CINEMA COM PIPOCA E GUARACAMP
O BONEQUINHO DEGUSTOU
3/10 – O CANGACEIRO TRAPALHÃO: desculpas para as
reminiscências
Convidado pelo inexorável e
inexaurível Bonecão metapolifônico criado pelo especialista em parangolés,
borogodós, cinema, literatura e culinária, Roberto Bozzetti, aquele, me
aventurei a listar minhas dez comédias.
Esse é um texto de
reminiscências. Se for alérgico, não leia. Ou leia do oitavo ou nono parágrafo
em diante. Ou leia só o último parágrafo. Se persistirem os sintomas de
reminiscências, procure um médico, ou escreva as suas.
Para esse número, confesso que estou como se saísse de pantufas em
público, visto que em muitas listas a menção a clássicos e sua influência no
mundo das artes e da cultura erudita pode ser uma tônica e não há qualquer
crítica de minha parte a quem o faça. Logo eu?! Resignei-me, portanto,
consolando-me sob o argumento racional de que a assombração sabe para quem
aparece.
Sim, minha infância e minha
formação como espectador de cinema passam pelas matinês do Cine Palácio Campo
Grande, na rua da Silbene, do Mercado São Brás e da Casa Cruz, ao lado da loja
de Calçados Vilma, para assistir aos filmes d’Os trapalhões. Isso ocorria nas férias
escolares de julho e nas férias escolares de final de ano. Não escrevi apenas “férias”
porque no país da minha infância se trabalhava todos os dias de segunda a
segunda, desde as seis da manhã e até a noite. E as idas regulares ao cinema só
eram possíveis, vejam vocês, porque meu pai, Sr. José de Arimatéa, era
jardineiro na casa do Sr. Haroldo, gerente do cinema, um simpaticíssimo descendente
de portugueses que gostava de ouvir as histórias que meu pai sempre contava
enquanto trabalhava: causos da roça, piadas intermináveis e croniquetas da
astúcia de gente simples, em geral tendo a ele próprio como personagem central,
autor sagaz dos desfechos jocosos e mirabolantes. Uma espécie de Pedro
Malasartes oriundo da Paraíba.
Seu Haroldo era gerente geral do
Cine Palácio Campo Grande, morava numa grande casa na Avenida Cesário de Melo,
onde depois de sua morte, casa demolida, surgiu ali um grande mercado Rainha. O
terreno fica em frente à agência do Banco Santander. Aquela foi uma das últimas
regiões de construção de antigos casarões dos ricos comerciantes
campo-grandenses dos anos de 1960 e 1970.
A senha era simples. Não
precisava sequer enfrentar as longas filas que se formavam em filmes como os d’Os
trapalhões. Bastava dirigir-se ao bilheteiro, pedir pra falar com seu Haroldo e
dizer que era o filho do “Baixinho” (vão lá agora e um obreiro dá um jeito em
vocês). Lá vinha ele de onde estivesse e me recebia, perguntava por meu pai e
meus irmãos, se estava tudo bem em casa, se precisava de alguma coisa –
precisava-se de muito, na verdade, mas a orientação de casa era incomodar o
menos possível e ser educado mesmo se ele dissesse que não podia autorizar a
entrada, o que felizmente jamais aconteceu. E pronto: o cinema era meu por uma
tarde inteirinha pra assistir a quantas sessões eu quisesse. Na saída, passava
na gerência e agradecia e voltava pra casa feliz da vida com um monte de
recomendações ao meu pai e a certeza de que ele era muito querido pra que
alguém fizesse em nome dele uma gentileza daquelas: imaginem, permitir a
entrada pra assistir a uma sessão de cinema, a um garoto pobre, filho do
jardineiro, de graça, apenas em nome da amizade... Meu pai era um cara muito
querido mesmo. E faz muita falta. Tá vendo aí, Roberto Bozzetti, onde suas provocações cinematográficas fazem com que a memória nos leve! Não entendo como
tem gente que não goste de você. Quer dizer, até entendo...
Pois bem, esse filme em
especial, O CANGACEIRO TRAPALHÃO (1983), foi bem marcante porque pela temática
do cangaço, meu pai se interessou em assistir e pela primeira vez fomos todos:
meu pai, minha mãe e meus dois irmãos. Assistir a esse filme. Na verdade, foi a
primeira vez que saímos para passear juntos, desde que meu pai e minha mãe e,
consequentemente, eu e meus irmãos começamos a trabalhar como caseiros em um
sítio.
