Sobre Paraíso, 1982 e sobre Benedito... ou não
Erivelto Reis
A chegada de Paraíso (1982) ao
Globoplay não é apenas um resgate da teledramaturgia nacional; é um convite
para encarar o espelho de um Brasil que insiste em não mudar. Longe de ser
apenas mais um folhetim interiorano, a novela carrega, talvez, um dos textos
mais abertamente políticos de Benedito Ruy Barbosa. Em pleno período de
reabertura e na efervescência da luta pela redemocratização, Benedito usou a
rádio fictícia da trama para falar, sem rodeios, sobre política partidária,
democracia, representatividade, o direito ao voto, reforma agrária e a
dignidade e aposentadoria dos trabalhadores do campo.
Enquanto o romance cativante entre o
"filho do diabo" e a "santinha" Maria Rita servia de pano
de fundo, a novela abria alas para o florescimento urbano e a popularização da
canção sertaneja no espaço da grande mídia da telenovela. Foi o palco onde
ecoaram nomes como Renato Teixeira, Almir Sater, a dupla Milionário & José
Rico e Sérgio Reis — este último com destaque no papel do peão Diogo. Por trás
da musicalidade rural, corria a crítica ácida e tácita ao conservadorismo e à
hipocrisia da Igreja Católica, uma instituição que andava de mãos dadas com o
poder oligárquico dos coronéis. Eram figuras que recorriam a supostos pactos
demoníacos, mantendo o diabo aprisionado em uma garrafa — mito ao qual o autor
retornaria com maestria anos mais tarde em Renascer. Enquanto jogavam
sinuca a dinheiro, o padre da cidade e esses mesmos coronéis (menos raivosos no
horário das 18h), em reuniões e visitas de circunstâncias, dividiam espaço com
os hábitos das beatas e o jogo do poder, em um ambiente em que, gradativamente,
os civis em cargos de gestão como a prefeitura iam aprendendo a manejar a
máquina da propaganda, da religião e da boa-fé de trabalhadores e trabalhadoras
diante de qualquer aceno de modernização para aquela pacata cidade.
Benedito Ruy Barbosa não poupou
esforços para fazer de sua obra uma forma didática de ensinar novos rumos e
percepções políticas e sociais para o grande público da telenovela —
especialmente os mais pobres ou ligados ao interior rural do país —, escrevendo
cenas em que a rádio da cidade apresentava, entre as canções sertanejas, peças
de utilidade pública em reclames, como a campanha do soro caseiro, dicas de
higiene e vacinação. E passou boa parte dos mais de 180 capítulos ensinando
claramente o conceito de situação e oposição em termos políticos e as possíveis
intersecções entre esses dois polos no jogo do poder, desde a construção de uma
pequena ponte até o pagamento do salário atrasado das professoras da cidade.
Anos mais tarde, no remake de
2009 adaptado por Edmara Barbosa, a mesma rádio fictícia voltou ao ar como
engrenagem central da narrativa, mas dessa vez espelhando as transformações da
própria indústria da música no país. Se em 1982 o rádio abriu portas para o chamado
“sertanejo de raiz” e para a poética do campo, na versão dos anos 2000 a
emissora serviu de vitrine estratégica para a consolidação e a massificação do
chamado "sertanejo universitário", marcando a migração do gênero das
violas caipiras para a música chiclete, os rodeios e as arenas do agronegócio.
A produção original fincou raízes em
cenários marcantes: a Fazenda Florença, em Vassouras, e a Fazenda Indiana,
situada na divisa entre o bairro de Campo Grande (Zona Oeste do Rio) e Nova
Iguaçu, esquadrinhadas pela BR-465 (a antiga Rio–São Paulo) e pela Avenida
Brasil. Vassouras, no interior do estado, emprestou seu casario antigo e sua
exuberante praça principal como locações externas. A cidade conseguiu, ao menos
em seu centro histórico, preservar e restaurar seu patrimônio ao longo das
décadas. Já o destino da Fazenda Indiana foi o avesso da preservação: virou
fábrica da Ambev, e o seu entorno foi tragado pela precarização, pelo colapso
da mobilidade urbana, pela favelização, subempregos e exploração da mão de
obra. A fazenda e sua criação de bois encerraram suas atividades, mas o
território — entre Campo Grande e Nova Iguaçu — continua operando, ainda hoje,
como um imenso curral eleitoral. O voto de cabresto e a força dos novos
"coronéis" mostram que toda a luta pela democracia ainda não conseguiu
coibir tais práticas. Mudam-se os tempos, mas não se mudam as vontades do
poder, especialmente na assistência às periferias, subúrbios e na Baixada
Fluminense.
