Raso
Erivelto Reis
Descobri tardiamente:
Os sentimentos verdadeiros não sabem nadar.
Não aprenderam nunca, não lhes foi ensinado
A sobreviverem ante o desespero...
Não sabem a diferença entre aprofundar e afundar.
Logo soçobram, sucumbem
Às marolas, às ondas, às imensidades e insensibilidades,
São criaturas antiaquáticas frágeis.
As correntezas os arrastam e não deixam
Que se fixem às pedras da afetividade humana.
Seu movimento não vai gerar energia,
Muito ao contrário, a conta é alta,
O desperdício é enorme.
Para que gere alguma força
Apenas à luz do sol, da arte e da energia eólica...
Talvez seja possível simular com rum, com gim, com
vodka...
E se o sentimento é ruim, toda luz que tenha é
prejuízo.
Os sentimentos não sabem nadar,
Nem há quem os possa ensinar.
Na verdade, se afogam em qualquer superfície,
Rasa que seja,
Em que não sejam notados, valorizados,
Submergem os bons sentimentos e os maus, também,
Sendo que estes, desesperados,
Agarram-se aos bons, que lutam
Para permanecer em não-naufrágio ao seu lado
E os levam, como âncoras, acorrentados
Paro o fundo dos rios, dos oceanos, dos lagos...
Dias depois, quase invisíveis aos olhos, nus,
Seus corpos chegam à praia mutilados,
Magoados, faltando partes vitais.
Coisa horrível de se fingir não ver
É sentimento em estado de decomposição.
Dirão: “ah, mas os sentimentos novos nascem,
Brotam sem explicação!”
Escandaloso argumento que culpa a vítima
Por escolher alguém, erguer uma casa, molhar os pés na
água,
Por (pra não morrer) implorar ajuda...
Sentimentos não sabem nadar:
São vítimas camonianas do naufrágio
Quando o afeto afunda.
Não é mergulho, que isso é especialidade do sonho e da
esperança,
Que são espécies evoluídas de sentimento...
Estes morrem, também, no ar, no amar, no asfalto,
E não há salva-vidas que dê conta quando se erra o salto.
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