Póstumo
Erivelto Reis
Não há ninguém que a morte
Tenha me levado
Que não continue vivendo em mim.
Através de mim
No que conscientemente enxergo
E num jeito de andar ou de franzir a testa
Que ainda hoje eu carrego.
Não é sobre DNA é sobre um amor
Que insiste em se renovar
Com a presença da saudade, da ausência,
Da subjetividade... da imaterialidade.
Não é sobre irrealidade
Porque a lembrança,
a saudade e a imaginação
Tornam absolutamente real
Os que só vivem em nosso coração.
Não é sobre imortalidade
É sobre a condição mais natural
E que torna a humanidade frágil
E ao mesmo tempo sobrenatural
Em sua ilusão de poder
Em sua crença na versão plural
E diáfana de uma vida espiritual.
É uma forma comum e utópica de preservar
O amor por aquelas pessoas que se foram...
Às quais só a saudade e memória
Nos permitem abraçar
Com a emoção de nosso existir mais íntimo,
De nossos apelos e pensamentos mais secretos.
Com a reverência muda dos que creem
Nos mistérios da vida e nos afetos.
Não há ninguém que a morte
Tenha me levado
Que não continue vivendo em mim.

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