Benedito Ruy Barbosa leu como poucos
o Brasil rural e o país dos coronéis em obras emblemáticas como Cabocla,
O Rei do Gado, Renascer, Sinhá Moça e Pantanal. Ele
leu o país como quem lê uma manchete histórica, situando e até discutindo temas
como a escravidão e o racismo. Ainda que, por vezes, perpetuasse determinados
estigmas e incorreções historiográficas — afinal, o que não se corrige na
ficção (embora não seja esta a sua obrigação) custa, demora e dá muito mais
trabalho para ser corrigido apenas pelo viés da história e da educação. E,
quando se corrige alguma coisa sem arte, às vezes fica torto, fica faltando,
sem esquadro e sem base.
Rever a novela, para mim, é um
exercício de memória viva. Acompanhar as cenas onde vazam ou se identificam o
entorno do Km 32 da Rio–São Paulo, o Viaduto dos Cabritos, o primeiro conjunto
habitacional da região, a Avenida Brasil quase deserta em direção a Santa Cruz,
ou a alça de acesso para Campo Grande rasgada no morro, funciona como uma
verdadeira máquina do tempo. Trata-se de uma ligação afetiva visceral,
costurada pela ficção e pelos resíduos geográficos e históricos de uma região
tão desfavorecida — a mesma região de onde, hoje, grupos de investidores
extraem os bilhões com os quais avançam contra a economia brasileira e ainda
rosnam contra qualquer política pública. Foi uma das primeiras novelas que
assisti com minha mãe, meu pai e meus irmãos quando por aqui chegamos. E era
bem pertinho da gente.
Hoje, a qualquer hora do dia, de
domingo a domingo, é impossível cruzar a região da antiga Fazenda Indiana —
atual Ambev — sem perder, no mínimo, meia hora em um engarrafamento sufocante e
interminável. Ali, a luta pela sobrevivência se escancara no asfalto:
trabalhadores e trabalhadoras e suas famílias arriscam a própria vida entre
carros e motos, vendendo de tudo — do pacote de amendoim ao limpador de
para-brisa. A antiga olaria deu lugar a um ecossistema informal e pulsante de
barracas de refeições rápidas, do cafezinho à cerveja gelada, além do aluguel
de vagas improvisadas de estacionamento para os operários da fábrica. No espaço
exíguo entre o acostamento e a frente do terreno da olaria, ergue-se e se
adensa, dia a dia, a comunidade Dilma Rousseff. Naquele mesmo solo onde outrora
circulou o trem, a BR-465 ostenta hoje uma dupla privatização: no monopólio
entregue a um grupo de empresas de ônibus e na cessão generosa, como brinde, à
concessionária que administra o Arco Metropolitano.
Falar de segurança no trecho entre a
Estrada Rio do A e a Via Dutra é, esta sim, uma autêntica obra de ficção. Que
Deus defenda cada trabalhador e trabalhadora que depende desse inferno diário
para conseguir chegar ao serviço, para alcançar a CEDAE (outra que também foi
privatizada), o Colégio Técnico da UFRRJ (CTUR), o campus de Seropédica da
Universidade Rural, ou cada uma das dezenas de escolas estaduais e municipais
de Nova Iguaçu, Seropédica e Itaguaí. Escolas que, embora ainda não formalmente
privatizadas, convivem aqui e ali com seus velhos "coroneizinhos" e
"sinhazinhas" locais dando as cartas e ditando as regras.
