CINEMA COM PIPOCA E GUARACAMP
O BONEQUINHO DEGUSTOU
2/10 – OU VAI OU RACHA: meu primeiro Road Movie
Convidado
por Roberto Bozzetti, o titeriteiro que manipula o Bonecão e que sabe tudo de
cinema, exceto aquilo que vai descobrindo enquanto revê o que já sabe, estou
listando as 10 comédias mais marcantes que já assisti. Não há uma ordem
específica de importância, talvez apenas uma mera preocupação com uma pretensa
cronologia, mas não posso garantir que não se atropelem as datas em uma
desordem sistematizada.
O
segundo filme é Hollywood or bust (1956),
aqui no Brasil: OU VAI OU RACHA, estrelado por Jerry Lewis e Dean Martin. É
preciso destacar que fui formado como espectador e fã dos filmes de Lewis nas
sessões de cinema de sábados e domingos à tarde e, eventualmente, em reprises
sucessivas na sessão da tarde. Adorava tudo, desde os títulos, que como vocês
já perceberam, não precisam ser literais. Tudo me chamava a atenção: “Ou vai ou
racha”, “O bagunceiro arrumadinho”, “Bancando
a ama seca” (protótipo de 3 solteirões e um bebê), “O meninão”, “O fofoqueiro”,
“O cinderelo sem
sapato”, “O delinquente delicado”, “O terror das mulheres”, “O professor
aloprado” (esse, refilmado por Eddie Murphy), entre outros. Confesso ainda que “Bancando
a ama seca” foi um dos que mais me fizeram rir, mas este Ou VAI OU RACHA, além
de muito divertido, incutiu em mim uma mística em torno de Hollywood como a
terra das estrelas de cinema.
Revendo
para escrever, percebo que se trata de um Road
Movie, ou seja, um filme em torno da progressão de uma viagem de carro (praticamente
toda produzida em estúdio com imagens se movimentando ao fundo) e de um filme parcialmente
metalinguístico que traz o personagem de Lewis, Malcom Smith como um cinéfilo
de memória prodigiosa e nenhum senso de realidade (as ações do quarto final do
filme se passam em um estúdio de cinema da própria Paramount). Malcom é dono de
um cachorro gigante (olha aí o cachorro de novo na história, desde Chaplin,
viram?), Sr. Bascon e ganha o sorteio de um belo carro com o qual pretende ir
para Hollywood a fim de conhecer a atriz sueca Anita Ekberg (vista aqui imediatamente
antes do clássico “Guerra e Paz”, com Audrey Hepburn; e quatro anos antes de La dolce Vita, de Fellini).
Ekberg aparece interpretando a si
mesma, mas já havia sido contratada pela Paramount especialmente para
contracenar com a dupla Lewis-Martin desde “Artistas e Modelos” (1955).
Acontece que o trapaceiro Stevie Wiley, interpretado pelo cantor e ator Dean
Martin, falsificará o bilhete premiado e assim dividirá o prêmio com o real
ganhador. E para que a divisão ocorra, Stevie concorda em ir até Hollywood – na
verdade pretendia apenas se livrar do verdadeiro ganhador na primeira
oportunidade e essas tentativas não apenas rendem bons momentos de humor, como
permitem que a mocinha Terry, uma corista a caminho de Las Vegas se junte ao trio.
Jerry Lewis e Dean Martin contracenaram
em dezesseis filmes entre 1949 e 1956 e este foi o último filme que fizeram
juntos. Por questões econômicas e por ego as relações entre os astros foram se
deteriorando até que em VAI OU RACHA, os atores sequer se falavam a não ser em
cena. Desfeita a dupla, ambos seguiram carreiras solo no cinema, mas já sem o mesmo
sucesso.
