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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

domingo, 9 de outubro de 2016

Poema: "Id (ente) idade", de Erivelto Reis

Id (ente) idade
Erivelto Reis

A consciência acusa:
Receber o amor que não merece,
Mensagem espionada de watts,
Supor-se tão mais digno que os demais,
Passar por outra rua pra não encontrar
A quem se deve,
Favor que se possa fazer
Mas que se escusa...
Preconceito, intolerância,
Esvaziar o saldo da poupança,
Estourar o limite do cartão e do cheque,
Não receber o amor que se merece,
Só permitir carinho por permuta,
Pai e mãe ignorados sem motivo,
Ser duro, áspero, grosso e possessivo,
Exaurir-se de uma lágrima,
Trocada por uma ilusão impávida,
Sonegar os desejos de uma grávida,
Mentira boba, mentira grave,
Desonestidade, relativização de culpa...
A consciência acusa,
A razão promove,
Mas é o coração que julga.
Haja travesseiro pra tanta noite insone...
A consciência acusa,
Brada silenciosos gritos:
Ela sabe seu endereço, não esquece seu nome,
Conhece os seus mais secretos delitos.



terça-feira, 27 de setembro de 2016

Poema: "Ex-plágio", de Erivelto Reis

Ex-plágio
Erivelto Reis


Não tens disciplina para ouvir
E alegas ter capacidade de ensinar
Não tens postura ética
E alegas que a educação é teu rosário
Não respeitas ao teu igual que fala
E sustentas oposição às hierarquias
Que enxergas no meu silêncio,
Na presença que, insistes, vos afronta
E não calculas nem assumes vossas faltas
Elas, não eu, vos reprovam...
As tramas e teias dos enredos que protagonizas
Não aludem às incúrias que propagas
Leia mais, leia muito, leia melhor
Depois me procure para um debate real
Não para uma pirraça,
Não para uma arrogância
Gostas de bater com força
E te defendes como se fora criança
Como se não fosse tua a responsabilidade
Pelo que omites.
Doutorado em dar palpites já possuis
Mas não nos apeguemos a títulos
Agarremo-nos aos livros, não aos trabalhos prontos
Aos quais supostamente emulas
Desafias, sem propósito,
Aos que estão um pouco além de teu momento agora
Imagino os muros que erguerás
Contra os que de ti dependerem no futuro
Não aprendes porque não refletes
Não aprendes porque não queres
Não aprendes porque não podes
Consumes... Eis tudo!
Não lidas com estudo.
Poupe-me de seu desrespeito,
De sua violência, de seu despeito.
Não afies vossas garras contra mim
Não tens paciência para ouvir,
Mas queres livrar o mundo dos que o corrompem
Não mude apenas de curso
Mude de vida
Faça isso
E pra ontem.



terça-feira, 20 de setembro de 2016

Retórica, poema de Erivelto Reis

Retórica
Erivelto Reis

Pelas costas das mãos,
(Não pelas linhas das palmas!),
Vejo o reflexo do tempo que passou em mim.
As ruas, rusgas, fugas, rugas,
Calçadas, avenidas e estradas de que me esqueci.
Morava em mim
A Esperança, que estava trancada
Na caixa que fora de Pandora.
Não sei o que fazer agora
Sozinho, sem retórica,
Com todos os males pelo mundo afora.
Nenhum poema épico
Jamais desafiou os mitos:
Antes, fez a propaganda
Das coisas que teriam feito...
Difícil fazer poesia com o sabor das coisas que sinto: –
Se não há humano sem esperança,

Não haverá deuses sem defeito no Olimpo.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Poema: "Ítaca", de Erivelto Reis

ÍTACA
Erivelto Reis

Este é um poema de regresso:
Não espere metáforas,
Provas de elevação moral,
Ascendência espiritual,
Este é um poema sem Ítaca,
Sem Ática,
Não é um poema sem ética!
Embora não seja função
Do poeta
Livrar a cara de ninguém...
Aguardem.
É mais frágil esperar,
E mais fácil explicar
O poema que ninguém entende...
O jeito como as palavras se tecem.
Na verdade o poema e a poesia
São a fotografia do exato momento
Em que as palavras se paqueram pela primeira vez,
De um jeito que nenhum sentimento
Fez.
Não há teoria nisso,
No entanto, as pessoas se esquecem...
É fácil escrever poemas,
Difícil é sentir poesia,
Difícil é explicar a vida.

Que os jogos comecem...

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Poema: "Bibelô", de Erivelto Reis

Bibelô
Erivelto Reis

Tenho uma alma tão cansada
Que daqui a algum tempo
Já não me sobrará nada.
Tanto trauma, tanta fúria sufocada,
Quantidades:
Há mais santos que promessas,
Há mais desejo
Que felicidade.
Tenho a alma tão cansada,
Profundo sono,
Meia madrugada,
Me leve pra longe daqui:
Tempo de cinza e saudade...
Trago cansada a alma que nunca tive
E que me fora somente emprestada.
Inquilino de corpo,
Oco de alma.
Ocaso...
Reclamar da alma será vício de quem vive?!
Tenho uma alma tão cansada...


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

"Gesto", poema de Erivelto Reis

Gesto
Erivelto Reis

A palavra poesia vazia mata
Como uma corda no pescoço
Como uma pedra que cai no pé
Como o lodo do fundo do poço
Como a verdade sem reconhecimento
Como um santo feio e sem fé...
A palavra poesia vazia cala
Como murro
Por causa da casa
Da(s) (a) marra(s) e das asas das palavras
Como o núcleo
Do insulto
Inesperado.
Como a cápsula de pulso do tempo
E do projétil transpassado.
Entre o silêncio constrangedor
Da ausência de palavras e de vidas,
Devida ordem se instaura:
Do poeta que (vivo) grita sem que o ouçam,
Da poesia que (em silêncio) fala quando a morte o cala.
A palavra poesia vazia,
Silencia e mata...

Não se esqueçam de trancar a porta da sala.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Poema: "Iago e Aquiles" - Poema de Erivelto Reis

Iago e Aquiles
Erivelto Reis

Ah, esses gregos!
Seus egos,
Seus segredos,
Seus prédios sem pregos
Erigidos por Sabedoria e pedra.
Eu tento entendê-los,
Mas me sinto em degredo:
Ouvi-los, até ouço,
Compreendê-los – lê-los – é um grande esforço.
Alelos, paralelos, palimpsestos...
Pretextos pra supor os restos,
Arremedo de desassossego!
Mitos, Musas, Atenas, Prometeus e Atlas e medos:
Para mim parece que estão falando grego.
A festa foi bonita, (Pá)ladinos?...

Ah, esses latinos...