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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Poema: "Receita", de Erivelto Reis


Receita
Erivelto Reis
Porque só a indiferença
apaga o fogo
da pele febril  carente por desejo
e por experiências
de lascívia e volúpia e luxúria,
ou por amor e ternura mesmo.
Uma receita tão nociva,
um doce amargo
cálice de veneno.
Febre mal curada
gente mal amada
abraço que se fecha no vazio
ah, desperdício!
ah, precipício!
A queda é livre
o muro é alto
a boca é seca
e o coração também vai
sucumbindo aos poucos.
Ao chegar a hora de colher o amor semeado,
vê-se o fruto, o alimento
sem sabor, sem néctar.
E ainda ter de chamar de amor?!
Não se ensina a amar
desamando pra mostrar
o bastidor do sentimento,
o de fora, não distante,
que se crê no centro.
A indiferença cessa a febre,
E incendeia o coração com gelo e neve.

Poema: "Cace-a", de Erivelto Reis


Cace-a
Erivelto Reis

Se houver uma razão
pra você ser feliz,
Não importa o quão longe
ela esteja...
Cace-a.
Cace-a, por suas Palavras,
Cace-a só por sua Malandragem...
Se houver uma razão que seja
pra você ser feliz,
Cace-a.
Não há nada fácil,
Nunca foi e nem será fácil.
Sem arte ou religião
Talvez você herde
Uma saudade sem consolação.

Penso que a maior parte dos poemas malditos,
Subversivos,
sejam pela morte inspirados,
sejam pela morte escritos,
se ela escrevesse a vida
se ela entendesse a vida
e seus ritos.

Se houver uma mínima razão que seja
pra você ser feliz,
Cace-a,
Seja.
Antes que a morte veja.
Cace-a...

Poema: "A vida é isso", de Erivelto Reis


A VIDA É ISSO
Erivelto Reis

A vida é isso:
metade do tempo não saber o motivo
por detrás das coisas,
a outra metade, não entender
o motivo por detrás das coisas...
o resto é vício.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Poema: "Adivinho", de Erivelto Reis


Adivinho
Erivelto Reis

E sobre tua cabeça
brotem lírios,
os fios de teus cachos
ondulam, modulam
meu jeito de olhar pro teu rosto.
Ao fim de um dia,
os rios que partem de teus olhos
indicam a raiz de teus desgostos.
Decorem-se os nomes de teus filhos:
coroa de rei ou de rainha
desde o ventre...
e o vento água-marinha.
“Partir” nem é mais verbo,
é uma necessidade.
Adivinha em que cidade
irei aportar sozinho?
Talvez em nenhuma parte,
talvez pare no meio do caminho,
distante de qualquer destino.
Talvez eu morra menino:
Espectro permanecido.
E sobre tua cabeça
brotem lírios,
tiaras,
as rugas na tua cara,
os vincos de tuas vestes,
as areias de tuas praias
meus pés jamais
hão de tocar.
Desejo é tudo o que me doma,
do mar é tudo que não posso,
poder é tudo que não tenho,
morrer é só o que não quero.
Para vir de onde eu vim é distante.
Estar preso em mim, ainda mais!
O mero existir que me cansa,
desistir, minha única vaidade.
As aves mergulham e emergem,
os peixes alçam voo e voltam...
Humano, quisera de tudo um pouco,
fizera de tudo um nada.
De tua cabeça brotam lírios,
de tua boca, nenhuma palavra.
Adivinha em que cidade
irei aportar vazio?


segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Poema: "Antiepígrafe emprestada de Neide Archanjo"


Antiepígrafe emprestada de Neide Archanjo

Erivelto Reis

É que não se desfaz
Um pacto depois
Que o acatamos
Principalmente
Se o propomos.
Leio o tempo
Viúvo de paz
Desde o seu casamento
Com a vida.
É vida
Alguém duvida
É dádiva, é obvio.
Nenhuma casa
É segura o bastante
Pra não se habitar.
É o mar bramindo
É um vendaval
Experiência, sarau
Mosaico, vitral
Um último vídeo viral.
Um último arroubo passional
Último verão
Da praia vê-se o horizonte:
A maré alta
A afogar o ontem.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Poema: "Tampo", de Erivelto Reis


Tampo
Erivelto Reis

É o tampo bambo de uma mesa,
Afixada numa calçada do mundo,
O palco improvisado e improvável
Do sucesso:
Do poema-protesto,
Do poema-político,
Do poema-irônico,
Do poema-satírico,
Do poema-silêncio,
Do poema-testamento,
Do poema-confissão,
Do poeta, cretino-crítico,
Inimigo libertador de si mesmo...
Sua plateia é outro bêbado,
Um incauto como testemunha,
Um prato de linguiça ou de torresmo,
Uma cerveja choca(da), a lembrança torpe
De um amor destilado.
O vômito é que é, de verdade, um poema visceral:
O resto do poeta, que escapa
Por um esgoto lacrimal.
E entre uma folha de papel amassada, rasurada,
Uma fala grotesco-enrolada,
Dá vazão a um elogio feito de forma grosseira.
A cartografia dos afetos
Do Poeta De Calçada
Localiza-se entre o estrelato pretendido,
A sarjeta a ser evitada
E a saideira (do bar ou da vida):
Entreato e reestreia,
Encenação e reprise
De uma mesma tragédia intelectopseudo-suicida.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Poema: "Proibido", de Erivelto Reis


Proibido
Erivelto Reis

Animais domésticos
Produtos cosméticos
Porres homéricos
Acidentes isquêmicos
Paradas cardíacas
E outras paradas
Amores platônicos
Romances românticos
Atores histriônicos
Voos supersônicos
Consumir tóxico
Canudo de plástico
Confiar em Horóscopo
Placas de trânsito
Ânsia de vômito
Pisar nos crisântemos
Proferir anátemas
Só viver é permitido
Entre as reticências
Entre as aparências
De todas as aspas.