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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Poema: "Floriópolis", de Erivelto Reis

Floriópolis 

Erivelto Reis 

Não é fácil chegar a Floriópolis.
Não é fácil ir embora de Floriópolis.
Só os bons, os justos, os amigos
E as pessoas que sonham alto podem lá chegar.
Floriópolis existe no Piauí, por aqui,
Como metáfora
Para designar onde quer que uma pessoa amiga
Resolva nos recordar.
Se eu conheço um lugar assim,
Nunca mais na minha vida
Eu saía de lá...
Quantos desafios, quantas vitórias.
Em que outras épocas Floriópolis floresce?
Floriópolis pode ser qualquer lugar
Onde gente boa já foi feliz.
Onde gente querida habita...
Onde gente de bem, gente amiga,
Daquelas que a gente não esquece,
Quanto mais fica feliz, ainda mais merece...

"4.3", poema de Erivelto Reis


4. 3
Erivelto Reis

Cheguei a uma idade
que mais parece o número de
um capítulo de uma tese
sobre absolutamente ninguém.
A não ser que queiram tratar
de como é difícil ir perdendo
as pessoas pelo caminho
enquanto vai ficando mais
difícil manter alguém do seu lado.
Idiossincrasias,  cada dia uma nova,
e as velhas, cada vez menos levadas a sério.
Estou mais longe do dia em que nasci
do que do dia que haverei de estar no cemitério.
4.3
É a idade que dizem que tem o tal
do Erivelto Reis
Só os ingênuos acreditam nessa idade!
Na verdade, ele já nasceu velho.
Repete as mesmas três palavras
em todos os seu poemas,
tem insônia, herança cardíaca
duplicada de problemas...
Não há para onde fugir,
é o que a sua biografia nos sugere!
Vai ver ele já fugiu:
está escondido nas palavras
que escreve.





sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Poema: "Fu-turismo", de Erivelto Reis

Fu-turismo
Erivelto Reis

Porque nem todos os caminhos levam à Roma...
Eis a viagem. 
O itinerário é longo. 
São vários pontos de parada.
Vários lugares para visitar. 
É preciso estar in loco. 
Sentir a textura dos caminhos 
Sob os pés e aprender a perceber 
As nuances do céu 
E seus matizes sobre nossas cabeças. 
É preciso caminhar, 
Matar a sede e perceber 
A sede aumentar e se transformar. 
Pacote comprado. 
De repente, dizem: 
"Basta apenas que ouças as histórias"
No máximo, tu verás um mapa.
Tu querias viver, 
Experimentar para decidir.
Restam as histórias contadas por quem 
Nem ao menos passou por lá; 
Ou se passou, 
Passou por atalho que levou a lugar nenhum. 
À beira de nenhuma estrada.

Poema: "Fio", de Erivelto Reis


Fio
Erivelto Reis
Brasil, um país que todo dia
amanhece banhado em lágrimas. 

Elas provêm do espanto ante a tragédia 
e o sofrimento de nossos irmãos; 
do inesperado do desastre da fatalidade; 
do horror do ódio dos poderosos: 
aos mais fracos, aos mais pobres, 
aos mais velhos e aos que ainda lutam 
e não se corrompem; 
provêm da desvalorização:
da vida, dos professores, das mulheres,
seus corpos, suas almas e seus direitos...
provêm da tristeza 
pela desfaçatez das forças ocultas 
do poder econômico, 
que açulam o cinismo 
e a degeneração administrativa 
de muitos que governam este país;
provêm pela descrédito que temos
pelos que legislam, indisfarçavelmente, contra o povo 
e dos que julgam com brandura e leveza, 
absolvendo seus compadrios, 
e com celeridade e fúria, 
quase em desapreço 
pela legalidade e seus princípios fundamentais, 
àqueles que possam representar 
uma esperança sequer de oposição 
aos desmandos de becas e togas e colarinhos. 
Não sei como vocês se sentem. 
Mas a impressão que eu tenho 
é de que já de há muito no Brasil, 
todo dia é um amanhecer em lágrimas.
Um vale de lágrimas.
Quando não é a Vale é um Vélez
Quando não é um rico, é um reles...
Quanto desvelo em calar-nos!
quantos canalhas nos altos postos!
Todo dia assim... dor, estupor e choro.
E até quando?!
O meu país é uma pátria que anoitece 
e amanhece chorando.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Poema: "Bibelôs", de Erivelto Reis


