CINEMA COM PIPOCA E GUARACAMP
O BONEQUINHO DEGUSTOU
1/10 – VIDA DE CACHORRO: a gênese da comédia com animaizinhos.
Quando o Bonecão aventou a possibilidade de que eu escrevesse sobre
comédias, me bateu uma aflição muito grande. Em primeiro lugar, pela natureza
da erudição cinematográfica do autor do convite, o titeriteiro que manipula o
Bonecão, o impagável Roberto Bozzetti, que conhece, se não conhece, pesquisa e quando
pesquisa reproduz o resultado de seus levantamentos com uma naturalidade
magnética desconcertante que mimetiza mesmo o seu gosto profundo e suas
reminiscências de cinéfilo, porque ser cinéfilo é uma distinção mesmo para quem
já se destaca por morar no paraíso do Brejo,
ser poeta, mestre cuca, professor e pesquisador dos brabos. Em segundo, porque
parece que a memória corre para os braços do que é fácil, mais perto, ou se
esconde no primeiro momento em que a acessamos em busca de arquivos tão
específicos quanto filmes de comédia ou qualquer outra informação que nos seja
cara. E, finalmente, em terceiro lugar, pelo fato de que o texto de Bozzetti
mescla uma arguta visão de si mesmo, ou seja, não escreve apenas sobre cinema,
escreve sobre si mesmo vendo cinema e sobre as inferências que assistir aos
filmes são capazes de despertar através de reflexões, críticas, memórias
afetivas, detalhes técnicos, apuros e desencontros estéticos, curiosidades e
expectativas e alguns momentos de ironia e provocações a interlocutores
idealizados e/ou pontuais. Agradeço a oportunidade e a deferência e advirto:
não espere nada. E nada acontecerá.
Isto posto, como o assunto aqui são as comédias, vamos a elas. Começo com
o mestre dos mestres (sei que Bozzetti detesta esses genéricos hiperbólicos),
mas trata-se de Charles Chaplin na obra VIDA DE CACHORRO, (A dog’s life), de
1918. É um curta-metragem (35 minutos) mudo e em preto e branco. A música, a
direção, o roteiro e a interpretação do notável “vagabundo”, Carlitos, criação
de 1914, surgem com graça e sincronismo nessa notável comédia.
Após salvar um cachorrinho de rua da sanha de outros cães furiosos, “Mut”,
o primeiro cão protagonista do cinema, o vira-latas e o vagabundo tornam-se
amigos inseparáveis. Há uma cena em que, proibido de entrar acompanhado do cão
em um dancing, Carlitos, coloca o animal dentro das calças e o público pode ver
o rabo do cachorro escapando por um furo na parte de trás da calça do
vagabundo. Uma sobreposição poética entre homem e cão. O cãozinho de rua,
enfrenta batedores de carteira, o desprezo que certas pessoas têm em relação
aqueles – gente e animais – que estejam em situação de vulnerabilidade social,
em situação de rua.
Após conhecer uma cantora não tão talentosa e explorada pelo dono do
estabelecimento, e de posse de uma boa quantia oriunda da carteira do ricaço
assaltado o trio formará uma família. O desfecho do filme nos enche de
esperança num mundo melhor.
Chaplin é um ícone e sobre ele escreveu o poeta Carlos Drummond de
Andrade, no poema “Canto ao homem do povo Charles Chaplin”:
“Era preciso que um poeta
brasileiro, [...]
preso à tua pantomima por
filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,
viesse recompô-los e, homem
maduro, te visitasse
[...
Para dizer-te como os
brasileiros te amam
e que nisso, como em tudo
mais, nossa gente se parece
com qualquer gente do mundo -
inclusive os pequenos judeus
de bengalinha e chapéu-coco,
sapatos compridos, olhos melancólicos,
vagabundos que o mundo
repeliu, mas zombam e vivem
nos filmes, nas ruas tortas
com tabuletas: Fábrica, Barbeiro, Polícia,
e vencem a fome, iludem a
brutalidade, prolongam o amor
como um segredo dito no ouvido
de um homem do povo caído na rua.”
Entre as cenas memoráveis do filme estão a que o vagabundo tenta uma vaga
de emprego, no que é desprezado e passado para trás – literalmente – pelos outros
candidatos e a cena em que Carlitos, manipula as ações de um dos ladrões que
ele deixa desacordado, na busca por resgatar a carteira. Como comédia, inova,
encanta e sensibiliza (o vagabundo chega a usar o cãozinho como travesseiro) e
abre espaço para toda uma gama de filmes posteriores (entre dramas e comédias)
em que gente, cãezinhos e canzarrões contracenam, de Renato Aragão (Os trapalhões
nas minas do Rei Salomão e seu cachorrinho Lupa), passando por James Belushi e
seu parceiro policial Jerry Lee (em K-9, um policial bom pra cachorro), até
chegar a Owen Wilson e Marley (em Marley e Eu).
Nesse mundo cinematográfico de Rin-tin-tins, Lassies, Bengies, Beethovens,
no qual Chaplin foi mais uma vez pioneiro, os animais espelham a personalidade
de seus donos seja para o heroísmo, seja para a vadiagem e são, via de regra, a
chave para um mundo melhor. A menos que o cãozinho em questão seja a cadelinha
Baleia, da obra de Graciliano. Aí o buraco é mais em baixo.
Chaplin resgatou o cãozinho de um abrigo para que ele participasse do
filme, um cão destemido e não adestrado, como ele queria, e o transformou em
protagonista. Adotou o cão, mas este, infelizmente, morreu de solidão alguns
meses depois, enquanto Chaplin viaja pelo mundo a divulgar o filme. O obituário
do cão foi publicado a 25 de maio de 1918 na Movies Picture World e dizia "Mut, morreu em 29 de abril – Com
o coração em pedaços." E isso não tem graça.
Sei que Bozzetti é um homem dado às mais delicadas ternurinhas, como as
devotadas ao aparentemente insensível porquinho-da-índia do poema de Bandeira,
aos seus felinos de estimação. E duvido que esta comédia não o divirta e
cative.
Em tempo, escrever sobre cinema não é fácil. São muitas portas que se
abrem e que, se bobear, vão dar em lugar nenhum além de nós mesmos. Esse
Bozzetti só pode ser gênio ou louco ou os dois.
A arte Culinária do Bonequinho Degustou é de Roberto Bozzetti - 09 de julho de 2020. Creme de Milho com Camarão.
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Chaplin e Mut. 1918. A dogs life |
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09 de julho 2020 - Roberto Bozzetti e seu Creme de Milho com Camarão |
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Obituário do Cãozinho Mut. Falecido em abril de 2018. O primeiro Cão protagonista no cinema. |
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