CINEMA COM PIPOCA E GUARACAMP
O BONEQUINHO DEGUSTOU
9/10 – FEITIÇO DO TEMPO
Fui convidado pelo Bonecão que entende tudo de cinema,
Roberto Bozzetti, para listar meus dez filmes de comédia preferidos. Eita! Tarefa
das mais difíceis. Por vários momentos me perguntei o que seria determinante
para inclusão de uma obra entre os filmes relacionados. Os meus critérios não foram
críticos ou técnicos, antes, puramente subjetivos e até sentimentais, quase
piegas, senão totalmente.
A
comédia que destaco agora é FEITIÇO DO TEMPO (1993), estrelada pelo ator Bill
Murray e por Andie Macdowell. Escrita por Harold Ramis (ator, roteirista e
diretor), destaca um dia importante para uma cidade norte-americana, conhecido
como “O dia da marmota” (02/02). Na história um repórter arrogante e mal
educado de uma grande rede de TV, insuportável até para sua produtora e seu
câmera-man, é enviado a essa cidadezinha para cobrir o evento local, bastante
curioso e pitoresco, quase folclórico. Com visível desprezo pelo evento e má
vontade em realizar a matéria, o apresentador faz o registro e por conta de uma
nevasca precisa ficar um dia a mais na cidade. No entanto, por um fenômeno
inexplicável, fica preso não apenas na cidade, mas no mesmo dia, tendo como
ponto de partida o momento em que o relógio desperta às 6h da manhã com a
indefectível canção de Sonny e Cher “I got you baby” (1965).
Numa espécie de circuito
fechado do qual o egocêntrico protagonista Phil Conors não consegue se libertar,
mesmo se jogando do precipício, se eletrocutando na banheira, se atirando da
torre da igreja e morrendo, pois desperta no outro dia às 6h da manhã do dia da
marmota, novamente. A sequência de eventos que estrutura o dia não varia:
acorda, vai gravar, vai jantar e tudo se repete. O que no vai sendo apresentado
é que vai variando pela recomposição dos detalhes na medida em que o
protagonista, tomado pela consciência de estar preso no mesmo dia, varia do
inconformismo, passando pelas ações irresponsáveis até a purgação de seus
defeitos e falhas.
Considerado por
especialistas em cinema, psicólogos, físicos e até por religiosos de várias
correntes como um dos melhores filmes já realizados, o filme não se tornou um
blockbuster.
O roteiro que é
considerado brilhante e original é surpreendente por tratar do loop temporal
numa permanência do presente. Um físico calculou as combinações de ações
apresentadas e estipulou a duração do loop em mais de 12.000 dias, ou seja, 33
anos, pelo menos para que o protagonista, consciente de sua prisão temporal, se
aprimorasse e realizasse todas as coisas que fariam o seu dia da marmota o
melhor dia de sua vida.
Eu, particularmente, sou
fascinado pela elisão do tempo (conceito de Henri Bergson) nas narrativas, por
sua metafísica da duração, sucessão, sobreposição e finitude. Sejam elas de
personagens ficcionais ou em biografias, principalmente em seu efeito formal na
narrativa cinematográfica. Acompanhar um personagem e seu entusiasmo, suas
frustrações, desencontros e conquistas vida a fora, seu florescimento e seu
declínio – sob todos os aspectos – me comove bastante e tornam dramaticamente
atrativas para mim as obras que transitam por esse foco.
O ator Bill Murray, talentosíssimo,
constrói o seu personagem de uma forma magistral em sua transformação e na
angústia de seu labirinto. Aliás, em filmes como “Nosso querido Bob” (1991) e “Encontros
e desencontros” (2003), a carga dramática com que Murray trabalha está entre as
mais marcantes a que já assisti.
O diretor e roteirista Harold
Ramis, de Os caça-fantasmas, de A máfia no divã (com Billy Cristal e Robert de
Niro arrasando), Endiabrado (com Elizabeth Hurley belíssima) não teve o
reconhecimento merecido pela articulação, pela engenhosidade de seu roteiro (criou
um loop temporal no presente) e não viveu para ver a sua comédia ser
relacionada entre os 100 filmes americanos de todos os tempos ou ser mencionada
por monges budistas como “o filme mais espiritualizado de todos os tempos”.
Eu mesmo me surpreendo
por levantar essas informações sobre o filme e sobre o seu alcance como
roteiro, ou em áreas da psicologia, da filosofia, da literatura, da física, das
religiões, porquanto, para mim, fosse um filme marcante que me parecesse pouco
relevante de um modo geral para o grande público. Daqueles filmes de sessões de
cinema que passam de madrugada na televisão, que ficam em cartaz pouco tempo ou
daqueles filmes que encalhavam e empoeiravam nas locadoras. Ou que só interessasse
a espectadores diletantes, nada eruditos nas artes cinematográficas, como eu.
Mas que linguagem
fantástica a do cinema! Em que algo seja capaz de revelar-se completamente e
significar e envolver tanto o espectador, mesmo que não pareça dizer mais nada
a ninguém mais. Ou que diga tanto, a tantos de forma tão serena e imperecível.
Seja no drama ou na comédia.
Por isso, fiquei bastante
satisfeito de saber que outros mais caminharam por caminhos mais ou menos
parecidos com os de minha sensibilidade. Não que isso vá se tornar comparável ou
quantificável ou louvável. Interessa, no
entanto, que as questões fundamentais, sejam elas quais forem, possam se manter
em constante ebulição, mesmo que pretensamente possam parecer irrelevantes. Não
deixem de assistir Feitiço do tempo. Presos no tempo de nossa própria
existência, cada um de nós sabe de si mais do que gostaria e menos do que
poderia. Tempo é coisa que não se empresta porque não se devolve. Eita! Viajei...
A arte culinária, claro,
é do agitador, pacificador, espalhafatoso mais discreto, Roberto Bozzetti. Dobrada
à moda do Porto (quentinha). 06 de maio de 2018.
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Feitiço do Tempo (1993) |
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Roberto Bozzetti e a Dobrada à Moda do Porto 6.5.2018 |
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Radio Relógio marcando o Loop do presente em Feitiço do Tempo. |
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