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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Artigo: "Para Ler crônicas" - Leandro Konder

Anexo I

KONDER, Leandro. “Para ler crônicas”. In: _______. As artes da palavra: elementos para uma poética marxista. São Paulo: Boitempo Editorial, 2009, p. 45-49.



PARA LER CRÔNICAS

Leandro Konder


            Na mitologia grega, Urano, o Céu, teve com Gaia, a Terra, uma porção de filhos. Um desses filhos era Cronos, o Tempo. E Cronos, incitado pela mãe, castrou Urano. Mais tarde, com medo de que se cumprisse o que um oráculo predissera (que ele seria destronado por um de seus filhos), Cronos os devorava à medida que nasciam. Salvo pela mãe, Réia, um filho, entretanto, escapou: Zeus. E, como era previsível, Zeus derrotou Cronos e se tornou o mais poderoso dos deuses porque venceu o Tempo, que devorava tudo. Mas Cronos, mesmo vencido e justiçado, continuou a ser poderoso.
            Onipresente, o Tempo se impõe a todas as criaturas, se sobrepõe a todos os destinos. Tentamos compreendê-lo, esforçamo-nos por medi-lo. Algo nele, contudo, sempre nos escapa. Ele é vasto demais, desborda do nosso entendimento. Santo Agostinho, nas suas Confissões, já nos interpelava: com que autoridade pretendemos medir o tempo, se ele é a medida de todas as coisas?
            Cronos ri de nós. Não podemos alcançá-lo. Jamais chegaremos aonde ele se encontra, porque ele está em toda parte. Nosso conceito de eternidade leva-o às gargalhadas.
Os reis, então, que eram na Antiguidade os homens mais poderosos do mundo, designaram escribas de confiança para registrar seus grandiosos feitos e domesticar o tempo.
            Os primeiros cronistas não foram autores de crônicas, tais como as lemos e escrevemos hoje; foram escribas que assumiam a tarefa de relatar as ações dos monarcas. E nesse relato os antigos cronistas se empenhavam em apontar o que o rei tinha feito de melhor, de mais duradouro; as obras que deveriam ficar registradas e que nem mesmo a passagem do tempo destruiria.
            Os cronistas faziam o registro de fatos, na ordem em que haviam acontecido. O trabalho deles apontava, dentro de seus limites, para o que viria a ser o trabalho de historiadores.
Alguns desses cronistas assumiram uma inegável importância na história da cultura portuguesa, como Damião de Goes e, sobretudo, Fernão Lopes, a quem coube a delicada tarefa de explicar por que o princípio da sucessão dinástica, decisivo para a monarquia, foi momentaneamente deixado de lado por ocasião da ascensão de dom João I (o Mestre de Avis) ao trono, em Portugal.
Só no século XIX é que os nomes “crônica” e “cronista” passam a designar uma atividade e um gênero literários bastante diferentes daquilo que essas palavras significavam nos séculos XV e XVI.
A crônica passou a ser um pequeno conto de enredo indefinido, ou o comentário que se faz a respeito de um episódio vivido ou imaginado. Ou, ainda, uma breve reflexão feita em tom de quem aparentemente não se leva muito a sério. No sentido literário atual do termo, a crônica ocupa regularmente um espaço modesto, porém significativo em jornais e revistas, e também é divulgada no rádio. Em princípio, nenhum assunto lhe é vedado, todos lhes são permitidos (inclusive a falta de assunto).
Ao contrário da reportagem, a crônica não tem maiores compromissos com a objetividade. Sua força não está na informação, mas na capacidade de interessar aos leitores, em geral. Sua força não está na profundidade do pensamento, mas na amenidade com que o expõe. Margarida de Souza Neves chama a nossa atenção para o espaço aberto pela crônica para o comentário pessoal, o olhar subjetivo, a busca da singularidade do efêmero e do fragmentário1.  Embora não ignore os problemas da esfera pública, a crônica parece preferir lidar com vicissitudes mais pessoais, com sentimentos que se formam na vida privada, ou se voltam para ela.
A literatura brasileira tem um bom time de cronistas. Machado de Assis, a glória máxima de nossas letras, cultivava o gênero; Carlos Drummond de Andrade também2
De maneira geral, a crônica moderna se desenvolveu a partir da expansão dos jornais diários, que abriam um espaço para textos leves, escritos em tom coloquial, para entretenimento do leitor. Seu florescimento decisivo no Brasil parece ter se dado nos anos 1930.
Antes disso, no século XIX e nas duas primeiras décadas do século XX, ainda havia nas crônicas elementos de uma retórica imponente, que o gênero – tolerante – acolhia, mas não contribuíam para sua identidade. Olavo Bilac, José de Alencar e mesmo Machado de Assis: independentemente dos méritos desses autores, suas crônicas apresentavam, em alguns momentos, a linguagem “literária” que na época era considerada nobre. Avanços na direção de um maior despojamento linguístico e temático têm sido notados em João do Rio, Luís Edmundo, Lima Barreto, Mário de Andrade, Alcântara Machado e Álvaro Moreyra, entre outros.  Nos anos 1930, dedicando-se ao gênero com exclusividade, destaca-se o cronista Rubem Braga. É então que se constata o pleno florescimento daquela que já foi chamada de “a moderna crônica brasileira”. Na esteira do canal aberto por Rubem Braga, emerge toda uma geração de cronistas. Correndo o risco de incorrer em omissões muito graves, lembro aqui Manuel Bandeira,
 


