SOBRE O FILME "ESTOU PENSANDO EM ACABAR COM TUDO"
Erivelto Reis
Estou Pensando
em Acabar com tudo (Netflix, 2020), baseado no romance homônimo (2017) do
canadense Iain Reid traz alguns conceitos muito interessantes em narrativa,
sobretudo as sobreposições e insights
que articulam memória, subconsciente e imaginação.
A obra espreita
ou supõe a presença do trágico, se destaca metaficcionalmente, traz boas
referências em relação a Debord e A
sociedade do espetáculo e ao filme Uma
mulher sob influência (1974).
Pretende
demonstrar como o Teatro, a Dança, a Arquitetura, a Música, a Fotografia, a Pintura,
a Literatura, o Cinema, a Propaganda e a Poesia constroem o imaginário, a
sensibilidade, os pactos e papéis sociais em consonância, ou em conflito, com a
identidade, o gênero e as transgressões que podemos permitir – e porque as
permitimos – ou as repudiamos – e as consequências em repudiá-las,
principalmente para a mulher.
O filme constrói-se
com fotografia interessante, embora em planos pouco variáveis e por um
movimento de câmera que antecipa e direciona ocasionalmente algumas ações. Há
um papel de parede no cenário da casa que lembra muito O iluminado, de Stephen
King. As atuações são bastante interessantes, principalmente a de Toni Colette.
Incrivelmente,
apesar de tantos predicados e referências, o provocante enredo não se resolve
como história. Não no sentido de dar um final ao filme, mas de coadunar e
reidentificar os pontos nos quais seu está embasado.
A cena final é/poderia/deveria
ser o início da viagem e teria força lá. Onde foi montada, soou piegas e quem
sabe, entregasse demais sobre o jogo narrativo metaficcional que se propõe.
Talvez fosse mais impactante haver terminado a narrativa na porta da escola, no
porão, no celeiro ou na lanchonete.
A ideia de que
as condições climáticas extremas e adversas forçariam certas práticas e
memórias não condiciona os diálogos, que na verdade são metáforas de
silenciamento e só se concretizariam plenamente nas obras em que se encontram e
que originaram. Mas garante um ar de thriller de suspense ao filme. Além disso, instauram uma tensão constante à
narrativa que a desconfigura, exacerbando o pretensamente banal e diluindo a
pujança dramática do conflito presente na locação da casa como irradiadora dos
traumas e deflagradora da obra.
Há ainda a
intermigracão da focalização narrativa e do protagonismo, feita a partir de um voice over, que toma o papel de narrar
discretamente, mas à força. O "em" do título em itálico é uma chave
poderosa para o espectador, embora soe aparentemente despretensioso diante de
"acabar com tudo". "Estou pensando" está explícito, mas tão
explícito que a gente até desconfia, mas a personagem ‘sem nome’ assume a “emissão”
/ autoria da frase – no contexto da narrativa a frase não é pronunciada (o que
é uma baita sacada do diretor e roteirista Charlie Kaufman) – o que é
suficiente para nos desviar de seu ‘real’ sentido, recontextualizando-o de
forma passional.
Trata-se,
portanto, de um filme sobre como desafetos constroem obras carregadas de
afetividade. Uma peninha de que a meia hora final não apontasse e concretizasse
isso. Vale assistir, mas não vale a expectativa da catarse.
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2020 - Charlie Kaufman - Netflix |
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2017 - Iain Reid |
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