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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Poema: "Sátira", de Erivelto Reis


Sátira
Erivelto Reis
Para os argonautas.

Tudo o que pode ser vivido
Já estava escrito,
Está sendo escrito,
Será escrito pela Arte, pela Literatura.
Tem gente que embarca
Nessa aventura.
Tem gente que entende esse enredo,
Ouve essa música, aprecia esse quadro,
Lê bem essa partitura,
Não vive a vida à toa, age, atua.
Conquista o espaço que merece,
Não o que o destino insinua.
Tem gente que sabe,
O seu quilate.
Mas...
Tem gente que não gosta
Da Literatura, da arte.
Está por aí, em toda parte,
Dividindo, pouco a pouco,
Sua agrura, seus jamais...
Tem gente que é feita de amor e de ventura
Que vive com respeito e trata a todos com ternura.
Mas...
Tem gente que atura,
Tem gente que surta,
Tem gente que satura.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Poema: "Consórcios", de Erivelto Reis

Consórcios
Erivelto Reis

Não posso ensinar aos que ensinam,
Quando os que ensinam aprenderam,
Sabe-se lá de que maneira,
Que a educação é brincadeira,
Que não é preciso saber para ensinar:
Só é preciso fingir,
Enganar, trair, trapacear,
Negligenciar e omitir.
Vou lhes transmitir um conselho,
Um recado: parem já com esse engodo,
Porque vocês estão errados.
Seu aluno não é gado,
Não aceita ser relegado
Ao segundo plano.
É isso que querem deixar como legado?!
Poder aprender, poder ensinar
E não se dedicar de fato
É um ato desumano!
É um dom desperdiçado,
Um dó desafinado no acorde de um velho piano desalmado...
Acordem.
Para transcender é preciso sentir,
Precisa paixão, precisa-se tear a palavra
Que há nas linhas invisíveis das ideias,
Da imaginação...
Precisa estudar, precisa trilhar
As estradas dos caminhos
Dos atalhos do coração.
Não é que eu tenha qualquer superioridade,
É apenas que eu não fuja das minhas responsabilidades,
Que eu não queira pra alguém
O que jamais eu quis pra mim.
Libertem-se, libertem os demais
Permitam que descubram os bens
De que a Educação é capaz.
Com autonomia, ética e solidariedade,
Deixem que eles próprios montem
Os quebra-cabeças de suas verdades.
Não se iludam, oh, potestades:
Eles veem, eles sentem, eles sabem.
Não posso ensinar aos que ensinam,
Quando os que ensinam aprenderam,
Sabe-se lá por quais consórcios,
Que a educação não passa de um negócio...

domingo, 5 de agosto de 2018

Poema: "Navalha", de Erivelto Reis


Navalha
Erivelto Reis

A fé não salva ninguém do sofrimento
Mas garante alguma resignação ao passar por ele.
Olho pra esse horizonte que desponta,
Perpassa-me como um alfinete,
Costura-me como uma agulha...
É o fim da picada.
Nenhum viver todo é inofensivo!
Quando foi que dar e receber amor
Ficou tão nocivo?!
Eros doente atira pra matar
E ver arder no fogo a paixão do instinto.
A luz morta de uma fagulha apagada de ex-ser...
Pavio de vela, capítulo de não-vê-la:
A vida que podia ser,
E não a vida como ela não é.
A-feto, inumano, dor.
Cortei-me com uma faca cega,
Furei-me com uma tesoura sem ponta,
Tomo um caco de garrafa como último gole.
Porto uma lança e um dardo
E tomo uma surra
Com espada de são Jorge pra curar meu porre.
Tanta esperança pra nada
Tonta, a esperança portava
Um canivete suíço sem função,
Nada há que me valha!
Uma navalha enferrujada
Pra cortar impulsos,
Um estilete sem estilo na poesia
E na conversa fria
Em uma mesa de botequim
Que se tornou essa (pa-)rede social sem fim!
Ninguém olha pra mim,
Ninguém me escuta,
E nos glóbulos vermelhos
Que essa artéria histérica expulsa (va)
Ali onde eu caí, qualquer um caía...
Menos chuva, menos lágrima.
Ali onde me expus, qualquer um sangra (va)!
Pus e vísceras à mostra,
Mas quem se preocupa (va).
Minha selfie é um quadro bélico,
Abstrato, surreal e cubista
De alguém que se perdeu da vida.
Sublime, estampe canecas e camisetas com meu drama!
Que vossos travesseiros afundem vossas consciências
Como âncoras.
Viver nem sempre é estar vivo:
É vegetativo entrar e sair
De um perplexo estado de coma.