1 Margarida de Souza Neves, “História da crônica. Crônica da história”, em Beatriz Rezende (org.), Cronistas do Rio (Rio de Janeiro, José Olympio, 1995), p. 29.
2 Ver Jorge de Sá, A crônica (São Paulo, Ática, 1985).
Vinicius de Moraes, Marques Rebelo, Antonio Maria, o Nelson Rodrigues de “A vida como ela é”, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, José Carlos de Oliveira. E, mais recentemente, João Ubaldo Ribeiro, Zuenir Ventura, Artur Xexeo, Arnaldo Jabor, Maria Lucia Dahl, Luis Fernando Veríssimo e tantos outros3.
Cada cronista imprime seu estilo próprio, sua maneira particular de ver fatos curiosos, de se divertir e divertir os leitores. Ou então, sua melancolia, seu modo de evocar situações passadas, esperanças que se dissiparam (penso aqui em meu irmão, Rodolfo Konder).
Às vezes, irritado, o cronista – exercendo um direito seu – abandona o tom da crônica por uma certa truculência, cedendo à pressão polêmica ou sentindo necessidade de marcar uma posição de princípio. Álvaro Moreyra, entretanto, conseguiu marcar uma posição de princípio, sem se afastar do clima da crônica quando escreveu: “Não nasci para chefe. Chefe manda, eu peço. Peço que não me mandem”. 4
Antonio Maria, com seu humor carioca inconfundível, fazia pilhéria com Vinicius de Moraes, dizendo que todas as crianças são traumatizadas pela brutal cessação do acesso ao leite materno (o desmame). E ressalvava: “Isso aconteceu a todas as crianças, exceto a Vinicius de Moraes, que foi sempre amamentado e amado pelas jovens mães dos outros”.5
Uma certa molecagem afetuosa não é rara nas crônicas. Também não é rara a irritação divertida, a melancolia graciosa, a auto-ironia. Se houvesse algum consenso entre os cronistas a respeito do que a crônica deve ser, imagino que chegariam mais facilmente a um acordo sobre o que não deveria ser: acima de tudo, é preciso evitar que ela seja chata. Muitos críticos sublinham o fato de a crônica constituir um gênero menor. Antonio Candido reconhece a procedência dessa qualificação, mas argumenta que:
 


3 Ver Beatriz Rezende (org.), Cronistas do Rio, cit.
4 Álvaro Moreyra, As amargas, não (Rio de Janeiro, Lux, 1955), p. 208.
pertencendo a um gênero menor, a crônica fica perto de nós [...]. Na sua despretensão, humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição. 6
E admite:
sua durabilidade pode ser maior do que ela própria pensava.7
E aqui nos defrontamos, mais uma vez, com o deus grego e sua ambivalência. Cronos deu origem a uma percepção do tempo que nos põe diante da essência contraditória da mudança e da permanência.
Se dizemos que alguém sofre de uma doença crônica, isso significa que a doença é constante, vai durar enquanto o doente durar. Se dizemos, entretanto, que alguém escreveu uma crônica, isso significa que o autor do texto se empenhou em cultivar um gênero menor, redigiu algo leve, que não tem a ambição de perdurar.
O paradoxo consiste nisso: a doença crônica pode um dia vir a ser curada. E a crônica comprometida com um instante fugaz pode perdurar na lembrança dos leitores. O efêmero pode ser eterno, assim como o eterno pode ser efêmero.
 


5 Antonio Maria, “Evangelho segundo Antonio”, em Com vocês, Antonio Maria (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1994), p.12.
6 Em Setor de Filologia da Casa de Rui Barbosa (org.), A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil (Campinas/Rio de Janeiro, Unicamp/Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992), p. 15.
7 Idem.







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