesma nacionalidade, a começar pela manifesta declaração de desobediência constitucional e desafio declarado aos demais poderes - notadamente, ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal Superior Eleitoral, foi o que vimos ontem. Há uma gigantesca montanha no fundo desse mar de lama.

            Os quase 600.000 mortos não sensibilizam essa gente. Milhões de desempregados, a volta da inflação, a perda de garantias mínimas para os trabalhadores, as sucessivas tentativas de desmonte da Universidade Pública, do SUS, da Educação básica, a miséria e a violência não sensibilizam ou desmobilizam essa gente.

            Seus discursos falsos e odiosos vão se infiltrando e ganhando ares de verdade e de naturalidade entre os entes de nossas famílias, pessoas as quais amamos e respeitamos e fazendo com que, ainda quando não se tornem adeptos/as da totalidade do que essas ideias representam, tendam a racionalizar, naturalizar ou pesar prós e contras.

            NÃO HÁ NADA FAVORÁVEL NUM GOVERNO QUE SE SUSTENTA PELA MENTIRA, PELA HIPOCRISIA, PELA CORRUPÇÃO E POR AGIR DELIBERADAMENTE EM FAVOR DE SEUS COMPARSAS E CONTRA OS INTERESSES DO PRÓPRIO POVO.

            Suas mensagens, destinadas a um grande público, são semântica e semioticamente construídas por especialistas para parecerem neutras, naturais, moralmente e teologicamente embasadas, surgidas de reflexões, do desejo de entendimento, são recorrentes nos anúncios do youtube, circulam nas diversas redes sociais, nas redes de TV abertas, compradas com dinheiro público, via veiculação de anúncios institucionais do próprio, nos grupos de aplicativos de mensagens, em diversos tipos de púlpitos de diferentes denominações.

            Sabe-se da existência e da utilização das chamadas fake news, montagens de aúdio, de fotos e vídeos que circulam a uma velocidade e num volume impressionantes. São como grande arma de propaganda e satanização das entidades, dos servidores, dos opositores, da educação e dos poderes que ainda têm condição de enfrentar e desarticular essa gente perversa.

            Para grupos mais específicos em igual velocidade e volume, circulam mensagens mais ácidas, agressivas, ferozes, mordazes, bélicas, incisivas, conclamando o combate aos opositores, visando à sua derrota e ao seu silenciamento.

Como combater a tia que vem da reunião com uma mensagem falsa compartilhada por outra tia nessa mesma reunião? Uma violência travestida de piada, contada por um colega de trabalho, por um familiar querido, ou as práticas de um professor que não fala diretamente, mas que vai apagando textos, autores, personalidades e temas fundamentais para o esclarecimento de seus alunos e alunas, sorrateiramente, num crime intelectual devastador?

            Como, numa reunião em família, num almoço de domingo, manter-se calmo, quando um parente, um familiar, tenta comparar um político genocida, apoiador de torturadores, cercado de forças militares e paramilitares, eleito a base de disparos de robôs com todo tipo de mentira asquerosa, com o governo de uma presidenta democraticamente eleita e que foi derrubada num golpe que uniu legislativo, o seu próprio vice-presidente, setores econômicos movidos por interesses multinacionais e até mesmo o judiciário?

            NÃO HÁ COMPARAÇÃO!!!

            Recebemos um ULTIMATO ONTEM. Os quase 600.000 mortos são uma clara e inequívoca demonstração de que essa gente não está nem aí para o país e para o povo brasileiro.

            Não fosse a pandemia, a inflação, a retirada dos direitos trabalhistas, a perseguição à ciência e à educação, ao funcionalismo, as sucessivas provas de enriquecimento ilícito dessa família nefasta e seus asseclas, a confirmação incontestável de que um político brasileiro, ex-presidente por dois mandatos, foi perseguido e preso com uma peça judicial montada por um juizeco sem escrúpulos, a mando de poderosas forças econômicas e políticas internacionais, para que esse ex-presidente não disputasse as eleições. Há ainda o aparelhamento das estatais e do governo brasileiro por militares hediondos e incompetentes até a raiz dos cabelos, etc., etc., etc., Todas essas coisas já seriam provas definitivas de que não há interesse, amor, respeito, consideração por nada que tem qualquer relação com a sociedade brasileira e com qualquer princípio de lisura, diplomacia ou soberania de nosso país.

            ESTE HOMEM E OS QUE NELE VOTARAM E OS QUE AINDA O APOIAM NOS CONDENARAM A TODOS.

            Se nada for feito imediatamente, sucumbiremos. Mais hoje, mais amanhã...

