Santimônia
Erivelto Reis
Em agudo sofrimento
Foi ao mercado,
Curtiu um post,
Compartilhou um meme,
Escolheu uma roupa,
Almoçou bem...
Mas a cabeça tava a mil,
O coração a mais de 100,
O cérebro em motim...
A depressão também é assim.
Ansiedade e frustração
Como duas facções inimigas
Duelando no desfiladeiro das suas emoções,
Nos becos de suas inseguranças,
Nos escombros de sua autoestima...
Quem vê sua selfie, nem acredita
Nem imagina...
Quem vê cara, não vê depressão...
Não é toda regra que tem uma exceção.
E ainda tem a milícia da dopamina
Esfregando sua cara
No altar do arrasta pra cima...
Adorando o deus das curtidas!
A depressão também é assim.
Vai à praia, faz amor, reza despudoradamente
Um credo descrente...
Faz do hospedeiro uma casca...
De um segundo uma eternidade!
E impede de perceber horizontes.
Tudo é pra ontem!
Nada é pra sempre...
A depressão também é assim.
Sem insônia, exterior em santimônia.
Tem filme preferido, tem séries de conforto,
Tem áudios dos filhos e foto no aeroporto.
Tem férias em família, passeio de barco,
Foto na academia e aventura na trilha.
Ilhas de desafogo...
Desse jeito ninguém desconfia.
Um pedido de ajuda em código de silêncios intercalados...
Os casos crônicos de torpor e vícios
Não podem servir como únicos indícios.
A depressão também é assim...
Você sai de você pra brincar de fazer
O que você mais gostava
E nunca mais volta pra casa
Onde seu coração morava...

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