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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

sábado, 25 de julho de 2026

Crônica: "Sobre Paraíso, 1982 e sobre Benedito... ou não", de Erivelto Reis

Sobre Paraíso, 1982 e sobre Benedito... ou não

Erivelto Reis

A chegada de Paraíso (1982) ao Globoplay não é apenas um resgate da teledramaturgia nacional; é um convite para encarar o espelho de um Brasil que insiste em não mudar. Longe de ser apenas mais um folhetim interiorano, a novela carrega, talvez, um dos textos mais abertamente políticos de Benedito Ruy Barbosa. Em pleno período de reabertura e na efervescência da luta pela redemocratização, Benedito usou a rádio fictícia da trama para falar, sem rodeios, sobre política partidária, democracia, representatividade, o direito ao voto, reforma agrária e a dignidade e aposentadoria dos trabalhadores do campo.

Enquanto o romance cativante entre o "filho do diabo" e a "santinha" Maria Rita servia de pano de fundo, a novela abria alas para o florescimento urbano e a popularização da canção sertaneja no espaço da grande mídia da telenovela. Foi o palco onde ecoaram nomes como Renato Teixeira, Almir Sater, a dupla Milionário & José Rico e Sérgio Reis — este último com destaque no papel do peão Diogo. Por trás da musicalidade rural, corria a crítica ácida e tácita ao conservadorismo e à hipocrisia da Igreja Católica, uma instituição que andava de mãos dadas com o poder oligárquico dos coronéis. Eram figuras que recorriam a supostos pactos demoníacos, mantendo o diabo aprisionado em uma garrafa — mito ao qual o autor retornaria com maestria anos mais tarde em Renascer. Enquanto jogavam sinuca a dinheiro, o padre da cidade e esses mesmos coronéis (menos raivosos no horário das 18h), em reuniões e visitas de circunstâncias, dividiam espaço com os hábitos das beatas e o jogo do poder, em um ambiente em que, gradativamente, os civis em cargos de gestão como a prefeitura iam aprendendo a manejar a máquina da propaganda, da religião e da boa-fé de trabalhadores e trabalhadoras diante de qualquer aceno de modernização para aquela pacata cidade.

Benedito Ruy Barbosa não poupou esforços para fazer de sua obra uma forma didática de ensinar novos rumos e percepções políticas e sociais para o grande público da telenovela — especialmente os mais pobres ou ligados ao interior rural do país —, escrevendo cenas em que a rádio da cidade apresentava, entre as canções sertanejas, peças de utilidade pública em reclames, como a campanha do soro caseiro, dicas de higiene e vacinação. E passou boa parte dos mais de 180 capítulos ensinando claramente o conceito de situação e oposição em termos políticos e as possíveis intersecções entre esses dois polos no jogo do poder, desde a construção de uma pequena ponte até o pagamento do salário atrasado das professoras da cidade.

Anos mais tarde, no remake de 2009 adaptado por Edmara Barbosa, a mesma rádio fictícia voltou ao ar como engrenagem central da narrativa, mas dessa vez espelhando as transformações da própria indústria da música no país. Se em 1982 o rádio abriu portas para o chamado “sertanejo de raiz” e para a poética do campo, na versão dos anos 2000 a emissora serviu de vitrine estratégica para a consolidação e a massificação do chamado "sertanejo universitário", marcando a migração do gênero das violas caipiras para a música chiclete, os rodeios e as arenas do agronegócio.

A produção original fincou raízes em cenários marcantes: a Fazenda Florença, em Vassouras, e a Fazenda Indiana, situada na divisa entre o bairro de Campo Grande (Zona Oeste do Rio) e Nova Iguaçu, esquadrinhadas pela BR-465 (a antiga Rio–São Paulo) e pela Avenida Brasil. Vassouras, no interior do estado, emprestou seu casario antigo e sua exuberante praça principal como locações externas. A cidade conseguiu, ao menos em seu centro histórico, preservar e restaurar seu patrimônio ao longo das décadas. Já o destino da Fazenda Indiana foi o avesso da preservação: virou fábrica da Ambev, e o seu entorno foi tragado pela precarização, pelo colapso da mobilidade urbana, pela favelização, subempregos e exploração da mão de obra. A fazenda e sua criação de bois encerraram suas atividades, mas o território — entre Campo Grande e Nova Iguaçu — continua operando, ainda hoje, como um imenso curral eleitoral. O voto de cabresto e a força dos novos "coronéis" mostram que toda a luta pela democracia ainda não conseguiu coibir tais práticas. Mudam-se os tempos, mas não se mudam as vontades do poder, especialmente na assistência às periferias, subúrbios e na Baixada Fluminense.