            Enganam-se os que esperam expurgá-lo, e à sua dinastia, pelo resultado nas urnas. Se houver resultado nas urnas e mesmo que haja, seu ódio à diversidade, às minorias, aos mais pobres, à democracia e ao Estado brasileiro forjou e alinhou milhares de indivíduos perversos em seus interesses e em suas práticas que usam o poder que tenham: dinheiro, influência pessoal, profissional, familiar, religiosa, para disseminar mentiras ou o atraso travestido de conservadorismo. Por que diabos conservaríamos o que historicamente só nos tem feito mal como sociedade?

            Percebam: a morte dos povos originários, a escravidão, o machismo, os preconceitos os mais diversos, a exploração dos trabalhadores, a destruição de nossa natureza, a expropriação de nosso patrimônio e de nossas riquezas, os golpes contra a democracia, as ditaduras, as torturas, as violências, a discriminação, a desigualdade social, a morte... POR QUE UMA PESSOA OU ALGUMAS MILHARES DE PESSOAS OU ALGUNS PARTIDOS POLÍTICOS SE DEDICARIAM A CONSERVAR ESSAS SITUAÇÕES TÃO CARACTERISTICAMENTE PERVERSAS DA HISTÓRIA DO NOSSO PAÍS?

            APENAS PARA PERMANCEREM NO PODER.

            Poucas famílias dominam o sistema financeiro, os meios de comunicação, algumas famílias se tornaram donas de áreas de terra equivalentes a países da Europa, com o hectare fixado a preço de décimos de centavo e ainda assim com isenção de quaisquer tipo de impostos. Só pra citar alguns exemplos do que essas pessoas realmente querem conservar.

            Agora notem: são conservadoras para enriquecerem e se protegerem - legalmente inclusive - e liberais com tudo o que for coisa pública com a qual possam angariar algum tipo de lucro ou benefício. Para isso não têm escrúpulos. Estas famílias perpetuam-se no poder político formando clãs, dinastias, comprando, financiando, modificando leis para se beneficiarem e colocando no poder ou tirando dele quem bem quiserem e definindo se e como e de que jeito municípios, estados e o país vão ou não se desenvolver.

            Recebemos ontem um ultimato e as histórias mais cruéis de nossa trajetória como povo esbofeteiam nossa cara. E, se nada for feito, este não será o último golpe que receberemos.

 

domingo, 29 de agosto de 2021

Crônica: "EMICIDA EM AMARELO AO VIVO: AYEYE, AJODUM DE NOSSA GENTE E DE TODOS OS ORIXÁS" , de Erivelto Reis

 

EMICIDA EM AMARELO AO VIVO: AYEYE, AJODUM

DE NOSSA GENTE E DE TODOS OS ORIXÁS

Erivelto Reis



            Já havia escrito sobre o disco AmarElo (2019/2020) do cantor e compositor Emicida. Muito mais um registro de meu assombro diante daquele que seguramente estará entre os grandes discos brasileiros de todos os tempos, do que qualquer pretensão de análise ou crítica. E talvez o embevecimento tenha se estendido ainda à primeira vez que assisti ao show Amarelo ao vivo, realizado no Teatro Municipal de São Paulo.

            Lembro-me de ter comentado como me parecia simbólico que aquele show, estruturado basicamente com as principais canções da carreira de Emicida e especialmente daquele álbum/projeto AmarElo fosse realizado no Teatro Municipal de São Paulo. Eu escrevo e falo “disco” por pura convenção cultural, principalmente diante da imaterialidade que o streaming confere à forma como lidamos com a prática de consumir música.

            Volto ao show mais uma vez, talvez motivado por uma sequência de documentários, lives ou matérias sobre grandes nomes de nossa canção como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Rita Lee, Erasmo Carlos, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Tom Zé, Raul Seixas, Martinho da Vila e mesmo pelos 80 anos do Rei Roberto Carlos.

            Francamente, pareceu-me que o show ganha novos aspectos para além de sua simbologia de evento artístico de um grande nome da cena contemporânea nacional. Reassistir a esse evento provocou em mim a idealização de como seria fundamental para nossa sociedade e para nossa cultura que, em alguma das noites de fevereiro de 2022, o show AmarElo retornasse ao palco do Municipal de São Paulo para simbolizar o reposicionamento de aspectos centrais de nossa modernidade e talvez cumprir finalmente parte do intento da primeira Semana. Assim, teríamos novos valores reafirmados, todos construídos pela reverência à história, à arte, à cultura brasileira em face do empoderamento e da quebra de paradigmas de arte consolidados pelo branqueamento e o eurocentrismo que sempre estigmatizaram e moldaram – desde os livros didáticos – as versões de nossa trajetória enquanto nação, os nossos cânones (vide Lima Barreto e os conflitos pelos quais passou e o próprio Machado de Assis), o imaginário cultural e artístico de nossa sociedade através da indústria da cultura de massa.