O tempo passou, e o diabo, que na
ficção vivia trancado na garrafa, parece ter conseguido fugir e ganhar o
coração e as mentes das pessoas que se alternam no poder através das faces mais
perversas do capitalismo: a exclusão, a perda do direito à cidade, o racismo
ambiental e geográfico e o desrespeito ao meio ambiente. Como exemplos, a
poluição do Guandu, a desapropriação de um bairro inteiro para as Águas do Rio
— entre o Km 37 e o Km 39 —, e a abertura de uma verdadeira fenda numa das
faces da Serra do Vulcão, colocando milhares de famílias em risco permanente às
margens da Estrada de Madureira.
Somam-se a isso as constantes
rupturas de tubulações ou a falta d'água crônica, intercalada com cobranças
abusivas de água e esgoto; e as taxas de iluminação pública cobradas para a
tubulação da CEDAE, enquanto as localidades cujo desenvolvimento ela sepultou
com a elevação da tubulação ao nível da estrada principal — impedindo ou
dificultando o desenvolvimento de seu comércio ou ocultando o horror de sua
falta de recursos básicos com saneamento e calçamento —, os tais dos
"quilômetros" 33, 34, 35, 37 e 39, nas ruas de seu interior, ainda
sofrem com a escuridão, os buracos, o lixo e o esgoto a céu aberto.
É a exploração desenfreada e a
desapropriação daquilo que, em outros tempos, constituía o patrimônio e os bens
populares. Além disso, na última década, assiste-se nessa região à construção
desenfreada de conjuntos habitacionais sem nenhum plano real de expansão e
mobilidade urbana ou de melhoria das condições de vida dessas populações.
Claro, a Fazenda Indiana (dizia-se
ser de propriedade dos atores Tarcísio Meira e Glória Menezes) era uma
propriedade privada. No entanto, tudo o que a sua venda e os seus
desdobramentos políticos, econômicos e sociais trouxeram para a região — de
1982 até os dias de hoje — nos deixa na boca o gosto amargo de constatar que as
críticas de Benedito Ruy Barbosa não foram assimiladas pela sociedade. O diabo
está solto, e a ficção de quatro décadas atrás continua sendo o nosso retrato
mais dolorosamente real.
Zé Eleutério, Maria Rita, Terêncio,
Padre Bento, a Rádio Voz do Vale, o casario e a praça “emprestados” pela
querida cidade de Vassouras como cenário e tantos personagens marcantes
formavam a alma daquela trama. Um elenco estelar em que veteranos como Jofre
Soares, Cláudio Corrêa e Castro, Eloísa Mafalda, Ary Fontoura, Tereza Raquel,
Sérgio Britto, Henriqueta Brieba, Roberto Bonfim, Neuza Amaral e Rui Resende
construíram uma química excelente com os jovens Cristina Mullins, Kadu
Moliterno, Íris Nascimento, Cosme dos Santos, Bia Seidl, Caíque Ferreira,
Simone Carvalho, Zaira Zambelli, Mário Cardoso, Roberto Pirillo e Elisângela,
entre tantos outros atores e atrizes que a partir dali consolidariam ou
redirecionariam suas carreiras.
Em 1988, na novela Vale Tudo,
o vilão Marco Aurélio ameaçava um dos seus lacaios, um policial corrupto, com
uma transferência para Seropédica: “bem pra lá de São Sebastião do Calçado”,
segundo o personagem. Já no início dos anos 2000, uma outra fazenda, em
Seropédica, também às margens da rodovia BR-465 — nomeada oficialmente em 2014
como Rodovia Luiz Henrique Resende Novaes, quase chegando à Dutra e logo depois
da área por onde passaria o Arco Metropolitano, seria cenário para uma outra
novela das 18h: Força de um Desejo, escrita por Gilberto Braga, outro
ícone da teledramaturgia. Na trama, a casa de fazenda pertencia ao antagonista
Higino Ventura, vivido pelo talentosíssimo ator Paulo Betti. A construção pode
ser vista por todos que passam pela estrada e já abrigou, por pouco tempo, um
centro cultural.
Eu queria apenas falar do resgate da novela no Globoplay,
saudar a trajetória e a memória de Benedito Ruy Barbosa, grande autor de
telenovelas brasileiras, mas acho que acabei falando de como a política sem
ética e sem responsabilidade com a população pode fazer com que toda uma região
permaneça tão desassistida quanto estava há 44 anos — talvez até em uma
condição pior. Essa região, definitivamente, não é um paraíso.

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