Bibelôs
Erivelto Reis

Tenho uma cristaleira cheia,
repleta de bibelôs quebrados
isso mesmo: bibelôs.
relíquias de momentos memoráveis,
relicários devotados aos santos e santas
aos quais rezei em prece fervorosa
de amizade e admiração
santos aos quais nenhum favor neguei
e que nenhum milagre me ofertaram
santos que me amaldiçoaram
mártires do próprio ego
bibelôs quebrados,
raríssimas antiguidades,
cristais com pequenas fendas
com pequenas trincas
palavras puras em lexicografia
e horrendamente obscenas
em ardis intenções
aí os conservo,
sei a expressão que tinham
quando intactos
e congelo a memória da expressão
dissimulada dos primeiros indícios
de que se partiriam em mil pedaços
de que tentariam me cortar com seus estilhaços
─ e não é que de fato alguns me estraçalharam?! ─,
kamikazes de amizade
simuladores de lealdade
morem na minha cristaleira,
prisão de memória e espelho,
morem apenas lá, covardes
guardo todos,
convencido de evitar que seus cacos
se espalhem por toda parte
bibelôs quebrados:
ilusão de quem coleciona desastres.

Poema: "da paixão", de Erivelto Reis


da paixão
Erivelto Reis

na primeira estação estavam os cães raivosos
na segunda, os atiradores de pedras
na terceira, os que proferiam calúnias
na quarta, os que se divertiam com a dor do outro
na quinta, os que conspiravam a história que os absolveria
na sexta, os ferreiros que forjaram a lança da inveja
na sétima, os invejosos que espetaram a lança
na oitava, as mulheres que sofriam a opressão por só querer o bem
na nona, os velhos e a fadiga de seus olhos por reconhecer o mal
na décima, os homens íntegros que sabiam que em breve seria a sua hora
na décima primeira, a horda de traidores
na décima segunda, os hereges e beatos cada qual se fingindo do outro
na décima terceira, cada um que fez alguma coisa para não fazer nada
na décima quarta, os lamentadores, os carrascos e os que viram os sonhos ruírem
convulsão de vozes, estertor de alma:
uns pensam e se calam:
“meu deus, sacrificaram mais um inocente!”
outros não pensam e se ufanam:
─ que bom, matamos mais um inocente!

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Crônica: "Uma carta para meu irmão trabalhador", de Erivelto Reis





