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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

“A GRANDE BELEZA” OU A ÓTIMA ESTÉTICA HERMÉTICA DO CAOS OU QUANDO A BARBÁRIE DIZ SEU NOME OU OTTO LARA REZENDE OU A HORA DA ESTRELA OU A VIDA É BELA OU CENTRAL DO BRASIL

“A GRANDE BELEZA” OU A ÓTIMA ESTÉTICA HERMÉTICA DO CAOS OU
QUANDO A BARBÁRIE DIZ SEU NOME OU OTTO LARA REZENDE
OU A HORA DA ESTRELA OU A VIDA É BELA OU CENTRAL DO BRASIL
Erivelto Reis

Para Flávios e sinceros Cíceros e Sísifos

“Não se pode falar de pobreza. É preciso vivê-la.”
Irmã Maria

“Eu procurava pela grande beleza”
Jep Gambardella

                Quem disse que a vida tem de ser bela o tempo todo? Mas nos esforçamos para fingir com vigor que a aceitamos como passível de beleza. A autoria da obra de arte não se empresta a ninguém. O tesouro que ela vale, existe apenas a partir do contrato que se estabelece entre quem a constrói e aqueles aos quais se comunica o quanto ela evoca o que dói. É só.
                O filme “A grande beleza” (2013), produção Ítalo-francesa, dirigida por Paolo Sorrentino, que assina o roteiro em parceria com Umberto Contarello, e que conta com a atuação magistral do ator Toni Servillo, é um dos raros filmes em que se questiona, entre outros temas, o hermetismo da própria arte.
A cena em que a artista-mirim “produz” uma obra de arte (um quadro) diante de uma plateia de “intelectuais”, todos atrelados aos valores das práticas dos vernizes sociais relacionados e impostos, sedutoramente, pela elite econômica e política, enquanto se revolta com a condição da exposição e da expectativa dos que a assistem e se lambuza de tinta, e bate na imensa tela enquanto chora e grunhe. Neste momento há uma tomada do alto em que a criadora se confunde como criatura ou como objeto produto de si mesma ante uma obra adiada. E eis que se vê a obra. A sobra. A soberba da impossibilidade de domar, domesticar, mercantilizar o espírito da arte.
Nesse instante nos vemos, como expectadores, diante do olhar maravilhado da maioria dos personagens presentes a vernissage e angustiado de alguns dos personagens que percebem a barbárie da arte como produto imposto e cobrado de quem, se supõe, possa oferecê-lo, como se oferecem os vinhos de boas cepas e as camisas de puro linho. Arte não é grife, porque arte não é produto. Arte se faz produto, mas grifes não se reproduzem arte pelo simples fato de existirem.
Ou ainda, a cena em que um empresário afirma tocar o país enquanto os artistas apenas simulam trabalhar e produzir algo. O personagem Jep Gambardella, é um escritor que produziu um grande romance, e que posteriormente ingressa no ócio e num permanente bloqueio criativo. Suas novas reflexões advêm da observação das práticas pouco ortodoxas que, eventualmente, emergem e parecem conspurcar os contornos das hipócritas práticas sociais.
Suas relações são superficiais, mas, paradoxalmente, seus questionamentos são profundos. Ele chega a criar uma espécie de nova poética, a exemplo da Poética de Aristóteles, sugerindo práticas e convenções a serem aplicadas em um velório, como se os sentimentos e as experiências pudessem concorrer meramente para a teatralização ou dramatização das emoções.
A cena talvez mais impactante é aquela em que não há um só amigo no velório para carregar o caixão e as pessoas se entreolham enquanto os olhos da viúva buscam aflitos entre os presentes alguma condescendência para o martírio, a humilhação da constatação de uma vida que não produza amigos, arte ou saudades. Por fim, voluntariam-se algumas personagens presentes, muito mais incomodadas do que consternadas; e a câmera se fecha no olhar de dor e de sofrimento do personagem Jep. Catártico, num choro sofrido e contido, por sua condição de sexagenário, por sua incapacidade de aprofundar relações afetivas, proveniente de uma desilusão amorosa, de uma educação religiosa castradora e mitômana e de sua atual incapacidade de escrever o romance que pudesse reunir tudo o que viu e viveu.
A morte irmana e iguala, porém rejeita uma experiência que não seja fruto da emoção e da sensibilidade, uma vez que sem esses elementos vitais, a vida e os funerais são encenações mal feitas; representações de momentos em que o tempo para ou em que não avança. Diverte, entretém, mas cansa. Como os filmes e as obras sem o mágico da arte e do que ela evoca, enleva e preserva. O mistério que ela mantém e revela. O som inaudível e iniludível da vida que reverbera quando há amor.
O personagem parece questionar se a beleza decorre da vida, ou se a vida é o hiato entre o belo e o não-belo. Memória e imaginação criativa coexistem num exercício profícuo de metaficção em que os ícones da arte, da música, da poesia, da literatura, da fotografia são relidos e ressignificados, ora intertextualmente, ora intratextualmente. Alie-se a isso, a fotografia exuberante de uma Itália para além do turismo e dos lugares comuns e “Deixe esse romance começar. Afinal, é só um truque.”

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