            Imaginem: fevereiro de 22 no Municipal de São Paulo, Emicida em AmarElo,  Conceição Evaristo lendo um dos seu textos, Carolina Maria de Jesus e seus escritos em exposição no Municipal e no Museu da Língua Portuguesa. Por toda a cidade fotos de Sebastião Salgado, um sarau de poesia, hip-hop, slam, grafite, e todas as manifestações de arte em que definitivamente a ancestralidade e as matrizes étnicas brasileiras tivessem espaço de valorização e reconhecimento num manifesto lido por Djamila Ribeiro e Ailton Krenak. Um painel gigante de Eduardo Kobra apresentaria a nova marca do centenário da Semana de 22...

            Voltando ao show AmarElo, do Emicida, revendo-o entendo sua dimensão ritual. Trata-se de uma cerimônia de comemoração e celebração – ayeye, ajodum de todos os orixás – para todos os credos e todos os corações. É uma consagração da força da palavra, uma reza, um ponto, um cântico, uma prece do coração das Áfricas que desconhecemos e daqueles que pra cá foram trazidos e construíram nosso país e nossa cidadania e nossa civilização para tocar e comover o coração de todos os brasileiros.

            Evidentemente, há em AmarElo um grito, uma explosão de denúncia, de raiva e revolta contra a violência, o preconceito de qualquer natureza, a dor, e cada canção é um convite a que todas as pessoas reflitam sobre que valores consagram e por quais se pautam. AmarElo é uma demonstração de talento, força, criatividade, profissionalismo, apuro estético em cada detalhe. Cada parte do show destaca a inclusão (há um intérprete de libras no show e um telão na porta do Teatro Municipal transmite o show para quem não conseguiu ou não pôde pagar pelo ingresso),  o empoderamento da mulher, dos mais pobres, da periferia, dos que estão ou estiveram à margem. Revela apuro, estilo, criação artística inédita e reverência aos ídolos e companheiros de jornada.

            Como uma celebração dos/aos orixás, reconta a história, apresenta testemunhos, louva, menciona, revisita nomes e entidades fundamentais para a cultura e a história negra em nosso país, fala de amor, de esperança, reverencia a ancestralidade. Cada canção funciona como um salmo, um versículo, um ponto. É um show sincrético, porque não despreza nossa formação religiosa ou cultural. Não ignora a miscigenação de nosso povo, nem o que ela significa em termos de sofrimento e violência aos povos escravizados e aos povos originários e na agressão e crueldade sofridas nos tempos que seguem, infelizmente.  Porém, reafirma um novo evangelho antigo de respeito à história, à cultura e a todas as pessoas negras e nos recorda de valores que não podem ser esquecidos nem por um momento. Valores inegociáveis para com a dignidade humana.

            Como realização estética e artística, tudo é simbólico, provocativo, polissêmico. Emicida faz história ao celebrar e comemorar os orixás, a negritude, a luta do povo e seu talento, sua força como artista destaca o valor de seu público e a relação com elementos fundamentais de nossa cultura.  

            O Teatro Municipal de São Paulo e o seu entorno tornam-se espaços para um evento histórico que religa nossa história com o sagrado das raízes de nossa brasilidade e me parece uma imagem algo poética cabível ao centenário da Semana de Arte Moderna e compatível com o reposicionamento e o empoderamento de nossa gente, de nossos reais valores antropológicos, artísticos e sociais, alma de nossa cultura. Além disso, as letras e a música de Emicida são sensacionais. O show se concretiza, portanto, em âmbito estético, artístico, político, social e histórico.

            Agradeço à Elba Gaya e à Paulinha Machado que me leram antes e me ajudaram a encontrar as palavras que me faltaram e de que, sem querer, me perdi.

            Expresso meu desejo de que haja Liberdade e Respeito para o povo todo.

 

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Poema: "Raio de sol", Erivelto Reis


Raio de sol
Erivelto Reis

Leva contigo esse raio de sol
Que eu trouxe ainda hoje
Da cidade sonho de meus amores.
Eu ia guardar para usar no mês que vem.
Você devolve quando puder,
Com uma lembrança boa partilhada ou
Um silêncio fraterno que diz: "tô tentando".
Fica com esse raio de sol
Que eu trouxe lá da cidade sonho
Ele tá novinho, mas tá molhado de pranto,
Orvalho de bem querer...
É que andei chorando
Pensando na sua tristeza.
É um raio de sol que apanhei por acaso
Enquanto estava remando,
Lutando contra a correnteza.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Crônica: "House", de Erivelto Reis

 

HOUSE

Erivelto Reis

                Gregory House é um personagem de uma série de Televisão. Foi vivido brilhantemente pelo ator Hugh Laurie. Milhões de pessoas no mundo inteiro conhecem esse personagem que é um médico especialista em diagnósticos, que manca de uma perna e que devido a uma complicação cirúrgica passa a ser acometido por dores intensas e crônicas desde então. Viciado em Vicodin, misantropo, pautado na premissa de que “todo mundo mente”, sua especialidade é ler os outros.

