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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Crônica: "O vômito do mercado", de Erivelto Reis

 O vômito do mercado

Erivelto Reis
O mercado é o carro importado que arranca com a paçoca do ambulante deixada sobre o retrovisor no sinal vermelho. O mercado é o cidadão, pretensamente de bem, que abandona o pet no campus da universidade, cuja política de acolhimento e permanência ele desconhece, despreza e odeia. O mercado é o pai consumidor que agride, ameaça e oprime o professor de seu filho abusivo, consumista e cliente. O mercado pleiteia área vip no mundo, aparthaid e segregação econômica e social. O mercado odeia os sonhos dos pobres enquanto lhes vende a fantasia de empreendedorismo e meritocracia. O mercado é despojado, altruísta e desinteressado para os de entre seus clãs. Apenas. E olhe lá... O mercado compra empatias através de slogans e novelinhas . O mercado ganha milhões com engajamento de haters, influencers, discursos de ódio, mentiras, alugando legendas político-partidárias, cooptando imbecis, gente violenta e abjeta, manipulando editais, corrompendo pessoas, suas crenças, a imprensa e os dados. O mercado odeia o povo, porque não gosta de obter os centavos oriundos diretamente das mãos dos trabalhadores por um serviço ou produto que lhes ofereça. O mercado só é capaz de produzir desgraça. Daí, prefere que bancos, governos, líderes extremistas e calhordas, veículos de comunicação de massa e grandes multinacionais façam esse "trabalho sujo" de lidar com os pobres, para que não reste qualquer possibilidade de igualdade e direito ao contraditório. O mercado admira como o judiciário brasileiro é caro, inacessível às camadas populares e segmentado em tantas castas que permita tatuar o seu rigor somente em peles e classes específicas e ver o seu semblante somente à distância. O mercado adora pensar que há nas forças militares e paramilitares os seus selvagens cães de guarda e guerra. O mercado se diz fragilizado diante de políticas de apoio e seguridade social e de inclusão econômica, enquanto educa seus agentes, corretores, economistas e analistas das farias limas, fiespes e que tais para sanguessugar, parasitar do erário público e das políticas públicas e sociais de governo tudo que for possível até o limite de manter-se o refém, hospedeiro vivo. O mercado gosta de pensar na gente brasileira como indolente e investe pra que se torne temerosa, endividada, grata por migalhas e conformada com a condição que se lhe imponha. O mercado despreza profundamente o garçom, o porteiro, a vendedora e qualquer pessoa que lhe preste serviço e/ou que pela proximidade circunstancial se atreva a olhar nos olhos de seus representantes. O mercado adestra os que escolhe para a servidão e a prática da crueldade sem remorso. O mercado ganha duplamente quando um familiar tem de explicar a outro repetidas vezes que a tortura, a violência e a corrupção, assim como o desprezo à educação, às ciências, às artes são formas de dominação e alienação das massas e uma forma de manutenção dos privilégios das classes mais abastadas que exploram a mão-de-obra dos trabalhadores. O mercado adora ver a classe média sem espelho e autocrítica e contra os assalariados e servidores públicos. O mercado não tem escrúpulos em usar o próprio idioma e alguns arabescos vocabulares para classificar como inferiores os falantes dos países que domina. O mercado gosta de Mônaco, Berna, Maldivas e Canárias e Caimãs. O mercado não consola as famílias enlutadas, nem condena executores, agressores e corruptores que lhes forneçam alguma vantagem e aos quais, apesar de todas as evidências, vai afirmar não estar ligado. O mercado não se vê num mundo em crise climática a não ser para lucrar com o estrago que ele mesmo financia. O deus do mercado é o dinheiro e o inferno para ele é que os mais pobres e os que os defendam ainda insistam em continuar lutando. O mercado reza um evangelho de ódio, uma ladainha de crimes vomitando... Vomitando.

sábado, 23 de novembro de 2024

Poema: "O ego do demagogo", de Erivelto Reis

 O ego do demagogo

Erivelto Reis
O náufrago que fugiu pra ilha
Antes do naufrágio
Não é náufrago.
É alguém que abandonou o barco.
O sábio que se isolou no topo
Deixando o vale ardendo
Não é sábio.
É alguém que se vendeu bem caro.
O sensível que aprisionou o pássaro
Por causa do seu canto extraordinário
Não é sensível.
É alguém que limitou o voo.
O hábil que fez só pra si uma regra
Que não contou e que não vale para os outros
Não é hábil.
É alguém que trapaceou no jogo.
Observe bem de perto:
Uma imagem com ausência de autocrítica
Só reflete o ego do demagogo.

Poema: "Eunice", de Erivelto Reis

 Eunice

Erivelto Reis

Para Marcelo Rubens Paiva e Fernanda Torres
Sêneca, Racine e Dostoievski...
Macabéa, Fedra, Nastácia,
Clarice, Cecília e Zuzu.
Alguns planos de Roma
Que se passam coloridos
E dolorosos no Rio.
Amor materno em eterno sacrifício....
A escolha:
Eunice Paiva,
Indaga, luta, não se cansa,
Não se cala.
Como se perguntasse:
Em que espelho ficou perdida a minha,
Ficou perdida a nossa face?
Ainda estou aqui,tal qual
Angélica mulher de Atenas.
Esfinge sem enigma,
A maior de todas as tragédias:
Que existam homens banais e Ameaçadoramente maus
Emergindo da orla do caos.

