CINEMA COM PIPOCA E GUARACAMP
O BONEQUINHO DEGUSTOU
4/10 – A DAMA DE VERMELHO: o que houve com o pequeno
príncipe e com a fábrica de chocolates?!
Fui convidado para poucas coisas tão difíceis na minha vida
como escrever sobre as minhas dez comédias mais marcantes. O Bonecão, cujo
criador é o destemido, ambivalente e poliédrico Roberto Bozzetti, quando quer
enlouquecer uma pessoa, pergunta sua opinião, só pode. Isso posto vamos ao
quarto filme da série.
A
DAMA DE VERMELHO (1984), uma adaptação do filme francês O doce perfume do
adultério, de 1976, feita por Gene Wilder, que também atua e dirige o longa-metragem.
No filme, que já começa in media res (no
meio da narrativa). Um sujeito de meia idade está de roupão, no beiral externo de
um edifício a muitos andares de altura. A tomada aérea da câmera vai se
aproximando até que se possa identificá-lo. Não há a menor dúvida: trata-se de Willy Wonka
– aquele do meme: “Conte-me como é”?!, melhor dizendo, trata-se da Raposa do
Pequeno Príncipe. O brilhante comediante Gene Wilder. E foi apenas isso e não a
dama de vermelho que atraiu a minha curiosidade para essa comédia de
desencontros com toques de sensualidade. A partir dali, serão apresentadas aos
espectadores as intempéries que o levarão até aquele ponto e como se resolverá
o impasse de estar no parapeito de um prédio.
Na trama Teddy, vivido
por Wilder, é um executivo que basicamente pode ser definido como um sujeito atrapalhado,
com uma vida pacata, além de um biótipo curioso, para dizer o mínimo, com seus
cabelinhos loiros de molinha, ao melhor estilo Biro-Biro, que fica encantado com a beleza de Charlote, literalmente
a dama de vermelho, vivida pela modelo e atriz Kelly Lebroke a quem assiste de
dentro do carro, num estacionamento, julgando-se
sozinha, reproduzir a célebre cena do vestido esvoaçante tal qual Marilyn
Monroe no filme A coceira dos sete anos, que aqui foi apresentado como “O pecado mora
ao lado” (1955).
Aliás, julgo haver tempo
e espaço para render homenagem a Marilyn Monroe por sua atuação no cinema de
maneira geral (pouco mais de uma década e tornou-se um ícone do cinema, da
moda, das teorias conspiratórias, do empoderamento feminino, da cultura pop no
século XX) e, especialmente, em comédias como Nunca fui Santa (1956), sua única indicação ao Globo de Ouro, Os homens preferem as loiras (1953),
inspiração para o clipe de Material Girl,
de Madonna; Como agarrar um milionário
(1953). Sobre o clássicão Quanto mais
quente melhor (1959), o Bonecão do Roberto Bozzetti já vaticinou bem
vaticinado em sua lista das dez maiores comédias. E se ele falou, tá falado.
Reparem que em apenas
duas semanas o marido fiel, o pacato cidadão se vê às voltas com todo o
processo de envolvimento e sedução que vai culminar em um encontro fortuito de
adultério. A dublagem de Mário Monjardim parece reforçar o histrionismo nonsense
do personagem de Wilder que nada tem de galã. Há uma cena em que a esposa, de
arma em punho, o assiste receber um telefonema previamente combinado com um
amigo, convocando-o para o “trabalho”. Interrompendo (ironicamente para o público),
justamente uma conversa em que ela dizia que o marido de uma amiga havia usado
essa tática para manter um caso extraconjugal. Teddy finge não querer ir “trabalhar”, bate o
telefone, querendo, esperneando na banheira... fazendo a pantomima do marido
fiel. A essa altura com a cabeça completamente virada pela dama de vermelho.
Wilder foi um brilhante
ator que entre um momento e outro de sua vida atuou sob a direção de Mel Brooks,
um gênio do humor, e ao lado de Richard Pryor, uma lenda do humor em stand-up e do cinema. Em obras como as
já citadas aqui: A fantástica fábrica de chocolate (1971), O pequeno príncipe (1974),
Banzé no Oeste, O jovem Frankenstein (1974), com o qual concorreu ao Oscar de
roteiro adaptado e como ator coadjuvante concorreu em 1969 em Primavera para
Hitler.
Com Richard Pryor formou
uma dupla notável filmes como: Expresso para Chicago (1976), Loucos de dar nó (1980),
Cegos, surdos e loucos (1984) e teriam atuado juntos também em Trocando as
bolas (cujos papéis acabaram indo para Eddie Murphy e Dan Aykroyd) e Banzé no
oeste (escrito por Pryor e Mel Brooks), no entanto, os problemas de Richard
Pryor com drogas acabaram encurtando a parceria entre os atores.
A DAMA DE VERMELHO concorreu e ganhou um Oscar
pela canção de Stevie Wonder. Seu humor reside nos interditos, nas insinuações.
A cabeça do público faz o resto. Mas se você pensar na beleza da personagem de
vermelho e na impossibilidade do quase, vai da comédia ao drama num
segundo. Penso que falar das comédias
tem me levado a revisitar o trabalho a trajetória de grandes atores e
diretores. Gente que escreveu e marcou com seu jeito de atuar o que seria um
espaço cômico para o humor na linguagem cinematográfica, que diferentemente do
que preconiza a linguagem, não necessita de um acordo tácito e prévio e tem nas
surpresas e no exagero dos “defeitos” uma qualidade para despertar a graça.
A arte culinária,
evidentemente, é do Bonecão, o venturoso Roberto Bozzetti. O prato é descrito
por ele mesmo: A arte
culinária, evidentemente, é do Bonecão, o venturoso Roberto Bozzetti. O prato é
descrito por ele mesmo: Trivial simples. 17 de abril de 2020.
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A DAMA DE VERMELHO, 1984 |
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ROBERTO BOZZETTI, PROFESSOR E PESQUISADOR (De vermelho) |
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O trivial Simples. 17.4.2020 |
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