                Cícero César foi o House possível que conheci. Descartados os problemas e idiossincrasias do personagem da ficção, considerada a forçada aproximação entre o tipo físico do personagem e do professor, o que torna o match possível realmente, além do grande talento em sua área (um grande médico na ficção em comparação a um talentoso professor na vida real) é a capacidade que Cícero tem para ler as pessoas. As lê bem. Com detalhes. Com rigor. Mas com justiça, poesia e bondade.

                Apelidá-lo de House, foi o reflexo do dom que percebi nele em diagnosticar bem os livros, as pessoas, os poemas, as canções, os textos verbais e os não-verbais. Cícero lê gestos, lê atitudes, lê expressões. É tão bom nisso que em alguns casos, chega a prever as reações e as consequências de determinados comportamentos e atitudes. Há também alguma impaciência nos dois House.

                A recente série de textos que Cícero escreveu e que trouxe do baú de nossa memória e do ninho de nosso carinho as figuras de Marinete, Andréa, Umberto, Cléber, amigos e amigas tão queridos/as, seguindo-se aos textos, uma sequência de comentários repletos de expressões de saudades, das reminiscências por um tempo em que convivemos e me fez pensar no personagem e no professor.

                Os textos também resgataram as lembranças de uma convivência coletiva resultante da convergência de tantos talentos reunidos, do respeito construído pela amizade, camaradagem, admiração e a noção implícita de que cada qual possuía um milhão de qualidades para estar onde estava. E isso nos bastava. Uma noção confortável de que o outro era e é especial independente de qualquer especialidade. Especial em essência. Não há lugar no lattes pra escrever essas qualidades.

                Cícero/House evocou de nossos corações o teatro infantil - algo ingênuo - de nossa convivência repleta de humor, cordialidade, profissionalismo, mesmo em presença de graves crises que suportamos juntos. Num momento em que confiamos mutuamente em cada um dos companheiros/as, por causa das qualidades deles/as e com eles/as contamos até quando foi possível.  Cícero nos levou de volta com seus textos sobre nossos amigos tão queridos ao locus amoenus de uma época em que cada qual foi e continuou sendo importante na lembrança de nossos corações, na fraternidade de nossa convivência.

                Os textos que escreveu e aqueles que tenho esperança que ele vá escrever deixaram claro para mim que Marinete sempre será a Marinete de nosso carinho, da memória de uma realidade profissional e amistosa que partilhamos... e o mesmo, por extensão à Andréa, ao Umberto, à Lucy, ao Jayme, ao Alzir, ao Cléber, à Marcinha, à Gilda, ao Flávio, ao Marcos Dias (que chorou diante de mim quando eu fui sendo embora), à Bruna, à Jane, à Janice, à Aparecida, ao Heleno, à Lya, ao Zé Ricardo, ao Mauro Lopes, ao Mauro Ferreira, ao Antônio Paulo, ao Sérgio, à Margarida, à Neide, ao seu Francisco, ao Miguel, à Miriam, ao Gérson, à Adriana, ao Ricardo, ao Rivelino, ao Anderson, ao Marco Antonio,  ... e tanta gente tão querida...

                Cícero diagnostica, medica e ameniza a saudade com sua poesia, com suas crônicas, com sua escrita. Estimula a todos/as nós, personagens daquela série e também da vida real, com as suas palavras e sua sensibilidade, apesar e a favor de nossos espantos. Suas recordações são em nosso ânimo os anticorpos que produzirão em nós as defesas para continuarmos lutando e acreditando na confiança, na palavra e na beleza de gestos e ações.

                Talvez seja certo pensar que na série e na vida, não se pode sair ileso da dor e do sofrimento. House cura a dor dos outros enquanto a sua própria dor o machuca. Segue trabalhando, mesmo quando seu trabalho é questionado. É insultado por pessoas que mentem e mentem e continuam mentindo até que seja possível garantir apenas o seu próprio benefício. Não porque não saibam que o que dizem seja mentira. Mas porque não tenham competência para construir o novo e o melhor pelo coletivo. Na série como na vida.

                Agradecer ao House/Cícero é pouco pela alegria que suas crônicas trouxeram ao meu coração ao homenagear nossos/as amigos/as.

                Anos depois de terminada a última temporada, acompanho o ator e vejo o personagem em cada novo trabalho e aplaudo de pé sempre que há uma nova estreia. E sempre há. E as reprises também ensinam.

                Mas eis que, de repente, Cícero escreve um novo episódio.