Poema: "Boletim de ocorrência", de Erivelto Reis

 Boletim de ocorrência

Erivelto Reis
À noite, quando apagaram as luzes,
Cercaram o amor na praça!
Bateram muito nele,
Fizeram a maior arruaça.
Prepararam uma armadilha,
Uma intriga, um "cala a boca".
Ficaram de campana, de tocaia...
Então sobreveio a emboscada.
Ele tinha saído de casa
Para respirar um pouco,
Na constante busca
Por um ar mais puro!
(Poderia haver um amor intenso e rarefeito ao mesmo tempo?)
Pensar nisso agora talvez
Não seja justo...
O amor andava cabisbaixo,
Deprimido, sem vibração...
Já viram amor chateado?
É de partir o coração.
Já viram amor silenciado?
Não é bom nem tocar no assunto...
À noite, quando ninguém olhava,
Espancaram o amor.
Fizeram na maldade,
Fizeram de pirraça!
Atraíram ele com falsa promessa
Com uma fala falsa, mansa...
Com um cheiro de pipoca doce
Ou de Alfazema e Toque-de-amor.
Magoaram um amor destruído,
Cansado e distraído.
Daí se pode intuir
O tamanho do trabalho
Que não tiveram.
A covardia do rancor sincero!
Avançaram nele para maltratar,
Para machucar, para fragilizar.
Não pediram nada, não levaram nada,
Perguntaram apenas
Porque ainda era amor
Mesmo não sendo coisa alguma?
E se o amor, que tudo suporta,
Quando já não aguenta mais
Continua sendo amor?
(A fúria retórica da filosofia
Com o capuz dos axiomas
Cobrindo o rosto)...
Aturdido, o amor ainda viu
Os agressores fugirem...
Mas o próprio amor, sem amor próprio,
Não seria capaz de reconhecê-los,
Ou de tornar a pronunciar seus nomes.
Mesmo assim,
A queixa ficou registrada.
Atacaram o amor na esquina, na rua,
Na praça, na beira da estrada.
Ele foi de "arrasta-pra-cima"!
Os transeuntes alegaram
Que não viram ou ouviram nada.
Como sempre, todo dia...
Atacaram o amor na praça.

Poema: "G20", de Erivelto Reis

 G20

Erivelto Reis
Uma feira de produtos naturais
Mas os passarinhos
Estão engaiolados,
As peças roubadas estão à venda...
Cada um com sua sacola
Quer levar vantagem
Comprando mais e pagando
Sempre menos.
Não tem o rapa, nem o Rappa.
Não tem pastel, nem garapa
Vez em quando alguém
Pega algo de uma alheia barraca
E sai andando calmamente
Sem pagar.
G20 é uma feira,
Uma fogueira de vaidades
E de bravatas...
Repleta de bárbaros,
(Com as mãos lavadas em sangue),
Usando terno e gravata.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Poema: "Gene", de Erivelto Reis

 Gene

Erivelto Reis
Um dia criaram uma máquina
De imitar gente
E ninguém desconfiou de nada;
Um dia criaram uma máquina
De imitar inteligência
(Propriedade intelectual furtada);
E ninguém reclamou de nada
Um dia criaram uma máquina
Que criava outras máquinas
Que criavam outras máquinas.
E depois desse dia
(Não se sabe se foi o sétimo...)
Ninguém descansou jamais.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Poema: "XV/X", de Erivelto Reis

 XV/X

Erivelto Reis

Caminham ao nosso lado,
mas pisam em nossos pés.
Andam a nossa volta,
mas não enxergam as depressões
pelas quais passamos.
Não gostam do que sabemos,
mas fingem saber mais e melhor que nós.
Dizem que não há importância
em nossas palavras,
mas temos que lutar ainda pelas oportunidades
daqueles e daquelas que esperam ouvi-las.
Falam em direitos e empatia
e entendem como gosma, uma lesma
os deveres que desprezam.
Caminham ao nosso lado,
mas ignoram o horizonte que apontamos.
Dependem de nossa insistência
Mas diariamente nos forçam a desistir.
Não vão todos os dias,
mas nos dias em que estão,
não estão mesmo
e se comprazem com nosso exílio forçado.
Peregrinam conosco,
e desprezam nossas promessas,
nossa urgência, nossa pressa,
e a vontade que nós temos
de que vençam e sobrevivam.
Percorrem os mesmos corredores,
mas correm pra longe de nós
como se a água benta que aspergimos
destoasse dos seus sonhos, desbotasse suas grifes
e os embebedasse sem alegria e sem ressaca.
E riem e riem a cada vez
que um de nós é feito de bobo, de babaca.
Escolhem o naufrágio à nova terra,
o deserto ao oásis,
a distância ao objetivo,
a violência ao afeto.
Escolhem sem saber, (por querer),
mas escolhem.
Caminham ao nosso lado,
mas poucos nos dão as mãos.
Chantageiam com ameaças
de escândalo, intimidação e menosprezo.
Vêm contrariados para nossa festa,
e nos expulsam de nosso próprio endereço.
Hipnotizados por bets,
haters, influencers.
Operam teclados virtuais,
com olhos de crateras lunares,
(Inescrutáveis até pra NASA)
E olheiras indisfarçaveis,
doentes de existir sob falsas crença e causas
Com fúrias e preguiças abissais.