sábado, 4 de agosto de 2018

Poema: "Cena do crime", de Erivelto Reis


Cena do crime
Erivelto Reis


Mariana, o mal agora está feito,
O banzé está formado,
Escreve, sim, uma carta pra os seus pais...
Seu quarto foi maculado,
E certamente algo mais...
Passe álcool canforado
Pra amenizar a dor do seu corpo cansado.
Não fiques fazendo rascunhos de cartas,
Suspirando, falando bravatas
E promessas de amor imorais.
Veja se toma juízo.
Em um convento,
Paixão de alma e corpo não convém!
Melhor seria apenas idealizar o céu.
Castidade não é brinquedo
E religião é vocação e hábito!
Tenho pena desse seu desejo incauto.
De suas palavras de amor e fel.
Estou avisando a você...
Que hálito de amor é esse, Mariana?
Incenso na mesa de cabeceira,
Dois copos pela metade:
Um com água benta e outro com conhaque,
Uma capa de marinheiro embaixo do catre,
E duas anáguas parcialmente rasgadas?
Mariana, você não quer confessar nada?!...
Mariana, fala pra mim, por onde esse homem entrou?!
Seria ele um mago Merlim da sedução, um Robin Hood do prazer?
Um ilusionista anticristo do seu coração...
Mariana, presta atenção!
Daqui a pouco, à hora do ângelus,
Peça a Deus e aos santos
De seu pecado a redenção.
Sua história não é a única,
Mas poderá escandalizar,
Que não seja pela perda da pureza,
Por amor, ela será.
Pois quem ama a quem o ama
Sem pudor e sem maldade,
Ainda sem correspondência,
Deixa um legado à eternidade.
Mariana, eu achei mais quatro cartas,
A quem as pretende enviar?!
Ajoelhe-se, Mariana...
Ajoelhou tem que rezar...


sexta-feira, 27 de julho de 2018

Poema: "Raminho", de Erivelto Reis


Raminho
Para as minhas alunas
Erivelto Reis

Era só um raminho
Quando a conheci.
Mas cada árvore já comporta dentro de si
A vastidão frondosa dos tempos
Que testemunhará...
E a sina de ser abrigo, ar,
Fruto, guardar o solo, proteger, alimentar
E transcender o tempo que lhe couber.
Era só um raminho quando a conheci,
Mas era sua natureza
Ser plena e incansável na busca
Por conquistar o seu espaço,
Ocupar clareiras e preencher com amor
E sensibilidade as lacunas do conhecimento.
Era uma flora inteira, uma fauna inteira
De pássaros, (alunos e alunas) e outros seres alados
Que por ela eram atraídos,
(Como as histórias e as personagens da Literatura!),
No habitat natural da Arte e das Letras...
Mas era só um raminho
Quando a conheci.
Era rara, era cara e continua sempre.
Já era alta e imponente
...Talvez, só parecera um raminho...
Alguma forma alguma que adequasse
Delicadeza e força.
E isso não é de agora...
Era só um raminho
Pequena parte de uma grande árvore
E de notável professora.
Bebeu a sede dos rios que desbravou
Pra se tornar quem é e quem sempre fora.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Poema: "Aprendizado...", de Erivelto Reis


Aprendizado...
Erivelto Reis

Não ensinei aos meus filhos
A falta que meu pai faria.
Não foi por maldade,
(Meu Deus, quanta saudade!),
Inexperiência ou simples apatia...
É porque, de fato, isso eu não sabia.
Ele estava ali, tão perto, à vista,
Pra tudo que eu precisasse,
Ainda que eu nem pedisse.
Todas as tardes de domingo,
Todo sábado, a partir do meio-dia...
(Tinha alegria em me encontrar, em conversar comigo!).
Não ensinei aos meus filhos
A falta que meu pai fazia...
E hoje ensino, com minha tristeza infinita,
Meu olhar perdido, toda hora,
Todo dia...

Poema: "Rosário", de Erivelto Reis


Rosário
Erivelto Reis
Para Você com especial gratidão

Nenhuma força humana para o bem e a justiça
Foi sentida
Que antes não fosse delicadeza e candura
É assim a noite dos sonhos
É assim na alma das formas
Tudo que é sentimento, luz e esperança
Projeta sobre e a partir dos objetos sombras
Mas é assim que alma transborda,
É assim que o mundo se transforma.
Nenhuma força humana para o bem e a justiça
Foi sentida
Que antes não fosse delicadeza e candura.