Garoto pobre...
Erivelto Reis
Garoto pobre. Acorda um dia e descobre a sua realidade. Vai deixar de ser garoto. Vai deixar de ser menino. Dali pra frente vai ser muleque. Pobre não vai poder deixar de ser. Vai sofrer. Vai ser explorado. Vai receber um um adesivo, vai ter o corpo tatuado. Alvo. Vai lutar pra aprender. Vão ensinar pra ele que nem ele nem a escola não têm razão pra existir, que não têm razão de ser. Garoto pobre. Acorda um dia. A barriga vazia, a casa vazia. A mãe é sua estrela guia, saiu de casa pra trabalhar quando nem bem amanhecia o dia. Tem hora pra sair, mas não tem hora pra voltar. Garoto pobre. Acorda um dia e descobre que pra sobreviver vai ter de se virar. Enquanto os outros meninos têm aonde se apoiar. Num montão de privilégios e na tal meritocracia. Garoto pobre. Acorda um dia. Tem uma irmã da igreja, tem uma senhora rezadeira, tem um filha de Oyá, vizinha ali do beco, vizinha ali da vila que ajuda a mãe a olhar, que dá um pão com manteiga e que diz pra ele ir estudar. Na escola ele não chega. E se chega, nem sempre é pra gostar. Garoto pobre. Acorda um dia. Semente em terra estranha. Difícil de germinar. A mãe trabalha e vigia. O pai se evadiu, escapou, ninguém sabe onde foi parar. Deixou o filho no mundo, sozinho, para a mãe criar. Garoto pobre. Acorda um dia. Aprende a se rebelar. Seja pela habilidade, pela força de trabalho, pela coragem de aprender a estudar. Garoto pobre. Acorda um dia. E descobre onde está. Descobre o preconceito. Descobre que é um menino negro e começa a se preocupar. Tem um código não escrito que não precisam lhe ensinar. Manter a cabeça baixa, não correr, não questionar. Garoto pobre. Acorda um dia. Mas não para de sonhar. Cuida dos irmãos menores, faz carreto, vende bala. Das coisas que a mãe fala, aprende Jesus e Iemanjá. Aprende pai nosso, ave maria e saudação para os guias e oferenda pros orixás. Garoto pobre. Acorda um dia. Uniforme. Beca Capelo. Cabelo na régua. Uniforme militar. Trabalha de dia. Estuda à noite. Diploma vem com luta e sua avozinha é quem vai entregar. Garoto pobre. Vence na vida. Tem seu trabalho, constitui sua família. Mantém os seus ao seu lado. Não esquece o que passou, mas não lembra com saudade. Agradece à sua mãe, e à Educação que o formou. Garoto pobre. Acorda um dia. E descobre a realidade. Qualquer atalho que pegasse alterava sua vida. Garoto pobre. Acorda um dia. Garoto pobre, acorda! E descobre que o destino-labirinto pode ter uma saída. Garoto pobre...

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