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Poeta - escritor - cronista - produtor cultural. Professor de Português e Literaturas. Especialista em Estudos Literários pela FEUC. Especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas pela Faculdade de Letras da UFRJ. Mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ. Nascido em Goiás, na cidade de Rio Verde. Casado. Pai de três filhos.

sábado, 15 de outubro de 2016

Poema: "Protesto", de Erivelto Reis

Protesto
Erivelto Reis

Quando foi que as asas das xícaras ficaram mais úteis que as da imaginação?
A resposta está nos gabinetes,
Por detrás das portas de vidro transparentes,
De pessoas não tão transparentes.
Está nos lares, nas rampas, nos corredores das alamedas,
Nas pautas, pecs, no caixa eletrônico vomitando silêncio e indiferença,
No telefonema de cobrança, na ordem de despejo, de busca e apreensão,
Na atitude da ameaça e da mordaça.
Ser professor no meu país é uma aventura, é uma guerra,
É uma perpétua afronta aos poderosos,
Que querem o melhor para os próprios filhos e descendentes,
Mas não o mesmo para o povo, para a gente.
Não sei escrever – sabendo – mas não podendo,
Algo mais lúdico nesse instante em que todas as portas se fecham,
Sob o véu de uma liberdade sequestrada.
Aprendemos cada vez mais tudo sobre nada.
Esquecemo-nos de coisas para as quais a Literatura alertara,
Que a História registrou e que esperávamos que fossem
Partes de uma página virada.
Ser professor no antigo melhor País do mundo
É tão mais sofrido do que sê-lo nos países do novo Velho Continente.
Ser professor é quase ser exótico,
Diferente por querer e por trabalhar pra construir o bem comum.
Os que traíram a nossa classe,
Sem classe e constrangimento algum,
Comemoram e usam a retórica
Enquanto (ainda) não podem prender-nos
E torturar-nos por querermos existir com brio e dignidade.
Os que perderão o futuro que poderiam ter
E os sonhos que construiriam a cada dia – não sabem que perderam,
Nem são capazes de chorar.
A indignação e alienação
Tantas vezes nos paralisa a libido de viver e reagir.
Ser professor num país de democracia líquida,
É sólido, lapidar e permanentemente transitório!
Você é professor?
E faz o quê pra viver?!
Você que governa e legisla e julga e permite esse abuso
Faz o quê pra viver com isso?!
As asas das xícaras se tornaram
Mais úteis que as da imaginação...
O mundo pode até melhorar,
Mas no momento
Não há qualquer previsão.




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