Avisado
Erivelto Reis
Há quem reze para um deus machista
Alcoolista
Preconceituoso
Drogado
E ludibriado
Quanto à própria
Sabedoria, onipresença, onipotência
E onisciência.
A quem reze para um deus consciente
Da própria crueldade
Como quem lê um romance
Onde o narrador sabe que está narrando,
Porque está narrando e o que vai ser feito
Da vida de todas as personagens.
Ser deus talvez seja sobre não saber ser deus
Ou não saber reconhecer um deus
Ou uma deusa...
Sobre não saber nada sobre existência alguma
Que seja superior ao tempo,
Ao sorriso de uma criança,
Ao silêncio de testemunhar um fim...
Ser deus não deveria ser
Sobre ter fiéis, crentes ou sequestradores
De enredos...
Ou sobre ter seu nome em nenhum livro
Em que a existência esteja restrita a um espaço
Circunscrito a nascer e morrer.
Ou existir sem sofrer.
Ou promessas de prendas e paraísos
Ou ameaças de sacrifícios.
Ser deus deveria ser algo tão banal
Que ninguém se desse conta.
Desconfio desse tipo de deus que é sendo
E que não é se desentendendo
E que é não sendo
Quando mais se precisa
Que seja
Penso talvez num deus que não é e não foi
Sempre não sendo,
Mas que avisa.

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