Benedito Ruy Barbosa leu como poucos o Brasil rural e o país dos coronéis em obras emblemáticas como Cabocla, O Rei do Gado, Renascer, Sinhá Moça e Pantanal. Ele leu o país como quem lê uma manchete histórica, situando e até discutindo temas como a escravidão e o racismo. Ainda que, por vezes, perpetuasse determinados estigmas e incorreções historiográficas — afinal, o que não se corrige na ficção (embora não seja esta a sua obrigação) custa, demora e dá muito mais trabalho para ser corrigido apenas pelo viés da história e da educação. E, quando se corrige alguma coisa sem arte, às vezes fica torto, fica faltando, sem esquadro e sem base.

Rever a novela, para mim, é um exercício de memória viva. Acompanhar as cenas onde vazam ou se identificam o entorno do Km 32 da Rio–São Paulo, o Viaduto dos Cabritos, o primeiro conjunto habitacional da região, a Avenida Brasil quase deserta em direção a Santa Cruz, ou a alça de acesso para Campo Grande rasgada no morro, funciona como uma verdadeira máquina do tempo. Trata-se de uma ligação afetiva visceral, costurada pela ficção e pelos resíduos geográficos e históricos de uma região tão desfavorecida — a mesma região de onde, hoje, grupos de investidores extraem os bilhões com os quais avançam contra a economia brasileira e ainda rosnam contra qualquer política pública. Foi uma das primeiras novelas que assisti com minha mãe, meu pai e meus irmãos quando por aqui chegamos. E era bem pertinho da gente.

Hoje, a qualquer hora do dia, de domingo a domingo, é impossível cruzar a região da antiga Fazenda Indiana — atual Ambev — sem perder, no mínimo, meia hora em um engarrafamento sufocante e interminável. Ali, a luta pela sobrevivência se escancara no asfalto: trabalhadores e trabalhadoras e suas famílias arriscam a própria vida entre carros e motos, vendendo de tudo — do pacote de amendoim ao limpador de para-brisa. A antiga olaria deu lugar a um ecossistema informal e pulsante de barracas de refeições rápidas, do cafezinho à cerveja gelada, além do aluguel de vagas improvisadas de estacionamento para os operários da fábrica. No espaço exíguo entre o acostamento e a frente do terreno da olaria, ergue-se e se adensa, dia a dia, a comunidade Dilma Rousseff. Naquele mesmo solo onde outrora circulou o trem, a BR-465 ostenta hoje uma dupla privatização: no monopólio entregue a um grupo de empresas de ônibus e na cessão generosa, como brinde, à concessionária que administra o Arco Metropolitano.

Falar de segurança no trecho entre a Estrada Rio do A e a Via Dutra é, esta sim, uma autêntica obra de ficção. Que Deus defenda cada trabalhador e trabalhadora que depende desse inferno diário para conseguir chegar ao serviço, para alcançar a CEDAE (outra que também foi privatizada), o Colégio Técnico da UFRRJ (CTUR), o campus de Seropédica da Universidade Rural, ou cada uma das dezenas de escolas estaduais e municipais de Nova Iguaçu, Seropédica e Itaguaí. Escolas que, embora ainda não formalmente privatizadas, convivem aqui e ali com seus velhos "coroneizinhos" e "sinhazinhas" locais dando as cartas e ditando as regras.

