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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

domingo, 19 de maio de 2013

Crônica - "TOC de Cachorro" - Erivelto Reis



TOC DE CACHORRO
                                                                                  Erivelto Reis


            Antes de qualquer coisa: não é “tosse de cachorro”! É TOC mesmo. Agora vamos ao texto.
            Coitado de quem não tem boas lembranças para contar. Eu tenho, mas não sou bom de contá-las. Gosto mais das memórias inventadas... Essas marcam muito e me dispensam do trabalho de lembrá-las ou de explicá-las. Permitem-me até melhorá-las. No entanto, adoro contar as boas lembranças dos outros. O que ouço ou imagino ter ouvido. Às vezes, conto também as histórias não tão boas. Tal e qual o que se passa quando se conta com as pessoas...
            Tenho um amigo metido a psicólogo e a veterinário que exerce uma espécie de antropopsicologiaveterinária. Comparando gente com cachorro – atitude na qual não é o único mas na qual tem se esmerado bastante. Diz o “cientista postulante”:
 Tem gente que tem TOC de cachorro. Esse transtorno obsessivo compulsivo que faz com que as pessoas façam repetida, inexplicável e/ou inconscientemente o mesmo gesto. Tendo ou não função prática. Com controle ou sem.
– É mesmo?! Como é isso?
– Já observaram os cãezinhos?! Não abandonam quem não os trata bem. Antes, são abandonados. Rosnam para a própria sombra, latem e uivam para a lua. Agitam-se se estão felizes, se arrepiam se levam susto ou se se preparam para o ataque.
– Os cachorros fazem isso! Ok. Mas, e as pessoas?!
– Também!
E continua meu amigo:
            – Outro dia observei um cachorro que corria atrás de carros e motos latindo, rosnando, arranhando e ameaçando morder. Localizei logo o seu objetivo: mostrar que mandava no território. E mostrava a quem passava; a quem não estava nem aí. Bastava que alguém parasse e se detivesse observando a presença do animal para que ele ficasse estático, intimidado e confuso.
            – Me perdi. Insisto...
            – TOC de cachorro é isto! – Diz ele. E esclarece enumerando:
– “Ficante” de “pegação” na esquina da sombra; gente que busca o sonho, o consegue e não sabe o que fazer com ele; companheiros que não cumprem o trato e te “mordem” por instinto –, mas te avisam. Enforcadeira invisível a cercear espaço. Histórias e mais histórias que não se cruzam...
– Filosoficamente anticanino! – Aplaudo, me divertindo. Ele continua. Sustentando a metáfora:
– Perceba que os cachorrinhos que correm atrás dos passantes ou dos carros que os transportam, podem até assustar a um passante mais atento, como assustaria qualquer palpável e invisível repentina rajada de vento. Mas não conseguem nada. Assim como as bolotinhas de Bombril que uma babá colocasse, como se monstrinhos fossem, para assustar criança tímida, indefesa e doce. Produzindo, assim, a milésima segunda e a milésima terceira utilidades do Bombril: fazer maldade e cuidar da “recreação” infantil.
– Que conversa?!
– Não, cara, minha tia fazia isso quando trabalhava em casa de família. Mas a teoria do TOC de cachorro é minha.
“Família de inventores” – Penso.
– O cachorro indeciso, diante do carro parado, e o sonho possuído e não usufruído são partes de uma teoria que compara os homens aos cães?!
– Você é sábio! – Me diz ele, triunfante, com mal disfarçada emoção.
– Agora já posso explicar o capítulo da tese que aborda a fidelidade durante o cio e os postes nos blocos de carnaval...

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