As peripécias circenses de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias nós já conhecíamos
do programa de televisão, Os trapalhões, todo domingo às 19h, mas a graça, o
humor, era a dinâmica daqueles personagens em situações roteirizadas. Eles já
tinham estado no Planeta dos Macacos,
nas Minas do Rei Salomão, na Caverna de Ali Babá e os Quarenta Ladrões,
na Guerra dos Planetas, na Ilha do tesouro já tinha sido
Saltimbancos e sempre com a mesma dinâmica, dispersos em parte da trama e
agrupando-se rapidamente conforme o desenrolar dos enredos. Mas sempre resolvendo
os conflitos com improviso, alguma sorte e esperteza, que como bem afirmou
Ariano Suassuna, “é a coragem do pobre”.
Em O CANGACEIRO TRAPALHÃO,
escrito por Doc Comparato e Agnaldo Silva, com diálogos escritos por Chico
Anysio e direção de Daniel Filho, os atores Nelson Xavier e Tânia Alves revivem
o casal Lampião e Maria Bonita da minissérie de 1982 e José Dumont (de Morte e
vida e Severina, 1981) interpreta um tenente da polícia volante encarregado de
prender ou executar Lampião. Em paralelo a isso, uma caixa/matrioska futurista
era capturada e a cada investida em abri-la, revelava uma nova caixa idêntica e
menor em seu interior. Esses eram os mistérios da trama.
No desenrolar da história Didi/Severino/Lamparino (qualquer que fossem os
nomes dos personagens o grande público só os chamava pelos nomes dos
personagens do programa dominical), devido a uma pretensa semelhança física com
Lampião, acaba paramentado como ele para despistar uma emboscada armada contra
o rei do cangaço e, logicamente, seu bando seria formado pelo restante dos
integrantes do quarteto trapalhão.
Há muito de João Grilo nesse personagem que, posteriormente, numa releitura
do Auto da Compadecida, Renato Aragão encarnaria. Não posso deixar de citar que há muitas
referências ao filme Casablanca nesse filme por conta da paixão tímida de
Didi/Severino pela mocinha da vez (isso acontece também nos filmes do Jerry
Lewis, um leitmotiv da narrativa de humor e na composição de personagens desses
dois atores), interpretada por Regina Duarte, (há uma beleza de participação de
Bruna Lombardi) que acaba trocando o trapalhão por um príncipe – Tarcísio Meira
- montado em um cavalo branco. O que é estranhíssimo, porque até a 5 minutos do
final do filme Regina Duarte dava a entender que ficaria com Severino/Lamparino/Didi.
Desde aquela época ela dava sinais... e o público, paradoxalmente cego, não
percebia...
Em seu desfecho [qualquer dos filmes do quarteto] a recompensa, em ouro,
em sucesso, em riqueza e prestígio, de um modo geral, algum consolo amoroso em
detrimento da expectativa amorosa inicial frustrada, uma visão de uma vida no
sudeste, longe da seca e da fome – nos filmes que trabalharam ou se passaram no
nordeste, como forma de simbolizar o fim da pobreza, e a série de gag’s e
gritinhos e piadocas pra lá de politicamente incorretas para os tempos que
seguem.
Insinuava-se também repetidamente a figura de Didi/seus personagens em
cada um dos filmes como a de um palhaço triste, o cara que ajudou todo mundo e
no final termina sozinho enquanto todos se congraçam... é uma imagem forte que
já foi usada também por Jerry Lewis.
Lembro que já saía do cinema na expectativa pelo próximo filme e dos meus
colegas duvidando que eu tivesse assistido ao filme. Alguns, porque acabara de
ser lançado e outros porque me sabiam bem pobre. Ficava pensando também em como seria triste o dia em que
aqueles atores morressem. O Zacarias, o Mussum... Hoje penso que pior destino ainda
têm aqueles/as cuja reputação chega a termo enquanto ainda estão vivos... Eu
contei pra vocês que nesse filme tinha o Renato Aragão e a “Namoradinha do
Brasil”?!
A arte culinária, é claro, é do irrefratável Bonecão, Roberto Bozzetti. Risoto de aspargos, cardoncellos e presunto
espanhol. Arroz arbóreo e queijo pecorino. Seival touriga da Miolo pra
acompanhar. 30 de março de 2018.
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O CANGACEIRO TRAPALHÃO, 1983 |
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O CRIADOR DO BONECÃO, ROBERTO BOZZETTI. TOMANDO GUARACAMP AO VIVO |
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Risoto de aspargos, cardoncellos e presunto espanhol. Arroz arbóreo e queijo pecorino. Seival touriga da Miolo pra acompanhar. 30 de março de 2018. |
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