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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

domingo, 16 de outubro de 2011

Crônica: A Confraria dos Relojoários - Erivelto Reis

A CONFRARIA DOS RELOJOÁRIOS
Erivelto Reis



A primeira coisa que ganhamos ao nascermos, não é um nome, é um relógio. Um relógio biológico é verdade. Mas é um relógio. Vá lá que ele demore um pouquinho para se adaptar ao espaço extra-uterino e que, à medida que o tempo passe, ele piore gradativamente, pois nem os suíços têm um relógio biológico suíço!
Assim, inauguramos a obsessão humana pela passagem do tempo e assim prosseguiremos até o último segundo. Vejam: não se pergunta simplesmente o nome de um bebê sem que se pergunte quanto tempo ele tem. Depois, só se lembram da data ou nem disso. A data é uma espécie de relógio que parou no tempo e que pelo menos uma vez por ano terá razão. Relógios e tempo são assuntos pontuais na estranha e invisível máquina da condição humana de existir.
Sinceramente, não me surpreende o fascínio que as pessoas têm pelo tempo e pelos relógios. Eu as respeito e espreito. Flávios, Freds, Umbertos, Arildos, Paulos, Primitivos e tantos mais, perdendo ou ganhando tempo diante de vitrines, em balcões de relojoarias e joalherias ou, como eu, nas bancas de camelô, escolhendo, comparando, comprando modelos, sonhos e desejos.
O brilho dos mostradores tal qual o espelho da madrasta no imaginário popular marcado a fogo e sombra, a indagar: “espelho, espelho meu, blá, blá, blá...” – substitua por “tempo, tempo, tempo, blá, blá, blá...”, de Caetano Veloso e parece claro que o relógio é o espelho individual de ver o tempo que passa. De ver o que ganhamos e o que perdemos. É o espelho de nos projetar no tempo futuro, no momento que agendamos para passarmos por lá. Um relógio é uma fatia de bolo que nos lembra de partilhar o tempo. Ou deveria ser, sei lá.
Filósofos, sociólogos, pedagogos, literatos, tecnocratas, operários, professores e artistas sabem do segredo. Não é futilidade, subjetividade tacanha. É a constatação de que não importa a ocupação funcional, o dom celestial, a capacidade laboral ou a formação profissional que o indivíduo tenha, ostente ou conquiste, a verdade é uma só, desde que o mundo existe: há poesia em observar o tempo. E não há capacidade criadora que resista à praticidade de olhar o tempo num “mecanismo de precisão”, num “cebolão”, num símbolo de status e ostentação, numa réplica à perfeição, numa barata imitação.
Pergunte a Santos Dumont, que tirou o homem do chão, mas só aprendeu a voar quando teve o tempo ao seu dispor num dos pulsos. É o impulso criador que move o mundo, como num relógio, a cada segundo.
Relógios de modelos digitais, geniais, clássicos, inovadores, de parede, de corrente, de anel, relógio londrino monumental, relógio cuco, de carrilhão, o relógio público da Central. Relógio de sol, na tela do computador, com ou sem mostrador, relógio com a máquina aparente, com pulseira de aço, de borracha, de napa, de plástico, de couro, de silicone, de ouro. Relógio como eterna opção de presente, para cronometrar o esporte e o momento da derrota ou da vitória. Relógios que vêm com um carro pelo lado de fora.
Consultado para registrar o direito ao salário do operário; para marcar o criativo momento do hábito de nosso ócio crítico e ácido; para assinalar nosso último suspiro na certidão de óbito. Para garantir que a noiva se atrase em qualquer casamento, para pesar nos centésimos de nossos sofrimentos. Para eternizar a hora de nosso nascimento. Para marcar nosso tempo de esperar na fila, para ajudar a supor os motivos de quem nos faz esperar.
A fome é o relógio do corpo, o amor é o relógio da alma (esse, às vezes atrasa ou para de funcionar). O tempo é o relógio da vida. Relógio é obra de arte parada que se mexe. É o livro das horas ganhas e perdidas. É utensílio, é instrumento que mede e pelo qual a sociedade decidiu medir a importância de um homem: quanto menos tempo ele tem para ouvir, ler, conversar e abraçar, mais importante ele parece ser. Será?
A saudade é o relógio do passado, a gaveta é o relógio do guardado. A memória é um relógio escangalhado. A bússola é o relógio do mundo, a biruta é o relógio do vento. O medo é o relógio do silêncio. Um relógio é a bula de um remédio que cura todos os males. É a joia da esperança. É algema que nos prende ao tempo. É um link, um insight, um flashback, um porta-portrait, uma desculpa de pensar no idioma inglês. Quem ainda não teve um relógio, tenha fé que um dia terá.
Convido, sem ser convidado, a que todos ingressem na Confraria dos Relojoários. Uma confraria dedicada e formada por todos aqueles que gostam, que usam, que admiram, que colecionam e que pagam para ver o tempo passar, mas que não o deixam passar impune. E mesmo assim ele passa.

Um comentário:

  1. Que crônica primorosa!
    Falar do tempo não é algo tão simples quanto parece, mas o Professor Erivelto com propriedade qualificou muito bem a importância que o tempo exerce na nossa breve/longa trajetória de vida!
    Estou dentro dessa confraria, valorizando cada andar do maior ponteiro do relógio!
    Abraços

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