O tempo passou, e o diabo, que na ficção vivia trancado na garrafa, parece ter conseguido fugir e ganhar o coração e as mentes das pessoas que se alternam no poder através das faces mais perversas do capitalismo: a exclusão, a perda do direito à cidade, o racismo ambiental e geográfico e o desrespeito ao meio ambiente. Como exemplos, a poluição do Guandu, a desapropriação de um bairro inteiro para as Águas do Rio — entre o Km 37 e o Km 39 —, e a abertura de uma verdadeira fenda numa das faces da Serra do Vulcão, colocando milhares de famílias em risco permanente às margens da Estrada de Madureira.

Somam-se a isso as constantes rupturas de tubulações ou a falta d'água crônica, intercalada com cobranças abusivas de água e esgoto; e as taxas de iluminação pública cobradas para a tubulação da CEDAE, enquanto as localidades cujo desenvolvimento ela sepultou com a elevação da tubulação ao nível da estrada principal — impedindo ou dificultando o desenvolvimento de seu comércio ou ocultando o horror de sua falta de recursos básicos com saneamento e calçamento —, os tais dos "quilômetros" 33, 34, 35, 37 e 39, nas ruas de seu interior, ainda sofrem com a escuridão, os buracos, o lixo e o esgoto a céu aberto.

É a exploração desenfreada e a desapropriação daquilo que, em outros tempos, constituía o patrimônio e os bens populares. Além disso, na última década, assiste-se nessa região à construção desenfreada de conjuntos habitacionais sem nenhum plano real de expansão e mobilidade urbana ou de melhoria das condições de vida dessas populações.

Claro, a Fazenda Indiana (dizia-se ser de propriedade dos atores Tarcísio Meira e Glória Menezes) era uma propriedade privada. No entanto, tudo o que a sua venda e os seus desdobramentos políticos, econômicos e sociais trouxeram para a região — de 1982 até os dias de hoje — nos deixa na boca o gosto amargo de constatar que as críticas de Benedito Ruy Barbosa não foram assimiladas pela sociedade. O diabo está solto, e a ficção de quatro décadas atrás continua sendo o nosso retrato mais dolorosamente real.

Zé Eleutério, Maria Rita, Terêncio, Padre Bento, a Rádio Voz do Vale, o casario e a praça “emprestados” pela querida cidade de Vassouras como cenário e tantos personagens marcantes formavam a alma daquela trama. Um elenco estelar em que veteranos como Jofre Soares, Cláudio Corrêa e Castro, Eloísa Mafalda, Ary Fontoura, Tereza Raquel, Sérgio Britto, Henriqueta Brieba, Roberto Bonfim, Neuza Amaral e Rui Resende construíram uma química excelente com os jovens Cristina Mullins, Kadu Moliterno, Íris Nascimento, Cosme dos Santos, Bia Seidl, Caíque Ferreira, Simone Carvalho, Zaira Zambelli, Mário Cardoso, Roberto Pirillo e Elisângela, entre tantos outros atores e atrizes que a partir dali consolidariam ou redirecionariam suas carreiras.

Em 1988, na novela Vale Tudo, o vilão Marco Aurélio ameaçava um dos seus lacaios, um policial corrupto, com uma transferência para Seropédica: “bem pra lá de São Sebastião do Calçado”, segundo o personagem. Já no início dos anos 2000, uma outra fazenda, em Seropédica, também às margens da rodovia BR-465 — nomeada oficialmente em 2014 como Rodovia Luiz Henrique Resende Novaes, quase chegando à Dutra e logo depois da área por onde passaria o Arco Metropolitano, seria cenário para uma outra novela das 18h: Força de um Desejo, escrita por Gilberto Braga, outro ícone da teledramaturgia. Na trama, a casa de fazenda pertencia ao antagonista Higino Ventura, vivido pelo talentosíssimo ator Paulo Betti. A construção pode ser vista por todos que passam pela estrada e já abrigou, por pouco tempo, um centro cultural.

    Eu queria apenas falar do resgate da novela no Globoplay, saudar a trajetória e a memória de Benedito Ruy Barbosa, grande autor de telenovelas brasileiras, mas acho que acabei falando de como a política sem ética e sem responsabilidade com a população pode fazer com que toda uma região permaneça tão desassistida quanto estava há 44 anos — talvez até em uma condição pior. Essa região, definitivamente, não é um paraíso.

 

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