O chão da escola
Erivelto Reis
Há uma poça de lama no chão da escola
No bairro da escola, na rua da escola
Há uma poça de lágrima
Que escorre no chão da escola
Há uma poça de suor e sangue
No chão da escola
Um livro uma professora um servente
Desprezados no chão da escola
Só os discursos sobre o chão da escola
Parecem edificantes
Ficções para principiantes
Um chão por onde já poucos caminham
Do qual muitos se desviam...
Uma trincheira – última linha antes da barbárie
A chave do cofre está nas mãos
Dos que ainda resistem no chão da escola
Depois, arrombada e saqueada,
Privatizada a educação
– o per capta do governo
Pago aos abutres e lemans que estiverem em cena
Vai se maior que o pib das grandes potências
E a escola vai ter franquias e filiais como bobs e habibs
E vai vender minguados créditos aos filhos dos
trabalhadores
como quem carrega um pré-pago, um oi ou um tim talvez,
claro...
Pra o aluno pobre matriculado aprender quanto puder
No tempo que lhe for destinado.
Ou haverá plataformas e aplicativos com algoritmos viciados
Como uma bet pra perder o futuro de vez.
Uma fábrica de operários mudos e obedientes
E mal remunerados.
Há muito lodo no chão da escola
Um escândalo que, se revelado,
Faria ver a todos o quanto de posse há sobre o chão da
escola
De concreto só os decretos e os pontos estratégicos
Dos prédios que interessam aos investidores
E o que eles significam em lucro, propaganda e controle.
Um chão de deixar doente, um chão úmido,
Do qual já não parecem germinar as boas sementes.
Há um chão da escola, viciado em desmantelar gente.
Há um chão da escola diferente...
Há um caixão da escola!
Há ainda alguns poucos indignados...
Resistindo, lutando... re-velando.
E um montão de gente indiferente.
Onde é que fica o chão da escola?

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