UMA CARTA PARA MEU IRMÃO TRABALHADOR
Erivelto Reis

Queria escrever uma carta para o meu irmão trabalhador que nem eu. Não porque eu saiba escrever, ou escreva melhor ou mais bonito, ou porque ele, talvez, não saiba nada sobre o que eu vou dizer a ele, ou nada entenda sobre os perigos de dizer o que ele tem dito e de escrever o que ele tem escrito.
Queria escrever uma carta. Só uma. Para o meu irmão trabalhador que nem eu. Não porque sejamos amigos, ou sejamos colegas ou trabalhemos no mesmo ramo, ou estejamos no mesmo barco, ou porque sejamos torcedores do mesmo time ou sonhemos com as mesmas coisas para o país. Também não seria porque pensemos de forma distinta, ou sonhemos com ideais completa ou parcialmente diferentes. Não porque eu não tenha tanta experiência, não porque ele não tenha o mesmo conhecimento que eu. Não porque ele talvez suponha que não estejamos no mesmo barco.
Queria escrever ao meu irmão, trabalhador que nem eu, uma carta. Uma carta que perdesse de todo a sua intenção de aviso, de conselho de alerta, de pedido, de interseção. Uma carta que perdesse a finalidade de chamar sua atenção e exercesse única, exclusiva e preponderantemente a função de servir como um alento, como uma expressão de afeto, como um abraço.
Ainda que meu irmão trabalhador me confrontasse, ainda que ele me desprezasse, ainda que não me entendesse, que me julgasse, que me excluísse... Ainda que ninguém soubesse. Ou, em sabendo, que não curtisse, não comentasse, nem compartilhasse. Ainda que criticasse. Queria escrever uma carta que fosse uma prece a quem não rezasse, que fosse uma reza por quem não acreditasse, que fosse uma súplica por quem não lamentasse. Que fosse silêncio e um olhar por aqueles a quem não se olhasse. Queria que meu irmão trabalhador que nem eu, apenas parasse, por um instante, e que repensasse.
Queria escrever uma carta que ensinasse. Ao meu irmão, trabalhador que nem eu, como é infinita a sua possibilidade. Como ele é importante em sua função, em sua alegria, em sua família, em sua comunidade, em nosso trabalho, em sua missão para todos os que dele dependem, para todos os que com ele convivem, para todos como eu, que nele se espelham. Para dizer a ele como são duras as coisas tristes de que ele se aproxima talvez sem querer, talvez sem perceber, talvez querendo, sabendo, percebendo. Mas que é, também, possível mudar de ideia, ponderar. Rever-se. Sei lá. Retroceder.
Não escrevo, pois não me cabe esse direito. Não escrevo porque não me cabe essa função. Mas, sendo amigo, caberia. Mas, sendo irmão, trabalhador que nem eu aceitaria a empreitada. Caminharia por quanto tempo e a que distância, desde que pudesse fazê-lo perceber a antipatia de certas coisas, que certas coisas provocam. A dúvida é: se meu irmão iria querer. Iria me entender e se caminharia comigo. Se me veria como amigo. Depois que lhe escrevesse e lhe mostrasse que os que chama de inimigos, talvez assim não sejam. Se os que elege como dignos talvez nem tanto sejam. E que não vale a pena atrair pra si a imagem dos que defende ou ataca. Sua imagem pessoal e sua trajetória de trabalhador, meu amigo e meu irmão, já falam por si só.
Não pretenderia demovê-lo de seus valores, de seus princípios. Não pretenderia convencê-lo, doutriná-lo, exortá-lo, insultá-lo, limitá-lo. Pretenderia, contudo, sensibilizá-lo. Buscaria afastar de sua figura pública de trabalhador, meu irmão, o amargor da banalidade de um mal com o qual eu sei que ele não compactua. Que ele não profere, que ele não pratica, mas que o circundam, a partir de textos e imagens dos quais ele se acerca. Talvez não por pensar diferente... Talvez apenas por querer expressar de uma forma dinâmica, o que no dinamismo da informação carrega também fúria, ressentimento, mentira, calúnia, desfaçatez, manipulação e ódio.
Queria que ele escrevesse poesia, salmos, cânticos. Queria mais do seu humor de trabalhador como eu. Queria mais da resenha do seu time de coração. Queria mais das imagens engraçadas e dos seus trocadilhos. Queria mais das provocações do dia a dia de nosso trabalho comum; mais de sua família, mais de seus passeios, mais de seus amigos. Ainda que as coisas que publica e compartilha fossem de sua autoria ou ainda que chegassem ao encontro das lacunas do que sinto e do que penso, seria dele que eu quereria mais notícias. E não me juntaria a ele numa voz solista de paladino ou num coral gigante de tenores para bradar contra quem quer que fosse. Bradaríamos, sim, contra a fome, a falta de trabalho, de oportunidades, de salário, de emprego, de respeito. Discutiríamos ideias e não pessoas. Talvez, Fernando Pessoa. Talvez, só conversássemos à toa.
Queria que minha carta fosse rasgada, queimada, trancafiada num baú de trecos sem valor. Queria que não precisasse ser escrita e, muito menos, lida. Queria uma nova perspectiva de sociedade e de vida para mim e para meu irmão trabalhador que nem eu.
Queria compreender mais e melhor. Que me desculpasse se lesse em minhas palavras quaisquer intenções que não a de abraçá-lo. Queria que o espaço para o pensamento contraditório não servisse nunca de palco para a maledicência da corrupção. Não alego estar com a verdade, não pretendo estar com a razão. Queria direcionar minhas palavras, meus bons sentimentos, minha boa intenção, meu silêncio complacente, meus respeitos, meu afago, meu carinho, meu afeto e minha admiração a cada trabalhador e trabalhadora: meus amigos, meus irmãos. Façamos de nossas palavras o espaço em que se compartilha o pão.