Hoje sei dessas coisas, mas na
época eram as caras e bocas de Lewis (influenciaram atores como Jim Carey, por
exemplo), o seu jeito atrapalhado, desengonçado e a dublagem brasileira que
emprestava uma identidade única aquele personagem (Nelson Batista – que não foi
o único a dublar, mas cuja dublagem ficou reconhecida como clássica para os personagens
de Lewis), foi quem melhor reproduziu
com seu timbre anasalado, o frenético ritmo de fala e os cacoetes vocais de
Lewis). Observem que não havia um único personagem em vários filmes – como o
vagabundo Carlitos de Chaplin – mas um padrão de personagem solteiro, ingênuo,
verborrágico e atrapalhado que se repetia ao longo de diversos filmes e que,
via de regra, se apaixonavam pelas mocinhas que ou não correspondiam, ou quando
se interessavam, aí eram os personagens inocentes e ingênuos que não percebiam.
Lewis, que morreu em 2017, chegou
a realizar mais de 40 filmes e se envolvia em todo o processo desde criação,
roteiro, direção, escolha de atores e atrizes e chegou a produzir dois filmes
por ano quando estava no auge do sucesso. Há um documentário “Jerry Lewis:
Biografia” disponível no Youtube.
Quanto a Dean Martin, atuava como o
galã da dupla, alternava a escada – aquela situação em que um ator prepara a piada
para o outro e, eventualmente, o pretenso antagonista que acaba cativado pela ingenuidade
e pureza dos personagens de Lewis. Entre uma cena e outra os números musicais
dão a oportunidade do público americano assistir o lado cantor de Dean Martin (ao
lado de Frank Sinatra e Sammy Davis Jr., um ícone do estilo one showman de Cantar, Atuar e Apresentar
norte-americano. Tanto assim que, em 1960, a primeira versão de Ocean’s Eleven –
Onze homens e um segredo, terá esse trio notável encabeçando o elenco). Dean
Martin é um dos poucos que têm três estrelas na Calçada da Fama, uma como ator,
outra como cantor e outra como apresentador. Infelizmente, o alcoolismo, o fumo
e a depressão pela morte de um de seus filhos acabaram tirando o ator de cena
definitivamente em 1995.
Percebo enquanto escrevo que a
aprendizagem do humor era, sobretudo, a aprendizagem de um roteiro de ações
possíveis diante da vida. Uma espécie de carpe
dien mesmo se der errado... muito errado. O atrapalhar-se e o corrigir-se,
o rasgar-se e o remendar-se. E os filmes de Lewis permitiam supor isso. Em
geral, projetavam indiretamente a ideia de que não importava qual o seu talento
específico, o quão ingênuo ou atrapalhado um sujeito fosse, ainda haveria para
ele uma oportunidade de redenção, amor e êxito. E de três em três possíveis, me
encaixava bastante como espectador naquela projeção. Noto, ainda, que eu
pensava também que depois de formado como professor na graduação, mestrado,
doutorado... os problemas desapareceriam. Parece que repito o padrão de
ingenuidade e projeções infantis quanto às expectativas versus realidades...
Quem quiser ver um cachorro Dinamarquês dirigindo um carro, uma velhinha
assaltando de arma em punho ou um sujeito de jaqueta vermelha entrar num curral
para tirar leite de uma “vaquinha” de longos e afiados chifres, é só embarcar
nessa viagem. Talvez, sem muito esforço, haveria justificativa para que minhas
dez comédias listadas estivessem entre as obras de Lewis. Por certo que recomendo
muito os filmes desse ator, produtor, diretor e roteirista. Mas o que sei eu? Ainda mais depois de confessar
as coisas em que acreditei e continuo acreditando, seguir alguma recomendação
que eu dê será por sua conta e risco. Notadamente, a propósito de escrever sobre
um filme, rendo homenagens à memória afetiva das obras de um comediante
inesquecível. Acontece.
A arte culinária, claro, é do Bonecão, Roberto Bozzetti. Favas verdes,
costela com batatas e agrião. 10 de junho de 2018.
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CARTAZ DO FILME - OU VAI OU RACHA - 1956 |
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Bozzetti em sua alquimia culinária. |
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Favas verdes, costela com batatas e agrião. 10 de junho de 2018. |
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